Capítulo Dez

Things That Bump In The Night

(Coisas Que Aparecem à Noite)

— Luna. — Luna colocou a varinha atrás da orelha e a pena que levitava caiu sobre a mesa. Luna olhou para Ginny, sentada ao seu lado. — Sabe alguma coisa sobre sonambulismo?

— Infelizmente, não — respondeu Luna, pensativa. — Minha mãe não era sonambula, nem meu pai. Eu não sou ou, pelo menos, acho que não sou. Mesmo assim, é como seria, né? Eu estaria dormindo e não saberia. — Luna passou um momento pensando nisso e resolveu mandar uma carta para seu pai quando tivesse tempo. Seria uma discussão interessante, pelo menos, e talvez seu pai até pudesse escrever um artigo sobre isso. Mas Ginny pareceu desapontada, e Luna voltou sua atenção para a outra garota. — Perguntou por algum motivo em especial? — Ginny mordeu o lábio e olhou para as outras duas garotas da Grifinória, que sussurravam e as olhavam. Elas não eram nada gentis, Luna notou.

— Ginny está sonâmbula à noite — murmurou Colin do outro lado de Ginny. — Parece que ela as assustou quando tentou se levantar, cair e tentar falar. Georgina disse que ela parecia seu irmãozinho, que tem um ano e meio e está aprendendo a and...

— Colin!

— Quê? — perguntou ele, afundando-se em sua cadeira. — A Luna perguntou...

— Eu acho que Georgina inventou isso tudo — falou Ginny, ainda parecendo aborrecida —, mas veja. — Ergueu a manga de seu suéter e levou a barra de sua saia um pouco acima de seu joelho. Hematomas apareciam em todas as cores possíveis. — E eu me sinto muito cansada. — Cutucou a pena com a varinha, sem se importar com o feitiço. — Mas eu nunca fui sonâmbula!

— Talvez sejam os Narguilés — sugeriu Luna. Ginny gemeu e escondeu o rosto nas mãos. — É só uma ideia. — Luna cutucou o queixo, pensativa. — Se quiser, posso te dar algo para afastá-los.

— Tipo o quê? — perguntou Ginny, apertando os olhos.

— Talvez um colar de rolhas de cerveja amanteigada — disse. — Ou de penas. Os colares protegem sua cabeça, sabe.

— Mesmo? — perguntou Colin. — Como? — Luna sorriu e trocou de lugar com Ginny, para que pudesse contar a Colin (que crescera como muggle e tinha interesse em todos os tipos de magias) sobre os poderes de certas joias. Colin era sempre tão educado e sempre fazia perguntas tão boas. Luna gostava muito de conversar com ele e prometera que o levaria para caçar Bliberentes no fim de semana para que ele pudesse fotografá-los.

Ao seu lado, Ginny assoprou sua pena para fazer parecer que tentava usar o feitiço e, de algum modo, conseguiu ganhar cinco pontos para a Grifinória.

-x-

— Suas colegas de quarto ainda não estão falando com você? — perguntou Tom, colocando uma mecha do cabelo de Ginny atrás da orelha. Ginny, encolhida em uma das poltronas do Salão Comunal da Sonserina, balançou a cabeça.

— Elas me acham estranha — disse tristemente. — Parece que eu me levantei noite passada também, mas dessa vez eu andei. Acho que só não sou muito boa em ser amiga de garotas. — Ela riu, mas não era um som divertido.

— Coitadinha da Ginny — disse Tom suavemente. Ele estava satisfeito por ter se sentado ao lado dela, de modo que ela não pudesse ver o sorriso leve em seu rosto. — Mas e a Luna e o Colin? E seus irmãos e os amigos deles?

— Luna é da Corvinal. Colin não pode ir ao meu dormitório, e Percy gritou comigo quando tentei ir ao dele. Disse que não era apropriado. — Um dos pequenos pés de Ginny chutou a mesinha de centro, e Tom acariciou seu ombro gentilmente. — E Fred, George, Harry e Ron estão por aí fazendo alguma coisa, mas Draco estava atrasado para seu encontro com Snape e não me disse nada, e acho que Hermione deve ter ido à biblioteca, porque não consigo encontrá-la. Eu só... eu sempre imaginei que todo mundo ficaria junto de novo quando eu viesse para Hogwarts, mas eles estão sempre fazendo as próprias coisas.

