Olá.

Aqui está o capítulo 10 da minha estória. Espero que ainda estejam apreciando.

Nosso elfo louro continua desaparecido. Onde estará ele? Mas novos personagens estão surgindo e alguns deles parecem trazer uma sensação ruim para o nosso guardião.

Como eu resolvi adotar o nome Strider para Aragorn e não sua tradução Passolargo, acabei dando aos novos personagens nomes em inglês. Achei que soaria melhor. Me digam o que acharam.

Mais uma vez agradeço as reviews que recebi. Um grande abraço a essas adoráveis escritoras da net que ainda conseguem gentilmente reservar parte de seu tempo precioso para escrever-me palavras de incentivo. Muito obrigada de verdade.

* 10 *

Era o anoitecer do quinto dia quando Aragorn encontrou o acampamento do velho Halbarad que sorriu ao rever o amigo. O guardião reconheceu a clareira onde por diversas vezes acampara com os irmãos. Cavalgando quase sem pensar não tinha notado o quão perto de Rivendell ele estava.

Alguns homens do grupo vieram saudá-lo e outros simplesmente continuaram perto da fogueira. Havia rostos novos na tropa do amigo.

Halbarad tomou Aragorn pelos ombros conduzindo-o para perto do fogo e instruiu um dos rapazes que estava sentado perto da fogueira a cuidar do cavalo do guardião.

"Venha, Strider!" Disse a voz rouca do amigo. "Foi uma longa viagem. Está com fome? Matamos dois cervos e ainda há muita carne".

Aragorn sentou-se perto da fogueira e aceitou o prato e a caneca que lhe ofereceram. Olhando a sua volta tentava reconhecer os rostos em cujas faces o reflexo da fogueira cintilava. Halbarad percebendo a inquietação do amigo foi logo lhe apresentando os novos integrantes que ainda eram desconhecidos para o guardião.

"Estamos em bom número e boa companhia agora, caro amigo Strider." Disse ele apontando para o primeiro homem sentado a sua frente com uma longa barba negra e olhos pequenos, o corpo robusto parecia apertado dentro de um casaco surrado, a cabeça enfiada num chapéu estranho. "Este é o velho Skipper, muito ágil e útil, você verá."

Aragorn moveu a cabeça levemente, mas não sorriu. O outro lhe respondeu com o mesmo gesto.

"Ao lado dele está seu filho, Fowler." Continuou o amigo. "Grande caçador. O pai o super protege um pouco, não é amigo Skipper." Disse Halbarad numa brincadeira um tanto séria a qual o velho não respondeu. "Mas o menino é mesmo muito eficiente mesmo, já nos salvou de muitas situações difíceis e é um dos nossos melhores caçadores. Grande habilidade com as foices."

Aragorn olhou para o rapaz que provavelmente não tinha nada além de seus dezesseis ou dezessete anos. Os cabelos negros e o corpo magro estavam envoltos em um grande xale de lã de carneiro. O menino sorriu-lhe e estendeu-lhe a mão. Seus olhos claros como o céu do meio dia cintilavam para Aragorn como se sentisse muito prazer em vê-lo. O guardião pegou a mão do rapaz com firmeza e retribuiu o sorriso levemente. Não queria desapontar alguém assim tão jovem.

Halbarad também sorriu para o jovem Fowler e dirigiu então o olhar para outros dois homens que conversavam em pé um pouco mais adiante.

"Heron! Hawk! Venham conhecer meu grande amigo Strider."

Os dois homens se aproximaram com um certo receio. Haviam ouvido falar no guardião. Eram muito parecidos, cabelos tom de terra molhada na altura do ombro, extremamente lisos. Hawk tinha os seus presos em parte por uma trança e Heron mantinha os seus soltos, eram ambos esguios e muito altos, seus olhos possuíam uma cor indefinida. Sorriram e estenderam suas mãos para Aragorn que cumprimentou a ambos sem se levantar.

