Data: 23/10/2012

Word Prompt: Deadline (Prazo)

Dialogue Flex: "Só mais um," ela disse.

História: Perímetro

Era quase de conhecimento universal que era no silêncio que Uchiha Sasuke se sentia mais confortável e acalentado. Gostava de se encontrar nos próprios pensamentos sem a interrupção de sons que apenas atrapalhavam – especialmente conversas que não necessariamente o distraíam, mas o impediam de ouvir os seus pensamentos com clareza.

Porém, o silêncio agora parecia dedos ao redor da sua garganta. Sasuke sabia que Sakura, apesar de estar cozinhando calada, se coçava para fazer algum comentário ou pergunta sobre a mulher que acabara de entrar na sua casa aos gritos e que, de quebra, ofendeu-a. Era justamente o teor do que poderia sair da boca dela que o inquietava.

Quando anos atrás o adolescente imatura desejava que aquela garotinha se calasse, agora, o que ele mais queria era ouvir a voz dela para passarem por cima deste grande elefante branco sentado no meio da cozinha.

"Sakura."

"Hm?"

Sasuke rolou os olhos. Sabia perfeitamente bem que ela fingia estar distraída na comida que preparava. Se tinha algo que não mudou desde a última vez que se viram era a extremamente falha capacidade dela de mentir.

"Fale alguma coisa," ele ordenou, cruzando os braços e parando ao lado dela.

"Sobre o quê?" ela perguntou inocentemente, sem desviar os olhos da panela.

Sasuke encarou o perfil do rosto dela com o seu olhar de "acha que sou idiota?".

Ela suspirou e desligou o fogão, enfim fitando-o. "Não tenho o que dizer."

"É claro que tem."

Ela se virou e encostou o quadril no balcão. "Você não tem que me dar satisfações sobre a sua vida, muito menos a parte amorosa dela."

"Eu sei que não. Mas está querendo dizer algo. Fale de uma vez."

Sakura deu de ombros. "Não é nada demais... Só estou um pouco surpresa por te ver em um relacionamento com uma mulher."

"Não estou em um relacionamento," ele rebateu imediatamente. Sentia uma necessidade estranha de esclarecer as coisas com Sakura que ele não conseguia compreender – como diversos outros sentimentos que apareceram com a chegada daquela mulher irritante – mas que existia.

Sakura subiu as sobrancelhas. "Se ela brigava com você com tanta intensidade sem estar em um relacionamento, não consigo imaginar como seria se estivesse."

Sasuke deu de ombros.

Eles se encararam por alguns segundos, como se esperasse mais algum comentário. Ele queria ouvi-la dizer o que realmente pensava de Tatsuki, sem saber exatamente por que subitamente prezava a opinião dela; e Sakura procurava uma melhor explicação sobre este relacionamento que não era um relacionamento. Porém, ambos foram decepcionados, pois ninguém desejava revelar os seus genuínos anseios.

Sakura enfim suspirou. "Bem, espero que ela acabe te perdoando depois que eu for embora."

Sasuke nada disse enquanto uma pedra de gelo caía em seu estômago.

Xxxx

Sasuke não sabia o que o levou a acordar no meio da madrugada. Talvez fosse um frio diferente às suas costas onde Sakura deveria estar dormindo, ou talvez fosse puro instinto; a conclusão era que algo anormal fê-lo abrir os olhos, alerta, como se nem estivesse dormindo, sem nenhum motivo aparente horas antes de o sol ameaçar passar por sua janela.

Sentiu-se grato por esta força desconhecida quando virou-se para trás e viu que Sakura não estava deitada ao seu lado. Ele nem sequer precisou ativar o sharingan e procurar a presença dela para saber que ela não estava mais ali.

Sem esperar mais um segundo ele jogou as cobertas para o lado e foi direto para a o conjunto de armas que ele deixava no canto do quarto. A falta de algumas das suas kunais era apenas mais uma comprovação de que Sakura estava fugindo, e uma fúria gigantesca inflamou o seu peito. Com raiva, ele pegou a sua espada – e somente ela, e partiu em busca da sua antiga companheira de Time.

Ele se lembrava de quando era ela quem o perseguia quando ele escapou anos atrás.

