Capítulo VIII
CAOS
"Nessie!"
"Nessie, Nessie!"
"Afastem-se rapazes… Vocês não sabem como acordar uma rapariga decentemente." Ouvi risos roucos. E a seguir um toque calmo no meu cabelo.
"Nessie…" Uma voz num sussurro fraco e harmonioso falou. "Anda lá, minha querida, toca a acordar ou não queres ir para Forks?"
Ao ouvir aquilo o realismo voltou para mim. As vozes grosseiras, altas e roucas eram do Clyde e do Elliott e o sussurro melodioso de Beth. Abri os olhos e pude vê-la a sorrir para mim.
"Bom-dia, dorminhoca."
Levantei-me do sofá onde, à horas, tinha acabado por adormecer com Beth no meu colo. Dirigi-me para a cozinha e sentámo-nos todos à mesa enquanto comíamos o pequeno-almoço - eu devorava toda a comida que conseguia… porque não queria ficar com sede durante a viagem. Sabia que era capaz de aguentar mas não queria ter que fazer esse esforço a mais. Acho que até estava a acostumar-me à comida humana… É má, mas serve para encher o meu estômago. Além disso, tenho comido muita fruta e eu adoro fruta.
Ouvi a risada do Elliott - provavelmente e gozar comigo por comer tanto. Uma rapariga tão afável que comia como um verdadeiro lobo à mesa. Sendo o mais novo dos rapazes tinha o papel de ser o mais criança. Ele era divertido e estava sempre a rir de algo ou de alguém. Mais ou menos como Emmett, de certa maneira. Era engraçado como esta família tinha certos aspectos tão semelhantes aos Cullen. O que provava que toda a minha família era tão humana como eles.
O Clyde era o mais simpático dos quatro rapazes - sempre pronto a ajudar, sempre atencioso, muito cortês, e claro, muito criativo. Aaron talvez fosse o mais calado, parecia que a sua missão era apenas cuidar da sua família - sendo o mais velho tinha essa responsabilidade. Por fim, o Damarco, parecia ser muito reservado mas muito atencioso - ele curou as minhas feridas por isso deve ter alguns conhecimentos médicos para o fazer já que ele até fez um diagnóstico do meu estado.
Observava aquela família porque havia muitas possibilidades de ser a última vez que a via. Embora não quisesses - eles ajudaram-me de uma maneira que mais ninguém faria e foram muito meus amigos. Acolheram-me como se fizesse parte daquela família. Eles estavam sempre a viajar muito por isso eu não os veria muitas vezes, isso era certo. Sabia que ia ter saudades deles mas só conseguia pensar no ar desesperado da minha família ao não saber onde estou. Tinha de voltar para eles o mais depressa possível.
Toda a família tinha sido devidamente colocada na carrinha preta de oito lugares. A minha mota - tecnicamente não é minha mas sim do Jake - tinha sido desmontada para poder caber na carrinha e tudo parecia perfeito enquanto andávamos pela estrada. Cantávamos músicas, contávamos histórias - ou melhor, eles contavam - e por isso a viajem que eu pensava que levaria horas foi, na verdade, bastante rápida. Conseguia ver as tabletas pregadas rente à estrada que marcavam o nome Forks. E estava cada vez mais ansiosa. Talvez eles já conseguissem sentir o meu cheiro. Talvez eles já tivessem aliviados. Eu estava a voltar… e estava a salvo.
Indiquei o caminho para a mansão dos Cullen - tinha a certeza que alguém estaria lá. Mesmo que a maioria andasse à minha procura deixariam sempre alguém em casa para o caso de eu voltar. Pedi para que deixassem o carro a metros da casa - assim poderíamos caminhar durante alguns metros e assim eu poderia ficar um pouco mais com os meus amigos.
