Someone Like You

Bruna S. Caldas

'' Prefiro permanecer cega por meus sentimentos vivendo um sonho de amor á ter de olhar para o mundo com os olhos da racionalidade é perceber que acordei. '' (B.S)

(...)

Uma linda paisagem podia ser observada ate onde sua visão fosse capaz de alcançar. O gramado verde marcava contraste com as flores brancas que cresciam ao seu redor enquanto o céu parecia cristalino como água, sem sobra de nenhuma nuvem escondendo o calor morno irradiado do sol da manha.

Ela respirou profundamente aquele ar do campo se sentido revitalizada com o mundo ao seu redor, porém o perfume cítrico vindo da garota que retirava os lanches da cesta de piquenique ao seu lado fazia com que o oxigênio não se tornasse necessário para sua sobrevivência enquanto pudesse usufruir daquele aroma.

Ela tentou voltar novamente sua atenção para a toalha quadriculada com a qual teria de cobrir o chão, mas foi inútil, uma vez que sentiu braços quentes envolverem sua cintura, vindos por trás de si. Fazendo com que aquele cheiro de primavera que irradiava da garota de olhos azuis á entorpecesse completamente.

Sentiu suas pernas fraquejarem à medida que lábios delicados começaram a queimar sua pele apenas com um leve roçar em sua nuca.

'' O que acha de desistirmos desse piquenique? A fome que eu estou no momento só pode ser saciada pelos seus beijos. '' Um sorriso travesso emoldurava o rosto da Latina à medida que as caricias que era feitas pela boca da dançarina se intensificavam, fazendo com que todo seu corpo estremecesse.

'' Desculpe S, mas se quiser meus beijos terá que me pegar primeiro. '' A loira se desvencilhou do corpo da namorada correndo copiosamente em direção as margens do enorme lago que faziam parte daquele cenário estonteante.

Seu corpo ágil possibilitou que ela chegasse sem maiores problemas no lago, seguida a risca pela outra líder de torcida que ainda matinha o sorriso malandro contrastando com seus traços hispânicos conforme se aproximava da namorada. E quando ambas perceberam já estava com as roupas encharcadas, submersas na água entre beijos.

As caricias eram lentas é apaixonadas, porém simultâneas as brincadeiras e gargalhadas altas que ressoavam das duas naquele momento tão romântico dentro do lago.

'' O que foi?'' A morena perguntou com a sobrancelha frigida ao perceber que a outra havia parado os beijos e agora apenas lhe fintava com carinho enquanto suas mãos se agarravam em sua nuca.

'' Nada, É apenas meu coração que ainda não se acostumou a ficar longe de voce. Eu senti muito a sua falta S. ''

'' Eu sei, pra mim também foi insuportável ficar toda a semana longe de voce, mas meu pai me pegou de surpresa com aquela viagem e voce sabe que eu não posso simplesmente negar nada quando o assunto é Yale. ''

'' Eu entendo S, pois assim como seu pai eu também quero o melhor para o seu futuro. E se ele estiver em Yale voce deve fazer de tudo para alcança-lo!''

Um sorriso involuntário surgiu nos lábios carnudos da latina ao escutar aquelas palavras vindas de sua namorada. Chegava a ser mágica o efeito que algumas poucas palavras de Brittany conseguiam em seu metabolismo. Fazia com que ela se sentisse única, especial, completa e a pessoa mais feliz do mundo apenas por ter a certeza de que ela era o amor da sua vida.

Os olhos de Santana estavam conectados com os da dançarina e sua racionalidade deixava bem claro que ela teria de tomar uma decisão e sair de uma vez por todas daquele fogo cruzado. Ou ela continuava aceitando as escolhas de seu pai sobre seu futuro ou ela própria tomava o controle da sua vida e continuava ao lado da mulher dos seus sonhos.

Aquele era o ultimo ano do colegial, o ano que decidia os caminhos que seu futuro iria seguir, e mesmo com sua aprovação em Yale já sendo quase um fato concreto, seu maior medo era exatamente o que se seguiria nesses anos de faculdade. Afinal o lugar de garota como Brittany eram os palcos que somente Los Angeles ou Nova York poderiam oferecer, ela iria para New Haven nos próximos cinco anos para realizar um sonho que sequer era dela e o qual poderia ameaçar totalmente sua relação com a loira devido a distancia.

'' O melhor para o meu futuro não está em Yale Brittany, é sim com voce! ''

Ela tentou puxa-la para um beijo, mas foi resgatada por sua consciência daquele mundo de sonhos. Seus olhos se abriram com rapidez, mas logo fecharam não resistindo lutar contra seu próprio peso.

Sua cabeça latejava em varias regiões diferentes, tornando quase impossível controlar seu corpo naquela tentativa de levantar, porém mesmo com dificuldade ela afastou o lençol que cobria seu corpo e sentou-se. Sua íris negra em vão tentou analisar o local que se encontrava, pois além de seus olhos arderem com o esforço seu cérebro ainda parecia estar dormindo.