Xxxx

Demorou poucos minutos para encontrá-la a apenas poucos quilômetros dos limites da sua propriedade, correndo, mas não rápida o bastante para superar a velocidade sobre-humana dele.

Ele viu claramente quando ela percebeu a presença – quando os ombros dela ficaram mais tensos, e a cabeça dela virou para os lados a fim de achá-lo. Foi neste momento que ele escolheu para pular dos galhos por onde ele saltava para aterrissar a menos de um passo na frente dela.

Com o susto da súbita aparição dele, Sakura tropeçou para trás, instintivamente se afastando dele – mesmo sabendo quem era aquele homem que surgia das sombras – e cairia, não fosse a mão de Sasuke que rapidamente segurou o braço dela e a puxou para perto de si até que os seus peitos se encontrassem.

Quando viu que o sharingan dele estava ativado, Sakura fechou os olhos e virou a cabeça para evitar o contato visual, pois sabia do que aquele kekkei genkai era capaz. Porém, com o máximo de delicadeza possível para não machucá-la, ele agarrou os cabelos da nuca dela, puxando a cabeça para trás para que os seus olhos ficassem no mesmo nível. Ela os manteve determinadamente fechados.

Sakura apenas os abriu quando ele colidiu os lábios contra os dela – apenas uma armadilha para que os seus surpresos olhos arregalados separassem com o sharingan e ela desmaiasse pela segunda vez nos braços dele.

Xxxx

Quando Sakura acordou ao amanhecer estava de volta na cama onde Sasuke imaginava que não devia ter saído, tão furiosa quanto ele ao sair à sua procura.

Ele estava sentado na cadeira onde passou a dormir desde que ela chegara, observando-a com olhos duros que não tiveram o efeito desejado de intimidá-la; pelo contrário, ela os retribui com um igualmente furioso.

"Não tinha o direito de ir atrás de mim," ela vociferou enquanto se erguia da cama.

"Não tenho culpa se você é uma estúpida que pensa que sobreviveria a uma viagem neste estado," ele rebateu, também se levantando.

"Eu já disse que estou bem –"

"Está envenenada e sem chackra."

"Já viajei longas distâncias sem chackra."

"Não com perseguidores querendo-a morta."

Ela estreitou os olhos. "Não tenho perseguidores. Já disse que quem me atacou foram assaltantes nômades –"

"E eu já disse que não acredito," ele a interrompeu, aproximando-se um passo da mulher irada. "Deveria estar me agradecendo por ter salvado a sua vida e, agora, salvado-a da morte."

"Já te agradeci por ter salvado a minha vida," ela disse por entre os dentes. "Mas não o agradecerei por me manter presa enquanto tenho informações de suma importância a serem entregues a Konoha!"

"Mais um motivo para mantê-la aqui."

Ela soltou um arfar indignado e empurrou o peito dele com as duas mãos. "É por isso que não me deixa ir? Está deliberadamente tentando prejudicar Konoha?"

"Pouco me importa o que acontece em Konoha," ele explicou. Mas me importo com o que acontece com você. "Irá para Konoha, mas apenas quando eu julgar devido, pois obviamente a sua capacidade de discernimento está afetada por seu patriotismo desnecessário."

"Quando você julgar devido?" ela gritou, contrariada. "O que sabe sobre mim, Sasuke? O que sabe sobre a minha capacidade em qualquer sentido?"

"Sei que Konoha não desabará se reservar alguns dias para sua recuperação."

"Eu tenho um prazo para estar lá," ela explicou, impaciente. "Prazo este que já passou por conta desta sua estúpida e súbita preocupação com o meu bem-estar!"

As mãos dele se fecharam em punhos. "Não estou minimamente preocupado com você."

"Então me deixará ir."

"Não."

Com os dentes cerrados, ela soltou um grito estrangulado. "Você não está fazendo sentido!" Ela respirou fundo e passou uma mão pelos cabelos, frustrada. "Em todos esses anos que nos conhecemos, as únicas vezes em que teve a decência de olhar para mim foi para me criticar. Por que justamente agora está agindo de maneira diferente?"

Sasuke levantou uma sobrancelha. "Prefere que eu te chame de idiota e ofensas do tipo? Saiba que terei o maior prazer em fazê-lo. Posso começar por te chamar de ladra, já que fugia com o meu dinheiro, minhas armas e a minha roupa."