— Eu sei que não é o mesmo — falou ele em um tom que esperava ser ansioso —, mas sempre estarei aqui para você.

— Não é o mesmo? — perguntou Ginny, bufando. Ela se virou para olhá-lo, e Tom manteve o rosto inexpressivo. — Você é tão bom quanto qualquer um deles, Tom. — Ginny hesitou e, então, passou os braços ao redor de Tom, que estava acomodado no braço da poltrona. Ele congelou, mas Ginny não pareceu notar. — E você está certo; você sempre está aqui para mim. — Sua voz estava abafada, e ele torceu para que ela não estivesse deixando meleca de nariz em suas vestes.

— É claro que estou — disse, acariciando seu cabelo. Quando ela ergueu os olhos, ele ficou surpreso ao vê-la sorrir em vez parecer chateada.

— Acho que você é meu melhor amigo — disse. Tom acariciou sua cabeça, e Ginny voltou a apertá-lo. Tom não resistiu, apesar de querer. Nunca se sentira confortável com abraços.

— Fico lisonjeado — disse e não era uma mentira; claro, não se importava com sentimentos, mas Tom precisava que ela confiasse nele e ela acabara de lhe dizer que gostava mais dele do que qualquer outro.

— E desculpe se eu te irrito às vezes por ser mais nova. — Sua idade era apenas um dos itens da lista, mas Tom, ainda satisfeito por ela considerá-lo seu melhor amigo, sorriu.

— Ginny, você não conseguiria irritar ninguém. — Ela pareceu satisfeita, mas não parecia acreditar nele. — Sou um Sonserino — disse levemente, mas sempre hesitava em mencionar o assunto —, eu te diria, posso garantir.

— A não ser que quisesse me deixar feliz para dar cabo a algum plano maligno — disse. Tom não conseguia ler seu rosto e começou a entrar em pânico. Como ela tinha descoberto, ele não sabia, mas as coisas podiam acabar aqui se não fosse cuidadoso. Preparou-se para possui-la e torceu para que estivesse forte o bastante; até agora, conseguira fazê-lo duas vezes, mas só enquanto ela estava adormecida. Uma Ginny acordada seria muito mais difícil, sabia, especialmente se ela conhecesse seus planos, como acabara de admitir. — Tom?

— Onde foi que eu errei? — perguntou.

— Errou... Oh. — Ginny riu. — Você é tão engraçado, Tom. — Ela voltou a sorrir para ele, e Tom apenas a olhou. Ela o observou com uma expressão estranha e começou a contar sobre sua visita a Hagrid e como ele era bacana, como seu cachorro era babão e como ele uivara toda vez que o galo de Hagrid cacarejava.

Como algum tipo de competição, ela disse. Tom não sabia o que tinha acontecido, mas só pôde assumir que Ginny fizera alguma brincadeira muito estranha ao acusá-lo de ter um plano maligno. Mas assim que entendeu o que ela disse, todos os pensamentos das possíveis piadas sumiram.

— Hagrid tem galos?

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Muito mais tarde naquela noite, Tom voltou ao dormitório feminino do primeiro ano. Limpou os sapatos de Ginny, que estavam enlameados, e os colocou ao pé da cama, antes de levar Ginny ao banheiro para que pudesse usar o espelho para se livrar das penas do galo que sentia no cabelo e certificar-se de que não havia nenhuma em suas vestes. Ainda bem que se prevenira.

Jogou as penas no vaso sanitário e deu a descarga, antes de voltar ao quarto. Na cama mais próxima à porta pela qual acabara de passar, Demelza estava acordada, parecendo aterrorizada. Tom se escondeu na pequena alcova que criara no fundo da cabeça de Ginny, e sentiu a verdadeira Ginny acordar. Seu corpo foi ao chão antes que ela conseguisse recobrar o controle.

— Ginny? — murmurou Demelza.

— Ai — disse Ginny. Então: — Por que eu estou toda molhada? — Ele a sentiu procurar em suas últimas memórias (as importantes estavam guardadas com ele), tentando se lembrar. Ginny soltou um som baixinho e angustiado ao perceber que não se lembrava, e a satisfação tomou conta de Tom. Escondeu-se ainda mais, mas ainda estava lá, dormente, e deixou-a sozinha.

