HELLO! Chegamos ao dia 25. Viu que não demorou tanto assim?
Como sempre, betadinho por Line Lins ;) Link da música no blog
Show me the love
10.
Aeroportos são lugares depressivos na minha opinião. As pessoas estão sempre se despedindo de alguém, seja por poucos dias, meses ou até anos. Quem está indo, não quer deixar alguém, e quem fica, sente o peito apertar com o sentimento mais estranho; saudade. Nas minhas idas e vindas por aeroportos do mundo todo, sempre havia alguma despedida cheia de abraços e lágrimas ou uma recepção tão calorosa quantos, algo que chamava minha atenção. Ficava observando de longe o jeito de mães se despediam de filhos indo para algum lugar estudar ou trabalhar, como Renée fez comigo quando aceite o estágio de seis meses em uma empresa de publicidade inglesa. Maridos chegando após dias fora de casa e sendo recebidos com beijos calorosas que às vezes me deixavam corada por estar observando algo tão particular. Nessas horas eu desviava meu olhar e voltava a me concentrar em algum livro ou no meu laptop na maioria das vezes.
Quando eu retornei de Chicago, não havia ninguém me esperando. Nada de abraços, a frase "estava com saudade" e "você fez falta". Nada disso. Apenas uma fila de táxis estacionadas fora do Aeroporto JFK, um deles me levando de volta para casa depois de quase um mês fora. Mas, que diferença faria se eu ficasse um mês ou um ano fora de meu apartamento? Não tinha plantas para serem regadas, muito menos um bicho de estimação que necessitasse de cuidado constante, então era a casa perfeita para quem estava sempre viajando e só "estacionava" ocasionalmente por lá. Nem mesmo quando eu estava em Nova York passava mais de seis horas dentro de suas paredes. Era minha casa, mas não era um lugar que eu poderia dar outro sentido a essa palavra. Sem conforto, sem a sensação de pertencimento.
O lugar estava escuro e frio quando eu entrei arrastando minha mala enorme para dentro, acendendo a luz da sala. Deixei sobre a bancada da cozinha as correspondências que tirei de minha caixinha do correio no hall do prédio e comecei a desenrolar a encharpe que me aqueceu desde que deixei Chicago. O que fazer agora? Poderia pedir algo para comer e tomar um banho enquanto não chegava, era uma opção. Mas verifiquei a secretária eletrônica antes de qualquer coisa. Três recados em um mês fora. Acho que ninguém sentiu minha falta.
Primeira mensagem:
"Bella, é sua mãe. Seu celular estava fora de área o dia inteiro e você não me ligou ontem para dizer como estava agora que só tem 70% de seu pâncreas e não fez questão de contar a sua própria mãe. Enfim, me ligue assim que receber essa mensagem. Ah, seu pai está mandando um beijo.Tchau".
Segunda mensagem:
"Bella, aqui é Alice. Só estou ligando para seu apartamento para você não esquecer que só precisa voltar ao trabalho dia 7. Nem um dia antes, entendido? Nos falaremos enquanto isso."
Terceira mensagem:
"Você vai me xingar muito por eu estar te ligando enquanto você está em Chicago, mas é para que você não esqueça; me ligue. Eu sei que prometi não te ligar enquanto você estivesse se recuperando, mas quando estiver escutando essa mensagem significa que está de volta a NovaYork. Agora você está liberada para me contar tudo que aconteceu. Beijos. À propósito, é o Jacob."
Aquelas eram as três pessoas que mais me conheciam; minha mãe que me criou debaixo de sua asa por 18 anos, minha assistente que eu via mais que minha família e meu ex-namorado da escola que me engravidou cedo demais e colocou no mundo uma criança adorável. Cada um sabia lidar comigo de sua maneira, cada um era especial de alguma forma, mas naquele momento eu só queria ficar sozinha. Retornaria as ligações mais tarde, depois de um banho demorado na banheira que raramente usava. Na verdade, nunca usei desde que mudei para aquele apartamento.
Dark Road - Annie Lennox
Nessas horas eu sentia saudade do cigarro como se minha vida dependesse da nicotina. Pelo menos meu humor dependia. Também não poderia beber enquanto ainda estivesse tomando os remédios pós-cirúrgico, o que me dava mais um mês sem álcool. Apenas um copo de água com gelo me acompanhava quando sentei na banheira cheia apenas com água morna, nada além. O banheiro estava tão silencioso que eu escutava quando meu corpo mexia a água e as gotinhas caindo de volta a banheira ou no piso. Poderia ter colocado sais de banho ou espuma, acendido umas velas aromáticas para criar um clima mais aconchegante, mas isso só me faria odiar ainda mais a situação; sozinha em uma banheira, abraçando as pernas contra o peito e encarando a janela do outro lado do cômodo. As pontas de meu cabelo pingando fazendo uma sinfonia fantasmagórica.
