O dia estava quente, a luz do sol estava quente e acompanhada de rajadas de fortes ventos quentes, indícios da vinda de uma tempestade.

Vestia apenas jeans skinny surrados com rasgos no joelhos, esses feitos involuntariamente quando eu acabei caindo uma vez na saída da escola. Eu e o meu jeito atrapalhado que sempre fazia eu tropeçar em meus próprios pés ou nos pés dos outros.

Eu estava limpando a caixa de areia de Kieran, algo nada agradável, quando a campainha tocou, fazendo-me correr para lavar as mãos e ir atender o portão.

Só podia ser Allyson fazendo-me uma visita tão repentina, tanta certeza quase me fez cair para trás quando abri o portão e me deparei com Fabrício. Ele vestia uma regata de academia preta, que deixava a pele branca de suas costas e costelas exposta, e uma bermuda da mesma cor, calçava tênis de corrida em tons escuros. Seus cabelos loiros estavam presos em um penteado que fazia-me lembrar de elfos em filmes e séries que eu assistira, sua pele estava suada por conta do calor.

- Desculpa aparecer do nada - ele fala passando a mão pela nuca - Aproveitei que estava voltando da academia para vir ver como você estava.

- Estou bem - tranquilizo-o no mesmo instante, mesmo que fosse em parte, uma mentira - Entra, você vai torrar aí fora...

Sigo com o garoto para o interior da casa, guiando-o diretamente para a varanda de meu quarto, onde a brisa fresca nos aliviaria do calor.

Fabrício acomoda-se no sofá de couro da varanda enquanto eu lhe buscava um copo de água gelada, para matar sua sede e cessar um pouco do calor.

Quando retorno, ele estava segurando meu exemplar de O Codéx dos Caçadores de Sombras, folheando suas páginas despreocupadamente. Ao me ver, ele repousa o livro sobre a mesinha de madeira que estava diante do sofá e me oferece um sorriso.

- Livro legal - ele comenta pegando o copo de minha mão e tomando toda a água em poucos goles.

- Mas você não veio até aqui para elogiar meu gosto pela leitura, não é - respondo sentando-me no braço do sofá.

- Sim, tem razão - ele passa a mão por seus cabelo e senta-se ereto - Eu estava preocupado com você, não te vi indo embora ontem e hoje acabei faltando na escola, precisava saber como você estava.

- Eu estou melhorando aos poucos, pode-se dizer - falo com um sorriso triste - Decidi ficar um pouco mais no cemitério, mas Lorenzo me deu uma carona para casa.

Ao ouvir o nome, Fabrício não conseguiu disfarçar a surpresa, tampouco o descontentamento que a sucedera. Ele franze o cenho e começa a falar de forma irritadiça.

- Vejo que você e o mauricinho já estão íntimos - ele dispara enquanto me fuzila com o olhar - Ele sequer tem idade para dirigir? Ou acha que o dinheiro pode lhe dar direito de dirigir por aí sem carteira?

- Primeiro, ele não é um mauricinho e segundo, ele já tem dezoito anos sim - respondo de forma direta - Qual o seu problema com ele?

- Apenas tenho o pressentimento de que ele vai causar problemas para nós - ele fala levantando-se do sofá - Aquele tipo todo perfeitinho não me engana, tem algo errado com ele.

- Para mim você está apenas com ciúme - falo irritado com seu pré-julgamento - Estava acostumado a ser o centro das atenções do resto do grupo, para inflar seu ego...

- Eu não tenho motivos para ter ciúme, Danilo - ele fala assumindo repentinamente uma expressão séria, colocando a mão nos bolsos de sua bermuda e encarando-me com o maxilar cerrado.

- Se não tem, para de agir feito um... - sou interrompido quando Fabrício segura meu braço com mais força do que seria necessário, deixando a região dolorida, puxando-me em sua direção.

Meu corpo bate contra seus músculos enquanto nossas bocas se chocam em um beijo bruto, eu estava paralisado de surpresa. Nunca poderia imaginar que Fabrício pudesse beijar algum garoto, afinal, eu tinha certeza de que ele era heterossexual.

Suas mãos soltam meu braço, enquanto uma segura firmemente minha nuca, a outra desce por minhas costas até minha lombar. Sua pele suada molhava a minha, seus beijos haviam descido para meu pescoço enquanto ele me empurrava para dentro do quarto, dando apertos fortes em minhas nadegas. Eu estava entorpecido e deixava-me levar enquanto ele me jogava na cama e retirava sua camisa, exibindo seus músculos.

- Fabrício, você tem certeza... - novamente ele me interrompe, deitando-me na cama e subindo em cima de mim, prendendo meu corpo contra o colchão.

Ele não era carinhoso, era bruto, como se estivesse guardando a vontade de fazer aquilo por tanto tempo que agora, simplesmente explodira de vontade e agira no impulso.

Suas mãos subiam por minhas coxas e minha respiração estava ofegante, quando ele se afasta de mim abruptamente.

Enquanto eu observava-o frustrado e ofegante, Fabrício caminhava de um lado para o outro nervosamente, murmurando consigo mesmo.

- Não, não, não... - ele me olha em pânico e volta a falar rapidamente - Eu não podia ter feito isso.

- É sério que você está fazendo isso? - pergunto constrangido, levantando-me da cama rápido - Você veio até aqui, me beijou e agora fica arrependido como se isso fosse algo horrível...

- Isso foi algo horrível Danilo - ele fita meus olhos, parecia que havia acabado de ver um fantasma - Eu estou arrependido, se meus pais souberem... Você sabe que eles são muito religiosos, eu...

- Você passaria pelo o que eu passei minha vida inteira - falo duramente.

- Eu só vim ver como você estava, me desculpa - ele realmente parecia levemente vulnerável naquele momento.

- Eu estou bem - desvio o olhar do seu antes de voltar a falar - Se era só isso, pode ir embora.

- Você pode falar isso quantas vezes quiser - ele fala baixo aproximando-se de mim - Eu vou continuar sem acreditar... Eu sei que há algo errado com você.

- E como você pode saber se há algo errado comigo - eu podia sentir minha pele esquentar pela raiva - Sendo que você mal fala comigo? Ou você esqueceu que se afastou?

- Seu idiota, eu te conheço a oito anos - Fabrício parecia prestes a me bater - Mesmo não conversando muito com você, eu te conheço a tempo suficiente para saber quando você não está bem.

- Você não sabe de nada. - falo de forma arrogante - Por que não volta a se achar e bancar o "diferente" nas redes sociais, para ver quantas vadias curtem suas publicações?

- Seu idiota - Fabrício fala baixo e caminha em direção à porta - E se você contar para alguém o que aconteceu aqui... - ele não termina a frase, apenas vai embora batendo a porta logo atrás de si.

No mesmo instante em que a porta se fecha, desabo em minha cama, desacreditando dos últimos acontecimentos. Sentia-me usado por Fabrício e estava completamente irritado com sua forma de agir perante aquela situação.

Não havia dúvidas de que ali era o fim de nossa amizade...