-x-

— Podia ser pior — disse Harry, esfregando um prêmio de Quadribol manchado.

Como? — perguntou Ron.

— Podia ter sido Lockhart a nos encontrar, não Filch — apesar de ainda não estar muito frio, chovia há dias, e Harry (e Ron, que tinha ido assistir e voar na Nimbus depois) tinham deixado uma trilha de lama por três andares do castelo antes de serem pegos pelo zelador e sua gata horrível — e provavelmente pediria que fizéssemos poções capilares e respondêssemos as cartas de fãs. — Ron fingiu vomitar em cima de um Prêmio Especial por Serviços Prestos a Escola. Harry riu.

— Filch pelo menos podia nos deixar usar magia — suspirou Ron.

— Sim, mas aí não seria o Filch, né? — Harry fez uma careta e massageou sua mão. A vida com os Dursley o preparara para esse tipo de coisa, mas, graças a Padfoot, estava sem prática. — Além disso...

Finalmente... — A voz pareceu vir do próprio castelo, mas Harry nunca imaginaria que Hogwarts soaria tão fria ou perigosa. Harry estremeceu e derrubou o troféu que estivera limpando.

— Cuidado! — disse Ron, empurrando-o. Harry prestava atenção demais, tentando ouvir mais alguma coisa, para fazer mais do que empurrá-lo de leve em resposta.

Tanto tempo... tanta fome...

— Harry?

— Está ouvindo isso? — perguntou ele, virando na direção de Ron.

— Ouvindo o quê? — perguntou Ron. Não era uma situação incomum; com a audição canina de Harry, frequentemente ouvia coisas que seus amigos não ouviam. Dessa vez, entretanto, não eram as algazarras de Pirraça que Harry ouvia, tampouco um aluno ou professor murmurando sozinho.

— Foi uma... foi uma voz — respondeu, olhando ao redor. Estavam sozinhos na Sala dos Troféus, e Harry não sabia se sentia-se seguro. — Foi como... como se Hogwarts estivesse falando, mas foi... estranho. Eu não...

— Hogwarts estava falando? — perguntou Ron, erguendo as sobrancelhas. — Se isso...

— Eu sei que parece maluquice — disse Harry, irritado, certo de que era isso que Ron ia dizer.

— Se acalme — falou Ron, chutando-o. — O que eu ia dizer era que, se esse é o caso, não deveríamos, sabe, contar a alguém?

— Acho que a Madame Pomfrey adoraria saber que estou ouvindo vozes — disse Harry vagarosamente. Correu os olhos pela sala de novo. Estava tudo em silêncio agora.

— Eu estava falando de Dumbledore, seu idiota — falou Ron, revirando os olhos — ou você pode contar ao Sirius. — Harry apenas assentiu.

Terminaram a detenção em silêncio — apesar de não ser desconfortável — e voltaram ao Salão Comunal. Harry deixou a mão sobre a varinha e ouvia com atenção, mas a voz não voltou a falar. Mas de alguma forma isso não o acalmou nem um pouco e ficou muito feliz por ter voltando à segurança da Torre de Grifinória. Além de Percy e Ginny, sentados em um dos sofás perto do fogo, o Salão Comunal estava vazio. Harry sorriu para Ginny, mas ela não prestava atenção. Ele notou que suas vestes e cabelos estavam molhados.

— E por onde vocês andaram? — perguntou Percy, irritado. — Já passa do toque de recolher...

— Tivemos detenção — contou Ron. Percy pareceu ainda menos impressionado ao ouvir isso, e seus olhos foram para Harry. Ele crispou os lábios, e Harry perguntou-se se Percy achava que ele era uma péssima influência para Ron.

— E que bom exemplo está dando — ralhou Percy, colocando uma mão no ombro de Ginny. Ela se encolheu e olhou para a mão, como se estivesse surpresa por vê-la ali. — Com você, Fred e George como exemplo, não é de surpreender que ela ache que não tem problema perambular pelos corredores a qualquer hora.

— Eu já te disse — falou Ginny em voz baixa —, eu não estava perambulando, eu estava sonâmbula.

— Desde quando você é sonâmbula? — perguntou Ron, parecendo confuso. Ginny enrugou o rosto, mas não chorou. Ela só parecia confusa e chateada.

