Disclaimer:O universo de Cavaleiros do Zodíaco não me pertence. Não estou tentando ganhar dinheiro com isto.

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Se O Mundo Ruir

Capítulo 10 – Despertando A Fera

Oito e quinze da manhã. Ikki estava em casa, sentado à pequena mesa da cozinha só de cueca, despenteado, lendo o jornal e tomando a sua xícara de café matinal. Bem forte e amargo, sem condimentos ou frescuras, cafeinado, potente e saboroso. Como ele próprio, claro.

"Só tem merda nesse lixo aqui," reclamava em voz alta do jornal, estapeando a página. "Menina é atropelada por um caminhão e morre, aposentada teve a sua pensão cancelada não sei por quê, o mercado de ações sobe meio por cento, político corrupto vence às reeleições, companhia tal vai à falência, nova marca de sorvetes é lançada... mais um monte de publicidade... Porra, não tem nada aqui que interesse, não?!"

Só lia mesmo aquela pilha de lixo diariamente porque, de vez em quando, descobria alguma informação interessante que os ajudava nos negócios. Algum empresário com quem lidava fazendo uma "viagem de férias" a um país suspeito. Notícias de algum dos seus muitos inimigos. Uma jóia cara que seria parte de alguma exibição (e logo roubada por ele). Um apagão programado para o dia seguinte que poderia ser uma oportunidade e lhe dar idéias. Enfim, assuntos úteis.

Continuou bebericando o café e folheando o jornal sem vontade. Dali a pouco tinha que tomar um banho, se arrumar e sair. Tinha um encontro com dois milionáros bestas filhinhos de papai que haviam contatado o Grupo Hatori, propondo associar-se a eles na construção da Alpha Zex 534-L. Ikki provavelmente os mandaria à merda e lhes daria uma surra, não necessariamente nessa ordem, mas antes conversaria com eles e descobriria suas verdadeiras intenções. Apenas mais um dia típico na vida de Ikki Amamiya.

"Bomba explodiu no shopping center e matou 17... O preço do arroz aumentou cinco por cento... Jovem atacado no próprio lar e sequestrado... Novo fime do Spielberg nos cinemas... Pfffffffffff!" cuspiu o gole de café que tinha acabado de colocar na boca, fazendo um spray que sujou toda a página. "O QUÊ?" Gritou, aproximando mais a página molhada do rosto. Reconhecia a sala de estar na foto da manchete do sequestro. "Não pode ser!"

Apressadamente leu a manchete, esperando que a tivesse interpretado mal, uma sensação horrível se apoderando dele. "Mais um sequestro ocorre na cidade de Tóquio, aumentando a onda de violência. Dessa vez, a vítima foi agredida dentro do próprio apartamento, e supostamente levada dali na noite de ontem. A vítima, um jovem de apenas quatorze anos, Shun Amamiya... NÂÂÂÂO, SHUUUN!" Ikki urrou, um grito de pura dor que deve ter sido ouvido a três quarteirões de distância.

Não o seu irmão! Não podia ser verdade! Isso devia ser um engano!

Ikki continuou lendo o artigo o mais rápido que podia, já de pé como se fosse partir para a ação a qualquer instante, cada músculo de seu corpo tenso, não acreditando no que lia. Menor de idade que morava sozinho, bla bla bla, as autoridades não haviam localizado uma família, os vizinhos diziam que era uma doce criança e que estava sempre sozinho, bla bla bla, o crime era atribuído às gangues conhecidas mas não haviam provas, bla bla bla, havia destruição no local e sangue, supostamente da vítima, não se sabia se ainda estava vivo...

"SHUUUN!" urrou novamente, desesperado, com uma dor tão grande que jamais imaginara ser capaz de sentir um dia. Isso só podia ser um pesadelo. A única pessoa que amava nesse mundo de merda não podia estar morta! Não podia!

Virou a página e ali estava, uma foto pequena do irmão, só de rosto, com o sorriso angelical tão conhecido e aqueles olhos que pareciam estar olhando para ele. Ikki passou o dedo pela imagem, acariciando-a. Ele próprio havia tirado aquela foto há alguns meses, a pedido do garoto, para se inscrever num clube de não-sei-o quê na escola (Ikki não se dignara a prestar a devida atenção). Shun quisera fotografar o irmão também, insistira nisso, lembrava-se bem. "Ikki, por que nunca quer tirar uma foto comigo?" havia perguntado, em uma vozinha de choramingo. "E porque não me deixa guardar nenhuma foto sua? Eu comprei esse porta-retratos para a sala, mas não tenho foto nenhuma sua para colocar!" Ikki se emburrara na hora e recusara, é claro; não podia deixar laços visíveis com o irmão, para protegê-lo. Mentira ao irmão que odiava fotos e não era nem um pouco fotogênico. Shun tentara argumentar, dizendo que mesmo que ele saísse horrendo na foto, Shun a adoraria porque ele era o seu irmão e o amava. Ikki acabara sendo um pouco rude para cortar aquela conversa logo, que para variar, acabara em lágrimas do mais novo, que sempre fora sensível.

Agora, vendo aquela foto no jornal, não sabendo se Shun estava vivo ou morto, se arrependia tanto da atitude rude, dessa e de tantas outras vezes. Deveria ter oferecido nada mais do que carinho e gentileza ao irmão caçula, que só tinha a ele com quem contar nesse mundo. Mas Ikki certamente não era um homem gentil, e muito menos carinhoso. Era um homem rude, endurecido por uma vida de batalhas, onde a sobrevivência estava sempre em jogo, e seria esmagado se baixasse a guarda mesmo que brevemente. Não havia espaço no seu mundo para abraços, pássaros azuis e algodão doce.

Shun sempre merecera muito mais do que Ikki tivera para oferecer. Mas mesmo sendo quem era, Ikki deveria ter se esforçado mais, estado mais presente, demonstrado mais o quanto amava o pirralhinho sensível e chorão. Jamais deveria ter dirigido uma palavra rude a ele.

Fosse como fosse, mesmo não merecendo, o garoto obviamente o idolatrava. E agora Ikki o falhara. Falhara na obrigação de protegê-lo. Jamais se perdoaria por isso!

Leu o artigo inteiro, respirando pesado e com o coração a mil, mas não tirou mais nada de útil ali. Ninguém sabia porra nenhuma. "Merda!" berrou, jogou o maldito jornal longe e empurrou a mesa com raiva, virando-a e espatifando a louça do café, que quebrou-se no chão com um estardalhaço.

Ele descobriria sozinho o que havia acontecido, não precisava desses inúteis repórteres de merda para informá-lo. Correu para o quarto; vestiria a primeira coisa que visse na frente e iria atrás do seu irmão. O sujeito mal-afortunado que passasse na sua frente por acidente e o fizesse perder um momento, morreria.

Quem fora o desgraçado infeliz filho de uma puta que atacara Shun?

Ah, ele pegaria o demônio que ousara mexer com o seu irmão caçula, pensou, enfiando o par de jeans desbotados que estava no chão, usados no dia anterior. Ou demônios. Os encontraria e os estraçalharia com as próprias mãos, arrancaria cada membro do corpo e os espancaria até à morte... depois faria churrasquinho dos seus restos mortais, os pulverizaria, e de alguma forma os traria de volta à vida e os estraçalharia novamente. E depois disso, pensou, enfiando uma camiseta preta justa e já agarrando as botas pesadas de couro, a toda velocidade, faria o mesmo com a família dos infelizes.

Algum idiota cometera o erro de mexer com a cria de uma besta-fera, e logo descobriria que esse erro seria fatal, pensou, correndo porta afora.

Continua...

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Nota: