"Inimigo Meu"
Uma grande agitação toma conta dos aposentos de Minos. Vários espectros entram e saem a todo o momento, fazendo muito barulho, o que era atípico do local, já que o juiz não suporta que invadam sua alcova. Os cosmos estão alterados, inclusive o de Minos, que pode ser sentido à grande distância. Foi assim que Albafica despertou: escutando várias vozes alteradas, passos metálicos pesados, sentindo vários cosmos sombrios e totalmente agressivos, que o assustaram.
O pisciano abre os olhos, arregalando-os com o susto e senta-se rapidamente, colocando a mão em seu peito ofegante. Havia adormecido no chão do banheiro, encostado à porta, em meio às lágrimas que derramava. Levanta-se, escorando-se na porta que havia trancado na madrugada anterior, tentando escutar o que era dito, mas os sons se misturavam e era impossível decifrar ao menos uma frase. Até que a voz de Minos, que embora permaneça baixa, faz com que todos se calem. O cavaleiro pega uma toalha, a enrola rapidamente na cintura e destranca cuidadosamente a porta, evitando que faça barulho. A abre lentamente, deixando apenas uma fresta para observar.
"O que está acontecendo, afinal?" - temeroso e desconfiado, o pisciano se agacha e permanece observando pela fina fresta da porta.
- Você e você, para o vale da ventania! - diz o espectro, usando de toda a sua autoridade, impondo-se. - Vocês três, contornem direto para a segunda prisão! Não podemos deixar que ele prossiga. Lune, você vem comigo. Byako, alerte os outros espectros. Vamos emboscá-lo, de hoje ele não passa! Se tivermos sorte, encontraremos aquele maldito do rosário junto com ele. - o juiz continuava a esquematizar as posições de seus subordinados e instruí-los, com bastante pressa. - mas tomem cuidado, não importa onde os encontrem, não arrisquem um confronto direto. Apenas retardem-no o quanto puderem até que eu ou Lune cheguemos ao local.
"Uma caça? Estão caçando alguém? Será que... vieram me resgatar? Não, impossível, eles acham que estou morto... era para estar..." - Albafica vê uma esperança no fim do túnel, mesmo sabendo que a possibilidade é muito remota.
Minos terminava de vestir sua surplices, ajeitando as luvas nos pulsos, abrindo e fechando as mãos para checar.
- Markino! Ficará aqui. Não permita que ninguém entre ou saia da casa do julgamento.
- Será uma honra lhe ser útil, Minos-sama. - o espectro prosta-se em reverência.
"Se isso for verdade... não será difícil para um cavaleiro, mesmo que seja de bronze invadir este local. Este espectro esquisito, o tal do Markino... é bem fraco e... para chegar ao inferno com vida só existe duas formas: ser poderoso o suficiente para despertar o arayashiki, ou através das ondas do inferno, sob a proteção de Atena. Pensando bem... quem seria este tal "maldito do rosário"? Não conheço nenhum santo que use isso. Albafica, você está se deixando levar... concentre-se! Pense! Mesmo que tenha um cavaleiro no meikai, você sequer pode usar seu cosmo para revelar sua localização! Não seja ingênuo." - a mente de Albafica confrontava-se entre a esperança e o realismo.
- Todos entenderam? - Minos pergunta, confirmando suas ordens.
- Sim, Minos-sama! - todos os espectros respondem em uníssono.
- Vão! - após a ordem do juiz, os espectros desaparecem como sombras, enquanto Minos, juntamente com Byako e Lune, se retira a passos apressados.
Albafica abre um pouco mais a porta e olha em direção à janela. Não demora muito para ver os espectros alçando vôo em várias direções e ter certeza de que era Minos um dos últimos a sair em disparada pelo céu do meikai, seguido por Byako e Lune.
"Ficarei atento a tudo, talvez consiga sentir algum cosmo conhecido por perto." - o pisciano abre mais um pouco a porta, confirmando que está só. Vai ao armário e pega uma muda simples de roupa, indo ao banheiro para tomar seu banho.
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Minos patrulha a área correndo velozmente. Estava inquieto e distante, parecia preocupado com algo e isso intrigava Lune, que o acompanhava, como sempre fizera em casos como este.
"Afinal de contas, o que há com Minos-sama? Ele sempre foi tão centrado... mas agora, parece que não está aqui, é como se sua mente estivesse em outro lugar." - o espectro de Balron o conhece perfeitamente para saber que há algo errado. - Minos-sama posso fazer algo por ti? O que o incomoda tanto?
- Como? - diz o juiz, saindo de seu transe. Não escutara nada do que o espectro falou.
- O senhor... me parece preocupado. Não é de seu feitio ficar tão pensativo antes de uma possível batalha... então devo concluir que algo a mais o perturba.
- Lune, vamos nos separar. Quero que tome um rumo contrário ao meu. Esteja escondido onde estiver, aquele desgraçado não irá se mostrar com dois espectros de nosso porte andando juntos. - na verdade, Minos está pouco se importando com a caçada. Não consegue se concentrar, tudo que pensa no momento é na madrugada anterior.
- Mas senhor... - Lune fica surpreso com a decisão de Minos, o juiz nunca havia se separado dele durante uma caçada. - Isso não seria imprud...?
- Isso é uma ordem! - Minos volta seu olhar repreensivo para Balron, o interrompendo, ainda num tom baixo, mas severo. Ele apenas quer se livrar do espectro o mais rápido possível. Quer evitar seus questionamentos, pois os dois sempre foram muito unidos e ele não queria ter que comentar algo a respeito ou destratar o amigo.
- S-sim... - o espectro imediatamente se separa de Minos, tomando o rumo contrário. - "Mas o que deu nele? Nunca me tratou assim!"
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Albafica toma seu banho apressado, está nervoso com a possibilidade de ter algum santo de Atena no meikai. Ao mesmo tempo, sentia um grande aperto no coração devido aos acontecimentos da madrugada passada.
"Como eu pude? Como pude me deixar levar daquela maneira? Por que eu fiz aquilo? Porque me rendi tão facilmente? Aquele maldito me humilhou daquele jeito, me forçando a fazer aquilo... e me entregar a ele foi tudo que consegui fazer? Que ódio! Ódio de Minos, por me forçar a fazer aquilo... mais ódio ainda de mim mesmo! Por sucumbir à minha fraqueza e me entregar ao prazer daquele jeito... argh! Aquele desgraçado brincou comigo mais uma vez... me deixou exatamente onde queria e depois me enxotou como se eu fosse um cão vadio! Como pude permitir isso? Como pude descer tanto? Como?" - Albafica trinca os dentes, como se punisse a si mesmo pelo ocorrido, está completamente envergonhado e culpado, se sentindo um lixo. Por causa dos pensamentos que o bombardeiam de culpa, o pisciano acaba esquecendo seu rápido banho, se perdendo no tempo.
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"Como pude chegar a tanto? Aquele... argh! Como posso permitir que ele me faça perder a cabeça daquela forma? O que eu fiz... foi baixo demais!" - Minos se perdia em seus pensamentos, esquecendo-se totalmente de seu objetivo. - "Droga! Eu não devia ter feito aquilo! Agora eu fico assim, me sentindo culpado... culpado por torturar sexualmente um mero escravo! Grrrr! - trinca os dentes - Por que aquele cavaleiro mexe tanto assim comigo? Por que sinto culpa toda vez que lhe faço algo? Aquele beijo..." - pára repentinamente, levando a mão aos lábios, encostando os dedos delicadamente sobre eles. Fecha os olhos por alguns segundos, como se ainda pudesse sentir os lábios do cavaleiro junto aos seus, mas logo os abre e volta a correr novamente. - "Pare! Pare com isso, Minos! O que está pensando, afinal? É só desejo! Só desejo! Ele é um escravo, um ex-santo de Atena! Um inimigo! Aquela maldita beleza... aquele maldito olhar indomável... aquele jeito selvagem, mas delicado... como ele consegue ser selvagem e delicado ao mesmo tempo? Droga! Droga! Como pude me deixar levar daquela forma? Permitir que ele, mesmo que por um instante, me dominasse daquela maneira? Inferno!"
O juiz não teve muito tempo para pensar e não conseguiu se desviar quando uma luz o acertou, fazendo com que voasse de encontro a um rochedo e o rachasse por inteiro.
- Você foi descuidado, espectro. Ficar sozinho numa caçada a um cavaleiro de ouro foi imprudente de sua parte. - o enorme homem de longos cabelos cumpridos cinza-claros o fitava com altivez, a certa distância, com os braços cruzados, elevando levemente seu cosmo.
Minos se levanta vagarosamente e fita o homem à sua frente. Um filete de sangue escorre de seus lábios.
"Merda! Sequer senti a presença deste homem. como posso estar tão distraído?" - o juiz acirra os punhos, revoltado por sua distração, mas procura se acalmar rapidamente e se concentrar na batalha que está prestes a começar. - Então você é touro? O maldito cavaleiro morto que não aceita a própria morte! - após limpar o sangue com as costas de sua mão, fala calmamente, fazendo sua expressão sarcástica habitual e elevando agressivamente seu cosmo. - Devo parabenizá-lo cavaleiro, não é qualquer um que consegue me pegar de surpresa... mas agora, devo lhe avisar que seu joguinho de esconde-esconde chegou ao fim!
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O pisciano, que havia se perdido em pensamentos, tem um sobressalto ao perceber o cosmo de seu amigo de armas, Aldebaran, se elevar. Fica ainda mais tenso quando o cosmo de Minos o acompanha.
- Aldebaran! - Albafica dá um mergulho para enxaguar todo o sabão e shampoo e, apressado, caminha para fora do caldariun, pegando uma toalha e se enxugando às pressas. - "Droga! Aldebaran vai lutar com Minos! Justo com ele?" - pára repentinamente de se enxugar, prestando atenção no que acabara de pensar. - "No que eu estou pensando, afinal? Se Aldebaran matar Minos, estarei a um passo de minha liberdade!" - ao pensar na morte do Kyoto, para sua surpresa, ao invés de se encher de esperanças, o coração de Albafica diminui e certa tristeza toma conta de seu ser. - "Por que estou me sentindo assim? Aquele maldito me faz comer o pão que o diabo amassou e eu ainda tenho pena dele? É isso! Pena! Só pena! Ele é um espectro de Hades, é nosso dever exterminá-lo. Não devo ter pena de um inimigo! Mas... Hades irá ressuscitá-lo logo em seguida..." - mais uma vez o pisciano se assusta consigo mesmo, ao perceber que seu coração se alivia um pouco quando pensa que mesmo que Minos morra, voltará à vida. - "Mas que diabos está acontecendo comigo? Droga! Ele é um espectro! É com Aldebaran que preciso me preocupar e não com ele! O que esse maldito fez com minha mente, afinal? Algum tipo de lavagem cerebral? Droga! Droga! Por que não consigo deixar de pensar nele? Inferno!"
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Markino se encontra de guarda na entrada da casa do julgamento. Fica extremamente apreensivo e preocupado com seu mestre quando sente o cosmo de Minos se elevar juntamente com o de seu inimigo.
- Minos-sama o achou! A luta vai começar! - balbucia o espectro, dando mais alguns passos para fora da casa.
- Markino! - diz um espectro, que se aproxima apressado e ofegante, interrompendo as divagações do pequenino.
- Hum...? - o espectro de esqueleto volta seu olhar para o homem. - Ah... é você.