— Não sei — respondeu ela. — Um minuto, eu estava dormindo na minha cama e quando me dei conta, estou sendo atacada por algum fantasma idiota...

— Murta Que Geme — falou Percy.

— Quem? — perguntaram juntos.

— Ela assombra um banheiro — contou Percy. — É claro, Fred e George a atormentaram no passado, então ela achou que ser maldosa com Ginny era um bom jeito de se vingar deles. Ainda bem que a Penny estava fazendo a patrulha, ou as coisas poderiam ter saído do controle. — Deu um tapinha no braço de Ginny, mas Harry achou que ela não parecia reconfortada.

— Quem é Penny? — perguntou Ron, malicioso. Percy fingiu não o ouvir.

-x-

— Eu já te disse pra não... — começou Harry com a voz fraca, mas não conseguiu terminar antes de Padfoot o puxar para um abraço.

— E desde quando é você que fala o que as pessoas podem fazer? — Padfoot afastou Harry, olhou-o por um momento e sorriu. — Eu sou seu padrinho, lembra? Eu que posso ser mandão. — Apesar de ter lhe dito que não valia a viagem, Harry estava feliz de vê-lo. — Os outros estão por aqui?

— Ron está com Ginny, escrevendo uma carta para os pais, mas depois ele e Draco vão voar, e Hermione estava com Neville e Parvati — respondeu, enquanto se sentavam na grama à beira do lago. — Teve notícias do Moony?

— Isso e aquilo — respondeu Padfoot. — Ele disse que se meteu em problemas com os pais de um aluno depois de uma Pena de Repetição Rápida ter traduzido algo errado, e disse que Matt vai visitá-los neste fim de semana, mas que ele volta no próximo.

— Para o Quadribol? — perguntou Harry.

— E o Halloween — disse. Harry assentiu uma vez.

— Vocês vão até Godric's Hollow ou vão só...

— Sim — disse Padfoot. — Sim, nós vamos, mas acho que vamos passar por Hogsmeade. — Deu a Harry um olhar cheio de significados.

— Pode acabar encontrando Fred e George — disse, sorrindo. — Acho que é o fim de semana que os alunos mais velhos podem ir.

— Eu sei — falou. — Mas esperava que os alunos mais novos também fossem... Viríamos te buscar, é claro, e te traríamos de volta depois...

— Nós, tipo você e Moony? — perguntou. Padfoot assentiu.

— Acho que cerveja amanteigada e histórias sobre os idiotinhas horríveis que éramos são necessárias no Halloween — disse Padfoot. — Se estiver interessado, isso é.

— Sim, por favor — respondeu, sorrindo. Padfoot sorriu de volta.

— Então, me conte mais sobre essa voz. Ainda está por aí?

— Não ouvi de novo — contou. — Foi... Digo, talvez eu tenha imaginado, mas...

— Eu sei que não é o que você acha — falou Padfoot.

— Mas Hogwarts não fala — terminou Harry. — Isso é maluquice, né?

— Coisas mais estanhas já aconteceram — falou Padfoot, dando de ombros. — E você disse que Ron não ouviu?

— Não, e conversei com Draco e Hermione, e eles falaram que não ouviram nada onde estavam. Mas foi... Eu sei que não estava na Sala de Troféus, estava... não sei, em baixo ou em volta, ou algo do tipo. — Harry se remexeu. — Vou procurar o Dumbledore se acontecer de novo, mas eu não... Não quero incomodá-lo quando não deve ter sido nada. — Padfoot o observou por um momento, e Harry perguntou-se se ele achava que deveria ter contado. Mas ele não falou nada do tipo.

— E a sua cicatriz?

— Minha... o que tem?

— Ela não doeu? — perguntou. — Nada de sonhos estranhos nem dor de cabeça?

— Não que eu tenha notado — respondeu Harry, balançando a cabeça. — Além do mais, você não disse que Dumbledore te contou que ele estava fora do país? Como ele poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo?

— Você sabe tanto quanto eu — falou Padfoot. — E concordo com você; não deve ter sido ele. Mas o fato é que só você pôde ouvir e nós recebemos aquele aviso do Dobby... Acho que essa aparição da voz não foi a última e também acho que não podemos descartar Voldemort da lista de suspeitos.

Continua.