Capítulo 10- Tentando entender
Por um milésimo de segundo, a curta vida de Michelle Teresa Ford esteve a ponto de se esvair para sempre. Ana-Lucia chegou a ver um filme ser exibido em sua mente com imagens de si mesma grávida de sua menininha, depois a segurando em seus braços após o nascimento dela, viu seu primeiro sorriso, seu primeiro dente, não podia perdê-la.
Felizmente, os braços fortes e protetores de James foram mais rápidos e pegaram Michelle no ar antes que a menina caísse. Ele usou as pernas para segurar o corpinho frágil da filha e a abraçou junto ao peito quando conseguiu pegá-la. Jordan estava estático assistindo a cena lá embaixo e Ana-Lucia chorava e tremia, querendo pegar a filha nos braços.
Quando James finalmente se aproximou, ainda carregando Michelle que ainda parecia alheia a tudo ao que acontecia ao seu redor, Ana atirou-se sobre eles e pegou a filha nos braços, sacudindo a menina e gritando histérica:
- Michelle Teresa Ford! Nunca mais faça isso com a mamãe, entendeu? Nunca mais faça isso!
A menina estremeceu no colo da mãe e então começou a chorar copiosamente, agarrando-se a ela e enterrando o rosto nos cabelos compridos de Ana.
- Ah, meu amor, me desculpe. - disse Ana respirando aliviada por ter a filha salva. – Eu te amo tanto. Não quero que nada de ruim te aconteça, minha filha...
James ficou olhando para as duas por alguns minutos. Seus olhos não expressavam o mesmo alívio que Ana-Lucia sentia,ao contrário disso, havia fúria em seu olhar e Ana pôde ler as palavras nos lábios dele quando ele sussurrou quase sem emitir nenhum som: "Tudo isso é sua culpa."
Jordan logo veio para junto da mãe e da irmã e ficou olhando para o pai com hostilidade. James deu um sorriso maldoso e disse:
- Olha só, aqui está o orgulho do papai! Disputando território comigo, moleque? Eu acho muito bom. Melhor do que ter um filho bichinha. Já estava começando a perder as esperanças. – James completou antes de virar as costas para sua família indo em direção à casa de barco.
O garoto pareceu chocado ao ouvir as palavras do pai. Ana também estava muito confusa, mas não adiantava ficarem ali tentando entender o que estava acontecendo com James. Tinha algo a ver com aquela casa. Ela tinha certeza. Do contrário por que Michelle teria tentado se jogar do telhado? Não, definitivamente algo sobrenatural estava acontecendo naquela casa desde o dia em que a família tinha posto os pés lá. Ela só precisava se acalmar antes de decidir o que fazer.
- Vamos entrar, Jordan. O bebê está sozinho lá em cima.- Ana lembrou. Michelle ainda chorava baixinho em seu ombro, abraçada à mãe.
Jordan seguiu a mãe para dentro da casa, mas não fez nenhum comentário sobre o que o pai tinha dito até que eles estivessem no quarto.
- O papai mudou.- comentou ele enquanto Ana punha Michelle na cama grande e ia checar o bebê que ainda dormia no berço.
- Ele não mudou, querido. Seu pai está apenas passando por uma fase...
- Mamãe, pare com isso!- Jordan falou duramente, mas sem gritar. Ele não queria acordar o irmãozinho que dormia tranqüilo.
Ana-Lucia voltou-se para o filho que tinha lágrimas nos olhos.
- Ele mudou sim!- o menino insistiu. – Ele não gosta mais da gente.
- Filho, ele... – Ana tentou remediar a situação, mas Jordan não deixou que ela falasse.
- Tem alguma coisa ruim nessa casa, mamãe. Muito ruim! E isso está deixando o papai louco! Eu já disse!
Ela respirou fundo e olhou para ambos os filhos que pareciam muito assustados com tudo o que estava acontecendo. Sabia que a situação estava fugindo ao controle, mas ela não podia apenas arrumar tudo e sair com as crianças. Ela ainda precisava tentar se entender com James mais uma vez.