Quando saímos do carro, Aaron e Elliott ficaram a tirar e a montar amota. Enquanto que eu, Clyde, Beth e Damarco caminhávamos em direcção à mansão. Eu estava, literalmente, aos saltinhos com Clyde mesmo perto de mim. A sua mão estava encostada às minhas costas e o seu sorriso nervoso - estaria ele nervoso por conhecer a minha família?
Por momentos julguei ouvir um uivo de um lobo mas achei que fosse apenas parte da minha imaginação, já que estava demasiado ansiosa para estar novamente com o Jake e a minha família. Por estar tão ansiosa era provável que começasse a ouvir coisas, certo? Além disso, poderá não ter sido realmente parte da minha imaginação. Partindo do principio que Jacob nunca descansaria enquanto não me encontrasse, era possível que ainda estivesse à minha procura em lobo. Talvez o uivo fora um aviso para todos de que eu estava a chegar e que não era preciso procurar mais.
Olhei para trás, por cima do ombro de Clyde, e Beth e Damarco estavam com aqueles olhares assustados que faziam um ao outro, como se estivessem a discutir silenciosamente. Tinham dado as mãos e via-se a milhas que estavam tensos. Conseguiam os humanos sentir a presença do sobrenatural? Conseguiam eles sentir que havia um forte perigo em eles estarem aqui? O Clyde é que disfarçava a tensão melhor. Enquanto caminhávamos ele contava piadas para que eu pudesse rir. Mais uns metros e estaríamos em frente à mansão.
Olhei e pude ver todos os Cullen em posição de defesa, prontos a atacar. Mas que raio…?! O rosto de Bella estava aterrorizado e o de Edward… absolutamente zangado. Nem tive tempo para observar todas as outras expressões porque comecei a entrar em pânico imediatamente.
Pai! O que raio estão a fazer? Eles são meus amigos! Edward rosnou. Mas o que se estava a passar? Porque estariam eles a querer atacar os meus amigos?
Clyde estava a começar a tremer com o nervosismo mal avistou a minha família como estátuas perfeitas paradas pelo tempo. Um grande lobo arruivado saiu da floresta, correndo em grande velocidade. Rosnou ferozmente.
"Jacob!" gritei quase incrédula. Não era isto que eu tinha em mente para a minha chegada. A minha família estava a afugentar os meus amigos. O que raio fazia Jacob na sua forma de lobo a rosnar para os meus amigos? Eu sei e tenho noção que ficaram preocupados com o meu desaparecimento mas ao ponto de afugentarem humanos como aqueles que me tinha ajudado?
Jacob correu na minha direcção e com uma força exagerada abocanhou Clyde e fê-lo voar de ao pé de mim. Eu não queria acreditar no que estava a ver: o Jacob acabou de atacar o Clyde!
"Clyde!" O grito de Beth assustou-me. Porque não era a voz da Beth. Não era a voz suave e harmoniosa que eu conhecia. Era uma rouquidão imperceptível, como se estivesse sido submetida aos espíritos e a sua voz era de outra pessoa. "Aaron!" gritou novamente. Beth e Damarco correram em direcção ao Clyde que estava a metros de distância, caído no chão, claramente ferido - conseguia sentir o cheiro do sangue mas ignorei rapidamente. Aaron e Elliott em menos de um minuto estavam perto de Clyde como um grupo.
"Jacob, porque raio fizeste aquilo?!" perguntei recuando perto dele. O que raio se estava a passar para aquilo acontecer? "Eles salvaram-me, eles acolheram-me, eles trouxeram-me para aqui e tu atacas o meu amigo?! Os meus primeiros amigos! Um "Bem-vinda de volta" chegava-me perfeitamente!"
O grande lobo uivou. Como se estivesse a discutir comigo!
Eu, Renesmee Cullen, estava furiosa. Furiosa por não estar a perceber o que se estava a passar, o porquê de todas estas atitudes tão parvas! Não é suposto darmo-nos com humanos? De socializarmos com eles? Eu fiz isso, bolas! Eu convivi com humanos, sozinha! O Edward, ainda com o seu rosto zangado, chegou-se perto de mim.