Demorou alguns minutos para que ela conseguisse reunir toda a energia necessária para conseguir erguer seu corpo do sofá, porém o mesmo reagiu dolorosamente á cada movimento feito, como se seus ossos estivessem ao ponto de fraturar caso ela continuasse tentando ficar de pé. Sua respiração se encontrava acelerada e o lençol ao qual cobria seu corpo minutos atrás agora jazia sobre seus pés descalços.

Ela deu alguns passos mantendo as mãos apoiadas na parede, para assim conseguir o equilíbrio e a firmeza necessários para que ela permanecesse de pé. A Latina com dificuldade conseguiu chegar ao corredor onde uma enorme janela se encontrava aberta, assim refletindo assim sua imagem um pouco distorcida.

Sua visão desviou de seu reflexo para seu corpo ao qual não se encontrava mais o vestido que recordava estar trajada em sua ultima lembrança clara. No lugar um moletom vermelho que cobria apenas ate suas coxas tinha estampado um escudo com um leão feroz agarrado as siglas da universidade de Columbia.

O cheiro característico de café e bacon sendo frito invadiu todo o espaço que ela se encontrava, seria quase impossível para ela não identificar o cheiro de bacon após ter sido colega de quarto de Quinn Fabray por tantos anos. Seu estomago revirou descontente fazendo com que suas pernas se movessem involuntariamente em direção aonde deveria ser a cozinha.

Ela tentou reconhecer algo enquanto fazia aquele curto trajeto que lhe parecia familiar, porém não o suficiente para que ela identificasse onde estava. As lembranças da noite anterior não passavam de uma mancha negra vagando em seus pensamentos e a dor em sua cabeça não permitia que ela forçasse sua memória a lhe dar alguma resposta esclarecedora.

'' Como diabos voce consegue estar de pé uma hora dessas Santana?''

O tom surpreso juntamente com os cabelos ruivos se voltou para ela que ainda permanecia com uma enorme interrogação na expressão em seu rosto que assim se manteve por mais alguns segundos, assim como a ausência de palavras de sua parte.

A ruiva se voltou novamente à cafeteira da qual se virou juntamente com uma xícara completamente cheia do liquido fumegante em mãos a qual rapidamente entregou a cirurgiã que agora se escorava no balcão próximo ao armário para manter seu equilibrio.

O silencio reinou no cômodo sendo cortado apenas pelos olhares de reconhecimento que Santana direcionava a ruiva que terminava de preparar o café da manha.

'' Como eu vim parar aqui Liz?'' As palavras foram ao encontro da fisioterapeuta juntamente com a xícara já vazia, Santana já parecia um pouco mais sóbria e disposta a dialogar.

'' Eu estava esperando voce acordar para me responder, afinal ontem voce estava bêbada demais para falar algo que não fosse sobre suas experiências escolares. ''

A Latina arqueou uma sobrancelha aos escutar aquelas palavras se amaldiçoando por ser tão inconsequente e impulsiva. Ela estava chateada com tantas surpresas e aquelas coincidências infelizes com as quais estava tendo de lidar e ao invés de ter ido para casa na noite anterior é se preciso ter se automedicado ate dormir, ela ficou vagando pela cidade ate chegar naquele apartamento como único destino plausível.

'' Bem, me desculpe Liz, eu realmente não queria te incomodar com meus delírios alcoólicos, espero não ter sido um incômodo muito grande. ''

'' Não, esta tudo bem! Pra falar a verdade eu sempre quis desvendar um pouco do passado misterioso que voce nunca quis contar e devo concordar com todas as vezes que voce me afirmou que ele era uma verdadeira loucura. ''

'' Eu disse que não tinha muito do que me orgulhar do passado ou grandes historias emocionantes para contar, foram apenas alguns fatos e momentos um pouco melodramáticos sem nada de muito interessante. '' Seu tom de voz estava grave devido o pequeno nó que havia se formado em sua garganta, sua respiração estava acelerada e a dor em sua cabeça parecia ter se atenuado. Ela desviou o olhar para o chão se sentido extremamente desprotegida e vulnerável perto de alguém que agora sabia toda a sua dolorosa jornada. Pois algumas historias como as sua não eram feitas para serem compartilhadas.

'' Voce só pode estar de brincadeira, certo? Voce era a líder de torcida rica que fingia ser a vadia do subúrbio sem sentimentos apenas para que ninguém tivesse a coragem de desconfiar que voce na verdade era uma lesbica erudita apaixonada pela sua melhor amiga, ao qual evoluiu para amiga com benefícios para então se tornar sua namorada. Voce a amava de uma forma tão grande que iria chegar ao ponto de desistir de Yale para ir para Los Angeles com ela. Mas ela te chutou antes de voce dar essa noticia, e agora ela estar aqui em Nova York depois de nove anos como mãe solteira, morando em um apartamento em frente ao seu e mesmo tendo te destruído completamente voce nunca deixou de ama-la por isso esta fugindo. Ou seja, desculpe, mas seu passado é tudo menos desinteressante querida!''