- Quero que vocês continuem comigo aqui no quarto.- Ana falou tentando manter a calma. – Eu vou resolver tudo isso que está acontecendo. Eu prometo. Vou conversar com o pai de vocês e tudo irá ficar bem.
- Mamãe, você está sangrando.- disse a pequena Michelle num fio de voz, os olhos ainda vermelhos de tanto chorar.
Ana olhou para sua mão direita e lembrou-se de que tinha cortado o dedo na janela da torre quando fora acudir a filha, havia também alguns arranhões em seu rosto, resultado dos estilhaços de telha que caíram quando James estava tentando pegar Michelle no telhado
. Olhou para a filha e viu que havia marcas de seu dedo ensangüentado na camisa amarela que a menina vestia. Por um segundo sentiu-se impotente diante do que estava acontecendo, mas ainda assim ela procurou manter a calma e depressa correu até o banheiro, lavou suas mãos e rosto e colocou um pouco de anti-séptico que havia no armário nos corte em seu dedo. Felizmente os arranhões em sua pele eram muitos e não tinham sido graves. Nada que precisasse de sutura. Ela sabia disso por causa do treinamento em primeiros-socorros que recebera quando trabalhou como policial.
Ao sair do banheiro, Ana-Lucia sentiu que já tinha a situação mais sobre controle. Deu um banho em Michelle, escovou seus cabelos e deitou-se com ela até que a filha estivesse mais calma.
- Filha, como foi que você subiu no telhado?- Ana perguntou baixinho. Sabia que Michelle não iria querer que o irmão que estava jogando vídeo-game no quarto escutasse a conversa delas duas.
- Eu não posso dizer.- disse Michelle, fechando os olhinhos e se encolhendo contra o corpo da mãe.
Ana acarinhou-lhe os cabelos. A menina tinha se deitado com o feio coelho de pelúcia que encontrara na casa, o qual Ana já tinha lavado e remendado, porém o brinquedo continuava com a mesma aparência suja e feia de antes.
- É claro que você pode me dizer, filha.- insistiu Ana-Lucia, falando suavemente com Michelle. – Você sabe que pode contar tudo para a mamãe e esse será o nosso segredo, está bem?
Michelle pareceu pensar um pouco, mas por fim, ela juntou as mãos em concha como se estivesse com medo que alguém mais além de Jordan ouvisse o que ela iria dizer e falou:
- Foi o William. Ele abriu a porta. A Daphne me avisou que era o único jeito de fugirmos.
- Quem é William, Michelle?- Ana indagou resolvendo entrar no jogo da filha. Àquela altura ela estava se perguntando se as pessoas de quem Michelle falava não poderiam ser mais do que amigos imaginários.
- Ele é o irmão da Daphne.- Michelle respondeu calmamente. – Mas ela não gostava muito dele porque ele fez coisas feias com ela.
Ana assentiu e então, juntando seu rosto ao de Michelle fez uma última pergunta porque a menina estava prestes a cair no sono.
- Por que queria fugir com a Daphne?
- Porque ela queria me levar para o arco-íris.- Michelle respondeu com voz sonolenta.
Assim que Michelle adormeceu, Ana aproveitou para tirar o coelho de pelúcia encardido dos braços da filha e colocou-o no lixo do banheiro. No dia seguinte ela compraria um bichinho de pelúcia novo para Michelle, o que faria com que ela se esquecesse daquele feio e sinistro brinquedo. Já bastava toda aquela conversa sobre a tal Daphne que queria levá-la para o arco-íris. Ana estava ficando cada vez mais preocupada.
Depois que Michelle dormiu, Liam acordou e Ana não pôde se concentrar no que realmente queria fazer. Ler um pouco mais dos livros que pegara na biblioteca em Marietta e pesquisar mais informações na internet sobre a casa baseada no que Kate tinha enviado a ela em seu último e-mail.