"Eles não são humanos."
O quê? Muito bem, parem de brincar comigo! Isto é para os Apanhados? Para o canal vampírico? Isto não tem piada nenhuma! Estamos a falar dos meus novos amigos que tinham sido feridos pelo meu melhor amigo lobo!
"Ela não sabia?!" Perguntou Emmett.
"Perdeste o olfacto, Nessie?" Perguntava Rosalie com arrogância.
O que se estava a passar? Porque estavam a julgar-me? Todos começaram a falar ao mesmo tempo e eu estava cada vez mais confusa. Diziam coisas sem sentido - ou pelo menos eu não via nenhum sentido nelas. Como é que aquela família tão amorosa podia não ser humana? E mesmo que não fossem humanos, como é que eles me poderiam fazer mal? Passei tempo com eles e não me fizeram mal nenhum…
"Nessie…" o sussurro rouco do Clyde fez-se ouvir. Todos pararam de falar.
Damarco estava a tapar as feridas com as suas roupas, Beth tinha colocado a cabeça de Clyde nas suas pernas para que ficasse mais alta. Elliott e Aaron também lá estavam, com um ar assustador - como se fossem atacar a qualquer momento. Jacob e Edward rugiram ao mesmo tempo. Eu quis aproximar-me de Clyde - primeiramente para lhe pedir desculpas - mas ao primeiro passo que dei, Edward impediu-me e o grande lobo colocou-se à minha frente para que não passasse.
Os olhos azuis escuros de Beth fixaram os meus. "É este o nosso segredo. Suponho que esse seja o teu." disse com a sua voz normal.
Ela estava a referir-se ao quê exactamente? Eles não são humanos, tudo bem. Conseguia acreditar naquilo - nunca fiz amigos humanos e parece que não tenho esse dom. Mas se não são lobos, então são o quê? Que outro ser sobrenatural podia existir? A minha imaginação já não dava para mais. Lobisomens, vampiros… talvez fossem fantasmas… ou magos… daqueles que lançam feitiços pelas florestas mágicas.
Dei mais um passo em frente mas o Edward pegou com demasiada força no meu braço. Estava tão irritada! Fixei o meu pai. Será que ele não conseguia ver que aqueles eram os meus amigos? Cheguei-me perto dele e coloquei a minha mão no seu rosto. Deixei-o ver o último dia… eles tinham-me salvo, protegido e cuidado de mim. Sem me fazerem mal. Mostrei-lhe o quão carinhosos todos foram para mim e ele finalmente deixou o meu braço.
"Renesmee, não!" Gritou Bella. Olhei para trás, admirando-a - era algo inevitável: olhar para a minha mãe e não admirá-la. Eles não me vão fazer mal, pensei.
Jacob pôs-se novamente na minha frente. Olhei para os grandes olhos do lobo. Jake… tenho tantas saudades dele. Do seu olhar - não aquele olhar, certamente! Ele estava a censurar-me, a proibir-me de faze-lo. Isso irritava-me profundamente… talvez, em grande maioria, por ele ter magoado o meu amigo Clyde. Foi uma atitude tão exagerada que me irritava… mas foi uma atitude muito à Jake e eu não podia estar furiosa com ele. Embora achasse que ele merecia.
"Jacob…" disse. Respirei fundo para que a voz saísse mais clara. "Está tudo bem. Vês? Olha para mim. Nenhum arranhão. Não me magoaram, porque iriam eles magoar-me agora, que estás aqui comigo? Não achas que isso seria pouco inteligente da parte deles? Se me quisessem magoar já o teriam feito." Estiquei os braços, para que ele pudesse ver que eu estava perfeitamente normal - apenas usando roupas da Beth. Dei uma volta. "Vês? Nenhum arranhão."
