Part 9: Search

As folhas de outono cobriam as ruas da pequena cidade fantasma. O vento frio precedia o inverno e as pessoas passavam rápidas, atoladas em suas roupas pesadas. O grupo seguia por aquelas ruas abordando os moradores que encaravam a friagem.

Mai se sentou num banco do parque central, tomando fôlego. O grupo que Naru ordenou para aquela tarefa era consistido de Bou-san, John, Yasuhara e Mai. Os quatro se dividiram em duplas, chegando á conclusão de que, daquele jeito, cobririam mais terreno e teriam mais informações.

- Estou cansado! - Hoshou reclamou ajeitando-se em seu casaco.

- Onii-san! Só mais um pouco! É pra não dar razão para o Naru reclamar!

- Eu sei... mas quase ninguém sabe da verdadeira história do orfanato. - ele bufou.

- Vamos tomar alguma coisa quente e então voltar ao trabalho. - Mai se levantou, pegando a mão do monge.

- Hai, hai. - enlaçou-a pelos ombros e conduziu a menina até o café, do outro dado da rua. - depois continuamos com essa pesquisa infrutífera.

- Ei! E se perguntarmos para alguém de lá? Alguem deve saber de algo a mais. - sugeriu animada.

- Quando você ficou tão inteligente?

- Ora! - segurou a replica quando entraram no estabelecimento.

Era um lugar aconchegante. Toda a parte da frente era feita de vidro, juntamente com a porta. As mesas eram de pedra clara, contrastando com o verde escuro das cadeiras e da decoração. Havia três atendentes cuidando dos pedidos e dois atrás do balcão negro de mármore branco. O cheiro dos cafés e dos doces atiçavam a fome da menina e o calor do ambiente a aquecia. Pena que teria que voltar ao frio de fora logo mais.

- Bou-san, Mai-chan! Aqui! - Yasuhara apareceu em uma das mesas. - quem diria, hein?

- Tiveram a mesma ideia? - Mai perguntou sentando-se ao lado do padre.

- Está frio lá fora, e nos deram essa dica. - Yasuhara explicou. - conseguiram algo a mais?

- O que ouvimos foi que a diretora e uma das crianças eram gaijin, e que depois de um tempo ela enlouqueceu e envenenou as crianças do orfanato e se matou. - Bou-san disse.

- É a mesma história. Provavelmente é a versão que querem que seja conhecida. Não há detalhes. - John explicou.

- Tem algo a mais... ah, mocinha! Um À Italiana e um chocolate quente. - Bou-san sorriu para a garçonete depois de consultar o cardápio.

- Sim, senhor! - a moça sorriu e se apressou a repassar o pedido.

- Voltando... isso foi tudo o que ouvimos, nada fora disso, mas acho que tem mais coisa por trás.

- Os mais velhos não poderiam nos contar? - Mai sugeriu. - Deve haver alguém que viveu naquela época.

- Tem razão. Mas vai ser muito difícil achar alguem com mais de sessenta anos. - Bou-san praguejou.

- A menos que falem com a pessoa certa. - a garçonete apareceu com o pedido. - todos conhecem a história do orfanato.

- Poderia nos contar?

- Normalmente não contamos a história verdadeira. É muito forte, mesmo para nós. Por isso que viemos reduzindo os fatos. A maioria se obrigou a esquecer. - ela falou. - mas acho que vocês aguentam.

- Qual a verdadeira história?

- Vocês sabem que a diretora era gaijin, e que ela enlouqueceu e envenenou as crianças, certo? - ela parecia estar a ponto de iniciar uma narrativa. - pois bem, o que ninguém contou é que o marido dela era o dono do orfanato e deixou-a, junto com a enteada de treze anos, no comando. E o que pouca gente sabe, é que ela envenenou a maior parte das crianças a mando dele. E as que sobraram eram queimadas vivas, uma a uma, na biblioteca, na presença do dono.

Mai se encolheu ao ouvir a história. Alguma coisa naqueles detalhes era mais que familiar. Deixou a xícara de lado e se enclausurou no casaco, se obrigando a prestar atenção no relato.

- Deixavam as pobres em cárcere no porão e só as libertavam quando iam matá-las. Quando mataram a filha dele, ele sumiu no mundo e ela se matou, se trancou no freezer. - ela engoliu arrepiada. - esse é o resumo, não é bom contar esses detalhes em público.

- Poderia nos contar mais em alguma outra hora? - Yasuhara pediu com um sorriso encantador no rosto.

- Adoraria, mas eu tenho um encontro com meu namorado, e eu só contaria a mesma história que acabei de contar. - ela se justificou e todos seguraram o riso pela decepção do amigo.

- E há alguém que saiba mais coisas? - Bou-san perguntou.

- Sem ser minha finada Obaa-chan? - ela pensou. - vou confirmar.

- O que quer pela informação?

- Quero que apaguem aquela mancha da minha cidade. - ela se afastou , indo falar com o cozinheiro.

A situação estava mais séria do que planejara. Com Youko e Satiko debilitadas, o caso se tonara, batido, o mais complicado que já havia pegado, em tanto tempo de investigação paranormal.

Agora estava sentado numa velha mesa de madeira, numa sala empoeirada da prefeitura, tentando decifrar a escrita daqueles documentos. Mas essa ainda era a parte fácil do trabalho com Lin a seu lado para ajudar. O difícil era o fato de não haver NENHUM documento referente à casa, nem antes ou depois da compra.

Era como se não existisse.

- Alguma coisa? - perguntou, colocando sua pasta de lado.

- Nada. - Lin guardou os documentos no arquivo. - sem algum registro.

- Não vamos encontrar nada aqui. - Masako apareceu na porta. - nem no cartório.

