Capítulo 9

Era o trigésimo jogo do campeonato e o West Ham United jogava contra o Chelsea naquele dia. O Queens já estava em fervorosa às três da tarde e James deixava a cerveja esquentar na caneca enquanto os outros entoavam o hino da Green Street Elite.

Algo estava errado. Hoje era dia de London derby, portanto todos sabiam que os Headhunters estariam nas ruas, curiosos para saber quem eram os sobreviventes da torcida do West Ham e ansiosos para acabar logo com o restante dela. Todos sabiam que qualquer time de Londres era rival de qualquer outro time cujo estádio ficasse na capital, logo,um dia de jogo como aquele era, para a maioria, sinal de que era preciso deixar as arquibancadas rapidamente e voltar de taxi para casa.

Todos sabiam de todas essas coisas, especialmente Padfoot. Sirius Black havia vivido aquela loucura por muitos anos e sabia, mais do que qualquer um, que a Green Street Elite estaria nas ruas para esmurrar algumas mandíbulas e, com sorte, trincar algumas costelas dos Headhunters que aparecessem pela frente.

Mas naquele dia em particular James recebera uma mensagem de Sirius muito incomum, e por isso olhava para os pés enquanto marchavam em direção à estação de metrô a caminho de Stamford Bridge, e mantinha-se calado ao lado de Luigi e Benji. Sentiu-se fora de foco, e simplesmente seguiu os outros para as arquibancadas do estádio, olhando para os lados anestesiado.

Embora existisse a possibilidade de que a mensagem fosse de fato significativa, James não sabia como agir diante da verdade que ela implicava. Se o traidor apontado por Padfoot fosse mesmo o responsável pelas desgraças que se assomavam sobre eles, não entendia por que o recado chegava justamente naquele dia, e só depois de tanto tempo. Não sabia se devia esperar por mais um ataque inesperado, por outro plano arquitetado sob seu nariz, ou se aquela mensagem apenas lhe escancarava uma realidade muito dura de se enfrentar.

Pior. Se o nome que Sirius acusava fosse de fato o verdadeiro, o que deduzir do desaparecimento surreal de Lily? O que significava a ruiva ter evaporado sem deixar recado nem razão se não havia sido ela, a própria encarnação do mal, a entregar ao Millwall todos os seus amigos?

Algo estava terrivelmente errado naquele dia cinzento, e James viu-se impotente, nadando em águas turvas, sem saber como chegar à superfície. Não comemorou o único gol de pênalti do West Ham, nem o camisa sete do Chelsea ser expulso. Não xingou o juiz, nem o técnico, nem a defesa ridícula de seu time, que havia deixado o adversário marcar três vezes.

A Green Street Elite seguiu para a saída, ecoando os palavrões que Sam fazia questão de dizer para esquentar os ânimos. Eles já estavam putos com o resultado, e hooligans bêbados e putos juntos podiam explodir em fúria diante de qualquer provocação. Essa era a graça e o tormento de ser parte daquilo que faziam. No entanto, hoje James não se sentia um deles.

Seu estado dormente havia se dissipado e agora estava extremamente alerta. Atentou-se para sinais que normalmente não estaria procurando. Encarava torcedores com a camisa azul por mais tempo que o comum. Apurou os ouvidos para problemas.

Viraram a esquina e viu de relance um pai apressar o filho adolescente a entrar logo no carro. Estavam próximos do viaduto, andando pela rua de paralelepípedos. Estacou, e ergueu o braço direito para impedir Sam de continuar. A rua se estreitava demais na descida, e se seguissem mais alguns passos estariam encurralados no afunilamento e a cena que se seguiu teria terminado em menos de um minuto.

Headhunters alucinados dispararam pela ladeira, vindo de encontro à Green Street Elite. James inspirou fundo e esperou parado, sentindo os músculos se retesarem, mas a cabeça relaxar. Estavam em terreno mais alto e vantajoso, e não foi difícil deixar o pé para o primeiro imbecil tropeçar direto para o punho fechado de Samuel Baker. Socou o próximo na mandíbula e moveu-se para a esquerda, desviando-se de seu braço enfraquecido. Sentiu uma pontada no ombro, mas já esperava o Headhunter seguinte, que recebeu seu punho fechado no estômago. Mas ele era grande, e recuperou-se mais rápido que o esperado, enchendo a mão para acertar James na têmpora, quebrando uma das lentes de seus óculos. Enxugou o sangue do rosto rapidamente e bateu duas, três vezes, usou o cotovelo em seu queixo e o viu desabar.

Olhou para frente novamente e viu um moleque correr em sua direção. Era muito jovem, dezoito anos no máximo, e James resolveu rapidamente com um soco e um chute nos joelhos. Não havia mais ninguém depois do garoto, e James arriscou olhar para trás. A Green Street Elite estava gritando, esmurrando, bufando enquanto tirava sangue dos Headhunters restantes e via seus colegas filhos da puta mancar rua acima para longe deles.

Ninguém sabia que não pegariam a District Line direto para voltar, já que a linha de metrô estaria fechada depois das cinco além deles mesmos. Ninguém sabia que, naquele dia, rumavam para o ponto de ônibus além da própria Green Street Elite e que deviam passar por baixo do viaduto para chegar até ele. Que deviam passar pelo afunilamento da rua e que poderiam ter sido encurralados.

Nunca havia pensado que o traidor ainda pudesse estar entre eles até que sua presença se fez novamente real naquele dia. Enxugou o rosto e soltou o ar, como se houvesse segurado a respiração desde que o primeiro desgraçado apareceu na ladeira. Quando inspirou novamente, sentiu o ar gelado encher os pulmões e cortar-lhe o rosto com o vento. Cerrou os punhos e tencionou a mandíbula involuntariamente.

Moony.