"Heron e Hawk são os olhos do grupo e grandes arqueiros." Declarou o chefe orgulhoso. "É difícil saber quem é o melhor. Vieram da região sul com o pedido de ajuda que mencionei no aviso que lhe mandei. Apesar de muito parecidos não são aparentados." Disse Halbarad sorrindo e olhando para os dois. "Essas raças puras fazem com que seus membros se assemelhem demais."

Aragorn sorriu brevemente e continuou comendo.

"Ah, e temos o jovem Squirell, também grande arqueiro e decifrador de mapas." Lembrou-se ele voltando a cabeça para todos os lados a procura da pessoa que mencionara. "Conhece bem a região e sempre me ajuda quando estou por aqui. Não faz parte do grupo porque não gosta de deixar a família sozinha por muito tempo, ele vive com a mãe e uma irmã, só presta seus serviços para mim quando estou por essa região, mas é mesmo de grande ajuda. Ô Squirrel!" Chamou ele para o rapaz que cuidava do cavalo do guardião. "Ô rapaz! Venha conhecer meu amigo Strider."

Aragorn voltou o rosto para ver o primeiro mercenário do grupo. Ele os conhecia bem. Lutavam em troca de dinheiro, sem nenhuma ideologia. Era um rapaz alto, mas muito magro, trajando um casaco de couro surrado e botas muito velhas. Sua pele tinha um tom esverdeado estranho e seus cabelos estavam presos num gorro escuro que lhe cobria a testa também. O rapaz não deixou o que estava fazendo, limitando-se apenas a oferecer um aceno ao guardião que correspondeu educadamente.

Nenhum parecia uma grande aquisição para o grupo, mas Aragorn não teceu comentário algum. Sabia que logo estariam mortos ou teriam fugido. Era sempre assim, homens entravam no grupo com ilusões de grandeza, buscando serem reconhecidos e louvados um dia, mas quando a batalha sangrenta que nunca tinham visto acontecia de fato, eram as primeiras baixas ou as primeiras deserções.

De repente o jovem Squirrel moveu-se do seu lugar e armou o arco. Havia ouvido alguma coisa. Os demais ficaram de pé rapidamente, pareciam confiar nas habilidades do rapaz. Heron e Hawk tomaram a frente colocando o franzino rapaz atrás deles como se intencionassem protegê-lo. Fowler apanhou suas duas foices e também posicionou-se ao lado deles.

"Deixe que cuidamos disso, Fowler." Disse Heron com seu arco e flecha impecavelmente armados.

Strider mantinha a mão na espada, mas percebeu que Squirrel logo abaixara seu armamento. Teria ele se enganado?

"O que foi, menino?" Halbarad indagou.

O rapaz voltou ao seu trabalho sem responder. Halbarad fez uma careta.

"Ele é meio temperamental." Explicou olhando para Aragorn. "É muito jovem e nunca teve um pai. Mas é um bom rapaz."

Aragorn olhou novamente para a figura no gorro preto que simplesmente continuou a tratar de seu cavalo. Mas Heron e Hawk ainda mantinham os arcos armados, havia algo realmente naquelas matas e isso preocupava o guardião.

"O que é?" Indagou Halbarad para os dois arqueiros que não tiravam os olhos da clareira próxima.

"Elfos de Rivendell" Respondeu Squirrel com um ar de desdém em sua voz, ainda escovando o cavalo de Aragorn.

O guardião não soube explicar o porquê, mas não gostou do tom da resposta do rapaz.

Os arqueiros se entreolharam intrigados, mas baixaram seus arcos, pareciam confiar plenamente no julgamento do menino, embora não confiassem em suas habilidades com o arco.

"Bem, Strider." Disse Halbarad sorrindo. "Se o pequeno ali estiver certo vou deixar a parte diplomática com você. A última conversa que tive com os elfos de Rivendell não foi muito amistosa."