Ela olhou feio para ele. "Irei embora daqui, agora, nem que eu tenha que passar por cima de você."

Ele sorriu debochado com o canto da boca. "Acabaria apenas se envergonhando."

Ele não tinha sorrido para ela em nenhum momento neste novo reencontro e, quando o fez, debochava dela, enfurecendo-a infinitamente mais. Novamente ela o empurrou – e novamente ele nem se mexeu.

"Você é um cretino," ela disse, batendo no peito dele. "Maldita foi a hora em que eu pisei nessa sua porcaria de casa!"

"Teria morrido se eu não tivesse te ajudado," ele rebateu. "É tão incompetente e fraca que fica a beira da morte após um ataque de assaltantes."

Ele viu a mudança de expressão no rosto dela. Viu como os olhos se encheram de lágrimas e pareciam prestes a soltar fogo, como os lábios foram pressionados um contra o outro, como a respiração dela se acelerou – e, logo depois, ela começou a atacá-lo, batendo no peito e tentando acertar o rosto dele, não com técnicas ninjas, mas com a raiva de uma mulher ofendida.

"Pare com isso," ele disse por entre os dentes, tentando segurar os pequenos punhos que, em vão, tentavam feri-lo. "Vai reabrir os seus pontos!"

Ela não o ouviu. Continuou a bater, mesmo sabendo que ele não sentia praticamente nada. Ele chamava o nome dela tentando fazê-la parar, mas ela estava necessitada demais de descarregar a sua fúria, cansaço e frustração nele.

Quando viu que ela não pararia por vontade própria antes de acabar por danificar ainda mais o ferimento no abdome dela, Sasuke segurou os ombros dela e a empurrou até que as costas dela batessem na parede. Imediatamente ela parou, respirando pesado e encarando-o com olhos tão úmidos quanto as suas bochechas e cabelos bagunçados. A fúria parecia ter sido substituída por uma tristeza, ou decepção que atingiu em fundo algum lugar na barriga de Sasuke.

"Pare com isso," ele murmurou, ainda pressionando-a contra a parede e segurando os ombros dela.

Os rostos estavam tão próximos que Sasuke podia sentir a respiração dela contra o seu queixo. Sem perceber, ele mesmo havia violado a sua própria noção de espaço pessoal, estando mais perto dela do que jamais esteve sem nenhuma outra intenção além da de simplesmente estar perto. Os dedos dela apertavam a camisa dele com força, como se não soubesse se o afastava ou se o puxava.

Ela lambeu os lábios, instantaneamente trazendo os olhos de Sasuke para eles. Aqueles lábios cheios, rosa, mais convidativos do que qualquer outro atributo de qualquer mulher do planeta. Ele não sabia quanto tempo passou olhando-os – ou se Sakura percebeu que ele olhava descaradamente – e apenas perdeu-os de vista quando eles foram em direção aos seus e ele não fez qualquer movimento de se afastar.

Sakura não sabia por que o beijou; não sabia por que não desferiu um tapa na cara dele – como era merecido. Em um momento ela o batia, e no outro, beijava-o e se deleitava por sentir novamente a boca dele contra a sua. Estava totalmente confusa consigo mesma e com as atitudes ainda menos claras de Sasuke, e talvez fosse esta mistura de sentimentos que a fez se atrever a beijá-lo como sempre sonhou.

Afastou-se apenas um milímetro para medir a reação dele. Uma das mãos dele continuava a pressionar o seu ombro contra a parede enquanto a outra apoiava o corpo inclinado dele sobre o seu também na parede. Seus olhos buscava o par de esferas negras, anuviadas, e ela voltou a beijá-lo.

Só mais um, ela disse a si mesma. Só mais um beijo, e voltarei a brigar com ele, para que eu possa voltar a Konoha. Não podia ficar ali; a Vila precisava dela – talvez, mais do que ela precisava de ficar só um pouco mais ao lado de Sasuke. Porém, após a ida dos dedos dele para os seu cabelos e a força com que ele puxava-a para mais perto de si, passando um braço ao redor da sua cintura, ela pensou que esta decisão era muito mais difícil do que ela imaginava.

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