Era dia de treino, por isso Rachel aproveitou a carona de Santana uma vez que as pessoas estranhariam menos em ver as duas juntas na escola. Cheerios treinavam quatro vezes por semana, atletas em temporada competição tinham um calendário específico. Alunos que apenas integravam as equipes tinham o compromisso de aparecer de duas a três vezes por semana, dependendo do esporte e do treinador. Atletismo era três vezes por semana e Rachel, por enquanto, era só parte do time.
"Está um gelo!" – Rachel reclamou assim que colocou o uniforme de treino já no vestiário.
Algumas cheerios estavam por perto entretidas em pequenas fofocas e Santana revirou os olhos para elas. Tinha idéia do que estava em pauta e a "inesperada amizade" entre ela e a dia era um dos assuntos.
"Estamos no final de outubro. O que esperava, hobbit?"
"Treinos pela tarde, quando há sol e está mais quente."
Brittany entrou no vestiário já no uniforme vermelho e branco. Tinha um enorme sorriso estampado no rosto e desejou bom dia até para os armários. Beijou Santana no rosto e deu um abraço em Rachel.
"Teve uma boa noite, Brittany?" – Kate, a cheerio dedo-duro, disse com malícia.
"A melhor!" – Santana abriu o armário e pegou uma toalha para disfarçar o rubor que o rosto fechado não conseguia conter.
"Quem é a vítima da vez?"
"Matt!" – Rachel quase aplaudiu a esperteza da colega. Matt era um ótimo beard porque estudava em outra escola, ainda assim era bem lembrado em McKinley.
"Matt Rutherford?" – Kate ficou quase impressionada – "Pobre, mas com certo charme. Não sabia que você curtia um lance inter-racial. Que coragem a sua..." – Brittany não entendeu a insinuação. Não olhava as pessoas como se elas tivessem classificações na testa – "Tem certeza que ele não está contigo porque você é filha de parlamentar?"
Santana resmungou. Era Matt quem Kate se referia, mas era um detalhe que também poderia ser aplicado a ela e Brittany caso o relacionamento das duas acontecesse em público. A sociedade de Ohio não proibia, mas desestimulava relações inter-raciais. A mistura era vista como um ato liberalista. Os mestiços representavam uma minoria e tinham dificuldades em se integrar nos nichos cada vez mais fechados. Santana era um exemplo. Se não fosse a atitude, ela, uma mestiça com predominância de traços latino-americanos de família com situação econômica modesta, seria uma ninguém.
"As pessoas se gostam independente de títulos ou rótulos" – Rachel resmungou mais alto, provocando aproximação perigosa da cheerio. Santana ficou em alerta, pronta para interferir como segunda no comando do esquadrão.
"Mantenha-se no seu lugar, perdedora."
"Fica na sua, Kate" – Santana alertou com voz seca e baixa. A cheerio entendeu o perigo e se afastou. Santana encarou a amiga menor – "Não está na hora de você ir correr, Rachel?"
Quinn chegou com cara de poucos amigos. Sem dirigir uma palavra que fosse às meninas, abriu o armário e praticamente socou a mochila dentro do armário. Logo ela que era considerada uma pessoa de organização impecável. Atributo quase tão famoso quanto o orgulho e a posição social. Santana era a única que tinha boas pistas sobre o que acontecia com Quinn por isso decidiu que talvez seria o momento de ter uma conversa em particular com a colega. Mas não ali com tantos pares de olhos observadores, alguns loucos para disseminar fofocas.
"Q, você acharia ruim se Brit comandasse o treino hoje? É só treino de rotinas para os jogos! Preciso falar uma coisa contigo e tenho certeza que a treinadora vai entender" – sugerindo que era ela quem tinha um problema, Santana preservava o orgulho da colega diante de algumas cheerios, principalmente de Kate, a maior opositora de Quinn, que não escondia querer a posição de capitã.
"Claro... eu estou aqui para ouvir também."
As duas saíram do vestiário. Brittany e Rachel se olharam. O que poderiam fazer? Seguiram para o campo de futebol. A equipe de atletismo praticamente só usava a pista em volta do gramado e as caixas de areia para os saltos em distância. Enquanto Rachel se uniu às atletas de equipe, Brittany começou a organizar as garotas no centro do gramado. Era o tipo de agenda que Sue Sylvester nem se incomodava em aparecer. No máximo, espiava das arquibancadas no final dos treinos para ver se todas estavam presentes.
Rachel fez o alongamento, deu três voltas na pista numa corrida leve, com o fim de se aquecer. Depois começou os treinos mais fortes. A técnica estava mesmo disposta a colocá-la no salto com vara. Não havia outra pessoa da equipe modesta com o físico e o interesse para tal modalidade. Isso significava que existia certo entusiasmo em relação a Rachel na equipe. Começou com viradas e quedas. Virar tinha sua dificuldade. A queda no colchão era a parte fácil. Quando parou para beber água, viu Quinn e Santana entrando no campo de futebol. Em vez de participar das rotinas, optaram por correr pelo gramado. Rachel olhou para as duas e não podia negar que estava curiosa.
