Capítulo 10: Como te fazer se lembrar

Dez e quarenta da manhã de natal.

McGonagall acordou com uma ressaca terrível no dia seguinte. E a primeira coisa que fez foi cobrir a cabeça com o travesseiro porque as cortinas abertas da janela deixavam o sol iluminar plenamente o quarto, irritando os olhos da diretora. Quase imediatamente seu cérebro, ainda sofrendo o efeito do álcool, voltou a funcionar e ela esticou lentamente o braço livre até o outro lado da cama, passando a mão sobre o travesseiro ao lado e os lençóis amassados. Suspirou profundamente ao ver que o outro lado da cama estava vazio. Estava sozinha, afinal.

Então fora tudo um sonho, ela pensou consigo, esfregando a cabeça dolorida. Mas parecia tão real...

Se espreguiçou longamente e, assim que conseguiu suportar um pouquinho melhor a claridade, colocou os óculos que estavam no criado-mudo ao seu lado e olhou em volta: o susto que levou quase a fez cair da cama.

Isso porque ela não estava em seu quarto em Hogwarts, nem sequer tinha chegado à escola na noite anterior. Mas reconhecia o lugar, pois tinha estado ali recentemente. E, não só não tinha dormido em sua cama como também não estava vestindo sua camisola. Na verdade, por baixo das espessas cobertas, não estava vestindo absolutamente nada.

Era evidente que noite passada não tinha sido um sonho. Ela tinha passado a noite com...

– Bom dia, Minerva! – disse Albus, que aparecera na porta como que para reafirmar que seus temores haviam se concretizado. Ele estava enrolado num roupão violeta todo estampado de pequenas varinhas douradas soltando faíscas e vinha carregando uma enorme bandeja de café da manhã. – E feliz natal!

Dumbledore abriu um sorriso de orelha a orelha e ela voltou a fechar os olhos, como se esperasse com isso acordar de um daqueles sonhos dentro de outros sonhos. Mas, é claro, isso não aconteceu.

McGonagall se sentou enrolada nos cobertores e olhou em volta, atordoada. Suas roupas estavam impecavelmente dobradas sobre uma cadeira próxima da cama e no criado-mudo ao seu lado, além de sua varinha, havia um novíssimo porta-retrato de prata emoldurando uma imagem da formatura de Hogwarts do ano de 1952, mais precisamente de uma grifinória morena muito familiar recebendo o diploma das mãos de seu professor de Transfiguração. Havia também uma música suave tocando baixinho num gramofone em algum lugar por perto.

– Dormiu bem? – ele indagou caminhando até a cama, parecendo terrivelmente feliz.

– Me diga você – imediatamente ela se arrependeu de ter falado, porque ao mesmo tempo em que o olhar do outro ficava extremamente malicioso ela começou a se lembrar dos detalhes da noite anterior. Muitos detalhes, deliciosamente embaraçosos, envolvendo boca, mãos, pernas e...

E a bruxa ficou tão acanhada que teve de esconder seu rosto com as mãos.

– Não precisa se envergonhar de nada, minha querida – Dumbledore disse, pousou a bandeja no criado-mudo de seu lado e se acomodou no seu lugar na cama, parecendo satisfeitíssimo consigo mesmo. Apoiado num dos cotovelos, ele se virou para ela sorrindo ternamente – Somos adultos e descompromissados. E não há nada mais natural do que expressar fisicamente o que sentimos um pelo outro.

E a bruxa ficou perplexa. Então era só ela que estava morrendo de vergonha ali? Como ele podia estar tão irritantemente contente? Nem um pouquinho só de apreensão! Nada de "o que os outros iriam pensar?"!

– Dá pra você tirar esse sorriso convencido da cara?

– Perdão, mas se estou assim é por que ontem eu tive a melhor noite da minha vida – ele a olhava com tanto desejo que Minerva se sentiu como se fosse uma grande tigela de sorbet de limão.

– E você por acaso lembra de mais alguma?

– Não, mas duvido que já tenha vivido algo assim – ele disse, pensativo, os olhos brilhando ainda mais do que de costume. Ainda se aproximou um pouco mais antes de prosseguir. – Nós fizemos amor, você adormeceu nos meus braços e ficou sussurrando o meu nome enquanto dormia.

– Eu não acredito que nós... Depois de todos esses anos! – a diretora deixou escapar uma gargalhada nervosa. – Nem me lembro da última vez em que eu fiz isso.