Eu já estava tremendo de frio, mas não queria sair da banheira e ter que fazer algo de minha vida. Ficaria "escondida" enquanto ainda tivesse chance, pois logo precisaria deixar o apartamento e voltar a velha rotina que tanto sentia falta. Agora, eu não sabia como iria encarar tudo depois de um mês longe. Nunca havia ficado tanto tempo afastada do trabalho e fato era que me sentiria um pouco perdida com o final da campanha. Mais duas semanas e a eleição seria feita, logo receberíamos o resultado que trabalhamos tantos para acontecer. Depois, não tinha planos. Estava a mercê dos novos clientes que iriam chegar e das contas que todos esperavam que eu ganhasse num estalar de dedos. Pelo menos a antiga Bella era uma máquina de campanhas publicitárias, pronta para emendar uma na outra se possível. Porém, eu estava cansada, não só fisicamente. Minha cabeça estava pesada e eu até mesmo estava com preguiça de pensar depois de vários dias fazendo apenas isso. Pensando. Analisando meticulosamente minha vida e o ponto que cheguei.
Recapitulando, eu era uma mulher de 26 anos com uma conta milionária, um currículo capaz de me levar a qualquer lugar do mundo como presidente de qualquer agência de publicidade, muitos feriados sozinha, uma filha de 10 anos que tinha um pedaço de meu pâncreas agora. Uma cicatriz no abdômen me faria lembrar desse fato para sempre, até mesmo quando eu quisesse afastar isso de minha mente. Estava marcado e sem volta, da mesma forma que Bree não era mais a garotinha que eu certa vez carreguei no útero e "dei". Ela tinha nome, tinha uma personalidade incrível e o poder de me fazer sentir coisas que pensei estarem esquecidas. Mas pensar nela naquele momento me fez sentir ainda mais cansaço mental com a enxurrada de sentimentos que me inundava.
Afundei na água já fria da banheira e gastei até o último segundo do meu fôlego buscando a paz rápida que estar submersa me trazia. Até eu necessitar respirar novamente, e eu esperava que uma eternidade passasse enquanto eu estava de olhos fechados e ouvidos bloqueados para o mundo ao meu redor, a mão despretensiosamente cobrinha minha cicatriz, minha ligação com Bree que eu não poderia mais quebrar.
•••
A rolha da champanhe bateu no teto e parou no carpete já molhado com a bebida. Brad deu um grito de comemoração junto com os outros, enchendo as taças esticadas em sua direção e parando ao encontrar minhas mãos segurando a garrafa de água mineral.
- Na próxima eu participo corretamente. - comentei balançando minha garrafinha e dando uma risada sem vida.
- Mas brinde conosco, você merece. - ele anunciou deixando a garrafa pela metade sobre a mesa. - Na verdade, foi por sua causa que nós chegamos aqui.
- Não fiz isso tudo sozinha. Alice fez boa parte de meu trabalho enquanto eu estava em Chicago...
- Porque fui bem treinado por você durante esses anos. - Alice retrucou ruborizada de animação, assim como as outras 3 pessoas presentes. - Você nos levou a vitória, Bella.
- Com 79% de aprovação. - Brad repetiu pela quinta vez desde que o resultado foi anunciado. - Um brinde a reeleição do governador Cuomo e a mais uma campanha vitoriosa para nós.
Mais gritos de comemoração conforme as taças se tocavam - no meu caso, a garrafa de água - e goles grandes eram dados entre risadas e sorrisos sem fim. Antigamente, eu seria uma dessas pessoas sorrindo sem parar e enchendo minha taça com mais champanhe para continuar comemorando até meu organismo aguentar, porém, eu estava cansada. Talvez fosse meu corpo ainda abatido mesmo após um mês desde a cirurgia, ou a última semana trabalhando até muito mais tarde para cumprir os últimos compromissos antes da eleição. No momento, eu só queria ir pra casa e dormir umas 15 horas seguidas antes de precisar voltar ao escritório após os dois dias de folga que ganhamos com a vitória de nossa maior campanha aquele ano.
- Com licença. - uma voz grave chamou nossa atenção e era Thomas, um dos seguranças do prédio. - Eu sei que os senhores estão comemorando, mas vamos precisar acionar a segurança do prédio em vinte minutos e vocês não poderão sair se ficarem aqui. Desculpe.