Sempre que a treinadora liberava os atletas, Rachel enrolava pelo menos mais dez minutos para evitar o esquadrão de cheerios nos vestiários ou, pelo menos, a maioria delas. A exceção era a quarta-feira, quando o esquadrão não treinava. No mais, essa era a nova rotina. Apesar dos cuidados, reencontrou Santana e Quinn. As duas ainda estavam no chuveiro enquanto algumas outras cheerios já se vestiam para as classes. Brittany já tinha saído. Rachel acenou para as companheiras de equipe que também se arrumavam e foi tomar a chuveirada. Pegou a nécessaire no armário, a toalha, trancou para evitar trotes e entrou no chuveiro. Procurou o mais distante das cheerios líderes. Não por Santana, só não gostaria de ser acusada por Quinn de tentar ouvir a conversa alheia ou por tentativa de assalto sexual.
Lavou-se rapidamente. Era o tempo de passar o sabonete pelo corpo e tirar o suor. Não gostava de lavar o cabelo. Preferia fazê-lo em casa onde tinha tempo e liberdade para fazer a forma de higienização que lhe dava mais prazer. Enrolou a toalha no corpo e procurou se vestir rapidamente. Santana e Quinn faziam o mesmo, a diferença é que não aparentavam ter pressa.
"Rachel" – o tom na voz de Santana era sério. A diva olhou para as cheerios e só então reparou bem em Quinn. Ela tinha hematomas no pescoço, no rosto e nos pulsos – "Senta!"
"Talvez se você me pedisse com um pouco mais de educação..." – Rachel disse com o ar petulante que lhe era característico sempre que confrontava as cheerios na escola. Não teve o tempo de completar a frase.
"Eu disse... senta!" – Santana reiterou e provocou uma sobrancelha erguida de Quinn. Rachel dobrou a toalha, colocou-a no banco e sentou-se de frente para as duas cheerios. Entendeu que Santana estava falando como líder – "Eu sei que falei ontem sobre a folga. Mas surgiu essa emergência e preciso que você faça um grande favor. Eu vou viajar logo depois da aula, nem vou participar do coral hoje, e só volto domingo à noite. Talvez segunda pela manhã..." – fez uma pausa e Rachel gesticulou para assegurar que entendia a parte da viagem. Era a tal obrigação com os correios – "Quinn vai passar este tempo lá em casa. Vai dormir no antigo quarto do meu irmão. O problema é que ela não conhece meus pais ou meu endereço. Queria saber se é possível você levá-la até lá e ficar com ela até os meus pais chegarem? Eles trabalham fora o dia todo e seria bom que encontrassem pelo menos um rosto conhecido."
"Isso é um favor?" – Rachel quis se assegurar.
"É um favor" – Santana confirmou – "Eu vou telefonar para os meus pais e explicar. Eles vão chegar em casa mais ou menos por dentro do problema e você só teria de se preocupar em fazer as apresentações. Fique à vontade para pedir uma carona para o meu pai... ou mesmo Quinn. Ou durma lá em casa se quiser. É contigo."
"Vou poder saber o que se passa?" – Rachel cruzou os braços.
"Isso já não é comigo" – Santana encarou Quinn, que imediatamente abaixou a cabeça. Rachel sabia que essa seria uma ótima oportunidade para saciar curiosidades.
"Ok... mas com uma condição" – ela gesticulou a Santana. Fez um quadrado no ar com os dedos. Em seguida, com uma das mãos, simulou algo que lembrava um telhado curvo. Santana revirou os olhos e coçou a cabeça. Quinn estava começando a ficar incomodada com a quantidade de frases pela metade e mensagens internas. Era ruim ficar no escuro daquela forma, mesmo sendo ela a pessoa
"Feito! Mas não abuse."
Rachel sorriu do melhor jeito diva.
"Quinn Fabray, eu espero você após o coral."
Quinn se limitou a acenar. Não estava gostando de forma alguma daquela situação. Ser ajudada por Rachel Berry? Fim do mundo.
"Essa é a sua solução?" – Quinn resmungou tão logo Rachel deixou os vestiários – "Eu estou ferrada!"
"Rachel é uma boa pessoa... fica até agradável depois que você se acostuma" – Santana levantou-se e começou a arrumar as coisas dela.
"E quanto tempo leva isso?"