– Que coincidência, eu também não – Albus brincou, insuportavelmente bem humorado. – Apesar de eu ter que admitir que tenho pensado bastante nesse assunto nos últimos dias.

Ele avançou sobre Minerva num daqueles seus beijos intensos, os braços cercando-a tão rapidamente que a bruxa só teve tempo de segurar o cobertor em torno de si. Problema esse que as mãos do diretor buscavam resolver, enquanto sua boca deslizava pelo queixo dela, descendo pelo pescoço.

– Albus, veja bem, não é como se... – ela falava, tentando delicadamente se desvencilhar, concentrada na própria dor de cabeça pra não pensar em outras coisas. – A noite passada, você entende, foi só... Hum, só sexo.

– "Só sexo"? – Ele indagou, afrouxando o abraço apenas o suficiente para encará-la nos olhos. – Acho que não entendi direito.

Ele arqueou as sobrancelhas e a soltou, ainda sorrindo. Já esperava por algo do tipo, uma vez que ela estivesse sóbria novamente. Mas Albus era sujeito paciente, afinal.

E McGonagall engoliu a seco, forçando-se a manter o autocontrole. Seria infinitamente mais fácil se ele não tivesse olhos tão bonitos.

– Você mesmo disse, nós somos adultos. Quer dizer... é compreensível que... nas atuais condições... naturalmente... Isso não significa que nós obrigatoriamente tenhamos um relacionamento... ou mesmo...

– Sossegue Minerva, eu não estou te cobrando nada. – como ela não parecia nem um pouco capaz de concluir o raciocínio (muito menos a frase), foi Dumbledore que completou, segurando o riso. – Embora ontem você tenha sido muito convincente quando disse que me amava.

– Disse, é? – ela se fez de desentendida, pois se lembrava muito bem de tudo. E talvez fosse esse mesmo o grande problema: tentar não se lembrar, ao menos nesse momento.

– Várias vezes – ele respondeu, pontuando cada frase com grandes quantidades de malícia. – Aos gritos.

– Eu provavelmente só fiz isso porque estava... – ela se interrompeu, buscando uma conclusão mais prudente para a frase – bêbada.

– Ah sim, isso também – Dumbledore concordou rindo. – E você fala um bocado dormindo, sabia? Disse cada coisa interessante...

– Não acredite em uma só palavra – a bruxa pediu, muito vermelha.

– Então eu não sou incrivelmente sexy? – ele brincou com um olhar lânguido, alisando demoradamente a longa barba. – E todos aqueles elogios a respeito da minha região glútea?

– Já chega!

– Está com fome? – Albus aproveitou para mudar de assunto antes que ela ficasse zangada de verdade. Então colocou a bandeja sobre o próprio colo, se ocupando de passar geléia em uma torrada. – Eu não sabia o que você gostava, então tem pouco de tudo.

Na bandeja e questão se apertavam ovos, torradas, panquecas, geléia de morango, manteiga, chá, café, chocolate quente e suco de laranja, além de um finíssimo vaso de cristal com uma rosa branca recém-colhida. Devia ter alguma mágica ali pra poder caber tanta coisa.

– Só café, por favor – ela pediu, achando graça da quantidade exagerada de comida. – Você arranjou um elfo doméstico?

– Não, eu fiz – Dumbledore corrigiu com certo orgulho, lhe passando a xícara fumegante.

Ela arqueou as sobrancelhas, tão surpresa com a novidade quanto pela desenvoltura do bruxo. Quem o visse tão descontraído sorrindo e espalhando migalhas pela cama, diria que eles já estavam juntos há séculos.

– E desde quando você cozinha, Albus?

– Perenelle me ensinou – ele explicou, satisfeito com os dois dedos de geléia que tinha conseguido equilibrar sobre a torrada. – Foi ela cuidou de mim quando voltei, e é quase como se fosse minha mãe. A propósito, vocês duas tem que se conhecer.

– Temos, é? – ela incentivou, sorvendo com calma seu café. – Hum, está ótimo

– Perenelle sempre dizia que um dia eu ainda pegaria uma bela mulher pelo estômago – o velho gracejou e deu uma grande mordida na torrada. – Ela vai ficar muito decepcionada quando ver que você come feito um passarinho.

Minerva corou de leve, voltando a observar a imagem no porta-retrato. A moça com o diploma na mão parecia ainda mais sorridente o que antes.

