10: A morte do peixinho dourado

Sobre a falta de tato do Reita e o quanto ele é apaixonado

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Eu não sabia o que fazer. Ruki estava desolado e nem foi ele quem escolheu o peixe.

Larguei as malas no chão sem saber se sumia com o aquário de uma vez ou se ia consolar o chibi. Acabei suspirando ao vê-lo tomar alguma iniciativa, pegar o aquário nos braços e ir com ele até a cozinha.

O segui em silêncio, me apoiando no batente da porta e procurando algo para dizer.

- Ru... – chamei baixo ao vê-lo sem a menor coragem de jogar a água do aquário na pia. – Deixa que eu faço isso, hm? Por que não vai tomar um banho, deve estar cansado.

- Não, Rei-chan... Você deve estar triste porque seu peixinho morreu, deixa eu ao menos fazer algo.

Na verdade eu não estava dando a mínima para o peixe morto. Não que eu não gostasse dele. Mas não foi surpresa alguma chegar em casa após um mês em turnê e encontrar ele morto. Só não sei como isso não passou pela cabeça do chibi.

Quer dizer, nos tínhamos despachado durante aquele tempo o cachorro dele para a casa da família Matsumoto e acabamos nos esquecendo de fazer o mesmo com o peixe. Então, logo na segunda semana de turnê eu me lembrei que não havia ninguém para alimentá-lo. Aí, já era.

Mas eu devia saber que Ruki, sendo o poço de sensibilidade que era quando se tratava de bichos, iria ficar arrasado quando chegássemos em casa e encontrasse o peixe morto. Por isso estava me sentindo muito mais culpado pela tristeza dele do que pela morte do peixe em si.

Suspirei novamente, me aproximando e abraçando-o por trás.

- Você... você vai sentir tanta falta do Mister Golden Week – ele murmurou, os olhos fixos no aquário e no peixe que boiava morto.

Eu nem sequer dava atenção para o Mister Golden Week... Afinal ele só tinha sido uma desculpa para evitar que Ruki trouxesse algum bicho de estimação que destruísse o apartamento.

Mesmo assim o chibi tinha engolido aquela história de que eu sempre quis ter um peixinho dourado e que ele devia ser muito importante para mim.

Então eu me vi dizendo a coisa mais idiota que poderia ter dito.

- Não fica assim, pequeno, é só um peixe.

- Só... só um peixe?! Era o nosso peixe!

Oh, merda!

Ele se soltou dos meus braços, sem dizer nada e saiu pisando duro. Ouvi a porta do quarto bater com força e a única coisa que pude fazer foi me xingar pela minha estupidez.

Agora só me restava me livrar do peixe.

- Bai, bai, Mister Golden Week... – murmurei, tão desolado quanto o chibi.


- Taka...? Por favor, abre a porta – pedi pela enésima vez. – Deixa eu explicar, chibi, eu não falei por mal.

Encostei a cabeça na porta, nem pensando direito. Eu estava exausto, só queria tomar um banho com ele, depois cair na cama agarrado a Ruki e dormir durante as próximas vinte quatro horas. Mas eu tinha que ser um idiota insensível e estragar os meus próprios planos, provocando uma crise em Ruki e fazendo-o se trancar no quarto.

- Por favor, chibi... Eu estou tão cansado...

Não demorou muito para que eu ouvisse o barulho de passos e a porta fosse destrancada. Ruki já tinha tomado banho, estava com os cabelos úmidos, uma calça folgada e me fitava nem um pouco contente.

Deu passagem para que eu entrasse e se jogou na cama me ignorando por completo.

Amansar a fera nunca era fácil. Por isso achei melhor tomar um banho antes, refrescar a cabeça e depois eu me jogaria ao lado dele, puxando-o para perto manhosamente daquele jeito que ele não resistiria e pronto, já não estaríamos brigados.