- Minos-sama está lutando, avisei todos que encontrei pelo caminho. Precisa ajudá-lo!
- Hunf, desde quando Minos-sama aceita ajuda em uma batalha? Aliás, desde quando ele precisa disso?
- Me parece que o inimigo não está só! Há outros rondando o local. Minos-sama pode estar numa armadilha!
- O queeee? - o pequenino arregala os olhos. - E por que você está aqui parado ao invés de ir ajudá-lo? - Markino fica indignado.
- Oras! Estou avisando a todos que encontro pelo caminho... procurei por Lune-sama e Byako, mas não os encontrei. Agora se apresse! Vá ajudar seu mestre!
- Mas... a casa do julgamento... irá ficar desguarnecida! Minos-sama me ordenou...
- Esqueça o que Minos-sama ordenou, ele está em apuros e você precisa ajudá-lo! Além do mais, eu ficarei aqui para avisar qualquer espectro que por ventura apareça. Fora que ninguém vai se importar em invadir a casa vazia. Vá depressa!
- Hum... mas você não deveria ir também?
- Bah! Eu não sou do exercito de Minos-sama, você sabe a merda que deu outro dia. Com certeza, ele não irá querer minha presença por perto. Além do mais, eu já mandei outro espectro procurar Lune-sama e Byako para avisar dessa possível cilada. Afinal, mesmo que mestre Minos seja ingrato comigo, ainda assim é um Kyoto e, como espectro, devo fazer de tudo para ajudá-lo, não é mesmo?
- Está bem. Você está certo. Estou indo! Cuide da casa para mim. - Markino se apressa em correr, para chegar o mais rápido possível. - "Pensando bem, ele está certo, esses cavaleiros são mesmo imprevisíveis... ah, aqueles malditos... nunca vou me esquecer daquela piranha que me golpeou na cabeça, me fazendo perder os sentidos! Grrr!"
- Hunf... é mesmo um idiota! Acredita em qualquer coisa que digam a ele. Como Minos-sama pode confiar a segurança da casa mais importante do meikai a um lixo desses? - o espectro ri, enquanto vê Markino correndo ao longe. - Bom... agora vamos à diversão! Eheh... - esfrega uma mão na outra e entra na casa do julgamento, desaparecendo na penumbra.
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- Não entendo como você, depois de morto, consegue se livrar do controle de meu senhor e manter-se lúcido, mas... que seja! Brincarei um pouco contigo. E quando me cansar... o jogarei no Cocytos! - diz Minos, enquanto caminha em direção ao taurino. Está confiante de sua vitória, como sempre. - "Somente Albafica conseguiria permanecer de pé depois de receber meu ataque..." - a imagem do olhar arredio do pisciano vem à sua mente, seguida do olhar doce que Minos presenciou com prazer na madrugada anterior. - "Mas que merda! Isto está realmente me irritando! Como posso pensar naquele bastardo em uma hora dessas? Concentre-se Minos, concentre-se!"
- Está muito confiante espectro, mas... não deveria ao menos se apresentar antes da batalha? Não me parece muito educado de sua parte permanecer incógnito para alguém com quem vai lutar. – Hasgard, que permanecia imóvel, indaga calmamente, num tom muito educado.
- Ham? Ora ora... quanta educação vindo de um inimigo... gostei disso! - o juiz abre um sorriso presunçoso. - Você está certo, cavaleiro. Perdoe-me por minha falta de cortesia. Isso não é de meu feitio, mas há de concordar que atacar antes das devidas apresentações também não foi educado de sua parte. - Minos curva-se levemente, dobrando um dos braços na altura do abdômen em seu cumprimento formal. - Eu sou Minos de Griffon, a estrela celeste da nobreza, um dos três juízes do meikai. E você é Hasgard, não é isso? O homem que abandonou seu próprio nome para seguir Atena?