Aragorn riu com a lembrança. A cena que o amigo se recordava era a de Celboril tentando ensinar o velho Halbarad a cantar uma antiga balada élfica atestando que a voz do guardião era a pior coisa que ele já ouvira em todos os seus séculos de vida."

Logo uma pequena patrulha apareceu. Strider levantou-se para saudá-los, mas estagnou-se sem poder se mover quando viu descerem dos dois primeiros cavalos duas figuras a quem ele não via há muitos anos e de quem não imaginava sentir tanta saudade.

Halbarad reconheceu os filhos de Elrond e entendeu a emoção do guardião. Apenas ele conhecia sua história e lamentava ver o amigo ter que viver por baixo de um pano de inúmeras mentiras e contradições.

Elladan e Elrohir também viram o caçula e tiveram a mesma reação. Elladan foi a primeiro a reconhecê-lo e, apoiando uma mão no ombro do irmão, simplesmente parecia não conseguir se mover. Elrohir sorriu levemente. Mas logo os três perceberam onde estavam e, apesar da vontade incrível que tinham de correrem uns para os braços do outro, começaram a encenar a mesma peça que sempre faziam em uma situação dessas.

O grupo se sentou todo diante da fogueira e acenderam cachimbos para os protestos dos elfos que faziam caretas e provocavam os demais. Apenas Squirrel e Fowler não participaram da reunião. O primeiro, depois de terminar o trabalho foi deitar-se em seu saco de dormir, pois aquilo não parecia interessar-lhe. Fowler fez o mesmo, mas porque fora obrigado pelo pai que insistia que ele devia descansar.

A conversa envolveu apenas assuntos muito sérios. O grupo dos guardiões precisava liderar um ataque para recuperar a liberdade de uma aldeia que tinha sido dominada por um grupo do sul de quem ninguém nunca ouvira falar antes. Eles eram muito poderosos e sua fama corria a região. Os guardiões estavam em Rivendell em busca de suprimentos, armas e quem sabe reforços para sua jornada.

Foi então que Aragorn se deu conta de que estava voltando para casa, assim como Gandalf mencionara. Ele pisaria novamente em Rivendell. Não como Estel dessa vez, mas teria a oportunidade de abraçar seu pai e isso alegrava seu coração.

* * *

O grupo ainda viajou dez dias até chegarem a Rivendell. Durante esse tempo Elrohir e Elladan aproveitavam cada oportunidade que tinham para ficarem juntos do irmão e adiantar-lhe tudo o que acontecera durante os anos em que o caçula esteve fora. Aragorn se sentia outra pessoa perto deles. A pessoa que sempre quisera ser. Ele se sentia Estel de novo. Tinha muitas vezes até que tomar algumas precauções, olhando sempre a sua volta para verificar se alguém percebera alguma diferença. Mas tudo corria bem, excetuando o jovem Squirrel que parecia olhá-lo com mais freqüência do que ele gostaria, mas que sempre desviava o olhar quando era encarado pelo guardião. Para Aragorn alguma coisa estava errada com aquele rapaz e não parecia ser algo bom para o grupo. Ele não confiava nele, não confiava em mercenários e normalmente estava certo em seus instintos.

"Quanto paga a ele?" Perguntou a Halbarad emparelhando seu cavalo ao do amigo enquanto eles pegavam o último atalho para Rivendell.

"O quê?" O amigo questionou sem entender.

"Quanto paga a ele?" Repetiu o guardião erguendo levemente o queixo na direção do rapaz que cavalgava um cavalo preto sem olhar para os lados. "Quanto paga ao mercenário?"

Halbarad voltou os olhos para Squirrel e sorriu.

"Esse mercenário salvou nossas vidas tantas vezes que já perdi a conta. Eu pagaria cem vezes o que ele me pede se pudesse, mas lhe garanto que o que posso lhe dar mal lhe dá para o sustento como você mesmo pode perceber se observar como o pobre menino se veste. Ele nem sequer tem um cavalo seu. Eu sempre o deixo cavalgar o Espírito que é o cavalo mais dócil que tenho, o pobre animal manca levemente de uma perna e não é muito rápido.