- Tudo bem, Thomas. Já estamos saindo. - Brad anunciou terminando a champanhe em um gole só.
- Vamos continuar comemorando em outro lugar! - Trish sugeriu recebendo a resposta que desejava; mais gritos de comemoração.
- Eu encontro vocês daqui a dois dias, então. - anunciei pegando minha bolsa e minha pasta do laptop.
- Não, Bella! Venha com a gente. - Alice pediu me impedindo de deixar a sala. - Você nunca sai para comemorar quando fechamos alguma campanha com sucesso.
- Eu nem posso beber, Alice. Qual a graça de ir para alguma bar e assistir vocês ficarem bêbados?
- Ninguém aqui vai ficar bêbado. - ela me garantiu e eu revirei os olhos.
- Como a Trish não ficou bêbada na festa de final de ano no ano passado, não é?
- Ok, nem todo mundo vai ficar bêbado... Mas vamos. Você merece se divertir um pouco.
- Não sei...
- Como seu chefe, eu te obrigo a ir. - Brad brincou me obrigando a rir mesmo que estivesse cansada até para isso. - Não vamos demorar no bar, eu garanto.
- Vamos, Bella... - as outras pessoas diziam ao mesmo tempo junto com Alice e Brad.
- Tá, eu vou... Mas por meia hora. - bufei desistindo de lutar contra eles e me convencendo que logo todos estariam bêbados para lembrar de minha presença no bar, me permitindo fugir.
A última vez que eu estive em um bar eu podia beber, mas não tinha muito dinheiro para bancar minhas bebidas. Foi no primeiro ano pós-faculdade e em Nova York depois dos seis meses em Londres, ou seja, há alguns anos atrás. Dizer que eu não tinha tempo para sair e me divertir seria quase pleonasmo, porém, o que me fez ficar tanto tempo longe da agitada vida noturna de Nova York foi falta de companhia também já que meus amigos haviam desistido de mim ainda na faculdade e meus companheiros de trabalhavam me convidavam para happy hour apenas por educação já que eu sempre recusava. Agora eu cedi ao seus pedidos e encarei uma pequena fila antes de entrarmos no bar cheio e barulhento.
Antigamente, eu iria adorar o ambiente com pessoas bebendo e conversando mesmo que a música fosse um pouco alta demais e fosse necessário gritar. Costumava ser minha segunda casa na época da faculdade e até um pouco depois dela, mas na minha atual situação eu achava tudo alto demais e irritante. Fora que eu estava com dor de cabeça e desejando mais do que nunca um cigarro para relaxar depois de tantas notícias importantes aquele dia. Só precisava aguentar mais vinte minutos e poderia descansar dois dias seguidos sem me incomodar com trabalhou e e-mails a cada minuto.
- Primeira rodada por minha conta! - Brad anunciou quando chegamos a mesa alta sem bancos, a única disponível no bar cheio. - Hi-Fi para todas e um virgem para Bella, pode ser?
- Pode. - concordamos entre murmúros e acenos de cabeça.
Brad era o único homem em nosso grupo e poderia ser um pouco estranho ele estar acompanhado de 4 mulheres entre vinte e cinco e trinta anos, mas em Nova York tudo é aceitável e ninguém iria julgá-lo ser gay logo de cara. Éramos solteiros, bem sucedidos e sem filhos para ocupar nossos dias, por isso Bree permaneceria em segredo até que fosse possível. Não queria destruir a imagem de independência que lutei tanto para criar nesses anos na empresa.
- Afinal, o que você foi fazer em Chicago, Bella? - Amy, uma negra alta e linda com pinta de modelo me perguntou antes de Brad retornar.
- Problemas pessoais. - me limitei a responder e lancei um olhar para Alice implorando que ela ficasse calada.
- Tem alguma coisa a ver com o fato de você não poder beber e estar sem fumar? - ela insistiu e eu percebi que as outras mulheres na roda estavam com o mesmo olhar de preocupação.
- Porque nós notamos que você mudou desde que voltou de viagem. - Trish acrescentou.
- Você não está doente, não é?
- Não. Eu estou bem... agora. Eu estou sem beber e fumar ultimamente porque passei por uma pequena cirurgia enquanto estava em Chicago, foi isso.
- Cirurgia, Bella? - Amy retrucou espantada e meu estômago se revirou de nervosismo.
- Não foi nada demais, sério. Foi... Um transplante, mas deu tudo certo.
- Você precisou fazer um transplante? - Trish gritou com o queixo quase batendo na mesa.
- Não foi bem assim... - tentei explicar de uma forma que não revelasse demais, apesar de eu estar disposta a falar.