James não retornara para casa desde a confusão com Michelle no telhado, mesmo depois que o sol já tinha se posto e as sombras tomavam conta de tudo. A luz do sol terminava cedo naquele lugar nublado e frio. Ana se perguntava aonde James poderia ter ido. Será que ele resolvera ir conversar com os vizinhos. Ela até que gostara da Sra. Thackeray. Quem sabe poderia voltar lá em breve e fazer mais perguntas sobre a casa?
Ana debruçou-se um pouco na janela do quarto com Liam em seu colo. Nem sinal de Vincent. Ela já estava começando a pensar que alguém ficara com o cachorro. Talvez Victor, o garoto que ela tinha visto na floresta. O garoto que não morava em lugar nenhum, que era tão misterioso quanto o velho vestido de branco que ela vira no bosque perto da casa há algumas noites atrás. ]
- Está com fome?- ela perguntou à Jordan enquanto punha o bebê no trocador. Liam que agitava os bracinhos e perninhas para o ar, sorridente para a mãe.
O menino, que tinha desligado o vídeo-game para assistir a um filme na TV do quarto voltou-se para a mãe e assentiu silenciosamente.
- Que tal pedirmos uma pizza?- Ana sugeriu.
- Do jeito que moramos longe a pizza só chegará aqui em 2014.- respondeu Jordan mal-humorado.
Ana-Lucia sentiu uma pontada de culpa por ter sido tão egoísta a ponto de trazer sua família para viver em um local tão isolado. Agora todos estavam sofrendo as conseqüências disso. Mas não era bem aquilo que ela tinha em mente quando James apareceu dizendo que tinha encontrado a casa dos sonhos da família Ford.
- Você está certo.- ela disse por fim, colocando as fitas adesivas da fralda de Liam. – Nós podemos comer pizza na cidade amanhã, que tal?
Jordan esboçou um sorriso e Ana-Lucia sorriu também.
- Bem, já que teremos de comer em casa, eu vou descer e preparar alguns sanduíches, o que acha?
A expressão do garoto foi de medo, como da última vez em que ela tinha saído para ir procurar Vincent. Ana abraçou o filho e disse:
- Querido, dessa vez eu não vou sair de casa. Eu volto logo. Trarei os sanduíches aqui pra cima e você pode comer com a sua irmã, está bem?
Liam deu um gritinho e Ana sorriu para ele.
- Só preciso que olhe o seu irmão um pouquinho.- disse ela, levantando Liam do trocador e entregando-o ao irmão mais velho.
O garoto finalmente assentiu e Ana deu uma última olhada em Michelle antes de deixar o quarto. O corredor do lado de fora estava às escuras. Quando ela entrou com os filhos no quarto se esquecera de acender as luzes. Ela tateou a parede procurando pelo interruptor, mas sentiu um braço forte agarrando sua cintura e uma mão que lhe tapou a boca antes que ela pudesse gritar.
- Shiiii...quietinha, amor. É o seu maridinho!
Ana se retorceu e ele soltou-lhe a boca. Ela tateou mais um pouco a parede e encontrou o interruptor, acendendo-o para ver o marido diante dela. Apesar de tudo o que acontecera antes a expressão dele parecia relaxada e tranqüila, o que era muito estranho diante do fato de que Michelle quase morrera caindo do telhado há pouco mais de uma hora atrás.
- Você me assustou!- disse Ana em tom acusatório, e não era mentira. Ela estava realmente muito assustada com o comportamento do marido. Tudo o que James vinha fazendo desde que eles se mudaram para aquela casa não condizia com o homem por quem ela se apaixonara perdidamente e com quem ela estava casada há quase doze anos.
- Eu não quis te assustar.- disse ele, falando baixo e sedutor. Ana sentiu uma pontada no peito. Sentia muita falta do marido e mesmo diante de toda aquela situação que estavam enfrentando, não conseguia odiá-lo. Seu amor pelo marido era muito forte, e embora ela estivesse aborrecida com as coisas que ele estava fazendo, principalmente em relação às crianças, Ana não deixava de se importar com ele e querer entendê-lo. Ela queria compreender até que ponto a suposta maldição que aparentava pairar sobre aquela casa o estava afetando ou se aquele novo comportamento, como afirmava Jordan ao dizer que o pai tinha "mudado", seria uma nova faceta de seu marido que ela ainda não tivera a oportunidade de conhecer até agora.
