Durante os acontecimentos no Bosque dos Perdidos, WindBloom sofria com mais mortes misteriosas. Os conselheiros recusavam a admitir que demônios pudessem ser os responsáveis. Yuna tentava argumentar em vão e temia cada vez mais pela cidade.
- Eles não escutam! – exclamava Yuna – Idiotas!
Estava frustrada. Felizmente, não houve ataques em Fuuka. Mikoto e Yafusa faziam rondas e ensinavam as otomes a se defender, os dois tinham livre acesso a todos os lugares e já tinham encontrado alguns Soul Eater em formas humanas, mas Abigail ainda estava escondido.
- Então, ele não está na forma de um aluno. – afirmou Yamada.
Estavam na sala de Yuna discutindo.
- Deve ser de alguém do conselho. – disse Shizuma bebendo seu chá. Questionava-se se Shizuru estava bem sem aquela preciosa bebida.
- Possivelmente. – concordou Yafusa – Natsuki achava que era alguém poderoso na sociedade. Ele disfarçou alguns Soul Eaters de alunos para olhar o que está acontecendo em Fuuka, enquanto ele controla o resto.
- Ele já deve saber que eu estou aqui. – disse Mikoto séria.
- Isso é algo que ele não esperava tão cedo. – interferiu Yamada – Tanto você quanto Kuga na mesma cidade. Muitos demônios já teriam desistido.
- Mas se fosse outro demônio, não estariam as duas aqui. – concluiu Yafusa.
- Mesmo assim... Tenho medo do que vai acontecer de agora em diante. – disse Yuna se sentando.
Yafusa se voltou para Mikoto.
- Consegue ver algo?
Mikoto assentiu e completou:
- Elas ficam mudando, oscilando entre algo bom e algo ruim, mas eu já esperava, afinal a pessoa que Natsuki foi ver tem o poder de alterar destinos. Só vou poder ver claramente quando ela fizer o desejo e pagar o preço.
- Ou seja, estamos no escuro. – disse Yamada suspirando.
Ficaram em silêncio. Cada um imaginando um futuro diferente, se perguntando como seria dali em diante.
Shizuma, não gostando daquela atmosfera, mudou de assunto.
- Mikoto-chan, você pode prever o futuro, não é?
A sacerdotisa assentiu sorrindo.
- Poderia olhar o meu? – perguntou animada.
Yuna suspirou enquanto Yafusa riu. Yamada somente sorriu.
Mikoto a olhou seriamente por um momento, depois abriu um grande sorriso.
- Não se preocupe. Ela vai dizer sim e vocês vão ter alguns problemas com os arranjos, mas no fim vão se decidir. – olhou para Yuna e depois voltou seus olhos para Shizuma – Tudo certo! Hum hum!
Shizuma, corada e com os olhos arregalados, olhava assustada para a garota.
- É de se espantar, não? – disse Yamada rindo. – Eu fiquei assim também quando a testei.
Yuna olhou para Shizuma que desviou o olhar.
- Mas o quê...
Houve mais alguns risos e logo a sala ficou em silêncio.
- Se conseguíssemos conversar com a princesa a sós. – comentou Yuna, mais para si mesma – Eu sei que ela acredita em nós, mas aqueles conselheiros...
- Eu acho o mesmo. – concordou Yamada – Eu vejo como ela me olha. É obvio que deseja fazer diversas perguntas, mas algo a impede.
- Temos que eliminar esse algo então. – disse Shizuma enchendo sua xícara de chá e a bebendo. Os outros presentes recusaram.
Mikoto fechou os olhos. Tentou identificar a princesa e dar uma olhada no futuro dela, mas sabia que não adiantaria muita coisa, afinal o futuro está sempre mudando, as escolhas feitas no presente sempre alteram alguma coisa, portanto tornando a visão do futuro quase inútil.
- Vocês têm razão. – disse Mikoto abrindo os olhos. – Yuna, Yamada conversem com ela, tenho a impressão de que coisas boas vão acontecer.
- Ela raramente está sozinha, Mikoto-chan. – protestou Yuna – É quase impossível.