Eu sentia uma vontade estranha de falar. Queria dizer a aquelas mulheres o que aconteceu comigo enquanto eu fiquei fora de Nova York por "questões pessoais". Na mesma intensidade que eu queria me esconder, também queria me mostrar de verdade para as pessoas que conviviam diariamente comigo mas não tinham idéia de quem eu era de verdade. Eu estava confusa enquanto elas me encaram esperando uma explicação, e foi Alice que me tirou da situação rapidamente dizendo:
- Bella precisou doar um pedaço do pâncreas para a filha de um amigo.
- Então, você foi a doadora? Não precisou de um orgão? - Amy quis se certificar mais uma vez de que eu estava bem.
- Não. Eu era a única pessoa compatível e fiz a doação, só isso. Em algumas semanas estarei quase 100% recuperada e de volta aos velhos hábitos.
Minha risada sem vida não as convenceu tanto assim, mas pelo menos elas aceitaram a história que Alice inventou de última hora para me tirar da linha de tiro e eu a dei um olhar de agradecimento bem discreto quando as outras estavam mais preocupadas com as bebidas que Brad finalmente trouxe.
- Mais um brinde à vitória! - ele gritou erguendo seu copo e nós imitamos o movimento. - E que daqui a dois anos seja a campanha para presidência.
Tantos planos foram feitos aquela noite que eu não consegui evitar que minha mente viajasse um pouco para aquela área, imaginando quem eu seria dali a 2 anos, quando a próxima campanha política tivesse rolando e talvez meu trabalho fosse requisitado outra vez. Com 28 anos, eu continuaria pensando apenas no trabalho ou haveria algo a mais em minha vida? Eu teria novos amigos, conseguiria manter contato com as pessoas do trabalho de uma maneira mais íntima? Meus pais ainda tentariam manter um relacionamento comigo ou depois de tantos gelos teriam desistido?
Não costumava pensar tanto no futuro daquela forma, apenas nos próximos meses de trabalho quando estava focada em alguma campanha mais longa. Fora isso, eu vivia o presente. Ou melhor, deixava cada dia passar sem precisar gastar minha mente com assuntos que me deixariam mais pensativa ainda e triste. Não dar espaço para a tristeza de estar sozinha era o disfarce perfeito para evitar os olhares de piedade que me lançariam caso soubesse o que acontecia de verdade em minha vida. "Pobre Bella sozinha que só pensa em trabalhar". Não! Eu queria ser vista como Bella, a profissional de excelência que só estava começando sua carreira e precisava abdicar de algumas coisas para realizar seus sonhos. Mas que sonhos eram esses? Nem eu acreditava mais neles a ponto de ainda correr atrás para realizá-los.
Na segunda rodada de Hi-Fi as risadas estavam mais altas e o papo não era mais sobre política ou trabalho. Os assuntos eram os mais diversos possíveis e eu tentava acompanhar apesar de estar tão cansada que nem mesmo conseguia entender algumas palavras, apenas sorrindo e balançando a cabeça concordando com algo que eu não havia entendido. Quanto tempo já havia passado desde que chegamos ali? Uns vinte minutos . Eu ainda teria que sofrer mais um pouco.
- Eu vou comprar uma água. - informei a Alice e ela nem prestou muita atenção em mim.
Atravessei a multidão desviando as pessoas em meu caminho até chegar ao bar tão cheio quanto o salão. Em uma frestinha disponível, me enfiei para chamar o barman tentanto atender todos os clientes ao mesmo tempo e gritei para que ele entendesse que eu queria uma água com gás gelada.
- Água? - ele retrucou meio confuso.
- Sim, água! - gritei impaciente. Eu só queria uma água e ir embora daquele lugar.
Enquanto eu esperava, um homem alto por volta dos 30 anos parou ao meu lado segurando uma garrafa de cerveja e se encostou no balcão de forma que ficasse de frente para mim. Olhei rapidamente para ele e vi um sorriso simpático em seus lábios, iluminando sua face morena.
- Oi. - ele disse se aproximando de mim para que eu o escutasse.
- Oi. - retruquei tentando ser simpática apesar de estar sem paciência para um estranho me abordando no bar.
- Eu sou o Anthony. - Anthony disse estendendo a mão para eu apertá-la.
- Isabella. - me limitei a responder retribuindo o aperto de mão e o sorriso.
- Está sozinha?
- Não. Estou com uns colegas de trabalho. Aquele grupo ali. - apontei para a mesa não muito longe no exato momento em que eles brindavam outra vez.
- Comemorando algo? - ele quis saber.