– Ah, e por que você ainda não abriu o seu presente? – Dumbledore perguntou e tomou todo o seu copo de suco de uma vez só.

Só então a bruxa notou um pequeno embrulho vermelho com um laço dourado, esquecido na cadeira sobre as roupas. Albus voltou a colocar a bandeja no criado-mudo, deu a volta na cama e pegou o presente, em seguida o entregando com uma leve reverência para McGonagall.

Tratava-se de uma caixinha de madeira entalhada, e dentro estava uma corrente finíssima de ouro onde se pendurava uma pequena medalha também de ouro, em forma de gatinho, que se observado bem de perto tinha duas minúsculas marcas quadradas em ouro branco em volta dos olhinhos de topázio imperial.

O bruxo se sentou ao lado dela, os olhos azuis brilhando de expectativa.

– Obrigada, eu nem sei o que dizer. É... é lindo.

– Não tanto quanto a original, mas tem seu charme – ele tomou a correntinha nas mãos e a abriu, então se sentou ao lado dela. – Aqui, eu coloco.

Minerva levantou o cabelo, deixando sem querer o cobertor escorregar um pouco, descobrindo parte das costas. O outro passou a corrente em volta do pescoço dela e a fechou, aproveitando para roçar os dedos pela nuca e os ombros dela.

– Eu também tenho uma coisa para você – McGonagall falou, sorrindo abobalhada enquanto passava a mão sobre o pingente.

– É mesmo, é? – ele perguntou num tom cálido, abraçando-a por trás.

– Está lá embaixo, no bolso da minha capa – a diretora disse, se desvencilhou rapidamente do outro e apanhou a varinha sobre o criado-mudo. – Accio capa!

Dumbledore encolheu os ombros fazendo beicinho e quase imediatamente a peça de vestuário veio voando através da porta, indo parar bem nas mãos da bruxa. Ela vasculhou os bolsos ampliados magicamente, tirando de dentro um embrulho retangular e um pouco pesado e entregou a ele.

– Um livro? – o buxo comentou, visivelmente decepcionado.

– Ia te dar meias, mas mudei de idéia. Achei que você tinha que ter um desses!

Depois de rasgar o papel de presente, podia ver que se tratava de um exemplar de 1938 de Doze Usos para o Sangue de Dragão, um tanto surrado. As letras do título já tinham se descascado um pouco e o couro da capa tinha alguns arranhões e estava desgastado na borda, como se tivesse sido carregado dentro de uma bolsa muito cheia por muito tempo.

– Acho que eu não me comportei muito bem esse ano – Dumbledore concluiu, fazendo uma careta.

– Não gostou?

– Não é bem o meu autor preferido – ele respondeu, dando de ombros.

– Já pedi pra parar com essa implicância – a outra bronqueou, mesmo sorrindo. – Anda, dá uma olhada dentro.

Ele abriu o livro, ainda que sem muito entusiasmo. E viu que logo na primeira folha havia uma dedicatória com uma caligrafia fina e inclinada, bastante familiar:

"Para minha amiga querida e aluna predileta,

na esperança de que você deixe o exemplar da biblioteca descansar um pouco.

Com carinho,

Albus Dumbledore."

Folheando mais algumas páginas, o ex-professor de transfiguração encontrou seu nome escrito muitas outras vezes, geralmente rodeado por pequenos corações ou misturado ao nome da melhor amiga e agora amante.

– "Sra. Minerva Dumbledore"! – ele citou em voz alta, rindo com vontade. – Que bonitinho.

– Eu tinha só treze anos, está bem? – ela se defendeu, forçando um falso ar de indignação.

– Eu estava pensando em outro tipo de presente, sabe – Dumbledore insinuou. Ele queria parecer provocativo, mas era um tanto difícil levar a sério alguém num roupão violeta e com a barba cheia de migalhas de torrada.

Albus voltou a avançar sobre ela, e mais uma vez McGonagall se esquivou com habilidade felina.

– Você não gostou, não é?

– Sinceramente? Incomoda-me profundamente a maneira como você fala del-, de mim. Como se gostasse mais de como eu era antes.

– Não me diga que você está com ciúmes de si mesmo! – a bruxa exclamou, achando graça.

– Mais ou menos.

– Quanta tolice – ela ainda soltou um riso sarcástico antes de prosseguir. – Agora, será que dava pra você se virar um pouco?

– Pra quê?