- Nada é impossível. Hoje a noite, a princesa virá aqui, convide-a para aqui e expliquem para ela tudo. Se precisarem me chamem, eu posso ser mais convincente.
Olhando para Mikoto enquanto ela falava era incrível. Yuna se perguntava de onde essa garota tinha tirado tanta sabedoria. Quando a vira pela primeira vez duvidara de que seria de alguma ajuda, agora via o quanto errada estava. Mas o mais impressionante era a mudança da sacerdotisa, quando estava perto de Tokiha Mai era uma criança, mas quando a situação exigia, ela mudava completamente.
- Certo. Irei ajeitar tudo para que eu tenha uma desculpa para trazê-la aqui.
- Fale que é sobre Arika Yumemiya.
- Arika? – indagou tanto Shizuma quanto a Diretora.
Mikoto assentiu, não tinha a intenção de elaborar, afinal não era papel dela falar nada sobre o relacionamento das duas.
As duas otomes se entreolharam e concordaram.
- Bom, eu gostaria de mostrar algumas coisas para ela se me for permitido.
Mikoto sorriu. Sabia o que Yamada tinha em mente.
-Faça isso! Vai convencê-la, com certeza, mas deixe Yuna falar primeiro.
- Mostrar o quê? – interrompeu a Diretora.
Yamada se aproximou e sussurrou para Yuna o que pretendia.
Shizuma o olhou com irritação. Por que ela não poderia ouvir?
Mikoto e Yafusa riram da expressão da otome.
- Yafusa-san. – chamou a otome em questão – Você acha que Natsuki-san e Shizuru estão bem?
Estava muitíssimo preocupada com a sobrinha.
- Ah, não se preocupe. Tenho certeza de que está tudo bem. – disse Yafusa sorrindo. Claro que não iria relatar para a tia preocupada o que Natsuki mentalmente lhe contou. Ele gostava da sua cabeça bem onde estava.
- Elas já devem estar chegando. – comentou Mikoto. – Eu queria ter ido! – resmungou cruzando os braços.
- Entendo. – comentou Yuna.
Todos os olhos se voltaram para a Diretora e Yamada.
- Acho que vai dar certo. Qualquer coisa poderemos mostrar isso para o conselho também!
- Sim, mas primeiro as primeiras coisas.
- Certo, convenceremos a princesa, depois o conselho.
Os dois sorriram.
-Finalmente parece que estamos chegando a algum lugar, mas tenho minhas dúvidas: Diga-me, se conseguirmos autorização, vai mudar alguma coisa?
Yamada olhou para Yafusa e logo todos fizeram o mesmo.
- Mudará tudo. – o demônio sorriu – Se pudéssemos agir livremente, já teríamos acabado com isso há muito tempo.
A Diretora sorriu aliviada.
- Então que seja assim.
- Me pergunto como Shizuru-san está... - sussurrou Mai.
Haruka, ao seu lado, ouviu e se perguntava a mesma coisa. Estava preocupada com a amiga, mas sabia que Natsuki não deixaria nada acontecer com ela. O professor escrevia algo no quadro, mas a mente das duas estava bem longe.
- Ela deve estar bem. – comentou Haruka – Fujino é dura na pedra!
Mai a olhou confusa.
- Você quer dizer: Dura na queda?
- Foi o que eu disse! Por que está repetindo?
A otome de fogo suspirou e mudou de assunto:
- Neh, Haruka-san, como você sabia sobre caçadores e demônios?
Era uma dúvida que nutria. Tanto ela quanto Shizuru estavam surpresas e assustadas com tudo aquilo que vinha acontecendo, ambas de formas diferentes. Diferente dela, Shizuru realmente estava gostando de se envolver com esse mundo.
- Minha melhor amiga atraia espíritos e demônios. Todo mundo comentava e ela era temida, eu lembro que briguei com quase todas as crianças da nossa escola por que eles ficavam a incomodando. Eles não precisavam implicar com ela, a culpa não era de ninguém.