Santana não respondeu. Preferiu segurar uma gargalhada quase que ensandecida para não apavorar a amiga. O sorriso no rosto não foi evitado para desespero de Quinn. Era verdade que Santana gostava muito de Rachel. Sabia que podia confiar a vida se fosse preciso. Mas o processo até chegar neste ponto não foi fácil nem para Santana se acostumar com os arroubos temperamentais da comandada e nem para Rachel se habituar à figura autoritária e pouco amistosa da líder. Sobretudo uma que tinha a mesma idade e um histórico de confrontos.
Rachel ainda enfrentava o resquício dos olhares do dia anterior. Eram menos, para o conforto dela. A novidade havia passado e logo os alunos de William McKinley estavam preocupados com os próprios problemas, ou atentos para o próximo escândalo, como era o caso dos alunos que participavam da coluna de fofocas do jornal. Sam foi o primeiro a se aproximar da amiga. Inclinou-se para beijar a diva no rosto, e foi correspondido por um bom dia amistoso. Mas os dois ainda tinham o estranhamento de não saber como se portar em publico. Sam queria segurar a mão de Rachel, mas ela não era a namorada dele... ainda. Rachel queria manter as coisas no patamar platônico por enquanto. Tudo que os dois tinham era um encontro marcado no sábado.
"O sofá te maltratou muito?" – quando Rachel saiu da sede dos botões, Sam ainda dormia.
"Ruim foi aguentar Matt me chutando. Devia ter seguido a sua sugestão de pegar o saco de dormir."
"E as costas? O rosto?"
"Estão..." – Sam ia dizer que estavam melhores do que o esperado quando foi empurrado contra os armários por Karofsky, seguido de um slushie jogado por Puck – "Me explica de novo por que não posso revidar?"
"Porque você iria apanhar mais" – Rachel disse com simplicidade. Sabia que era mais um primeiro horário perdido na escola.
Puxou o amigo até o banheiro feminino. Conferiu primeiro se estava vazio antes de trancar a porta. Ajudou Sam a lavar o rosto e a tirar o açúcar dos longos cabelos sem corte.
"Esse negócio faz o olho arder!" – Sam reclamou.
"Eu sei!"
"Como é que você agüentou esta escola desde o princípio? Este é o meu segundo ano aqui e estou pedindo pelo amor de deus para me formar e sair deste inferno."
"Os botões. Você é novato, mas acredite que o fato de a maioria estar junta há anos fez toda diferença."
"Desde quando você é um?"
"Oficialmente? Desde que Santana me convocou no ano de calouro. Ela foi designada a abrir e comandar um círculo apesar da pouquíssima idade. Eu e Matt fomos os primeiros chamados. Os outros chegaram aos poucos. Mas eu sei deste mundo há mais tempo. Quando meus pais foram condenados à morte, foi um botão que me amparou e me deu assistência. Ele conversou com Anna Puckerman e impediu que eu fosse jogada num abrigo do condado."
"Quem é ele?"
"O pai da Brittany. Ele mesmo não poderia me abrigar porque o ato seria considerado uma afronta política contra Russell Fabray, que foi o autor da lei e porque meus pais foram os primeiros a morrer pela mão do Estado por terem uma relação gay estável e uma filha. Na época, ouvia dizer que o governo estava salvando uma inocente, no caso eu, da degradação. Na visão deles, matar os meus pais era um favor" – riu sarcástica em seguida limpou as lágrimas. Falar deste fato triste sempre a emocionava – "Então o senhor Pierce convenceu Anna Puckerman a me abrigar. Ela é só uma pessoa comum, neutra... pelo menos até agora, e freqüentava a mesma sinagoga dos meus pais. Seria perfeito. E foi, de certa forma."
"Se quiser, podemos parar de falar sobre essas coisas..." – Sam limpou uma lágrima no rosto de Rachel.
"Está tudo bem. Às vezes é bom chorar um pouco. Ouvi dizer uma vez que eliminava toxinas do corpo" – riu e chorou.
Sentiu o conforto dos braços de Sam ao redor do corpo dela. E assim os dois permaneceram por um tempo até que Sam passou a mão pelo rosto dela com carinho e o ergueu. O beijo foi suave, calmo. O que surpreendeu Rachel habituada aos lábios duros e gulosos dos meninos que beijou ao longo do tempo. Sam não estava preocupado com as próprias vontades ou com pressa. Mais do que sentir os lábios de Rachel pela primeira vez, ele queria fazê-la se sentir querida e bem. Os dois se separaram e se abraçaram novamente.
"Gosto muito de você, Rach" – Sam disse baixinho.
"E eu estou começando a sentir o mesmo..." – ela falou ainda mais baixinho, mas o suficiente para Sam escutar, o que deu a ele grande esperança – "Acho melhor a gente ir" – ela se afastou e destrancou o banheiro.
Os corredores estavam vazios. Rachel e Sam conseguiram chegar até a biblioteca sem serem pegos pelo inspetor e ali aguardaram a troca de classes.
...
Para a alegria da C. Honda, próximo capítulo será quase todo Rachel e Quinn. :-)
