— Você achava que ia acontecer o que, Mike? – Lucas perguntou depois que Mike explicou tudo que havia acontecido com Hopper minutos antes.

Lucas e Dustin ficaram no porão da casa de Mike, esperando o amigo voltar. Eles não sabiam para onde ele tinha ido, mas acharam melhor esperarem um pouco. E não demorou muito. Logo Mike estava de volta, pálido e assustado. Tinha quase apanhado de Hopper. E ele sabia que não havia acabado. O delegado ainda viria atrás dele e talvez ele iria ficar uma semana sem falar com Eleven. Que Deus ajudasse Hopper a ter pena dele!

— Eu não sei! – o garoto exclamou irritado. – Eu só queria que fosse especial para a Eleven!

— Só porque não é um negócio extraordinário, não quer dizer que não é especial! – Dustin tentou confortar o amigo, mas estava meio irritado. Para ele fora tão fácil a sua primeira vez. Ele não transou com alguém que fosse sua namorada, mas a menina era virgem também e eles resolveram rapidinho. Nada de ficar nessa enrolação e sofrimento de Mike.

— É! – Lucas concordou. – Eu e a Lily combinamos o dia e foi uma situação normal, mesmo assim, muito especial!

— Eu sei! Eu sei! – Mike respirou fundo. – É que as nossas mães estão no meu pé! Eu entendo elas. A El passou por tanta coisa que elas queriam que fosse bem especial!

— Mike, a Eleven te olha como se você tivesse colocado o Sol no céu! Isso já é especial o bastante. Não tem com o que se preocupar! – Lucas lembrou. Somente o fato de Mike existir era o suficiente para Eleven e ela deixava isso bem claro para todos. Só Mike que não parecia entender.

— Mike? – Os três amigos ouviram uma voz fina e baixa vindo das escadas. Era impossível não saber quem era.

— El? – ele respondeu e logo viu a menina segurando um prato cheio de cookies. – Eu não sabia que você viria. – Estava meio nervoso em vê-la num momento tão conflituoso.

— Que bom que estão aqui! – ela disse quando viu os outros dois amigos. – Fizemos cookies!

El estendeu o prato oferecendo para eles. Lucas pegou um cookie meio desconfiado. Ele sabia que El estava ainda aprendendo. Enquanto, Dustin pegou o máximo que sua mão aguentou e colocou alguns nos bolsos.

— Você e a Joyce? – Mike perguntou confuso. Joyce já estava no quinto mês de gravidez, mas por ser velha para ter filhos, ainda enjoava bastante e não aguentava ficar perto da cozinha.

— Não. Eu e a sua mãe. – Eleven respondeu como se fosse óbvio.

— Peraí. Você estava aqui faz tempo? – ele perguntou finalmente entendendo o que acontecia.

Ela assentiu com a cabeça.

— Caramba! Isso tá bom demais! – Dustin já havia comigo todos que tinha pegado, então tirou o prato das mãos de Eleven e começou a comer o resto.

— Realmente, El. – Lucas roubou mais um cookie. – Você se superou! Já pode casar!

Mike corou um pouco, mas El sorriu e envolveu o pescoço do namorado com seus braços.

— Saudades. – Ela o beijou rapidinho, porque foi interrompida.

— TCHAU! – Os meninos gritaram se dirigindo para a porta de trás. Eles ainda não estavam acostumados com Mike e Eleven daquele jeito. Os hormônios queimando de necessidade e ansiedade.

— Valeu pelos cookies, El! – Dustin disse fechando a porta e fugindo com o prato. Bom, não importava. Só havia mais dois mesmo. El só suspirou, porque Mike não tivera a chance de experimentar e ela fizera para ele. Pelo menos se Lucas a havia elogiado, queria dizer que estava bom. Lucas gostava muito de El, mas ela sabia que há uns anos foi diferente e, por isso, as vezes procurava sua garantia.

Quando os dois ficaram sozinhos, Mike se lembrou de como estava fracassando em impressionar Eleven. Ela fora tão rejeitada em sua vida, que ele queria que ela se sentisse o mais amada possível. Ele só não sabia que ele era o suficiente para que ela se sentisse assim.