- Onde você estava?- ela perguntou sentindo o coração bater mais forte quando viu o olhar intenso que ele deu a ela e seu corpo, sentindo a pressão gostosa do braço dele em sua cintura. Ana não podia ignorar o arrepio de prazer que aquele gesto lhe causava.
- Fui procurar o Vincent.- ele respondeu. – Mas não o encontrei. Queria alegrar a Michelle. Como ela está?
- Mais calma.- respondeu Ana. – Mas ainda assustada. James, nossos filhos estão assustados. O que está acontecendo com você? Eu também estou assustada!- ela completou. – Você tem agido tão estranho. Se isso tudo é porque você está chateado por termos vindo para a Geórgia, nós podemos...
James deu um sorriso perigoso colocando o dedo indicador sobre os lábios dela para calá-la e com um único puxão, ele a trouxe para junto dele e sussurrou em seu ouvido:
- Não precisa ficar assustada, baby. Não tem nada acontecendo comigo, muito menos com nossa casa. Você está apenas impressionada demais com essas histórias de terror que andou ouvindo na cidade. Vamos parar de brigar, por favor! Eu te amo.
Ana-Lucia ergueu o rosto para ele e tentou ler em seus olhos se ele estava realmente sendo sincero, mas ela não pôde tirar conclusão alguma porque James não a deixou olhá-lo por muito tempo, de repente os lábios dele estavam colados aos dela beijando-a com paixão.
- James... – Ana sussurrou no beijo, afastando sua boca da dele depois de alguns segundos. – Eu estou ficando confusa...
- Não fique... – ele pediu, voltando a beijá-la e encostando-a contra a parede. – Preciso de você, por favor...
- As crianças estão com fome.- ela disse, um pouco nervosa. Do jeito que ele estava estranho, ela esperava que ele começasse a gritar com ela e a lhe dizer impropérios a qualquer momento como James vinha fazendo ultimamente, no entanto, ele beijou-lhe carinhosamente a face e disse:
- Eu posso preparar panquecas para as crianças depois que... – ele pausou e então acrescentou com um olhar malicioso: - ...depois que a gente namorar um pouquinho. O que me diz?
Ana deixou sair um suspiro. Embora ela sentisse falta do marido, não estava no clima para o que ele queria naquele momento. Não depois do que quase tinha acontecido com Michelle e diante dos receios de Jordan, mas talvez aquela fosse a única maneira de chegar perto de James novamente, de poder conversar com ele. Ela o amava tanto. Por isso, Ana acariciou o rosto dele e beijou-lhe levemente os lábios antes de responder:
- Podíamos preparar as panquecas agora e depois...
Ele sorriu, agarrou a mão dela e a levou para a cozinha. Ana-Lucia sorriu. Aquela seria uma chance imperdível de tê-lo por perto novamente e quem sabe convencê-lo a escutá-la sobre as coisas estranhas que vinham acontecendo naquela casa.
Eles prepararam as panquecas juntos e Ana-Lucia preferiu não discutir com ele a respeito de nada, por enquanto. Mas faria isso assim que estivessem a sós, relaxados depois de fazerem amor. Era sempre um ótimo momento para falar com James. Na cama ele era muito mais aberto que em qualquer outro lugar e ela estava ansiosa para perguntar a ele de verdade o que estava acontecendo e por que ele vinha sendo hostil com as crianças. Ana também queria pedir que voltassem para LA por alguns dias para pensarem melhor a respeito de permanecer naquela casa ou não. Ela não se sentia mais confortável ali.