Tomei meu banho, demorando mais do que planejara. E quando sai, vestido apenas com uma calça, pensei que já fosse encontrá-lo dormindo.

Mas ele estava lá, esparramado na cama de barriga pra cima, olhos abertos fixos no teto.

Não contive o sorriso. E mesmo que estivesse correndo o risco de ser chutado pra fora do quarto, me joguei na cama, o abraçando e afundando o rosto em seu pescoço.

Acabou funcionando como eu imaginara. Ruki deixou um suspiro resignado escapar e ainda assim afagou minhas mechas carinhosamente, roçando os lábios na minha têmpora.

- Eu só não te chuto pra fora porque também estou cansado e sem o menor ânimo pra discussões.

Assenti, erguendo o rosto e roubando um selinho divertido ao ser perdoado pela besteira que havia dito.

Eu sabia que apesar de ser só um peixe para Ruki aquilo representava algo. Tínhamos comprado-o um pouco depois dele se mudar para o meu apartamento e ele vivia dizendo que casais como nós sempre deveriam ter um bichinho de estimação para cuidarem juntos. O que ele queria dizer com esse 'casais como nós' eu não fazia idéia. Mas que devia ser algo importante, isso eu sabia.

- Desculpa, Ru-chan, mas peixes não costumam durar muito. E eles não fazem barulho como cachorro e gato quando estão com fome ou com algum problema, fica difícil lembrar deles assim.

- Reita! – ele deu um tapa leve no meu ombro, mas acabou rindo baixo, meio relutante.

Eu não tinha o menor tato pra essas coisas. Mas não deixava de ser verdade.

- Vamos fazer assim, depois que tivermos nossa maratona de sono, vamos arranjar outro bichinho – murmurei, distribuindo beijos pelo seu rosto, fazendo-o sorrir e afundar os dígitos nas minhas mechas. - Eu deixo você escolher mesmo que seja um bem barulhento, que vá destruir o apartamento inteiro junto com o seu cachorro.

- Não. Se o bichinho vai ser nosso, dessa vez a gente escolhe junto – e já não havia resquício algum de tristeza em seus olhos.

Concordei, nem um pouco preocupado se ele traria um labrador ou até mesmo um são bernardo babão. Porque naquele tempo compartilhado juntos, eu tinha aprendido a abrir mão de algumas coisas só para vê-lo sorrindo. E não era muito diferente com Ruki.

Eu sabia o quanto era difícil para ele lidar com a minha desorganização e a minha falta de habilidade na cozinha.

Mesmo assim ficar longe um do outro nunca foi uma opção. Aprender a lidar com uma vida a dois era um desafio que podia ser gratificante em alguns momentos. E estávamos tentando construir isso do modo mais sólido que conseguíamos.

- Mas, Rei-chan, tem mesmo que ser só um?

- Ah não, chibi. Essa conversa de novo não.

Ele riu ante minha negação, selando meus lábios em seguida.

Afinal uma coisa era aceitar as manias e defeitos um do outro. Outra completamente diferente era aceitar que nosso lar fosse tomado por uma horda de bichos que Ruki sonhava em ter.

Mesmo assim me peguei dizendo, surpreendendo não só a ele, mas como a mim também.

- Talvez mais dois animais de estimação, se eles não forem muito grandes.

Algo dito na vontade impulsiva de ver ele sorrindo daquele jeito que me deixava ainda mais apaixonado.

E foi isso que ele fez, me brindando em seguida com os seus lábios selando os meus de forma carinhosa, mas ainda assim não menos intensa.

Era nessas horas que eu via o quanto amor fazia você mudar e aceitar tantas coisas.

Mesmo que a idéia de bichos e mais bichos correndo pelo nosso apartamento me assustasse imensamente.


N.A: Em vista da minha falta de criatividade pra nomes, batizei o peixinho de Mister Golden Week ._.' Eu tava revendo uns eps de One Piece, aí apareceu a Miss Golden Week e blá, blá, blá...