- Uma campanha publicitária bem sucedida.
- Você é publiticitária? Isso é legal. Alguma campanha famosa que eu possa conhecer?
- Bom, acabamos de reeleger o governador...
- Você fez a campanha do Governador Cuomo? - Anthony retrucou surpreso e pela primeira vez eu não me sentia tão orgulhosa assim de meu trabalho. - Parabéns. Foi uma excelente campanha pelo pouco que eu consegui acompanhar.
- Obrigada. E você? O que faz da vida?
- Eu sou médico. Pediatra.
Meus estômago, que só tinha água, suco de laranja e um pote de yogo que comi no final da tarde, se remexeu nervoso ao escutar que ele era pediatra. A única pessoa no mundo que eu conhecia que fosse pediatra era justamente a última pessoa que eu queria relembrar naquele momento, ou em qualquer outro momento desde que deixei Chicago há algumas semanas. Edward foi um capítulo desagradável que eu tive que atravessar, mas agora estava acabado. Nosso convivência forçada pelo destino me levou outra vez para a vida de sua família e agora não existiria mais se eu ou ele não quisessemos, e pelos últimos encontros que tivemos ficou mais que óbvio que nem eu, nem ele queríamos mais ver o outro.
Mas Anthony apareceu por agora no mesmo bar que eu, me cumprimentou e me deu um detalhe de sua vida que me fez pensar em Edward. Pior ainda; ver nitidamente seu rosto sério em minha frente, o jeito carrancudo que seus sobrancelhas ficavam quase unidas e seus lábios em uma linha dura. Tudo nele queimava ódio por mim e pelas minhas escolhas, apesar de por outro lado ele era grato ao fato de eu ter colocado Bree para adoção e a tornado sua irmãzinha super protegida. Eu daria tudo para entender o que se passava em sua mente para tantos olhares de reprovação e frases que me faziam tremer de raiva dele e de seu ar superior de doutor. Às vezes eu perdia tempo demais pensando nos motivos que o levava a ser tão amargurado daquela forma.
Minha mente me traiu naquele momento e eu novamente estava pensando em Edward. Não nele, propriamente dizendo, mas em tudo que ele me fazia sentir. Raiva, vontade de gritar até perder a voz, de esmurrá-lo e tentar arrancar algum tipo de reação humana. Ele me tachava de Rainha do Gelo, porém, estávamos na mesma faixa de temperatura dentro do coração. A diferença é que ele se deixava derreter pelo calor que o sorriso de Bree emana enquanto eu tentava com todas as forças não se afetada daquela forma.
- Ei, sua água.
O barman impaciente me cutucou com a garrafa para que eu voltasse a realidade e eu agradeci monossilábica o entregando a nota de cinco dólares sem esperar por troco - se tivesse troco, afinal tudo monossilábico caro demais naquele bar.
- Então, o que vai fazer mais tarde? - Anthony me perguntou. Nem lembrava mais que ele estava ao meu lado.
- Provavelmente desmaiar na cama de tanto cansaço. - respondi tomando um gole da água quente e fazendo uma careta discreta. Eu odiava água quente.
- Reeleger o governador é tão cansativo assim?
- Você não tem idéia de como.
- Por que nós não vamos jantar em algum lugar mais calmo? Ainda são 21h de uma quinta-feira, provavelmente você não irá trabalhar amanhã... Ou irá?
- Pela disposição de meu chefe bebendo um Hi-fi atrás do outro, estou de folga amanhã.
- Ótimo. Estou de folga amanhã também, então podemos jantar agora.
- Agora? - perguntei meio assustada com sua rapidez de querer um encontro comigo.
- É, agora. Topa? - ele retrucou com um sorriso sedutor para me convencer logo.
- Eu não sei... Você morrerá de tédio quando eu começar a bocejar ou dormir antes mesmo da entrada chegar.
- Eu te dou uma chance se você me der uma. Só um jantar.
Eu não queria jantar com ele ou qualquer outro homem daquele bar. Qualquer outra pessoa, na verdade. Só queria ir pra casa dormir e acordar depois que toda aquela confusão mental estivesse passado, depois que eu tivesse esquecido de vez os últimos acontecimentos e voltasse ao normal.
- Seu telefone, pelo menos. - Anthony era insistente. Não existia mais mulheres em Nova York?
- Desculpa, eu realmente preciso ir.