- Está bem informado, juiz. Não faço idéia de como sabe disso, mas, o único nome que me é importante é Aldebaran. Aldebaran de touro! Guardião da segunda casa do santuário.
- Como quiser... "Aldebaran". - como sempre, Minos usa seu típico tom de escárnio ao mencionar o codinome do santo de Atena. - Agora que estamos devidamente apresentados... terminemos logo com isso!
- Concordo! - Aldebaran lança um olhar desafiador ao juiz, enquanto com um sorriso nos lábios, eleva mais ainda seu cosmo, se mantendo imóvel e de braços cruzados.
- Hum... está me subestimando, santo. Um homem que morreu ao enfrentar dois míseros espectros de nível inferior deveria ao menos se colocar em posição de combate. Assim, sua derrota será menos humilhante.
- Assim como você, juiz. - retruca Aldebaran, que fita a posição relaxada e confortável do espectro.
- Bom... que seja, com ou sem posição de combate, eu o colocarei em seu devido lugar. - Minos presunçosamente fecha os olhos por alguns segundos, também cruzando seus braços. - Venha!
- Grande chifre! - Aldebaran não titubeou em começar o ataque, explodindo seu cosmo. Todavia, mal tinha desfeito sua posição para lançar o golpe de impacto, se sentiu preso por algo que não podia ver e teve seu ataque freado e anulado de imediato. - Mas o que...? - exclama confuso, ao perceber que não tem controle sobre seu próprio corpo. - O que é isso?
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Albafica se veste apressado, colocando a roupa de qualquer jeito, sem se importar em ajeitar sua blusa, que estava torta. Sequer se olha no espelho ou penteia seus cabelos. Estava muito conturbado e seu coração se apertava ainda mais conforme sentia os cosmos se elevarem rapidamente.
"Já começou! Talvez se eu conseguir ludibriar aquele tal de Markino consiga sair daqui sem que os outros percebam. Não será fácil me rastrearem, já que meu cosmo está selado. Eu preciso ir até eles!" - o cavaleiro destranca a porta do banheiro. Quando a abre, estremece por inteiro, ficando paralisado.
Havia um espectro em pé. Estava encostado no balcão do bar de braços cruzados, pernas semi-cruzadas e cabeça baixa
- Ora ora... o que temos aqui! - diz o espectro em tom sarcástico, mantendo os olhos fechados.
Albafica lembrava perfeitamente dele. Não havia se passado mais que alguns dias desde que viu pela primeira vez, aquele espectro de tapa olho, cheio de más intenções. Mesmo que se passassem anos, décadas, ou séculos... ele ainda assim lembraria da face do homem que o fez entrar em pânico somente ao tocar seus cabelos.
"Droga! Ele não! Ele não! Por que ele tem que estar aqui? E agora o que vou fazer?" - pensa o cavaleiro, que já sentia indícios do mesmo pânico que tomou conta de si naquele encontro perturbador. - "Acalme-se Albafica! Mantenha o controle, não se deixe levar pelas emoções! Não erre novamente! Mantenha a calma!" - o pisciano respira fundo, lutando contra sua petrificação e medo. Procura manter o ritmo de seu batimento cardíaco, que já havia acelerado, para encarar o espectro. - Você...
O espectro levanta lentamente a cabeça, abrindo os olhos, o fitando com um brilho maquiavélico no olhar e um sorriso psicótico.
"Esse maldito..." - Albafica acirra os punhos e o fita com seus olhos indomáveis e selvagens.
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- Meu caro, este é o meu dom: manipular meus adversários através do cosmo. É como fios, que ligam um marionetista à sua marionete. Agora você não poderá mexer sequer um milímetro do seu corpo, pois está completamente sob meu domínio. - Minos explica calmamente para o taurino, que ainda está surpreso com o ataque inesperado. - Eu não sei o que te deu na cabeça ao achar que poderia lutar contra um Kyoto, quando sequer está usando sua tão famosa armadura de ouro... com certeza deve ter enlouquecido ao escutar a "Mensageira da Morte" do Kiew de Durahan.