- Entendo. As pessoas são cruéis. – comentou Mai sentindo pena. Ela imaginava se acontecia a mesma coisa com todos. – O que houve com ela?
- Eu não sei. – respondeu – Eles se mudaram. Ela me disse que iria para uma escola especial de pessoas que nem ela. Eu não queria que ela se mudasse, disse que iria me tornar uma otome muito forte para poder protegê-la, mas ela se foi mesmo assim. Agora eu entendo o porquê, mas na época eu fiquei muito chateada.
- Você é uma boa amiga.
Haruka corou.
- Não é bem assim, eu só não queria que ela se fosse. E antes de ir, ela me disse que iria treinar muito para ser o melhor "Olho" que existe.
- Então,você pesquisou sobre?
- Sim! Por isso que eu treino tanto e por isso que eu tenho que vencer a bubuzuke! Para ser a melhor!
Mai sorriu. Nunca imaginou que Haruka lutava e se esforçava tanto para realizar uma promessa de infância para a melhor amiga. Agora sabia por que ela nunca desistia e por que Shizuru sempre aceitava os desafios da amiga e lutava com tudo que tinha. Haruka nunca aceitaria de outro jeito.
O professor começou a explicar algo, mas novamente nenhuma das duas sabia o quê.
- E Mikoto? – indagou Haruka – Por que ela está atrás de você?
- Se eu soubesse... – suspirou. - Ela só fica me seguindo. Não sei o porquê também e quando pergunto, ela responde: "Mikoto não pode contar ainda. Ele pode ouvir."
- Ele?
- Não sei também. Acho que á o tal Abigail.
- Hum... Eu quero é dar umas belas bafomadas nele!
- Você quis dizer: bofetadas?
- Foi o que eu disse! Por que todo mundo tem a mania de repetir o que eu digo?
Mai bateu de leve em sua própria testa.
Yuuchi Tate bocejou. Estava entediado. O professor continuava falando como se alguém estivesse realmente interessado naquilo. Ultimamente as únicas aulas interessantes eram com o Yafusa e com a pequena Mikoto.
Era já fã declarado de Yafusa. O professor o impressionava e inspirava, queria ser como ele, forte e sábio. E também com uma esposa linda... Olhou para o fundo da sala, onde Mai e Haruka cochichavam e um pensamento tomou conta de sua mente: O quanto Mai era linda! Poderia passar a eternidade a olhando e ele tinha certeza de que se passariam mil anos e ele ainda ficaria surpreso com o quanto ela era linda.
Queria ficar a observando por mais tempo, mas Mai, percebendo alguém a olhando, examinou o resto da sala e seus olhos se encontraram. Prendeu sua respiração e desviou o rosto, seu rosto corado.
O resto da aula prosseguiu tediosamente aos olhos de Tate. E assim que o sinal tocou, sinalizando o inicio do intervalo, ele saiu correndo da sala. A última coisa que queria era o olhar curioso de Mai. Afinal, já a recusara no passado... Não que ele não a quisesse, pelos deuses ele queria! Mas por causa de...
-Onii-chan!
- Shiho.
A garota de cabelos cor de rosa pulou no garoto agarrando-lhe o braço em seguida e o puxando para fora.
- Eu fiz um bentou especialmente para você, afinal é isso que namoradas devem fazer não é?
O rapaz deu um sorriso estranho e concordou. A garota o salvara no passado, ficando ao seu lado nos piores momentos, e agora ele não poderia simplesmente quebrar seu coração de uma forma tão cruel, afinal por causa dela ele ainda tinha um. Então sacrificaria sua felicidade para se certificar de que Shiho fosse feliz.
Mai somente assistiu triste enquanto os dois saiam conversando. Tentou tirar aquilo de sua cabeça, afinal tinha coisas mais interessantes para resolver. Virou-se e foi até Haruka, que gritava com alguns alunos.
Mal sabia que Shiho a olhava satisfeita. Conseguira o que vinha tentando, agora Tate era todo seu. Sorriu e continuou a conversar com seu amado.
- Então, você percebeu também, Mikoto? – indagou Yafusa pensativo.
