Capítulo 10 – Cuidados

Harry voltou a se vestir com cuidado, observando o medibruxo fechar a maleta que pousara sobre a cama para examiná-lo.

- Então, está tudo ok? – perguntou, incerto, passando a mão de leve no próprio ventre.

- Sim, tudo normal, senhor Potter. – o médico respondeu, sorrindo – Siga as orientações, se cuide, e tudo dará certo.

Harry concordou com a cabeça, seguindo com os olhos Rabastan, que levou o médico até a porta, onde Rodolphus o aguardava para guiá-lo à lareira que o levaria de volta ao hospital.

Seu marido voltou para seu lado, sentando-se sobre a cama e o olhando.

- Ele me proibiu de fumar perto de você. Você sabe há quantos anos eu não obedeço alguém que me manda parar de fumar?

Harry sorriu, tímido.

- Obrigado.

Rabastan não respondeu, somente arrumou melhor os travesseiros de Harry e se encostou ao lado dele, o olhando.

- O que você está pensando de tudo isso? – Harry perguntou, quando o silêncio do homem começou a incomodá-lo.

- Não há muito o que pensar. – Rabastan respondeu, passando os dedos de leve pelo rosto do garoto – A gravidez era esperada, conseqüência do casamento. Eu vou fazer de tudo para que essa criança nasça em segurança, não se preocupe.

- Você quer esse filho?

Rabastan o olhou em silêncio por alguns instantes antes de responder.

- Sim. – ele respirou fundo, puxando Harry de encontro ao seu corpo – Eu nunca quis antes, nunca fui o responsável por dar um herdeiro à família e nunca me relacionei com mulheres para cogitar essa hipótese. Mas se você quer saber se eu vou ignorar que essa criança que você está gerando tem o meu nome, o meu sangue e é, por isso, meu também, não, eu não vou ignorar.

Ele quase conseguiu sentir Harry relaxar em seus braços quando o menino suspirou antes de voltar a perguntar.

- Você nunca pensou que poderia engravidar do Rodolphus? Quero dizer, ele é casado, você é casado, então os dois são férteis. Isso não seria impossível.

- É para evitar isso que ele, depois que a Cristine engravidou, passou a tomar uma poção que o deixa praticamente infértil. Eu sei que há uma margem de risco, ela não é totalmente eficiente, mas tem nos dado segurança.

Harry concordou com a cabeça e os dois ficaram quietos por alguns momentos.

- O que vai acontecer depois do parto da Cristine?

- Eu não sei. Ela quem vai decidir.

Rabastan o abraçou, fazendo-o pousar a cabeça contra seu peito, beijando seus cabelos.

- Você está com medo? – perguntou, baixo.

- Um pouco. – Harry respondeu – Mas não é como se eu nunca tivesse sentido medo antes.

- Não vai ser fácil, Harry.

- Eu sei. Mas eu já passei por coisas piores, e essa vale a pena. – Harry o olhou de lado – Você não precisa ficar me mimando, eu sei me cuidar.

- Sei. – o homem respondeu seco, se levantando e abrindo a janela. Em um gesto rápido, o cigarro estava em sua mão, a tragada rápida e o suspiro acompanhando a fumaça.

Harry se recostou nos travesseiros, olhando em silêncio o outro fumar. Ele podia estar muito enganado quanto a sua leitura dos gestos de Rabastan, mas parecia que o homem estava com mais medo da situação do que ele.

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- Merlin, você está enorme. – a voz do garoto saiu rouca e ele piscou por um momento, bocejando, olhando a garota ao seu lado.

Cristine sorriu, pousando a bandeja sobre a mesa de cabeceira com cuidado.

- Não fale nada ainda, quero ver como você vai ficar daqui a alguns meses.

Harry girou os olhos, rindo em seguida, e se sentou, espiando o que havia na bandeja.

- Não precisava se incomodar. Obrigado.

- Se você ficasse ouvindo aqueles dois resmungando o quanto você não come o tempo todo, veria que não é trabalho algum. – ela apoiou a coluna com as mãos, se sentando na beirada da cama com cuidado, uma mão pousada sobre a barriga proeminente.

- Para quando você está esperando? – ele perguntou, se servindo de torradas e empurrando o leite um pouco mais para longe, o cheiro fazendo seu estômago reagir de forma pouco amigável.

- Para qualquer momento. – ela resmungou – Estou com 37 semanas completas. E parece que ele resolveu crescer tudo de uma vez nos últimos dois meses. Eu estou tão gorda assim?

O tom magoadinho da garota quase fez Harry engasgar ao conter o riso.