- Posso não estar com minha armadura... mas meu cosmo ainda é o mesmo! E cosmo é tudo que eu preciso para lutar em prol de um futuro melhor para aqueles a quem amo! - Aldebaran luta contra a manipulação cósmica.
- Hunf, é inútil cavaleiro... se resistir, apenas conseguirá quebrar seus próprios membros. - Minos move alguns dedos, quebrando um dos braços do cavaleiro de touro.
"Impossível! Eu estou morto, não tenho matéria. Como ele consegue "quebrar ossos" em minha alma?" - Aldebaran trinca os dentes para suportar a dor e não dá um gemido sequer. - "Como isso é possível?"
- Deve estar se perguntando como pode sentir seus ossos quebrarem mesmo não tendo mais um corpo físico, não é mesmo, cavaleiro? - Minos dá um sorriso torto e fechado. - É simples... embora não sejam feitos de carne, os espíritos ainda possuem um corpo, o qual chamamos de "corpo etéreo". Mesmo depois que uma pessoa morre, ainda preserva suas formas terrenas. Não é fácil deixar as lembranças de quem fomos um dia, não concorda? Então, assim como em vida, os espíritos possuem os mesmos reflexos de seu corpo terreno, como também sua estrutura. Se fosse diferente, não haveria como alguém sentir as torturas a que foi condenado.
- Acha mesmo que uns fiozinhos de cosmo são suficientes para me deter? - diz Hasgard, fitando seriamente o juiz. - Não seja ridículo!
Neste momento, Minos sente uma pontada no coração. É algo muito sutil, mas que lateja sem parar.
"Mas que diabos é isso agora? Isso lá é ora para sentir os efeitos do veneno de Albafica?" - o juiz se distrai por alguns segundos, olhando em direção à casa do julgamento. Seu coração aperta e acelera, o cosmo se desestabiliza e, antes mesmo que possa se dar conta, o taurino explode seu cosmo, dando seu máximo e rompendo os fios de sua manipulação. - "Droga!" - o juiz fecha os olhos e leva os braços à frente de seu rosto, protegendo-o da explosão, que causa um grande deslocamento de ar.
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O espectro descruza os braços e se desencosta do balcão. Nesse momento, um estrondo é ouvido e um grande clarão surge no horizonte, iluminando a face maquiavélica do espectro e dando um aspecto mais tenebroso ao local que, até então, estava na penumbra. Albafica percebe que o braço esquerdo do espectro está enfaixado com ataduras por baixo da luva.
- Sabe, quando o vi, queria apenas me divertir um pouco com você. Um homem bonito assim não é comum no submundo... - diz o espectro, num tom calmo, mas malicioso. - Mas você se queixou de mim para Minos-sama e por sua causa tive os ossos do meu braço quebrados. – o espectro eleva um pouco seu braço enfaixado, com um sorriso mal intencionado. - Agora, o farei pagar pela dor e humilhação que passei por causa de um escravo!
- Como? - o pisciano fica pensativo por alguns segundos. - "Ele pensa que eu o delatei... Byako deve ter contado... mas eu nunca imaginaria que Minos reagiria assim!" - Albafica mantém um tom determinado em sua voz - Quem é você?
- Isso não interessa. O importante é que o farei pagar pelo que me causou. - o espectro estava sedento por sangue.
Embora não demonstre, a cada minuto que passa, Albafica está mais desesperado. Não sabe o que fazer, nem como se defender e sabe exatamente o que aquele espectro tem em mente.
"E agora, o que eu faço? Não tenho cosmo para me defende..., nem mesmo veneno eu possuo mais. O que eu faço? O que?" - Albafica encara o espectro diretamente nos olhos, atento a qualquer movimento, enquanto pensa em algo para se proteger. - "Maldição! Não consigo ver uma saída! Essas malditas algemas! Acalme-se Albafica! Acalme-se! Você precisa ganhar tempo até que alguém chegue!"