— Que foi? – El perguntou quando percebeu a expressão de fracasso no rosto do namorado. O garoto deu um grande suspiro.

— Eu estava tentando fazer da nossa primeira vez algo especial, mas descobri que não sou capaz...

Eleven franziu a testa tentando entender o que Mike falava. Conseguiu lembrar-se o que 'primeira vez' queria dizer. Ela não entendia qual era o problema. Eles estavam sozinhos no porão. Por que não podiam simplesmente tirar a roupa e fazer o que tinha que ser feito ali? As pessoas eram muito complicadas para ela.

— Como fazer especial? – ela pensou alto, tentando entendê-lo.

— Primeiro, eu queria que fosse longe das nossas mães! – Mike precisava ficar longe daquelas mulheres. Elas já sabiam demais sobre a vida sexual deles que mal havia começado. E ele rezava para que começasse de verdade um dia.

— Longe? – El franziu ainda mais o cenho, tentando imaginar um lugar. Longe de suas mães e especial. Então algo lhe ocorreu. – Eu sei onde.

— Onde? – ele perguntou surpreso. Como assim de repente ela achara um lugar?

— Amanhã.

Ela deu um selinho nele e saiu pela porta dos fundos.

— El, espera! – Mike foi atrás dela e parou na porta. Ela continuava andando, porém devagar para escutá-lo. – Quer que eu te leve? – Hawkins não era um lugar perigoso para se andar sozinho a noite, mas isso referindo-se a assassinos, estupradores e assaltantes. Quando se tratava de monstros, aí sim havia problema.

— Eu consigo, Mike! – Eleven havia se tornado uma mulher independente. Não precisava mais que Mike estivesse sempre junto dela. Sem contar, que ela claramente se cuidava muito bem sozinha.

Mike respirou fundo. Ele sabia que não podia fazer tudo para ela, mas saber que Eleven não precisava mais tanto dele, não era o melhor sentimento do mundo. Bom, El ainda o adorava. Não tinha com o que se preocupar.

Mike voltou para dentro de casa e sentou-se no seu sofá. Por que ela não pôde dizer para ele naquele momento o lugar que pensara?


Eleven estava na metade do caminho quando encontrou com Hopper. O delegado vinha no sentido contrário de carro.

— Eleven!

— Pai? – Ela chegou mais perto, quando ele parou o carro. – O que faz aqui?

— Estava indo te buscar. – Hopper respondeu e seu tom avisou Eleven de que ele não estava feliz. – Entra no carro.

Ela não hesitou. Não era hora de negar o que Hopper queria, era hora de levar bronca. Depois de dirigirem um pouco em silêncio, Eleven começou a encará-lo, sabendo que o delegado havia algo a dizer. Ele respirou fundo, percebendo os olhares de El.

— Que foi? – Hopper tinha muito o que falar, só não sabia como dizer sem machucar os sentimentos dela. Ele era tão protetor que acabava exagerando as vezes.

— Que foi, digo eu. – El virou seu rosto para a estrada bem a sua frente. Ela sabia que ele não ia se aguentar. Era só esperar.

Alguns segundos se passaram e...

— Você tá proibida de falar com o Mike, El! – Já era de se esperar. Ele sempre dava castigos exagerados.

— Por quê? – El se mostrava bem indiferente e isso irritava Hopper.

— Porque ele foi me pedir para fechar a escola para que vocês pudessem... – Ele não queria dizer a palavra – ...fazer coisas inapropriadas. – Eleven não se impressionou. Era típico do Mike ir aos extremos para agradá-la.

— Você já viu... – ela se referia a Hopper tê-los pegado no quarto dela. – Por que agora?

— Porque há limites, Eleven! – O delegado gaguejava um pouco. Ele precisava fazer algo. Não aguentava mais ver sua filha com o Wheeler. Era difícil aceitar que ela estava crescendo. – Ele tem que entender que não pode pedir e pensar essas coisas!

— Por quê?

— Porque sim! – Hopper deu um murro no volante do carro, assustando a menina. Ela não respondia muito bem a violência – E você ainda por cima estava com ele agora! – Amansou um pouco o tom. Não podia perder a cabeça com Eleven. Não podia assustá-la.