- Não, você está linda. – ela o olhou, desconfiada – Sério. Se eu ficar como você no fim da gestação, o que é pouco provável já que meu destino é ficar nessa cama sendo super alimentado, eu sou um homem de sorte. Aliás, você não devia ficar subindo escadas com uma bandeja na mão, devia?

- Embora não pareça, eu sou uma bruxa, senhor Potter, e Rodolphus já me ensinou a levitar coisas. – ela sorriu de lado, baixando um pouco a voz – Mas não conte para ele, ok?

Harry riu.

- Pensei que eles fossem assim só comigo.

- Assim como? Superprotetores, superpreocupados e controladores, com medo de que você quebre no próximo segundo? – Harry concordou com a cabeça, tomando um gole de suco – Ah, espere só, isso é só o começo.

- Eu nunca esperei isso deles. – Harry comentou, arrumando a louça suja de volta na bandeja – Quero dizer...

- Eles fazem o tipo malvadão, não é? Mas acho que é algo a ver com o sentido de família que eles têm. Quero dizer, são os filhos deles. Se, como irmãos, eles se cuidam tanto, imagina como pais.

- É. Tem razão. – Harry a olhou com zelo – Você não sente ciúmes? Assim, ele é seu marido...

- Ele foi meu marido por uma noite, Harry. Cada um precisa seguir seu caminho. Muito antes de você chegar, eu já havia percebido isso.

- Você nunca desejou que fosse diferente?

Ela deu de ombros.

- Talvez. Mas isso nunca foi realmente uma possibilidade. E foi algo que me foi negado de uma forma tão clara e rápida que eu não achei... justo, sabe? Exigir algo assim dele. Ele não precisava de mim.

Harry concordou com a cabeça, se acomodando novamente na cama, ficando em silêncio.

- Você tem sorte, Harry. – a garota disse, arrumando as cobertas sobre o outro e saindo do quarto.

- Talvez. – Harry respondeu para o vazio.

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Dois toques na porta. Um momento de espera. O rangir das dobradiças.

- Está acordado, Harry? – a voz baixa e forte de Rodolphus invadindo o ambiente.

- Sim. – resmungou, sonolento, se sentando na cama.

O homem entrou, acompanhado do irmão. Rodolphus foi até a cama, se sentando ao seu lado, acomodando os travesseiros de forma mais confortável para o garoto se sentar também, mas Rabastan ficou de pé, fitando a lareira acesa ao pé da cama.

- O que houve? – Harry perguntou, atento ao comportamento do marido.

- Nada. – garantiu Rodolphus – Como está se sentindo?

- Com sono a maior parte do tempo. Já está me irritando isso.

- Tem comido?

- Um pouco. Eu estou meio enjoado.

- Teve mais ânsia?

- Não. Não cheguei a esse ponto. Rodolphus, – Harry o interrompeu antes da próxima pergunta – eu estou bem, ok?

O homem sorriu de leve, concordando com a cabeça.

- Está disposto a receber sua amiga? Ela está hospedada na mansão há dois dias para falar com você.

- Mas se não quiser, não precisa recebê-la. – Rabastan falou, sério, e havia algo em sua expressão que indicava algum incômodo com a situação.

Rodolphus se permitiu sorrir de leve ao ver o sorriso que iluminou o rosto do garoto.

- Eu vou chamá-la. – disse, se levantando e indo abrir a porta.

Hermione, que aparentemente aguardava do lado de fora, olhou o quarto com alguma reserva antes de entrar, devagar, sorrindo para Harry na cama, mas olhando de lado para os dois irmãos parados muito próximos ao lado da lareira.

- Você prefere que nós saiamos, Harry? – Rabastan perguntou, sério, ao ver Hermione se aproximar da cama, ainda cautelosa demais.

Harry quase sorriu com a insegurança do homem frente à intimidade que Hermione representava. Ele guiou a menina pela mão, até tê-la sentada na beira da cama que fora ocupada por Rodolphus há segundos, e se voltou para os dois homens.

- Não tem motivo algum para isso, não é como se houvesse alguma coisa que eu queira esconder de vocês. Mas acho que Mione pode se sentir mais à vontade.

Rodolphus disse algo próximo ao ouvido do irmão e os dois se retiraram, fechando a porta do aposento, que Hermione ainda olhou por alguns segundos antes de suspirar e se voltar para Harry.

- Você pode falar o que for, mas eles ainda me dão arrepios. – disse, se encolhendo como que para ilustrar o que dizia. Harry sorriu.

- Eles não são como a gente via, Mione. É diferente.

- Por Merlin, Harry, como você veio parar aqui? Com eles?

- Um tiro no escuro para resolver aquele lance do casamento? – Harry arriscou, dando de ombros.