A ruiva respirou profundamente após seu monologo para recuperar o enorme fôlego gasto antes de tomar um gole do liquido da xícara que tinha acabado de servir para si. A Latina arqueou novamente uma sobrancelha enquanto Liz a fintava com um sorriso debochado.

'' Tudo bem, eu confesso que não tive a juventude mais normal do mundo, mas acredite eu tenho amigas com o passado muito mais confuso que o meu. '' Ela deixou a afirmação pairando no ar enquanto se voltava a uma cadeira próxima ao balcão sem deixar de pensar brevemente na historia de Quinn e Rachel.

A ruiva pegou o recipiente com café é o prato com bacon e ovos e os levou para o balcão da cozinha deixando-o em frente a Santana, que já olhava para o conjunto sentindo a seu estomago agradecer pela hospitalidade. O silencio se arrastou outra vez por outros breves minutos aos quais a Latina parecia muito mais concentrada em seu café da manha do que nos olhares interrogativos de Liz.

'' Qual é Lopez, não é como se agente nunca tivesse transado ou algo do tipo e nos conhecemos desde que voce chegou à Nova York, por isso não precisa ficar envergonhada por estar tento essa conversa, afinal nesse momento voce precisa desesperadamente desabafar com alguém. ''

Santana ainda a fintava na defensiva, ela nunca foi do tipo que se abre com as pessoas com facilidade, mas naquele momento era como se ela fosse explodir a qualquer momento se não conversasse com alguém sobre toda aquela loucura. Sua primeira e única opção para aquela conversa sempre foi Quinn, mas os flashes da briga das duas na noite passada era a ultima coisa que conseguia lembrar com convicção é também um dos motivos que a deixava ainda mais irritada.

'' Olha, eu só não sei o que fazer, ok? '' Sua voz saiu arranhada como se estivesse se o ato de falar lhe proporcionasse dor naquele momento, e de certa forma era verdade.

'' Durante todo esse tempo, mesmo totalmente perdida, ao menos eu tinha a consciência de que poderia confiar em mim mesma para guiar meu atos a fazer as coisas pelo jeito certo, só que no momento em que eu a revi, tudo perdeu o sentido outra vez. Agora meu próprio corpo está dividido e eu não sei o que devo escutar. ''

'' A única maneira de voce conseguir escutar á si mesma será primeiramente deixando que ela se explique com voce. Seus sentimentos só conseguirão te mostrar o certo quando á sua razão receber as respostas necessárias. '' A fisioterapeuta lhe oferecia um olhar que tentava lhe oferecer força para continuar, porém mesmo tendo a melhor das intenções para com ela, ainda sim não conseguiu derrubar o pouco das defesas que a Latina insistia em manter entre as duas.

A morena desviou novamente o olhar para o seu prato, agora vazio, tentando novamente reunir coragem para continuar aquela conversa. Pois seu peito implorava para que desse o assunto como encerrado e parasse de remexer em tantas feridas e lembranças amargas.

'' Bem, por muito tempo a coisa que eu mais quis foi saber a verdade, saber por que ela tinha mentido todas as vezes que tinha se declarado pra mim, saber onde eu tinha errado em toda a nossa historia ou se poderia ter sido diferente e depois de muito me perguntar isso, eu acabei percebendo que eu prefiro não saber.''

Seus pés voltaram a tocar o chão e novamente ela se viu tentando fugir de tudo, ela não sabia exatamente para onde iria somente que não queria continuar aquela conversa. Porém antes que desse de costas para sua anfitriã sentiu uma aperto firme em seu antebraço, a impedindo de continuar sua trajetória.

'' Santana, eu sei que esta sendo difícil enfrentar toda essa loucura, mas voce só conseguirá dar um fim á sua dor quando não deixar o seu medo te dominar! ''

Ela se desvencilhou da mão da ruiva e se voltou para ela uma ultima vez com o tom de voz já alterado pelas lagrimas finas que não tinha conseguido evitado de saírem de seus olhos.

'' Eu não posso saber a verdade. E não é por que eu tenho medo e sim por que no momento que eu souber de tudo e o mundo desabar outra vez, eu não sei se ainda conseguirei superar. '' Suas pernas fraquejaram outra vez e após sentir sua garganta arder com as palavras que soaram altas e fora de controle, ela se viu novamente sentada fitando o prato vazio com resquícios de óleo. Porém agora seu corpo se sentia mais leve, como se sua declaração tivesse tirado um peso enorme de seus ombros causado por toda a negação que ela vinha se submetendo.

As lagrimas que banhavam seu rosto aumentaram de volume fazendo com que ela sentisse a enorme necessidade de correr para que não fosse preciso exteriorizar sua fragilidade na frente da fisioterapeuta. Mas não foi preciso, pois a mesma agora segurava firme a sua mão e apoiava seu corpo com firmeza em uma afirmação muda de que ela estava segura, podia confiar nela é que não estava sozinha naquela loucura.

(...)