— Não estava com ele! Estava com a mãe dele fazendo cookies! Eu te daria, mas o Dustin comeu todos!

— Você quer mesmo que eu acredite que você estava fazendo cookies com a Sra. Wheeler?! – Eleven deu de ombros. Era a verdade e se Hopper não queria acreditar, era problema dele. As coisas eram simples assim para ela. O delegado suspirou. – Só não deixa o Mike fazer coisas que você não quer, está bem?

— Está bem. – Eleven não entendeu muito bem o que ele queria dizer, mas não queria mais aborrecer Hopper, até porque sobraria para ela no final.

Então, chegaram em casa. Era rápido, uma vez que a cidade era minúscula. Eleven correu toda serelepe para dentro da casa. Hopper sorriu com aquela visão. A menina agia como se a vida fosse só felicidades, porque para ela tudo era muito fácil. El não via o mal no mundo. E doía mostrar para ela que as coisas não eram bem assim, mas Hopper sabia que um dia teria que dizer.

— Will! – Eleven gritou quando viu seu irmão em seu quarto. Ela o abraçou. Eles se davam muito bem. Além de Mike, Will era a pessoa que a menina mais gostava.

— Desculpa estar aqui no seu quarto, mas é que a mamãe está irritante!

Quando Eleven se mudou, a família teve que se adaptar. Will e Jonathan dormiam no mesmo quarto e Eleven no outro que antes pertencia a Will. O antigo quarto de Jonathan ficava mais perto do de Joyce e Hopper e por isso Will conseguia ouvir ela cantarolando sem parar.

— Por quê?

— Mamãe e Hopper transaram hoje e você sabe que quando isso acontece, ela fica super feliz.

Eleven assentiu com a cabeça. Ela não entendia muito bem, mas sabia que de vez em quando, depois que Joyce e Hopper ficavam sozinhos, a mulher começava a cantarolar sem parar. Will e Jonathan sacaram rapidamente o que acontecia, enquanto El pensava que aquilo era simplesmente adorável.

— Tudo bem, Will? – Ela percebeu a inquietação do irmão.

— Ela é minha mãe e tá grávida!

— E?

— E daí que é nojento! Não acredito que eles fizeram mesmo assim! – Will estremeceu só de pensar nas atividades sexuais da sua mãe. Eleven riu, mas sabia que tinha algo a mais. Ela e Will por estarem conectados ao Mundo Invertido, também estavam conectados entre si. Os dois liam um ao outro sem problema algum.

— E o que mais? – Will se sentou na cama de El e ela logo ao seu lado, segurando em seus braços para apoiá-lo.

— Eu tô preocupado com o Jonathan. Não sei se ele sabe o que está fazendo! Tenho medo que saia machucado. – Will sentia que El sabia o que Jonathan estava fazendo. Ela era inocente, mas bem observadora. Tinha certeza de que seu irmão mais velho não estava por aí tirando fotos.

— Ele é adulto. Não tem muito que a gente possa fazer...

— Mas eu queria que tivesse! – Will suspirou. Ele sabia o quanto Jonathan gostava de Nancy. Só não achava que ele se submeteria àquilo para ficar perto dela.

— Vocês dois! – Hopper apontou para os dois adolescentes. – Para cama!

Os dois suspiraram profundamente. Eles passaram por experiências desagradáveis com seus pais, mesmo assim, ter um pai que se importava era difícil demais.

El se lembrou de algo.

— Você sabe o endereço da minha mãe? – Eleven ainda era meio perdida com localizações. Apesar de já ter ido lá somente uma vez, Will se lembrava muito bem.

Will levantou-se e escreveu num papel.

— Pra que você quer? – Hopper sempre a levava lá de bom grado, ela não precisava saber do endereço.

— É pro Mike. – Will entendeu na hora e suspirou. Sua mãe, sua irmã... Ele só desejava não saber daquelas coisas. – Não conta pro papai.

— Ok. Eu vou na Bethany. Não conta pro papai! – Will abriu a janela, pronto para pular para o outro lado. Se ele saísse pela porta da frente, seria notado.

— Fazer... ?

— Não, El! – Will quase caiu. – Nem tudo é sobre sexo! Eu só... queria ver ela.

