Ranmaru seguiu para o quarto com o coração agitado, não tendo vivido tal experiência na vida e tendo uma personalidade orgulhosa e altiva, tomara a resposta de Suzuran como rejeição. Vários pensamentos de insegurança o invadiam, e se recriminava por ter sido tão ávido em beijá-la.
Porém, ao lembrar-se dos beijos e das sensações que teve ao experimentar aqueles lábios delicados e macios, seu corpo reagia instintivamente. Seria difícil dormir naquela noite! Tomou uma ducha para relaxar, mas a angústia e o medo de ter assustado a gueixa, ou de ter interpretado mal o interesse dela por ele, parecia um buraco em seu coração.
Deitou e teve dificuldades em conciliar no sono, quando dormiu, em seu sonhos beijava Suzuran muito mais sensual e ousadamente do que fizera na noite anterior, causando um sono agitado, de forma que o dia que amanheceu o encontrou cansado. Ainda teria que despedir-se dela. Tentaria se conter para não assustá-la mais do que já havia feito…
Suzuran entrou no quarto com o rosto totalmente vermelho, os lábios deliciosamente inchados devido aos beijos calorosos que trocou com o grande chefe de Orio-ya. Jogou-se no futon ainda com o vestido do encontro, e olhando pra o teto passava os dedos sobre seus lábios, como se ainda sentisse os lábios dele sobre os seus.
Seu corpo estava todo desperto, e recapitular cada momento da noite lhe causava deliciosos arrepios. Ela não conseguia parar de sorrir… era tão bom que parecia um sonho! Ficou tão tentada a largar tudo pra trás e ceder ao pedido dele, ele parecia tão desejoso que ela ficasse, e sendo sincera, ela também queria muito ficar. Mas era uma mulher adulta, uma profissional, não podia ceder assim a todos os impulsos e desejos.
Explicaria tudo melhor para ele pela manhã, e combinariam de se reencontrar logo, ela não conseguiria ficar muito tempo sem vê-lo. Depois daqueles beijos, o sentimento que ela tentou jogar para o lado durante toda sua estada, que ela tentou negar e disfaçar, veio à tona exuberante… ela havia se apaixonado por ele! Perdidamente! Não tinha mais como enganar a si mesma. Suzuran já havia se sentido atraída por outros homens, conhecera homens poderosos e admiráveis, mas aquele sentimento de completude, de total entrega, de vontade de fazer tudo para que ele fosse feliz, somente Ranmaru foi capaz de despertar.
Não tinha muita explicação, ela adorava aquele jeito altivo, aquela beleza de alguma forma selvagem, a generosidade mesmo quando estava sendo ríspido… mas havia algo que estava além da racionalização, que se manifestava quando ela olhava naqueles olhos magníficos, ou quando ele a tocava e ela se sentia completamente protegida, ou finalmente, naqueles beijos que lhe roubaram o fôlego e a razão completamente.
Suzuran se trocou para o yukata de dormir, e deitando-se no futon, deixou todo cansaço de dias de tanto trabalho, e o suave perfume masculino que ainda dançava em seu olfato a aconchegarem em um sono tranquilo povoado de sonhos de um futuro feliz.
Acordou com os primeiros raios de sol e arrumou o restante das bagagens para partir depois do café da manhã. Tinha compromissos com Aoi e Odanna ainda naquela noite, e depois estudaria seu futuro próximo, de qualquer forma, em algum momento neste futuro, precisaria visitar o reino aparente.
Colocou um belo e confortável vestido estilo hanfu que comprara na feira durante o festival, as várias camadas em degradê de verde água claro quase branco por cima, e turquesa na barra que terminava com delicados bordados em pequenas pedras, davam a ela um ar jovial e feminino. Prendeu metade dos cabelos com um dos arranjos de conchas que também havia comprado durante o festival.
Desceu para o desjejum no salão, aproveitaria para se despedir de quem encontrasse. Passou pela recepção, pediu para Hatori enviar alguém para carregar suas malas para o ponto de partida das embarcações. Não encontrou com Ranmaru em nenhuma parte, sentia borboletas no estômago de ansiedade para vê-lo de novo. Será que ele se arrependeu da noite anterior? Não apareceria para despedir-se?