O espectro caminha em sua direção a passos lentos e preguiçosos, como se apreciasse cada passo que fica mais perto do cavaleiro. Outro clarão invade o local, mas desta vez tem um brilho púrpura. Logo, um forte "trovão" é escutado.
- Espectro... se quer tanto assim encontrar sua morte, então avance... - o pisciano usa o mesmo tom altivo e imponente que falava quando ainda era vivo. - Mas se tem amor à sua vida, dê meia volta e vá embora!
- Hum...? - o espectro pára, estreita os olhos e inclina levemente a cabeça, confuso com as palavras do cavaleiro. - Do que está falando? Seu cosmo está selado por estas algemas, o que você pode fazer contra mim?
- Ora espectro, eu não precisarei fazer nada... basta que me toque e vai ter uma morte dolorosa. Venha se aproxime! - Albafica desafia o espectro, rezando para que caia em sua mentira. - "Eu não sei mentir... não posso gaguejar agora, como aconteceu com Minos. Ele não pode descobrir, senão estarei perdido... isso é tudo que posso fazer para me defender no momento. Preciso ser o mais convincente possível neste blefe!"
- E o que vai acontecer? - o espectro avança mais um passo.
- Comigo? Nada! Já com você... - o pisciano esboça um sorriso. Na verdade, está aproveitando sua própria fraqueza para causar uma impressão contrária. Seu sorriso é de nervoso, que junto ao seu olhar arredio, dá um tom sarcástico. - "Acredite... por favor, acredite! Você tem que acreditar, maldito!"
- Hunf, que blefe mais sem cabimento! - avança mais um passo. - Não há nada que possa fazer contra mim.
- Tem razão... aproxime-se! Não me responsabilizo com o que irá acontecer contigo. - a cada passo que o espectro dá, Albafica sente um calafrio. - "Vamos Albafica, força! Mantenha-se calmo! Não deixe transparecer seus sentimentos... vamos!" Sabe, um espectro devia conhecer melhor seus inimigos...
O espectro volta a caminhar e pára bem próximo a Albafica, que continua imóvel, fitando-o com um olhar desafiador.
"Ele está blefando... está blefando... quer me desestruturar para que eu demonstre meu temor e me desminta!" - o pisciano sente seu corpo todo estremecer, está apavorado. - Sabe, até hoje não encontrei ninguém que resista ao meu veneno. Qualquer contato físico é suficiente para meu veneno se alastrar...
- Como é? - o espectro o fita perplexo. - Veneno? Está me dizendo que você é venenoso?
- Meu sangue é altamente venenoso, passei por um longo treinamento para... - O choque entre os cosmos de Minos e Aldebaran pode ser sentido e visto. Outro clarão em tons púrpura e dourado, desta vez bem mais intenso, se alastra, clareando ainda mais o quarto onde Albafica se encontra. Um som muito alto e estridente é escutado. Vários raios riscam o horizonte, criando um horrendo espetáculo de luz e som, acompanhado de um forte tremor de terra. Albafica sente seu coração apertar, está preocupado com aquela batalha. - "Minos não mostrou tanto poder assim quando lutamos... então este é o verdadeiro poder de um Kyoto?"
- Você... venenoso? Ahahah... não me faça rir! - o espectro dá uma gargalhada estrondosa, assustando Albafica, que dá um passo para trás. - Minos-sama... que o diga...! - mal consegue falar de tanto rir.
- O que é tão engraçado, espectro? - desta vez Albafica não precisou fingir, muito menos mentir. O riso do espectro mexeu com seu orgulho e despertou sua raiva. - "Será que aquele maldito juiz disse alguma coisa?" O que tem Minos com isso? O que ele disse?