– Eu vou me levantar – Minerva anunciou, se aproximando ainda mais da borda da cama, muito enrolada nas cobertas.

– Francamente, você acha que vai fazer alguma diferença? – outra vez ele sorriu, divertido, deixando seus oclinhos escorregarem pelo nariz longo. Já não havia nada ali que ele não tivesse visto (e tocado) antes.

– Vai fazer quando você recuperar a memória – ela se enrolou ainda mais no cobertor. Parecia querer se levantar assim mesmo.

Mas o intento da diretora foi por água a baixo, uma vez que Albus havia se sentado sobre a outra ponta do cobertor, e não parecia querer se mover minimamente dali.

– Isto é, se eu recuperar a memória – ele falava completamente seguro de si. – E não estou muito inclinado a ficar tentado relembrar o passado nesse momento.

– Como assim?

– Se isso significa perder o que temos, eu não quero – o ex-diretor afirmou, se inclinando na direção da diretora e plantando-lhe um beijinho no ombro. – Estou muito bem assim, obrigado.

– Albus! – ela repreendeu, e um pouco menos convincente do que deveria. Tudo o que desejava era poder concordar com ele.

– Não quero voltar a ser como antes – os olhos muito azuis, fixos nos dela, confabulavam algo sobre os oclinhos de meia-lua. – Não quero saber os motivos que nos afastaram e, principalmente, não quero deixar de amar você.

Dumbledore pegou uma das mãos dela entre as suas e a beijou demoradamente. A diretora, por mais que se esforçasse, não pôde deixar de sorrir. Acordar ao lado dele, ouvindo-o dizer que a amava... Um momento como aquele era muito mais do que ela havia sonhado.

Pena ter que ser sempre tão sensata!

– Eu também não, mas não quero ter você pela metade. Eu quero... – ela se interrompeu na metade da frase, com uma idéia a atingindo em cheio. – É isso, Albus!

– "É isso" o que?

– Eu acho que sei como te fazer se lembrar – com o brilho de aço de volta a seus olhos castanhos, McGonagall parecia mais decidida do que nunca.


Call me irresponsible

Chama-me de irresponsável

Call me iresponsible
Chama-me de irresponsável
Call me unreliable
Diga que eu não sou de confiança
Throw in undependable, too
E que eu sou inseguro, também

Do my foolish alibis bore you?
Os meus álibis absurdos te cansam?
Well, I'm not too clever, I
Bem, eu não sou tão esperto, eu
I just adore you
Eu só te adoro

So, call me unpredictable
Então, chame-me de imprevisível
Tell me I'm impractical
Diga que eu sou impraticável
Rainbows, I'm inclined to pursue
Arco-íris, estou disposto à procurá-lo

Call me irresponsible
Chama-me de irresponsável
Yes, I'm unreliable
Sim, eu não sou de confiança
But it's undeniably true
Mas uma verdade é inegável,
That I'm irresponsibly mad for you
A de que eu sou irresponsavelmente louco por você

Do my foolish alibis bore you?
Os meus álibis absurdos te cansam?
Girl, I'm not too clever, I
Garota, eu não sou tão esperto, eu
I just adore you
Eu só te adoro

Call me unpredictable
Então, chama-me de imprevisível
Tell me that I'm so impractical
Diga que eu sou impraticável
Rainbows, I'm inclined to pursue
Arco-íris, estou disposto à procurá-lo

Go ahead call me irresponsible
Siga em frente, chama-me de irresponsável
Yes, I'm unreliable
Sim, eu não sou de confiança
But it's undeniably true
Mas uma verdade é inegável
I'm irresponsibly mad for you
A de que eu sou irresponsavelmente louco por você

You know it's true
Você sabe que é verdade
Oh, baby it's true
Oh, baby, é verdade


n/a:Queridos leitores!

Eu já disse que "ararambóio" todos vocês? Agradeço aos muito hits, a todos os do Brasil, da França, de Portugal, da Espanha, da Rússia, dos EUA que acompanham a história e também você da Alemanha, Croácia e do Canadá e que deu pelo menos uma espiadinha.

E quero dizer que adoro cada review! Então se você está lendo isso aqui e ainda não comentou, sinta-se intimado a fazê-lo já.

Mas tipo, sem pressão, tá? Kkkkk

No próximo cap o plano da McG é posto em ação. E se preparem para um pouquinho de drama...

Beijo e até lá.

Malfeito feito!