Os dois estavam na divisa de WindBloom. A luz brilhava no céu estrelado. Ambos perceberam que um "Olho" estava para chegar em WindBloom e foram recebê-la.
Estavam ansiosos. A presença de um Olho indica que Garderobe já sabia do perigo que se espreitava e isso era um bom sinal. Olho e Berseker, juntos, são considerados a dupla mais perigosa entre os caçadores, só trabalhavam em conjunto quando o perigo era demais para ser deixado nas mãos de só um deles. O Olho não teria força o suficiente para destruir a ameaça e o Berseker não faria nada para impedir a ameaça de surgir, decidindo que é mais interessante lutar contra um demônio poderoso do que impedi-lo de surgir. Juntos, o Olho monitoraria o Berseker para ter certeza de que ele não se deixaria levar por sua paixão por lutas.
- Eu acho que agora ele vai suar frio. – comentou Yafusa rindo.
Mikoto não disse nada. Estava no modo "sacerdotisa" e como tal sua prioridade era seu dever.
- Diga-me, Mikoto. O que Abigail quer com Mai? Ela é uma humana normal... O que um demônio poderoso com ele iria querer com ela?
- Para um demônio, Yafusa, você tem a visão muito limitada.
- huh?
- Ele a quer. Isso não é o suficiente para protegê-la?
Yafusa não respondeu, mas não tirou seus olhos da sacerdotisa.
- Você sabe de algo e não quer me falar. Mas você terá! Temos que trabalhar em conjunto, Natsuki precisa saber.
- Ela não precisa saber ainda. – ela o encarou – MEU dever é proteger Mai, já Natsuki tem outra pessoa para se preocupar. Por isso eu vim, para ajudar Natsuki.
- Você fala de Fujino-san?
Mikoto sorriu.
- O que aquela garota tem? – continuou Yafusa.
- Você sabe.
- Eu suspeito, mas não tenho certeza.
Mikoto voltou seu rosto para a estrada.
- Ela está aqui.
Yafusa olhou na mesma direção de Mikoto e viu que uma garota envolta num manto desgastado de cor marrom se aproximava. Seus passos eram lentos, como se não tivesse pressa e, de fato, não tinha. Olhos são conhecidos por sua calma e gentileza.
- Eu me pergunto quem será. – comentou Yafusa.
- Eu acho que sei quem. – respondeu Mikoto abrindo um enorme sorriso infantil.
A pessoa tinha o rosto coberto pelo capuz do manto e assim que se aproximou o suficiente Mikoto saiu correndo e a abraçou com força.
- YUKINO! – gritou.
- Yukino? – indagou Yafusa olhando para a garota abraçando Mikoto – Ah! Eles com certeza sabem que as coisas vão ficar muito feias.
A garota se soltando de Mikoto tirou o capuz e Yafusa sorriu. Yukino ajeitou seus óculos e passou a mão de leve nos cabelos curtos castanhos.
- Ah! Mikoto, Yafusa-san! É um prazer trabalhar com você novamente.
- Eu digo o mesmo, Yukino.
- ATRÁS DE VOCÊ, SHIZURU! – gritou Natsuki enquanto desviava de um demônio.
A otome pulou para o lado, evitando o ataque por pouco. Enquanto a criatura preparava para virar e continuar o ataque, Shizuru o cortou ao meio com um poderoso ataque da sua naginata.
A caçadora abriu um grande sorriso e pressionou o gatilho de sua arma prateada, desintegrando o demônio.
Shizuru suspirou de alivio percebendo que aqueles eram os ú sido atacadas durante todo o dia por diversos demônios e espíritos.
- Acho melhor pararmos por hoje. – disse Natsuki guardando a arma e pegando o estojo de guitarra. - Se continuarmos, mais virão nos atacar e não sei quanto a você, mas eu estou cansada e com fome.
Shizuru somente assentiu e seguiu Natsuki por entre as árvores, ambas pegando gravetos e pedaços de madeira pelo caminho. Chegaram num lugar que a caçadora achou bom para dormirem. Era entre duas árvores enormes que eram rodeadas por arbustos e somente entre elas tinha um espaço no qual elas poderiam dormir.