Anthony aparentava ser um cara legal e que não merecia ir jantar com uma vaca fria como eu. Não sei o que ele viu em mim para achar que eu valeria um jantar, quem sabe outro encontro e algo mais sério no futuro, mas eu queria poupá-lo de gastar seu tempo comigo. O máximo que teríamos era uma noite desagradável em que eu resmungaria respostas para suas questões curiosas sobre quem eu era e não demonstraria interesse quando ele estivesse falando sobre sua vida. Tive experiências nos últimos encontros que me arrisquei que me faziam ter certeza de que estava fora de campo de vez.
Meus companheiros de "balada" estavam conversando animadamente com copos pela metade e Brad gritou algo que eu não entendi quando me viu chegando e jogou um braço sobre meus ombros em um contato físico que não teríamos caso ele estivesse sóbrio.
- Demorou assim por quê? - Trish - num estado muito próximo ao que ela ficou na festa de final de ano - perguntou desencadeando murmuros e risadas dos outros.
- Encontrou algo interessante no caminho? - Amy completou a brincadeira. - Ou melhor; alguém?
- Deixem Bella em paz, sua solteiras loucas. - Brad pediu novamente com o braço ao redor de meu corpo, começando a me incomodar. - Até parece que vocês não sabem que Bella é igual a homem nesse aspecto.
- Como? - retruquei incrédula com seu comentário.
- Você não coloca sua carreira a frente de outras necessidades? Então, como qualquer homem faz. Primeiro o trabalho, depois a vida amorosa.
- Eu lembro como o pobre do Chad te chamava para sair sempre e você recusava todas as vezes. - Amy comentou rindo. - As pessoas até comentavam que você era lésbica, por isso nunca apareceu com um namorado.
- As pessoas comentavam isso?
- Era um dos comentários...
- Quais os outros comentários? - perguntei olhando para Alice em busca de resposta. - Alice!
- Eu não sei o que as pessoas comentam sobre você, Bella. - ela gaguejou nervosa.
- Claro que sabe! Você é minha assistente e algum engraçadinho já te perguntou se eu era lésbica ou não. Não foi?
- Uma vez...
- Mas nós sabemos que você não é lésbica. - Brad me garantiu tentando dar uma leveza ao ar tão pesado que era possível cortar com uma faca.
- É normal todo mundo ter curiosidade sobre a vida pessoa do outro. - Trish disse piorando ainda mais a situação. - A gente só fica se perguntando um pouco por que você nunca apareceu com um namorado desde que começou a trabalhar na agência.
- Não é da conta de ninguém o que acontece com minha vida fora do escritório. Eu não fico comentando por aí se você é lésbica ou o Brad é gay só porque nunca os vi com alguém porque isso não me interessa nem um pouco, assim como minha vida não interessa a ninguém.
- A gente não queria te chatear...
- Mas conseguiram. - anunciei agarrando minhas bolsa e deixando o local sem dizer mais nada.
Minha cabeça fervia de raiva por ter escutado tantos absurdos vindos de meus colegas de trabalho que achavam que me conheciam. Lésbica, eu? Só porque eu não era o tipo de pessoas que comentava sobre minha intimidade na pausa para o cafezinho como tantas outras. Era pessoal, que dizia respeito somente a mim. E eu gostava de homem, muito. Não estava mais tão "ativa" nos últimos anos como costumava ser na faculdade, mas isso não significava que eu não gostava mais de homens. Só precisava me concentrar em outros assuntos mais importantes antes de procurar alguém... E por que eu estava pensando naquilo? Minha vida amorosa não era minha prioridade agora e não seria tão cedo!
Me enfiei no primeiro táxi disponível na porta do bar, e enquanto dizia meu endereço peguei meu celular para verificar o e-mail. Estranhamente, checar minha caixa de entrada me deixava mais calma e conseguia me distrair para que eu não me estressasse mais com aquela conversa de que eu nunca tinha um namorado e talvez as pessoas achassem que eu era lésbica. Entre spam, congratulação pela vitória na eleição e e-mails que eu me mandei para não esquecer algum compromisso importante havia uma mensagem de Carlisle.
Desde meu retorno a Nova York não troquei mais uma palavra com os Cullen e meu acordo com Esme de ficar fora da vida de Bree estava mais que de pé. Não sei o que ela tinha dito a filha quando ela perguntava sobre mim , porque se eu conhecesse Bree direito sabia que ela estava perguntando quando eu iria a Chicago outra vez mesmo que em nossa despedida deixei bem claro que não poderia mais voltar. Aquele não era meu problema, ficava a cargo de Esme resolver essa situação enquanto eu volta a minha velha rotina em Nova York. Mas, ainda assim, fiquei nervosa quando abri o e-mail de Carlisle.
"Olá, Bella.