Quando as panquecas ficaram prontas, Ana trouxe as crianças para baixo. James tinha posto a mesa e ligado o rádio. Uma música alegre tocava na cozinha. Ele tinha feito panquecas com "caras engraçadas", mas apenas Michelle riu. Jordan parecia muito desconfiado e esquivo. Ficou o tempo todo ao lado da mãe, agindo de forma protetora. Ana sentiu pelo filho, especialmente por causa do que o pai tinha dito mais cedo a ele, mas precisavam ser pacientes se quisessem entender o que estava acontecendo com James.
Depois do jantar, Ana-Lucia mandou que as crianças subissem e escovassem os dentes enquanto ela alimentava Liam e o punha para dormir novamente. Jordan lançou um olhar ansioso para a mãe ao ter que deixá-la sozinha com o pai, porém ela olhou para ele e fez um gesto com a cabeça, assentindo que ele fosse. Jordan então deu um último olhar preocupado a ela e segurou a mão da irmãzinha, subindo as escadas com ela em silêncio.
Assim que eles subiram, James tirou uma latinha de cerveja da geladeira, abriu-a e deu uma boa golada antes de dizer à Ana, a voz irritada:
- Eu não sei o que está acontecendo com esse garoto. Não estou gostando do jeito que ele anda olhando pra mim. Se continuar assim, vamos ter que ter uma conversinha de homem pra homem!
- Do que você está falando, James?- disse Ana, arrumando a alça do sutiã e da blusa no lugar porque o bebê já tinha acabado de mamar antes de colocar Liam no ombro e dar tapinhas suaves nas costas dele.
- Ora, do que eu estou falando?- retrucou James, bebendo mais cerveja. – Estou falando do atrevimento desse menino! Parece até que agora ele deu pra disputar a sua atenção comigo, vê se pode!- ele terminou a cerveja e amassou a lata antes de jogá-la no lixo.
- James, você está falando bobagem.- disse Ana. – Ele é nosso filho!
- Não me importa!- ele gritou. – Você é minha mulher! Só minha! Aquele garoto tem que aprender onde é o lugar dele.
O bebê começou a chorar por causa dos gritos do pai. Ana abraçou o menino com carinho e o embalou em seus braços, sussurrando suavemente:
- Shiiii...não chore, filhinho, mamãe está aqui...está tudo bem...tudo bem...
- Está vendo?- resmungou James, ainda mais irritado. – É disso que eu estou falando! Você não tem tempo pra mim!
Ana-Lucia deixou sair um suspiro angustiado. Pelo jeito, seu plano de conversar com o marido naquela noite iria por água abaixo.
- James!- ela chamou quando o viu se afastar em direção à porta que levava ao porão. Mas ele não se importou em olhar para trás. – James!- Ana o chamou de novo, mas ele já tinha ido.
Liam ainda chorava, e algumas lágrimas agora também deslizavam pelo rosto de Ana. Aquela situação estava se tornando mais do que insustentável. Ela estava tão distraída que não ouviu os passos de Jordan e Michelle se aproximando dela. O menino colocou seus braços ao redor da mãe e perguntou:
- Você está bem, mamãe?
Ana engoliu o próprio choro e assentiu silenciosamente. Michelle olhou receosa para a porta do porão e disse à mãe:
- Daphne disse que o papai está zangado de novo!
Ana-Lucia mordeu o lábio inferior e olhou para Michelle.
- Ouça, filha, não quero mais que volte a falar nessa Daphne, você me ouviu?
- Mas mamãe... – Michelle argumentou, foi então que Ana viu que ela abraçava novamente o coelho encardido de pelúcia.
Imediatamente, Ana ergueu-se assustada da cadeira onde estava sentada, e ajeitando Liam nos braços, ela tirou o feio brinquedo dos braços da menina e o atirou pela janela em direção à lama que se formara em frente à varanda devido ao clima úmido quase permanente da Geórgia.
- Não, mamãe!- Michelle gritou e começou a chorar.
Ana balançou Liam nos braços e foi até a filha.
- Michelle Teresa, pare com isso! Você não precisa daquele brinquedo. Nunca foi seu!