- Pode colocar o meu saco de dormir ao lado do seu?
- Ara, Natsuki está ansiosa para deitar comigo! – comentou a otome provocando.
Natsuki corou e a fuzilando com o olhar.
- Não fale bobagens, Fujino, e me ajude a arrumar aqui. Não é o melhor lugar para dormir, mas estamos quase lá, então nosso conforto pode ser sacrificado um pouco.
- Aqui é perigoso. Não dá para ver nada ao nosso redor. – comentou estendendo sua colcha de dormir. A de Natsuki estava ao seu lado e estenderia depois da sua.
- Temos duas árvores anciãs aqui, estaremos seguras pela noite. – respondeu juntando as madeiras para fazer uma pequena fogueira.
Shizuru terminou de ajeitar sua manta e olhou pensativa para Natsuki
- Como duas árvores vão nos proteger?
Retirou Duran do coldre e atirou nas madeiras que começaram a pegar fogo. O sol estava se pondo e elas ainda não tinham pego nada para comer.
- São árvores anciãs. – voltou-se para ela – Mas claro que vindo de WindBloom você não saberia sobre isso.
Shizuru sentada respondeu.
- Por que não me explica?
-Explicarei. – suspirou – Mas antes temos que pegar algo para comer. Acha que consegue ficar sozinha por um tempo para que eu consiga pegar alguma coisa?
Shizuru a olhou cética.
- Acho que eu sobrevivo sem ver o rosto lindo da minha Natsuki por um tempo, mas você acha que consegue ficar sem mim? Sem esse sorriso? – apontou para o sorriso que tinha na face.
Natsuki, corada como sempre, gritou com ela e, resmungando, sumiu por entre os arbustos. Shizuru a acompanhou com os olhos ainda rindo.
Estava sozinha pela primeira vez em dias. Já não sabia quanto tempo estava com Natsuki naquela Floresta que parecia infinita. Já vira cada demônios estranhos, tantos espírito cruéis e já matara tanta coisa assustadora que qualquer ser normal estaria doido para sair daquela Floresta.
- Eu acho que não sou normal... – sussurrou para si mesma.
Nunca se sentira tão livre e bem antes. Nunca. Era um sentimento incrível!
- Talvez eu esteja enlouquecendo.
Olhou para uma das árvores e ficou a se perder em pensamentos. Seguravam mãos durante todo o dia, conversavam sobre tudo – Shizuru duvidava que alguém soubesse mais sobre ela do que a professora! – dormiam lado a lado, brincavam e recentemente... A vontade de iniciar qualquer tipo de toque aumentou. De toques de mãos a abraços.
Se não fosse pelos perigos que suas amigas e família enfrentavam em WindBloom Shizuru ficaria feliz em não voltar.
Espreguiçou-se e respirou fundo. Voltou seu olhar para o caminho que Natsuki tinha percorrido.
- Peguei algumas frutas e alguns vegetais e legumes. Esse coelho deve servir também. – ouviu a voz de Natsuki.
A caçadora apareceu pouco depois.
Shizuru sorriu e juntas fizeram o jantar.
Tudo prosseguiu silenciosamente. Até que sentaram uma ao lado da outra, cada uma com sua tigela preenchida da sopa. Não era gostoso, pensava Shizuru, mas dava para comer.
- Então... – a otome quebrou o silêncio – Árvores anciãs?
- Bom... – começou – As árvores são seres vivos e como tais possuem uma alma, como nós. Meu mestre dizia que as almas humanas são diferentes das almas da natureza que é diferente da alma demoníaca e da alma angelical. Ele me ensinou que as árvores são espíritos muito sábios que voltam a terra para ajudar a sustentá-la. Não para aprender, como nós; ou para se redimir, como os demônios nem para protegê-la como os anjos, mas para ajudá-la. Árvores são sempre espíritos bons e gentis, elas guiam espíritos perdidos e protegem aqueles que fazem o bem, ou pelo menos tentam, no meu caso.