Chegou ao meu conhecimento através do noticiário nacional que o governador de Nova York foi reeleito graças a sua campanha. Venho por meio deste e-mail te parabenizar por essa conquista que presumo ser uma das mais importantes em sua carreira. Você merece, pois sei que é uma publicitaria dedicada e inteligente. Justamente como a garota que eu conhecia há 10 anos em Forks já me mostrava ser.
Não quero roubar seu precioso tempo com um e-mail gigante e cheio de frases que você já deve estar cansada de escutar desde a vitória. Enfim, parabéns novamente e muito sucesso.
Att,
C. Cullen.
PS: Bree sempre pergunta por você."
O restante da mensagem não me interessou mais quando aquele post-scriptum saltou aos meus olhos com o interesse já esperada pela simples citação de Bree. Claro que ela perguntava por mim! Nem Esme nem ninguém conseguiria apagar da memória daquela garotinha os dias que convivemos em Chicago e um relacionamento foi estabelecido. Poderiam me afastar e pedir que eu fingisse que em momento alguma Bree saiu de meu útero, mas dela não poderiam arrancar as lembranças, cada momento comigo. Sem falar na cicatriz que sempre teríamos no mesmo lugar...
Eu não queria mais pensar naquilo! Me cansava tentar entender o que aconteceria com Bree agora que nosso afastamento foi imposto por Esme, e também não era mais meu problema. Eu tinha que parar de me importar tanto já que desde o começo disse que não era assunto meu. Minha função foi bastante limitada; dar um pedaço de meu pâncreas para salvá-la e desaparecer. Precisava empurrar para o fundo de meu cérebro qualquer tipo de coisa relacionada aos dias que passei em Chicago.
Na manhã seguinte, eu ainda estava pensando sobre o e-mail que Carlisle me mandou. Estar de folga e sem fazer nada em casa colaborou para minha mente vazia trabalhar de uma maneira que eu não queria, sempre vagando por outros assuntos antes de retornar ao que mais me angustiava. O e-mail estava lá na Caixa de Entrada, não havia sido encaminhado para a pasta de e-mails aleatórios, muito menos para a lixeira. Eu gostava de me torturar o acessando a cada hora que passava, relendo, fixando meu olhos no "ps" maldito que me desestruturou. Alguma coisa deveria ser feita para a sensação de incompleto passar dentro de meu peito, e eu fiz a mais estúpida possível ao discar seu número já gravado em meu celular.
- Carlisle, é Bella.
- Bella! Que surpresa. - sua animação só piorava meu coração batendo no meio da garganta de nervosismo.
- Estou ligando para agradecer o e-mail.
- Não foi nada. Fiquei realmente feliz por saber que você venceu mais uma, e tão importante dessa forma.
- É, foi muito importante mesmo vencer essa campanha e com a aprovação que o Governador teve então... Foi incrível.
- E agora? Algum outro grande projeto em vista?
- Por enquanto não. Creio que só depois do feriado de Ação de Graças as novas campanhas chegaram já que eu só terei mais dois dias de trabalho antes da quinta-feira. Mas espero que na segunda pós feriado já esteja em minha mesa uma pilha de propostas.
- Claro que haverá.
- Eu realmente espero...
Nossas risadas foram logo substituídas por um silêncio constrangedor e eu era capaz de escutar o tic-tac do relógio em minha cabeça me informando que meu tempo estava passando e eu ainda não tinha feito nada a respeito daquela ligação que não foi apenas para agradecer o e-mail.
- Então... Como está tudo aí em Chicago? - perguntei sem arrependimento.
- Melhor impossível. Bree deixou o hospital alguns dias antes do esperado porque os médicos deram 90% de certeza de que o orgão não irá ser rejeitado.
- Isso é maravilhoso!
- Realmente é. O pâncreas de Bree já está conseguindo produzir insulina em níveis normais e logo ela estará livre das injeções e poderá ter uma alimentação menos regrada. Fora que não estar mais em um hospital com uma agulha na mão melhorou muito seu humor.
- Nossa, imagino como ela deve ser ativa agora.
- Correndo mesmo sem poder fazer muito esforço físico e deixando Esme louca.
- Fico feliz de saber que deu tudo certo.
- Nós conseguimos.
Ele adorava me incluir nessa vitória da família; "nós conseguimos", "você salvou minha garotinha", toda pressão novamente em meus ombros por ser responsável pela felicidade deles. Eu bem entendia a minha participação em todo aquele processo até Bree estar curada, mas ainda queria manter um pouco de modéstia para que minha mente não se deixasse levar por isso e me fazer acreditar que eu tinha algum direito agora. Não, eu não poderia reinvidicar nada, muito menos agora e...