- Eu me lembro de ter te aconselhado a deixar isso de lado um tempo. E o que você faz? Se casa com um desconhecido! Harry, ele era um comensal! E agora você está grávido! Dele!

Ela parecia desesperada com a situação. Harry balançou a cabeça de leve em negação e pegou as mãos da amiga entre as suas.

- Mione, eu não poderia estar melhor. – disse, sério, e fez um sinal para que ela não o interrompesse quando sua boca se abriu pronta para um novo protesto – Me escute. É verdade. Em primeiro lugar, você deve se lembrar de como eu estava... perturbado da última vez que conversamos. Perturbado com o fato de ser gay, com o fato de ter rompido com Ginny, com o fato de não querer ter um relacionamento daquela forma com mais ninguém. Eu estava perdido, Mione. Agora eu não estou mais.

Ele fez uma pausa breve ao vê-la encarando-o confusa, como se buscasse em suas feições alguma evidência de que ele estava enfeitiçado ou algo assim.

- Eu comecei um casamento que eu imaginei que era algo superficial o suficiente para preencher a lei e me deixar livre, sem problemas. Eu tive medo? Claro que tive. Como você, eu não conseguia olhar para eles e não ver dois homens que me perseguiram e tentaram me matar. Mas, no tempo que eu estive aqui, nós conversamos e eu entendi que a guerra é muito mais complexa que isso. Eu não os odeio, Mione, e eles demonstraram um carinho e um cuidado por mim que eu nunca tive antes. De ninguém.

- Harry... – ela começou.

- Eu estou bem, Mione. Com eles, eu conquistei alguma coisa que... Que eu ainda não sei definir direito, mas me faz bem. – ele pensou por alguns segundos - Talvez não seja ainda o que eu realmente preciso, mas agora eu sei o que eu quero e o que é isso de que eu tanto preciso. E acho que posso conseguir aqui.

Ela ainda o olhava, atenta, mas sorriu de leve, afastando seus cabelos do rosto em um gesto suave.

- Você parece bem. Mas e esse filho, Harry?

- Eu... – Harry engoliu em seco antes de continuar – Me chame de louco, Mione, mas eu estou realmente feliz por isso. É meu filho, Mione. – ele disse, como quem conta um segredo – Eu nunca tive algo tão meu antes, algo... – ele desviou os olhos dela, brincando com uma dobra na coberta – Algo pelo que continuar.

- Ah, Harry! – ela não se conteve e se inclinou sobre ele, o abraçando.

Harry riu, passando os braços em torno do corpo da garota, e os dois ficaram daquela forma por algum tempo, até Hermione suspirar, se afastando.

- Mas me conte, como está o mundo lá fora?

- Um caos. Você tem idéia do que significou as últimas notícias?

- Eu imagino. – Harry resmungou, se cobrindo melhor.

- Harry. – Hermione chamou sua atenção, o fazendo voltar a olhar para ela, e mordeu os lábios, como em dúvida – Eu realmente não imaginava que diria isso, mas... Se você está mesmo bem aqui, com eles, acho que é melhor ficar aqui. Eu não faço idéia de como eles conseguiram, mas a imprensa ou o governo não pode te perturbar aqui. Eles não deixam. E, pelo que a auror responsável pelo seu caso no hospital nos disse, o médico falou que sua gestação não vai ser fácil. Você vai precisar dessa paz, desse... – ela suspirou – desse conforto que você me disse sentir aqui.

- Eu não pretendo sair, Mione. Não agora.

- Eu tenho medo que você se machuque, Harry. Não pense duas vezes em me chamar, se precisar de mim, ok? – ela disse, séria, para em seguida sorrir – E eu vou tentar explicar tudo para o Ron, mas não prometo muita coisa.

- Mione, - Harry voltou a segurar a mão da garota por cima das cobertas, e acrescentou, sorrindo – eu conto com você. Volte mais aqui, é bom ter alguém com quem conversar. Eles não vão se incomodar, eu garanto. E... – ele hesitou – converse com eles. Eu sei que parece impossível, eles são... complexos, mas tente. Você vai me entender melhor.

Ela concordou com a cabeça e sorriu fraco quando uma lágrima correu por seu rosto. Sentia que, de alguma forma, estava perdendo seu amigo, mas que aquilo não era uma coisa de todo ruim se Harry continuasse com aquela... serenidade.

-:=:-

NA: Oi, pessoas. ^^

Capítulo de conversinhas pondo o mundo no lugar.

E ai, que estão achando do Harry em começo de gravidez?

E eu quero ver o povo do 6v aqui! /o/

Acho que hoje eu coloco as reviews atrasadas em ordem ^^

Beijos