- Árvores tendo espíritos? – olhou para a grande árvore anciã. – É um conceito novo.
Natsuki deu um sorriso triste.
- Não, é um conceito antigo, tido como esquecido, por isso temos poucas árvores. Os humanos se esqueceram disso.
Ambas ficaram e silêncio por mais um tempo.
- Ah! – exclamou Natsuki – Estava me esquecendo! Yafusa me disse que sua tia está muito preocupada e que seus pais estavam te ligando, mas ela os despistou dizendo que você estava numa viagem diplomática.
Shizuru riu.
- De certa forma é, não? – continuou a rir.
- Ei, Fujino, de onde você é exatamente?
- Ara, a sensei está interessada de pedir a minha mão em casamento para os meus pais?
- IDIOTA! – corou.
Estavam sentadas de lado, de frente para a outra.
- Eu venho de uma cidadezinha chamada Kyoto. Fica ao norte de WindBloom.
- Já conheci alguém de lá no passado, mas vocês têm um sotaque muito forte, não?
- Sim, nós temos. Mas depois que eu fui para Fuuka eu comecei a mudar meu jeito de falar. Tentando me adaptar.
- Não devia ter feito isso. Sempre gostei do jeito que vocês falam. – admitiu virando o rosto.
- Se é assim... Irei falar sempre do melhor jeito que puder, Natsuki-han.
Natsuki sorriu.
- Faça isso!
Ambas sorriram e continuaram a olhar ao redor.
– Me diga, Natsuki, eu posso fazer um pedido para ela também?
Natsuki terminou a sopa e deixou a tigela de lado.
- Pode sim, mas você não vai.
- Ara? – terminando sua sopa também deixou a tigela de lado.
- Shizuru, você tem que pagar um preço pelo desejo. E eu não vou permitir, simples assim!
- Não foi você que disse que eu tenho que quebrar minhas correntes?
- Foi, mas não as minhas, droga!
A caçadora tinha uma noção do que a garota iria desejar e não iria permitir. Quebrar uma corrente não adianta, seria um desejo desperdiçado, e quebrar todas as correntes exigiria um preço que ela não estava preparada para pagar. Duvidava que alguém se sentiria preparado.
Shizuru ficou um minuto em silêncio pensando sobre a última frase de Natsuki.
- Ara, quer dizer que Natsuki goste que eu fique algemada? Ikezu, não sabia que Natsuki gostava dessas coisas!
Começou a rir.
- Não se preocupe, Natsuki, eu fico algemada por você para sempre!
A Floresta silenciosa foi cortada por um grito:
-IDIOTA!
E gargalhadas seguiram o grito.
Nesse mesmo momento em WindBloom, Yuna, Yamada e a princesa Mashiro estavam no escritório da primeira.
Tentavam usar de todos os argumentos e viam claramente que a princesa concordava. Ela acreditava no que eles diziam.
- Não pode ser humano, princesa. – dizia Yuna – As fotos dos mortos... Nenhum humano por mais deturpado que seja conseguiria deixar um corpo daquela forma ou matar e simplesmente não ser visto, nem por câmeras, nem por testemunhas nem deixando nenhum vestígio, como um fantasma.
Mashiro concordava. Ela vira as fotos, poderia até pensar que um animal pudesse ter feito aquilo, mas nunca um humano.
- Se tiver alguma duvida, permita-me lhe mostrar alguns vídeos e fotos. Posso? – interrompeu Yamada – São imagens e vídeos fortes, mas creio que é necessário.
A princesa assentiu e o informante tirou um pequeno aparelho de seu bolso. Foi até a mesa da Diretora, ligou o computador, e o grande telão apareceu cobrindo as janelas. ( imaginem a sala da Kruguer em Otome).
- Essa é a última luta de Natsuki contra Abigail. É o demônio que estamos enfrentando aqui. Princesa, você deve acreditar depois disso.
A cena começou a rodar. Surpresa e temor tomaram a Diretora e Princesa, essa última engoliu seco.
Afinal, como iriam lidar com aquilo?