- Bella, um instante... - Carlisle pediu quando um barulho ao fundo chamou minha atenção. - Eu não posso ir agora, Bree. Estou no telefone...
- Com quem? - escutei a vozinha cheia de curiosidade perguntar e meu coração deu um pulo.
- Com Bella.
- Eu quero falar com ela!
- Bella, Bree quer falar com você... tudo bem? - ele me perguntou enquanto eu já começava a suar frio.
- Tu-tudo... - gaguejei. Eu queria falar com ela, não queria, não sabia direito o que pensar.
Só me restou engolir seco antes de escutar do outro lado da linha seu jeito único de dizer:
- Oi, Bella!
- Oi, Bree.
- Você está aqui em Chicago?
- Não, ainda estou em Nova York trabalhando. Você é a única de férias, esqueceu?
- É verdade. - ela riu me contagiando rapidamente como sempre ocorria. - Mas você não vem mais pra Chicago? Nunca mais em sua vida toda?
- Nunca mais em minha vida toda, não. Mas acho que não vou tão cedo.
- Por que?
- Porque eu não tenho muito tempo para viajar. Por causa do trabalho.
- No feriado de Ação de Graças você poderá vir. Papai não trabalha no feriado, então você também não irá trabalhar né?
- Verdade, não irei trabalhar no feriado, mas ainda assim...
- Papai, Bella pode vir pro feriado de Ação de Graças?
- Eu não sei, Bree. Bella pode estar ocupada com o trabalho...
- Mas você não trabalha no feriado. Bella não irá trabalhar também.
- Bree... Bree... Bree... - a chamei de volta a nossa conversa pelo telefone.
- Você não irá trabalhar, não é? - ela perguntou novamente me deixando em uma situação terrível.
- Não. Eu não irei trabalhar.
- Então venha pra Chicago. Papai disse que você pode vir.
- Ele não disse isso... - retruquei desconfiada, porque se a conhecia bem, sabia que ela estava utilizando de seu jeito adorável para conseguir o que queria.
- Bree, deixe-me falar com Bella. - escutei Carlisle pedir e ela bufou baixo.
- Tá...
- Bella, desculpe por Bree. Ela não entende quando alguém tem que trabalhar e não pode fazer algo que ela quer. Culpa de Edward que sempre faz tudo que ela quer, mas...
- Tudo bem. Eu entendo que ela está animada com o feriado depois de passar pelo transplante e ter dado certo.
- Todo mundo está animada, na verdade. Vai ser um Ação de Graças em que teremos muitos motivos para agradecer.
- Verdade, verdade...
- E você viajará no feriado?
- Eu ia passar com meus pais, mas como eles já têm planos em Miami, ficarei em Nova York mesmo.
- Sozinha?
- É... - o fantasma da solidão outra vez me infernizando.
- Eu sei que está um pouco em cima da hora, mas se você quiser vir passar o feriado aqui... Bree ficaria feliz.
- Não sei se é uma boa idéia...
- Você tem razão, desculpe. Só pensei que... Esquece. Eu... preciso ir.
- Ok... Hum, feliz Ação de Graças se a gente não se falar.
- Obrigado, Bella. Para você também.
O barulho de ligação finalizada ainda ficou repetindo por alguns minutos enquanto eu continuava com o fone do telefone encostado na orelha. Eu estava fazendo justamente o contrário do que prometi a Esme. Aquilo não era deixar a vida de Bree e fazê-la esquecer que eu existi algum dia, mas... Eu não sei. Era uma chance de acalmar um pouco minha mente confusa e suforcar por alguns dias esse sentimento de solidão que me assolava.
…
Ok, vamos brincar de deixar review pra receber um trechinho do próximo capítulo? Novamente, aviso que algumas pessoas não recebem os previews porque ainda não habilitaram a PM no perfil aqui do FF. Mexam seus pauzinhos para receberem, certo?
Muitas pessoas perguntam quando Edward e Bella vão "furunfar" (sim, usam essa palavra) na fic. Seguinte; lemon é legal? É, tanto pra escrever quanto pra ler, mas eu prefiro encaixar esse tipo de cena na fic na hora certa. Edward e Bella não se dão nada bem nesse ponto da história, então imagina que louco os dois se pegando assim do nada? Vai demorar um pouco mas garanto que será na hora certa.
Próximo capítulo será dia 10 de Fevereiro, mas não garanto muito nesse dia por causa de choque de alguns eventos em minha vida. Direi se será postado ou não no meu Twitter (at guanabeer).
Acho que é isso, folks. See ya!