Jacob aproximou-se vagarosamente de mim. Lambeu o meu rosto - e era nesta parte que todos os vampiros, à excepção de Bella, viravam a cara com nojo - e eu abracei o seu pescoço o melhor que pude. A suavidade do seu pêlo era exactamente a mesma à do seu cabelo… deixava-me confortável.
Larguei-o e continuei a minha caminhada até o Clyde, desta vez sem ser impedida por ninguém. Ajoelhei-me perto dele. Beth pegou delicadamente no meu queixo e fez-me olhar para si. Os seus olhos estavam lacrimosos e eu podia ver novamente reflexos de um dourado neles.
"Nós nunca te faríamos mal, Nessie. Apesar de sermos inimigos naturais nós certamente abrimos uma excepção para ti, minha querida."
Inimigos naturais? Quanto mais peças do puzzle tinha, mais peças precisava de encontrar. Era demasiado confuso. Quem eram eles?
"Nessie…" Clyde sussurrou e obteve a minha atenção imediata. Ele sorria embora soubesse que estava com dores. Afinal, Jacob cravou os seus dentes na sua barriga. "Criaste uma obra-prima na grande tela, na noite passada."
Oh, ele tinha visto! E tinha apreciado. Isso deixou-me feliz… porque Clyde gostava de pintura tanto como eu. Os Cullen eram cultos o suficiente para saberem apreciar um quadro, mas não eram pintores. Na prática, apenas Clyde o sabia.
Clyde contorceu-se de dores. Eu tinha de o ajudar. "Ainda queres ser meu amigo depois disto?" perguntei colocando a minha mão no seu rosto. Deixei-o ver a nossa luta de tinta onde nos divertimos tanto. Ele sorriu com um olhar encantador.
"Absolutamente."
Virei-me para trás e corri, muito rapidamente, até ao Carlisle. "Podes ajudá-lo, avô? Por favor."
Jacob rosnou em protesto e Edward caminhou na minha direcção. "Renesmee, eu até consigo ser tolerável para ires ao pé daqueles monstros mas não cedo ao facto de quereres ajudar assassinos."
"Ah!" Ri ironicamente para o meu pai. "Uma boa escolha de palavras: Monstros, assassinos. Mais alguma que deva ser referida, Vampiro Edward Cullen?" Modo sarcástico? Activado.
"Nessie! Eles são lobos! Lembras-te? Dos lobos maus com quem o Jacob poderia lutar? Os lobos com que tiveste pesadelos horríveis? Os lobos maus que matam pessoas e põe milhões de cidades em perigo? São eles, Nessie! São os teus amigos!"
Chocada, olhei vagarosamente para todos eles. Os seus rostos estavam tensos, franzidos e apenas prestavam atenção ao Clyde como se tivessem ignorado as palavras de Edward. Beth? A matar pessoas inocentes? Clyde a matar pessoas inocentes? Elliott? Não. Isso não era possível. O Edward estava a confundir tudo. Só podia ser isso. Eles eram incapazes de uma coisa assim. É demasiado horrível.
No entanto, nenhum deles conseguia olhar nos meus olhos para que eu pudesse ter a certeza de que Edward estava enganado.
"Não estou enganado, Renesmee. Porque não perguntas aos teus amigos?" Como é que eu conseguirei fazer isso? Como é que se pergunta a novos amigos que confiamos se são assassinos? "Com uma pergunta directa." Respondeu Edward.
"Renesmee" Bella chegou-se perto de mim e aconchegou-me nos seus braços. Sussurrou-me. ", eu estive lá. Quando o Jake e o Sam foram a Texas. Eu estive lá… e sei que são eles. O cheiro é idêntico. Compreendo que tenhas feito amizades e que querias preservá-las mas Renesmee… eles são perigosos. Não estamos a falar de amigos como o Jake, estamos a falar de assassinos. Afasta-te deles, por favor Renesmee."