Depois de tudo arrumado, e das despedidas dos novos amigos que fez no Sul, Suzuran seguiu para o ponto de partida. O sol alto e brilhante no céu a obrigou a abrir sua sombrinha. Perto da embarcação estava Hatori com suas bagagens, ela se aproximou para despedir-se, o coração apertado pela ausência de Ranmaru, já iria perguntar ao chefe da recepção por ele, quando viu o olhar do tengu se desviar para atrás dela. Ao se virar deparou-se com o magnífico inugami caminhando altivamente em sua direção, seu coração disparou contraditoriamente sentindo alívio e insegurança ao mesmo tempo. Seu semblante era sério, mas não hostil, ao vê-lo ela sorriu instintivamente, com todo afeto que ele lhe despertava. Ele disse sério:
- Senhorita Suzuran, mais uma vez muito obrigado em nome de toda equipe de Orio-ya, sua presença e seu trabalho abrilhantaram nosso festival de verão!
Dizendo isto fez uma leve menção, pegou sua mão e depositou um beijo cortês. Quando levantou-se, seu olhar cruzou com o de Suzuran por um milésimo de segundo, e o que ela viu: era tristeza? Insegurança? Mágoa? O que quer que fosse, se escondeu imediatamente por detrás da máscara de polidez que ele vestia naquela manhã.
A gueixa, apesar de todo seu treinamento para lidar com pessoas e situações, mal conseguiu disfarçar seu choque e decepção. Apenas murmurou algum agradecimento automático aos dois, curvando-se elegantemente como mandava a etiqueta, e em seguida embarcou. Esperou a nave se afastar alguns metros para desfazer sua pose, enquanto olhava a terra do Sul, onde se apaixonou e viveu doces momentos. Lágrimas pesadas desciam-lhe a face: O que ela havia feito de errado? Será que ele não correspondeu-lhe nem um pouco os sentimentos? Havia se arrependido? Seguiu por todo caminho sozinha no convés, deixando as lágrimas lavarem o peso de seu coração. Parecia ter ido do paraíso ao inferno em menos de vinte e quatro horas.
Ranmaru acordou depois de uma noite agitada, de sono interrompido por sonhos de desejos reprimidos. Depois da noite mal dormida, a vontade de abraçar e beijar Suzuran de novo ainda queimava vivíssima em seu coração, mas precisava ser um cavaleiro e não avançar novamente o sinal, afinal ela não estava interessada nele.
Tais pensamentos causaram-lhe uma sensação de angústia pois chegou a entreter a ideia de tê-la junto com ele como sua namorada. Nunca havia desejado a companhia e o amor de uma mulher como naquele momento… realmente ele era muito inexperiente nesse assunto! Se recriminava por não ter conseguido perceber o desinteresse dela acabando por se abrir demais… mas, naquele momento mágico na noite passada, não foi ela quem o incentivou a aprofundar o beijo? Aff! Essas coisas de romance eram complicadas demais! Talvez fosse melhor assim, seu destino era ser solteiro e dedicar-se apenas ao hotel, assim como foi a princesa Iso, sua antecessora… talvez fosse a sorte dos Hachiyos do Sul… nada de amor!
Levantou-se desanimado, colocou suas vestes de trabalho e procurou disfarçar as dúvidas, cismas e amarguras com seu profissionalismo. Tinha muitas coisas de bastidores para resolver, o que faria durante a manhã: visitaria os departamentos internos do hotel e resolveria os problemas práticos urgentes. Era melhor que não encontrasse Suzuran e passasse tempo com ela, ou seu profissionalismo não daria conta de manter o comportamento formal. Ao precisar ficar afastado, percebia o quanto ela mexeu com ele, que novas sensações eram aquelas? Por que ser rejeitado o incomodou tanto?
Entre uma tarefa e outra percebeu que já era a hora estipulada para a partida do barco de Suzuran. Precisava desperdir-se, estava magoado, mas ela não tinha culpa das altas expectativas que ele mesmo havia criado. Apesar de qualquer coisa, sua presença elevou o festival daquele ano a outro nível. Ao chegar no pátio de partida, a avistou, linda, segurando uma sombrinha cor de rosa, seu vestido feminino, vaporoso, esvoaçava ao ar livre, parecia uma visão a ponto de se desmanchar à sua vista. Sentiu sua tristeza aumentar, mas precisava disfarçar. Reuniu toda sua coragem e decisão e caminhou até ela, exercer o papel de grande chefe de Orio-ya era mais fácil naquele momento.
Fez seus agradecimentos formais, quase se traindo ao ver o sorriso dela tão amoroso quando lhe avistou. Inclinou-se e segurou-lhe a mão para dar um suave beijo solene. O perfume de cerejeiras, que o envolveu e aqueceu seu coração por todos aqueles dias, fez seu sentimento quase o trair. Por um segundo seus olhos se encontraram, mas ele conseguiu se recompor a ponto de não deixar transparecer nada. Ela então embarcou… ela parecia abalada?! Ou ele estava imaginando coisas? E enquanto o barco partia, ele sentia como se um sonho efêmero de romance se desmanchasse no ar…