- Mas mamãe...mamãe!
- Pare de chorar, vamos!
- Michelle, esquece aquele coelho feio!- pediu Jordan, tentando acalmar a irmã. Ana-Lucia estava orgulhosa dele. Ele vinha se mostrando muito mais independente e maduro do que quando eles viviam em LA. As circunstâncias que estavam vivenciando naquela casa o estavam transformando e ao observar o comportamento do filho, Ana tinha certeza sobre o homem que Jordan se tornaria um dia, por isso se sentiu orgulhosa.
- Michelle!- Ana insistiu ao ver que a filha não iria se acalmar, pelo contrário, a menina parecia cada vez mais histérica. Pelo menos o bebê já tinha se acalmado um pouco mais.
- Mamãe... a Daphne vai ficar zangada comigo!- a menina berrou.
- Não, não vai!- afirmou Michelle. – Porque não existe Daphne nenhuma! E mesmo que existisse, a mamãe não deixaria que nada de ruim acontecesse. Fique calma, filhinha!
Michelle continuou chorando e Ana-Lucia suspirou, entregando o bebê para Jordan. Com os braços livres, ela envolveu a pequena Michelle e esfregou suas costas com carinho, procurando acalmá-la.
- Meu amor, você não precisa da Daphne, nem daquele brinquedo horroroso. Amanhã depois da escola nós vamos comer pizza na cidade e depois ir a uma loja comprar um bichinho novo para você. Poderá escolher qualquer um. Que tal?
A menina fungou e usou os dedinhos para enxugar um pouco as lágrimas. Parecia muito interessada no que a mãe dizia, mas ao mesmo tempo parecia assustada com alguma coisa. Assustada não, Ana pensou. Aterrorizada. Ela não estava agüentando mais ver o sofrimento de sua família. Precisava convencer James a deixarem aquela casa o quanto antes. Ela voltou a falar com a filha:
- Michelle, me ouça, tudo vai ficar bem. Ninguém irá machucá-la porque a mamãe não vai deixar. Você confia em mim?- Ana olhou bem dentro dos olhos escuros de sua menininha e sorriu quando a viu mover a cabeça, assentindo. – Muito bem. Amanhã nós vamos todos passar o dia fora e nos divertir bastante, que tal?
Michelle sorriu em aprovação, mas Jordan parecia um pouco pesaroso.
- O que houve, filho?- Ana perguntou.
- Ainda estou preocupado com o Vincent.- respondeu o garoto.
- O Vincent vai aparecer logo. Eu tenho certeza. Ele deve ter encontrado algo divertido para fazer na floresta.
Jordan balançou a cabeça em negativo, segurando o bebê com cuidado em seus braços.
- Não tem nada de divertido na floresta, mãe.
- Ok, hora de ir para a cama vocês dois!- Ana falou cortando o assunto. – Nós tivemos um dia muito cheio e estamos todos cansados.- ela colocou Michelle no chão e voltou a pegar Liam. – Não quero mais ouvir nem uma palavra sobre Daphne ou espíritos da floresta que possam ter levado Vincent, entenderam?
- Você acha que os espíritos da floresta levaram ele, mamãe?- Jordan perguntou preocupado. – Aquele homem que...
Ana o interrompeu. Sabia sobre que ele estava indo falar, mas não queria que ele assustasse Michelle, por isso não deixou que ele continuasse.
- Eu não quis dizer nada, Jordan! Pra cama agora os dois!
As crianças obedeceram e Ana seguiu logo atrás deles, pensando consigo que esperaria apenas que eles dormissem para ir tentar novamente conversar com James. Se as coisas dessem certo, até o final da semana eles estariam em LA.
xxxxxxxxxxxxxxxx
Quando as crianças adormeceram, Ana-Lucia tomou um banho quente na banheira, depois secou o corpo suavemente, escovou os cabelos e colocou apenas uma calcinha por parte do robe de seda preto. Completou o visual sedutor com algumas gotas de perfume atrás das orelhas e no colo. Ela ainda tinha esperanças de que um pouco de intimidade pudesse trazer seu marido de volta. Ana esperava que ele lhe contasse tudo o que estava acontecendo, e ela então poderia ajudá-lo, poderia ajudar a família inteira a sair daquela situação.