Aragorn ainda não estava satisfeito. O rapaz tinha algum plano, ele podia sentir. Essa história de "moço bom" não era nada convincente.

Nesse momento, Squirrel voltou seus olhos para os do guardião e percebeu que estava sendo observado. Sem se intimidar ele ergueu o queixo num ar provocador e fez com que o cavalo apressasse um pouco o passo.

Aragorn decididamente não gostava dele.

* * *

Os portões de Rivendell eram a visão mais doce que o guardião já tivera nos últimos anos. Ele e seus irmãos entraram primeiro sendo seguidos pelos outros homens.

Estel sentiu seu coração disparar quando percebeu uma figura de longos cabelos negros esperando na entrada da casa grande.

*Ada*  ele pensou. Sentia um desejo incontrolável de correr para ele, de abraçá-lo e chorar todas as mágoas desses anos em seus ombros. Queria que ele tivesse o poder de transformar tudo no que era há anos atrás.

Os olhares dos dois se encontraram e Elrond sorriu-lhe e colocou a mão sobre o coração. Aragorn não pode conter um sorriso largo, mas conseguiu manter-se calmo e apresentar seus homens ao pai que só se lembrava de Halbarad. Elrond passou os olhos por todos os integrantes do grupo pacientemente cumprimentando-os e sendo especialmente gentil com Fowler, mas demorando-se um pouco mais quando apresentado a Squirrel. Sua testa franziu-se levemente, mas ele continuou cumprimentando os outros homens.

"Bem vindos a Rivendell".Ele disse por fim. "Espero que aceitem serem meus hóspedes e que possamos lhes ser úteis no que for preciso".

"Agradecemos, Lorde Elrond".Respondeu Strider com uma grande reverência.

* * *

Naquela noite Elrond ofereceu um grande banquete aos seus convidados, mas Squirrel não quis participar. Alegou que estava cansado e que dormiria no estábulo com Espírito. Skipper também não queria permitir que Fowler participasse, mas Elrond garantiu-lhe que não havia problema e que eles só cantariam algumas canções e conversariam sobre assuntos banais. Aquela não era uma noite para tristezas, apenas um pouco de descanso e prazer.

E foi o que aconteceu. Eles passaram boa parte da noite ouvindo algumas histórias que Elladan e Elrohir contavam, revezando-se quando um parecesse cansado ou não se lembrasse de algum detalhe, e ouvindo belas canções em sindarim. Fowler que nunca havia visto elfos em sua vida estava encantado e passava o tempo todo olhando a sua volta e fazendo comentários ao pai que sorria levemente. Os demais bebiam e conversavam.

Elrond aproximou-se de Halbarad e Aragorn. O filho lhe deu um sorriso quando o elfo discretamente segurou em seu braço por alguns instantes, ainda não tinham tido tempo para conversarem.

"Onde está aquele rapaz de gorro preto e olhos claros?" Indagou Elrond olhando os presentes na festa como se o estivesse procurando.

Aragorn fez uma ligeira careta que não passou desapercebida pelo pai.

"Squirrel?" Confirmou Halbarad. "Está dormindo no estábulo com os cavalos."

Elrond franziu a testa em desaprovação.

"Mas eu lhes ofereci quartos".

O guardião mais velho sorriu e abanou a cabeça enquanto engolia um pedaço do bolo que estava provando.

"O rapaz é assim mesmo".Assegurou mastigando uma nova mordida. "Não é muito sociável. Na verdade tem um péssimo humor quando pressionado. Como é muito eficiente, eu o deixo fazer o que for possível a sua maneira."

"Qual é a história dele?" Quis saber o nobre elfo.

Aragorn começou a se sentir agitado. Tudo o que menos queria naquele momento era falar sobre aquele mercenário que parecia atrair a atenção e o carinho de todos.

