Para onde quer que olhasse, só via destruição. Natasha havia tentado o convencer de que não tinha motivos para ir até ali, mas ambos sabiam que isso não era verdade. Mesmo que ela tivesse tentado o convencer de que a culpa não era sua, sentia-se responsável pelas ações de Tony. Como foi deixar que as coisas chegassem a esse ponto? No caminho, ela tentou prepará-lo para o que veria, mas nada poderia tê-lo preparado para aquilo.
O helicarrier caiu enquanto sobrevoava o oceano, mas estava próximo o bastante da costa para que se arriscasse uma aterrisagem em terra firme. Ainda assim, apenas parte da aeronave chegou até a costa. Dois dias já tinham se passado, mas vários agentes ainda estavam perdidos no oceano e as buscas não tinham terminado. Algumas partes da fuselagem ainda estavam em chamas, devido à potência do combustível. Agentes corriam de um lado para o outro, todos obviamente cansados, mas nenhum disposto a parar de ajudar por um momento que fosse antes que todos os seus colegas fossem encontrados, vivos ou mortos.
Bruce viu o agente Coulson se aproximar, mas sem saber o que dizer, ficou quieto. Coulson o ignorou, com sofrimento e ressentimento obviamente estampados em sua voz quando se dirigiu a Natasha.
- O Capitão ainda não foi encontrado. A equipe técnica ainda está calculando a trajetória provável, mas as correntes marítimas estão afetando o resultado. O próximo lote de barcos de busca sai em uma hora. – não esperou uma resposta antes de sair, tinha muito que fazer e não queria acabar culpando Bruce por algo que não era realmente sua culpa.
Bruce morder o lábio inferior para tentar evitar o choro. Não podia acreditar que Tony, que seu Tony, tinha feito tudo isso. É claro que conhecia muito bem os efeitos do abuso de álcool, mas isso era ridículo! Tony podia ter uma pose arrogante e distante, mas era um herói que não hesitaria em dar sua própria vida em troca das de outros, como já tinha provado diversas vezes. O Tony que conhecia não seria capaz de atacar seus próprios amigos e arriscar as vidas de tantas pessoas. Mas será que não era capaz mesmo? Afinal, já tinha admitido para si mesmo que não conhecia o homem que Tony se tornava sob o efeito de quantidades abusivas de álcool.
- Tasha, o que aconteceu com o Capitão? – perguntou com a voz começando a falhar.
- Ele tentou impedir Tony quando ele começou o destruir tudo o que via pela frente. Então Tony atirou nele com toda a potência. Ele foi impulsionado para fora do helicarrier e ainda não foi encontrado.
Estava prestes a dar uma resposta quando viu Clint correndo em sua direção. Quando percebeu o que estava acontecendo, estava sendo erguido do chão por um par de punhos ameaçadores. Não estava com medo nem com raiva, então todos estavam seguros. Uma parte de si queria que Clint o socasse até perder a consciência, sentia essa necessidade de pagar por toda a dor que estava vendo.
- O seu namorado quase nos matou! – gritou Clint com raiva e desprezo.
De algum modo, Bruce soube que a raiva de Clint não era motivada pelo que aconteceu com ele, mas pelo risco que seus amigos sofreram. Clint fingia distância com frequência, mas se importava muito com seus amigos, em especial Coulson e Natasha. Não respondeu, porque não tinha uma resposta. Afinal, era verdade, Tony havia mesmo feito tudo aquilo.
- Clint, já chega. – disse Natasha o forçando a largar o cientista.
Bruce se deixou cair ajoelhado no chão, não tinha mais forças para se manter em pé. O peso da culpa era demais para suportar. Precisava fazer alguma coisa, não podia deixar Tony se perder, não quando ele foi o responsável por devolver sentido para sua vida. Tony o resgatou de si mesmo, parecia apenas apropriado que fizesse o mesmo por ele. Se ao menos tivesse um modo de localizá-lo... Precisava encontrá-lo antes que a SHIELD o fizesse.
Sentiu as lágrimas chegando, e dessa vez não fez nada para as impedir. Precisava encontrar uma solução. Recusava-se a acreditar que Tony estava além de qualquer salvação. Era tarde, é claro, havia deixado tempo demais passar. Mas ainda não era tarde demais, a situação ainda não era irreversível, Tony ainda podia se transformar na pessoa que tanto queria que ele fosse.
A parte mais sombria de sua mente, aquela que o fizera tentar comer uma bala tantos anos atrás, fazia de tudo para matar sua esperança. Era ela que o forçava a pensar que ele era a causa de tudo, que Tony bebia por culpa dele, que se não tivesse passado tantos dias no hospital nada disso teria acontecido. Era sua culpa por ter falhado com Tony e o deixado tão preocupado. Era sua culpa por ter sido tão descuidado e por ter comido uma bomba nuclear poderosa o bastante para ao menos ferir o Outro Cara. Era ele quem deveria ser culpado, não Tony. Fez seu melhor para abafar esses pensamentos, mas não podia os suprimir completamente. Culpar-se por tudo já era um traço de sua personalidade, e seu relacionamento com Tony só havia piorado a situação.
Como era possível que a mesma pessoa que melhorou tanto sua vida fosse responsável por criar esse pesadelo para o qual tinha acabado de acordar? Já era tempo de um ultimato, não iria permitir que as coisas continuassem como estavam. Iria fazer Tony decidir entre ele e a bebida, e faria com que ele fizesse a escolha certa.
Atualização especialmente para Herykha, que pediu por isso. A primeira vez que postei essa história demorou um ano para terminar, que bom que vocês não tem de esperar tanto.