Ela olhou as crianças dormindo juntas em sua cama e o bebê tranqüilo no berço, antes de se preparar para esgueirar-se silenciosamente porta afora, o telefone no quarto soou estridente e Ana correu para atendê-lo. No caminho acabou pisando em um dos brinquedos de Liam que estava jogado no chão. O boneco de borracha fez barulho, mas felizmente as crianças não acordaram. Michelle choramingou, mas continuou dormindo abraçada ao seu cobertor. Ana-Lucia então se apressou a atender ao telefone.
- Alô?- ela disse baixinho, antes de ouvir a voz preocupada de sua mãe do outro lado da linha.
- Hija! (Filha!) Dios mio! (Meu Deus!) Tentei tanto ligar para você esses dias. Você está bem?
- Oi, mamãe.- disse Ana, sentindo-se feliz com a ligação da mãe apesar da preocupação estampada na voz dela. – Eu estou bem sim. Recebeu meu recado?
- Recebi sim, Ana. Mas tentei ligar de volta pra você e não estava conseguindo. Eu estou tão preocupada!
- Eu não sei o que há com esse telefone, mãe. Está dando problema, mas eu vou pedir ao James que chame alguém da companhia para dar uma olhada.
- E como estão as coisas com o James, e as crianças?- Raquel perguntou. Ana conteve um suspiro, não queria deixar a mãe ainda mais angustiada, por isso evitou falar das últimas de James ou do acidente com Michelle.
- As coisas estão bem, mãe. Todos estão bem.
- Eu não entendo, Ana. Você disse na mensagem que as coisas não estavam bem e que você queria vir passar alguns dias em LA.
- E eu ainda quero, mãe. Só preciso resolver algumas assuntos primeiro.
- Do que está falando?
- São só alguns pontos de vista que preciso esclarecer com o James.
- O James está te maltratando?- Raquel perguntou, alarmada.
- Não, mãe, não é nada disso. Olha, desculpa se eu te assustei. Mas está tudo bem. Eu vou definir com o James a data da viagem e aviso você. Nos veremos em breve.
- Está bem, querida. Dê um beijo nas crianças e cuide-se.
- Pode deixar, mamãe. Eu te amo também.
- E Ana, se precisar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, sabe que pode sempre contar comigo.
- Eu sei disso, mamãe. Preciso ir agora. Ligo pra você em breve.
Depois que desligou o telefone Ana-Lucia sentiu-se mal por estar mentindo para a mãe daquele jeito, mas não tinha escolha. Precisava se entender com James!
Ela finalmente deixou o quarto e desceu as escadas, pronta para ir em direção à cozinha e bater na porta que levava ao porão para falar com James, mas abafou um grito de susto ao ver um vulto sentado no meio da sala de estar.
Era James, ela percebeu quando se aproximou um pouco mais e viu a silhueta dele, imersa no escuro. Com cuidado para não perturbá-lo, Ana ligou uma das luminárias da sala e fitou o marido.
James estava sentado no sofá, os ombros baixos, o rosto entre as mãos, suas costas tremiam, ele estava chorando. Um choro abafado e sofrido.
- James... – ela chamou com suavidade. – O que houve?
Ele não ergueu o rosto para ela, continuou chorando. Ana arriscou sentar-se do lado dele e esfregou-lhe as costas com carinho.
- Me diz, amor, o que está acontecendo?
James finalmente ergueu o rosto para ela, parecia transtornado. Os olhos vermelhos e molhados.
- Eu não sei.- ele respondeu. – Eu me sinto péssimo...tudo está horrível...
Ana ergueu-se e trouxe o rosto dele para junto de seu peito, acariciando-lhe os cabelos. James abraçou-a por um longo momento antes de dizer:
- Fica aqui comigo...por favor...está tudo tão escuro...