O meu olhar continuava fixado naquela família que me tinha acolhido. "Não" respondi baixinho - mas sabia que todos tinham ouvido. "Eu quero que eles continuem a ser meus amigos. Nós ainda não ouvimos a versão da história deles. Quero ouvi-la e só depois tomarei uma decisão."
Jacob não estava contente com aquilo - eu podia ver nos seus olhos. Mas o que poderia eu fazer? Seria justo não ouvir a sua versão da história? Dizer-lhes que simplesmente que já não quero a amizade deles? Que não agradeço pelo facto de me terem salvo, de me terem acolhido, de terem sido tão carinhosos comigo? Não. Eu tinha que fazer o que estava certo - e para isso precisava de ouvi-los. De ouvir da voz suave da Beth que eles eram lobos maus e eu o capuchinho vermelho.
Foi a vez de Carlisle avançar para ter com o Clyde. Segui-o instintivamente. Com a ajuda de Aaron e Damarco, Clyde foi acolhido na casa dos Cullen e eu não largava Clyde do meu campo de visão. Puseram-no no sofá e Carlisle com a ajuda de Damarco - que também tinha conhecimentos médicos - começaram a curar Clyde.
Beth estava ao meu lado e desta vez eu permiti que ela me desse a mão. Ela já sabia o meu segredo e eu já sabia o dela por isso, se o dom actuasse Beth já saberia a razão. Por algum motivo, o resto dos Cullen não estavam muito à vontade pelo nosso toque. Mas eu realmente não queria saber. Eles ainda eram meus amigos. Não fiz perguntas algumas… queria esperar pela recuperação do Clyde. Carlisle estava muito curioso em saber a história deles mas eu receava que fosse algo que não gostasse.
Jacob entrou em casa na sua forma humana e eu larguei a mão de Beth para começar a correr na sua direcção. Abracei-o pelo pescoço fortemente e ele retribuiu o meu braço espontaneamente. Com mais força do que era normal como se tivesse medo que eu fosse fugir. A sua respiração estava ofegante mas ele suspirava várias vezes. Suspirava de alívio. Nós ficámos abraçados durante uns bons minutos sem dizer nada. Eu podia contemplar o meu cheiro favorito. O cheiro dele. É claro que a sensação engraçada estava presente - oops, não penses nisso Renesmee. Não agora. As suas mãos estavam nas minhas costas e empurravam-me ainda mais para o peito dele. Julguei, por segundos, que a outros olhos parecia que naquele local estava apenas uma pessoa - o meu corpo estava completamente nele e a sensação engraçada ria-se de mim.
"Desculpa ter levado a tua mota sem pedir." disse-lhe baixinho.
Ele riu um pouco mas o seu rosto depressa se tornou sério. O seu olhar queimava o meu rosto… ele estava a admirar-me, como eu fazia com Bella. Por ser Jacob, o seu olhar era totalmente confortante e familiar. Ele deixou os seus lábios na minha testa durante segundos e depois a sua magnifica voz fez-se soar. "Não voltes a fugir sem mim. Por favor."
As suas palavras deixaram em mim um êxtase alucinante. As descargas eléctricas que a sua pele bronzeada dava na minha eram agora tão agradáveis que parecia um outro mundo em que apenas nós existíamos - algo extremamente egoísta. Os arrepios eram congelantes e as borboletas simpáticas e coloridas pareciam estar a dar uma enorme festa no meu estômago. E estavam a chegar cada vez mais convidados.
Eu conseguia ver o brilho profundo que os seus olhos castanhos tinham. Parecia que nos seus olhos não havia um fim de profundidade próxima. Parecia cada vez mais fundo como se eu estivesse a afundar-me neles. Num mar calmo, sereno de um castanho deslumbrante.
"Não pretendia fugir. Tu é que estavas ocupado com coisas de lobos."