- Devia ter ficado na casa, Hara-san. - Naru falou, se levantado.

- Aquele lugar tem más vibrações. E ficar perto daquelas três me dá arrepios. - ela se justificou, escondendo a boca sob a manga do quimono.

- Por que disse que não encontraremos os documentos, Hara-san?

- Parece que estão todos com Satiko. - Masako anunciou.

Aquela informação grudou em sua mente como uma sirene. Respirou fundo e escondeu sua irritação. De alguma fora, aquela garota faria de tudo para irritá-lo. E se aquela era mesmo a intenção dela, Satiko acabara de ganhar um certo Dr. Oliver Davis furiosíssimo.

- Tem certeza? - perguntou, controlando a voz o máximo que podia.

- Acabei de me informar. - ela voltou a esconder a boca atrás da manga do kimono. - Além do mais, os espíritos daqui disseram que ninguém nunca comprou a casa. Os moradores da cidade se juntaram para destruir aquele lugar. Então chamaram Aiko e Padre Brown para dar um jeito no problema. Mas parece que não saiu como planejado e as outras vieram. Acho que a partir daí é que a mentira delas começa.

- Noll? - Lin chamou ao perceber a alteração do rapaz.

- Vamos voltar. - ele falou controlando-se. - tenho que pegar o depoimento de Satiko. E arrancar o coração dela!

- Sim. - Lin e Masako assentiram e se retiraram junto com o cientista MUITO irritado.

Chegaram em frente á residência com o céu laranja do crepúsculo. A bela mansão em estilo tradicional era mais que imponente. Remetia a grandiosidade da era dos guerreiros de espada. Podia-se ver as cerejeiras erguerem-se do terreno perto do muro. Naquela época estavam perdendo as folhas e o vento ladrilhava as ruas com elas, formando um tapete em tons terrosos.

- Com licença. - ouviu bou-san um pouco á frente. - poderíamos falar com Kurosaki-san?

- Obaa-chan? Não creio que ela possa receber vocês. Aliás, quem são?

- Somos investigadores do Instituto Shibuya de Pesquisa Psíquica. Estamos auxiliando as Irmãs Nakamura no caso do orfanato.

- São vocês? - ela se espantou. - por que vir aqui importunar minha avó com esse assunto? Ela não tem idade para isso!

- Sinto muito, Kurosaki-san. Mas precisamos ouvir sua avó, para concluirmos a investigação.

- Não!

- Ume-chan... - ouviram uma voz rouca e tremida logo depois do portão. - não se exalte com eles. Deixe-os entrar.

- Mas, ojii-chan...

- Ora, ora! Não se preocupe. Sua avó tem esperado que alguém viesse falar com ela sobre isso a anos! - a senhor apareceu no portão. - por favor, entrem! Lhes farei companhia.

- Obrigado, senhor. - Hoshou sorriu ao encarar o velho.

Entraram na propriedade maravilhados. Era uma bela casa, toda em madeira e papel. E o jardim era uma visão á parte. Era uma visão única e indescritível. Não havia como narra-la.

- Por favor, fiquem á vontade. - o velho sorriu. - meu nome é Kurosaki Genzaburo. É um prazer conhece-los.

- Igualmente. Eu sou Takigawa Hoshou, esses são Yasuhara Osamu, Taniyama Mai e John Brown. Representamos o Instituto Shibuya de Pesquisa Psíquica. Gostaríamos de fazer algumas perguntas sobre o orfanato.

- Aquela casa foi o centro do mal naquela época. - ele suspirou. - pobres meninas...

- O que o senhor sabe? - Yasuhara se adiantou.

- Eu ainda não morava aqui na época, mas as notícias corriam. Alguem sempre ouviu de alguém que as crianças do orfanato estavam sendo mortas uma a uma. E que a própria diretora é quem as matava.

- Foi o que ouvimos.

- Ouviram que sobraram apenas cinco meninas?

- Sim.

- E que nem todas foram mortas na biblioteca?

- Não.

- É... apenas duas foram queimadas vivas. As outras três tiveram destinos mais violentos.

- Como?

- Sendo atiradas do penhasco atrás da casa ou sendo caçadas vivas... suicídio depois de dias presas no porão... o maior medo das crianças da época, era perder os pais e serem mandadas para lá. Em um ano, cento e cinco órfãos morreram naquele lugar.

- Cento... e cinco? - Mai balbuciou, sentindo-se enjoar. - horrível...

- Você está bem, Mai? - bou-san perguntou, examinando-a.

- Preciso de ar... - ela sussurrou se levantando. - com licença...

Acompanharam-na com os olhos, enquanto se dirigia ao exterior da casa. Aqueles relatos apontavam em sua mente como agulhas. Alguma coisa neles era familiar. Horrivelmente familiar. Como se fossem lembranças macabras de um tempo em que nunca esteve. O que seria aquilo?

- Vejo que finalmente veio me ver... - ouviu de repente. - estava te esperando, mocinha.

- Me esperando? - encarou a senhora sentada sob a arvore com espanto. Ela parecia familiar.

- Não é você que quer ouvir sobre o orfanato? - ela riu, sem levantar o olhar. - não se assuste. Essa pobre velha cega não vai te machucar.

- Desculpe. - se aproximou devagar e sentou-se, incerta, ao lado da velha. - a senhora sabe algo mais sobre o orfanato?

- Se eu sei? - ela riu. - querida. Não mandaram vocês qui para ouvir as mesmas histórias. De todas, eu fui a única criança a escapar daquele lugar na grande fuga em massa.

- A senhora?

- Não fiquei cega com a idade, mocinha. Aquela mulher tinha uma ótima mira.

- Como...?

- Espero que tenho tempo de me ouvir, menina, pois é uma longa história.