Ela sorriu amorosa e assentiu, abaixando-se na altura dele e beijando-o com ardor, sentindo o gosto salgado das lágrimas que escorriam pelo rosto de James e tocavam seus lábios.
- Fique comigo...preciso de você...
- Sim, James...também preciso de você... – disse ela beijando-o com mais paixão e sentando no colo dele. – Eu preciso muito de você...eu te amo...você pode confiar em mim...
- Eu confio em você... – disse James colocando ambas as mãos no rosto da esposa e beijando-a com ardor.
As respirações de repente se tornaram erráticas, os beijos profundos, selvagens. Bocas que se provavam molhadas, dentes que mordiscavam a carne tenra dos lábios. James deslizou suas mãos pelos ombros de Ana, e então para o suave decote do robe que expunha parte de seus seios para ele.
- Fique comigo...por favor...me tire da escuridão!- ele pediu.
Ana respondeu com um gemido suave e abriu o laço do robe, erguendo-se do colo de James para tirá-lo. Ele sorriu para ela como se a estivesse vendo nua pela primeira vez.
- Você é tão linda...tão linda, senhora...
Ela se abaixou junto dele e voltou a beijá-lo, com urgência. James se ergueu do sofá, levando-a consigo somente para deitá-la no estofado macio onde ele estivera sentado. Ana o fitou com olhos apaixonados, esquecendo-se por completo de todos os problemas que vinham enfrentando nos últimos dias.
James beijou-lhe o corpo quente, deslizando seus lábios por cada pedacinho da pele exposta dela, demorando-se nos seios e no ventre. De olhos fechados, Ana gemia baixinho, entregando-se à ele.
O marido terminou de despi-la, e fez o mesmo com suas roupas, o mais depressa que pôde, pois precisava tê-la naquele momento mais do que tudo. Ana-Lucia abriu as pernas para recebê-lo quando ele deitou-se por cima dela. Ela enroscou as pernas nos quadris dele, erguendo-as para cima. James roçou contra o corpo receptivo dela e se empurrou devagar, arrancando suspiros de satisfação de Ana.
Beijaram-se ternamente enquanto faziam amor, deixando seus corpos serem levados pela onda de urgência e desejo que os acometera. Próximo ao ápice do amor, James ergueu seu corpo acima do de Ana e impulsionou-se em movimentos cadenciados para frente, olhando profundamente nos olhos dela. Ana também concentrou seu olhar no dele, mas por um momento ela poderia jurar que os olhos de James não pareciam os mesmos olhos azuis brilhantes de antes.
- James... – ela murmurou, mas não pôde dizer mais nada porque os movimentos dos quadris dele contra os dela se tornaram ainda mais intensos e ele a levou para a cima, para as nuvens. Ana voltou a fechar os olhos, deixando-se ser levada pelo prazer. – Oh, Deus, James, eu te amo!- Ana quase gritou, abraçando-se forte contra ele, sentindo o prazer dele dentro dela.
Ofegante, James manteve-se sobre ela, com cuidado para seu peso não machucá-la. Realizado, ele deitou a cabeça contra o rosto dela, aspirando o cheiro gostoso de seus cabelos.
- Amor... – Ana suspirou, traçando pequenos círculos no cabelo dele, acarinhando-lhe. – É tão bom ficar assim com você...
- Obrigado, senhora...obrigado...eu sempre a quis...- ele sussurrou de volta.
- O quê?- Ana perguntou baixinho, sentindo o corpo aos poucos retornando do torpor ocasionado pelo clímax sexual.
- Ele vai me matar pelo que fizemos...eu sei...mas eu a amo, senhora...
- James, do que está falando?- Ana-Lucia questionou sentindo um estranho arrepio tomar-lhe um corpo.
- Eu a amo, senhora!- disse James erguendo o rosto para ela, mas não era James quem a fitava e sim um completo estranho.
Ana gritou aterrorizada.
Continua...