- Todos aqui sabem o que aconteceu! - diz o espectro, ainda se divertindo.
- Co-como? - Albafica arregala os olhos e mais uma vez sente um calafrio.
- Eu estou dizendo que todos sabem o que Minos-sama fez com você nesta madrugada.
- Eu não... não sei o que Minos falou, mas...
- Não seja idiota! - o espectro fica sério do nada. - Minos-sama não precisa dizer nada. Para falar a verdade, ele nunca falaria. Mas aprenda, aqui as paredes têm ouvidos. Todos ouviram seu escândalo na noite passada, não precisa ser adivinho para saber o que aconteceu com você.
Albafica congela de medo ao ver que seu blefe não adiantou nada. Ao mesmo tempo, a vergonha de saber que todos ouviram o ocorrido o faz enrubescer. Os raios cessam e o local é novamente tomado pela penumbra por alguns instantes. Logo, ambos podem sentir os cosmos colidindo novamente, enquanto no horizonte, vários clarões podem ser vistos.
- Você está em um dos aposentos da casa do julgamento. A única lei aqui é o silêncio, portanto, qualquer barulho um pouco alto ecoa pela casa toda. Nunca reparou como esse local é silencioso? Todos sabem o que aconteceu e Minos-sama não precisou dizer uma palavra sequer. - o espectro abre um sorriso torto e maldoso e o fita vitorioso. - Além do mais, mesmo que você fosse venenoso, eu tenho minha surplice me protegendo, portanto, apenas te surraria até que não se aguentasse mais em pé.
- Espectro... - Albafica fala baixinho, em tom de ameaça. - Minos deveria matá-lo por desmerecê-lo assim. O que acontece entre nós não diz respeito a você. "Como assim, "entre nós"! O que estou dizendo?"
- Não meu caro, eu não o desmereci. Ao contrário, eu o louvo por isso. Até acho que ele se conteve por muito tempo. Sabe... eu o teria pegado à força desde o primeiro dia que chegou...
- Co-como é? - Albafica arregala os olhos, enquanto sente seu corpo todo estremecer mais uma vez.
- Como sei de seu blefe... tomarei aquilo que desejo. Claro que antes você vai sentir um pouco de dor... - o espectro ri baixinho. - Você não passa de um escravo aqui. Minos-sama não seria louco de arrumar problemas com seus semelhantes por sua causa. Eu pertenço ao exercito de Rhadamanthys-sama, portanto, cabe apenas ao meu mestre me dar o "castigo" apropriado... e com certeza, ele não vai dar a mínima para um escravo, principalmente se tratando de um ex-santo de Atena. Além do mais, quando Minos-sama se der conta do ocorrido, estarei bem longe do meikai, junto a meu mestre. Ele não poderá fazer mais nada contra mim. Agora já chega de conversas... o tempo urge.
- Pare onde está! Você quer morrer? - o pisciano se desespera e vomita as palavras, sem conseguir manter sua serenidade, dando mais um passo para trás, já dentro do banheiro. - Minos é bem mais poderoso que você, por isso suporta meu veneno... ele me punirá se um espectro morrer por minha causa!
- E do que eu morreria? - o espectro ri novamente, fazendo pouco das ameaças de Albafica. - De tesão?
- Envenenado! - grita, em pânico.
- Não fale besteiras! - o semblante do espectro é macabro. Ele não pede mais tempo e ergue uma das mãos para segurar Albafica.
O cavaleiro estremece ao ver as intenções gravadas em no rosto do espectro e, rapidamente, tenta trancar a porta do banheiro. Mas é impedido por ele, que é mais rápido e a empurra com força, fazendo o cavaleiro se desequilibrar e cair pra trás.
"Minos!" - em desespero, Albafica pensa no juiz, sentindo seu coração apertar. Ao mesmo tempo em que sente o cosmo de Minos oscilar enormentente.