"Mora nas montanhas com uma mãe doente e uma irmã." Iniciou o velho líder abocanhando outro pedaço de bolo e mastigando novamente enquanto falava, o que fez com que o estômago de Elrond desse algumas voltas. Aragorn riu observando o ligeiro mal estar do pai. "Trabalha em troca de algum dinheiro que lhe dou. Strider não gosta dele, mas lhe garanto que é de confiança, pois trabalha para mim há muitos anos. Só não faz parte do grupo porque não quer sair da região por causa da família."

"Ele luta com vocês?" Indagou o elfo.

"Sim! E é um grande arqueiro, tão bom quanto Heron e Hawk, embora os dois digam que ele tem muito que aprender e o fiquem provocando dizendo que ele usa o arco como se fosse uma garota".

Estel soltou uma grande gargalhada quando ouviu a afirmação. Começava a gostar muito de Heron e Hawk.

"O tom de pele dele é muito estranho. Ele não é daqui, é?" Perguntou Aragorn dessa vez. "Você conhece a família dele?".

Halbarad deu de ombros comendo o último pedaço de bolo e o empurrando garganta abaixo com um grande gole de vinho.

"Não sei".Disse o velho humano enxugando a boca com a manga para aumentar mais o mal estar de Elrond. Agora o elfo sabia de onde Estel tinha tirado alguns de seus péssimos hábitos. "Não conheço a família dele. Ele poucas vezes a menciona. Na verdade ele fala muito pouco. Como eu disse ele não gosta de ser pressionado, muito menos interrogado".

Elrond apenas acenou a cabeça em sinal de compreensão e voltou a olhar a sua volta mantendo agora seu olhar nos arqueiros do outro lado do Hall do Fogo.

"E aqueles dois ali?" Indagou.

"Heron e Hawk" Informou o líder do grupo.

Elrond olhou para os dois novamente. Estavam bebendo juntos e conversando. O elfo não pode deixar de notar o quanto olhavam para Elrohir e Elladan.

"Nunca viram elfos em suas vidas?" O lorde arriscou.

Halbarad não entendeu. Aragorn acompanhou o olhar do pai e em poucos minutos compreendeu o propósito da pergunta. Os arqueiros pareciam muito entretidos nos comentários que faziam enquanto olhavam para os dois filhos de Elrond.

Os elfos estavam conversando com o jovem Fowler agora. Elladan ria enquanto Elrohir gesticulava como se descrevesse algo muito grande para o filho de Skipper. Em meio a sua descrição seus olhos encontraram os do pai que discretamente alertou-o que olhasse na direção que ele indicara. O gêmeo mais novo procedeu automaticamente, sem deixar de contar a história que começara, e encontrou os olhares dos dois arqueiros cravados nele maliciosamente. Os homens surpreenderam-se ao serem pegos de surpresa e viraram seus rostos, mas Elrohir continuou encarando-os até terminar a história que contava. Elladan havia acompanhado o olhar do irmão e ficou satisfeito ao perceber que tinham desarmado os arqueiros completamente.

Aragorn e Elrond não puderam conter o riso quando viram o olhar que Elrohir lhes havia oferecido.

"Qual é a história desses dois?" Indagou Strider agora muito interessado.

Halbarad nem tinha notado toda a cena. Estava distraído procurando mais alguma coisa interessante para comer e, para o desespero de Elrond, agora o velho guardião saboreava um grande pedaço de torta de creme com as mãos, lambendo os dedos e manchando a barba.

"Com licença." Disse o lorde elfo saindo graciosamente com uma das mãos na região do estômago.

"Vieram do sul." Disse ele curvando ligeiramente a cabeça para Elrond e dando-lhe passagem enquanto acompanhava os movimentos do elfo, vendo-o sair do hall. "Ele está bem?"

Naquele momento Strider já estava rindo muito encostado na parede. Halbarad não entendeu.