El entendeu. Quando ficava chateada também gostava de ter Mike por perto. Ela nem se ofendeu com o fato de seu consolo não ter sido o suficiente. Nunca fora muito boa consolando. Mal falava. Era bom mesmo que ele passasse um tempo com Bethany.

Eleven aproveitou que ninguém estava por perto e tomou um banho demorado. Há tempos que não tinha descanso com Joyce sempre passando mal. Não podia ocupar o banheiro por muito tempo, porque a mulher sempre precisava usá-lo. Que Joyce e Hopper transassem mais vezes, amém!

Ela pensou um pouco sobre o que fazer com seus irmãos. Se ajudasse Jonathan, com certeza ajudaria Will. Realmente não era justo que Joyce ficasse preocupada quando seu filho está mais do que salvo. Normalmente ela ligaria para a Nancy e pediria conselhos, mas dessa vez sua conselheira estava envolvida. Ela não sabia o que fazer, mas odiava ver Will daquele jeito. Seu irmão era uma pessoa muito boa e já sofria o bastante por conta do Mundo Invertido. Não merecia aquilo de jeito nenhum. Ele até estava quebrando as regras para conseguir conforto com a sua namorada. Então, uma luz acendeu. E se fosse exatamente com Nancy que ela devia falar?

Eleven deu graças a Deus, quando saiu do banheiro, que ela possuía um telefone em seu quarto. Preocupada em ajustar El em suas vidas, Joyce achou melhor que ela tivesse um telefone por perto se algo acontecesse. Por isso, lá estava El digitando um dos dois únicos números que ela havia decorado, o outro era da casa de Mike. Não queria que seus pais escutassem, porque isso prejudicaria Jonathan, sem contar que ela havia recebido ordens claras para dormir.

Alô?

— Nancy?

El? Está tudo bem? – Nancy sempre pedia para que El ligasse de noite caso precisasse, porque com certeza ela não estaria em nenhuma aula e poderia atender, mas sempre ficava preocupada. Dificilmente a menina ligava para dar notícias boas. Normalmente, ela estava com problema.

— Sim. Preciso falar com você sobre o Jonathan.

Houve uma pausa e El conseguiu escutar Nancy dando um suspiro.

Que tem ele? – Seu tom havia mudado. Não estava mais tão amigável e sim, desconfiada.

— Eu sei que ele está aí – El disse simplesmente, como se não estivesse falando nada demais – Já que você está com o Steve, eu só queria me certificar que não vai machucar o meu irmão.

Ai, El! – Nancy foi pega de surpresa e parecia estar tendo dificuldades para conversar – Eu não vou fazer nada. Só não conte pra ninguém, ok?

Aquele era um tópico delicado para Nancy que também não sabia o que fazer, afinal, eles estavam naquela situação porque ela não conseguia decidir seus sentimentos.

— Ok. – El confiava em Nancy, por isso não a pressionou mais. Aqueles três eram adultos e sabiam o que faziam. Pelo menos, eles estavam avisados.

Silêncio. Nenhuma das duas falou por alguns segundos, esperando que a outra falasse.

Então... – Nancy tentou quebrar a tensão. – Tem algo de bom acontecendo aí? – Perguntou, mesmo que duvidasse muito que algo aconteceria. Os únicos acontecimentos extraordinários naquela cidade eram também perigosos. Era melhor pedir para que nada acontecesse, isso sim.

— Eu e o Mike vamos transar na sexta. – Eleven de novo falava como se fosse algo normal de se falar para qualquer um.

Nancy encolheu ao pensar nas atividades sexuais de seu irmão. Ela realmente não precisava saber.

Q-que coisa boa, El! – Nancy não sabia muito bem como responder àquilo. – Você tem certeza disso?

— Ahammmm.

Ótimo, então usem proteção e não deixa o Mike fazer o que você não quiser, ok? – De novo essa história!

— Ok.

Eu tenho que ir, El! – Alguém parecia tê-la chamado. – Boa sorte!

— Tchau, Nancy.

El conseguiu dormir mais relaxada naquela noite. Nancy e seus namorados já estavam avisados e sabiam que El podia fazer qualquer coisa se eles não a agradassem. Era só questão de tempo.