"O que é tão engraçado?" Indagou confuso enquanto ainda lambia os dedos.

* * *

Não havia luz no estábulo, mas a lua cheia oferecia uma claridade muito razoável. Elrond aproximou-se devagar segurando um pequeno lampião em uma das mãos. Quando chegou até a porta percebeu um movimento brusco. Uma figura que estava sentada no chão havia se levantado rapidamente e se encostado num dos cantos como se tivesse se assustado. Os humanos raramente notam a presença dos elfos devido à sutileza de seus movimentos. Quando os conseguem perceber muitas vezes já é tarde.

"Perdoe-me, meu jovem amigo." Disse o elfo tentando reconhecer a figura que agora escondia-se na sombra. "Vim apenas dizer-lhe que não há necessidade de que durma no estábulo com nossos amigos eqüinos. Eu tenho quartos e camas para todos vocês e é um prazer recebê-los aqui."

A figura não se moveu, mas o elfo percebeu que o rapaz parecia ter relaxado um pouco os ombros, talvez se recuperando do susto que levara.

"Agradeço." Veio uma voz firme da escuridão. "Mas ficarei aqui."

O anfitrião franziu a testa, ligeiramente ofendido.

"Haverá vários dias onde a única opção será dormir no chão, meu rapaz." Aconselhou então, tentando não ser rude.

"Sempre dormi no chão e não tenho nada contra isso." Garantiu o outro ainda sem se mover. Halbarad tinha razão, o rapaz não era fácil de se lidar. Elrond tentava ver seu rosto, mas ele tinha se escondido justamente no canto mais escuro do lugar.

"Pode vir para a luz para que eu consiga ver com quem estou falando?" Pediu o lorde elfo pacientemente.

Mas o corpo permaneceu onde estava.

"O que mais temos para conversar?"

Elrond respirou fundo e entrou no estábulo aproximando-se do rapaz que parecia encolher-se um pouco com as costas coladas na parede. Quando estavam frente a frente o elfo ergueu subitamente o lampião revelando seu olhar de indignação ao rude hóspede. Squirrel levantou as mãos num reflexo protegendo os olhos contra a claridade súbita que o havia atingido, mas o elfo manteve a luz exatamente onde estava aproveitando para analisar de perto o rosto do rapaz. Sua pele tinha um tom estranho que era difícil de ser denominado. Um marrom esverdeado que o mestre nunca tinha visto. Os olhos azuis estavam ligeiramente avermelhados e olheiras profundas os contornavam. Ele parecia fraco e indefeso na posição em que estava, mas Elrond tinha certeza de que seria um inimigo mortal se ambos estivessem em igual vantagem.

"Sou seu anfitrião aqui".Ele declarou por fim sem abaixar o lampião e sem ter seu olhar correspondido pelo rapaz, que virara a cabeça para a parede e ainda mantinha as mãos erguidas. "Mas lhe previno que se comporte bem com meus amigos aqui no estábulo se for essa mesma a sua decisão".

O jovem não respondeu e não pareceu ter a intenção de fazê-lo.

"Gostaria que lhe fosse dado algo para comer, já que não esteve presente no banquete que ofereci?" Indagou o elfo continuando com o mesmo tom, mesmo que suas intenções já tivessem mudado.

Squirrel apenas balançou a cabeça negativamente, mas não agradeceu.

Elrond deu mais uma olhada no rapaz e ficou em silêncio por um tempo sem se mover. Parecia esperar por algo.

"Não desejo comer nada, meu senhor." O rapaz disse finalmente. "Só estou cansado e quero dormir. Agradeço sua cortesia e peço desculpas se o ofendi."

As feições de Elrond alteraram-se ligeiramente ao ouvir o rapaz dirigindo-se a ele com educação. O elfo acenou a cabeça, baixou então o lampião e deu a volta em seus calcanhares saindo sem se despedir.

Naquela noite ele não voltou mais ao Hall do Fogo. Tinha muitas coisas para pensar.