Ele riu-se. "Acho que não era o único." Jake tirou o meu cabelo da frente do rosto e colocou as suas grandes e quentes mãos na minha face. Ele continuava contemplando-me. "Minha Nessie. Nunca te abandonarei." E com isto deu um pequeno beijo na ponta do meu nariz. Abracei-o ainda mais depois de ouvi-lo. Quase cravei as minhas unhas na sua pele, para que ele não saísse dali, para que não mudasse de ideias repentinamente e me abandonasse. Queria-o comigo agora e sempre. Porque o Jacob sabia exactamente o que eu queria e precisava de ouvir. Eu iria ficar sempre com ele porque Jake nunca me abandonaria. Era esse o destino.
Ouvi uma tosse fingida atrás de mim, virei-me e, a sorrir num ténue sorriso estava a minha perfeita tia Alice.
"Posso roubar-ta por uns instantes?" perguntou Alice a Jacob, agarrando-me na mão. Jacob, embora não quisesse, acenou. Alice puxou-me para a cozinha e deu-me um abraço apertado. Depois olhou-me seriamente.
"Nessie, eu sei porque fugist-"
"Não fugi." protestei bufando. Não tinha fugido… não havia motivos para isso. Só queria enterrar o vestido o mais longe possível - porque o vestido representava em como velha iria ser.
"Pronto, eu sei porque foste para tão longe. O Edward contou-me mas não te preocupes Nessie, não estou zangada." Fiquei instintivamente aliviada. Eu sabia que por tudo isto a Alice podia ficar muito desiludida comigo mas fiquei relaxada por isso não acontecer. "Só queria que me tivesses contado antes. Eu teria percebido e tinha ido contigo."
"Obrigada Alice." Deu-me um beijo na bochecha e pegou novamente nas minhas mãos. Eu fiquei subitamente irritada, porque reparei que quando Alice me deu um beijo, teve que se inclinar ligeiramente nas pontas dos seus pés, o que significava que eu estava mais alta que ela. Ligeiramente mais alta, é verdade mas ainda assim… eu estava a envelhecer. Era exactamente da mesma altura que a Alice, talvez uns dois ou três centímetros mais baixa que ela e agora, poucos dias depois, Alice teve que se inclinar para chegar à minha bochecha. Humilhante. E eu iria envelhecer muito mais. Ficaria velha. O meu medo, era o medo que me assombrava agora. Era o ódio por mim mesma que começava a ter que, agora, se alastrava vagarosamente por todo o meu corpo. Não queria estar mais velha, não queria!
"Nessie, quero pedir-te um favor." disse subitamente. "Eu preciso de estar descansada, até porque não consigo vê-los, por isso, mostra-me como foram os teus dias com aqueles lobisomens horríveis."
"Eles não são horríveis, Alice. Eles salvaram-me, acolheram-me e trouxeram-me até aqui. Como poderiam ser horríveis? E se fossem assassinos já não me teriam matado?"
"Mostra-me."
Revirando os olhos - por ela não estar a acreditar em mim -, coloquei as minhas mãos no seu rosto e deixei-a observar tudo. Desde que acordei, sentindo um cheiro que desconhecia, passando pela minha apresentação mental a todos os meus amigos, pela luta de tinta que tive com o Clyde onde me diverti tanto, pelo jantar em família que me tinha deixado mais íntima de todos eles, até as cantorias na carrinha, enquanto viajámos para Forks.
Sempre que me lembrava desses momentos ficava radiante por terem sido tão bons - mesmo em momentos como este. Alice não parecia querer acreditar embora, tecnicamente, tenha visto tudo pelos seus olhos. De qualquer maneira, continuava a achar que os meus amigos não eram nenhuns assassinos e tudo não passava de um grande engano. Acredito que eles possam ser lobisomens - eu lembro-me de que, quando acordei, o cheiro era totalmente diferente e, de facto, não me parecia um cheiro característico de humanos, no entanto, nada me dizia que pudessem ser assassinos.
Bella entrou na cozinha - era impossível eu não admirá-la sempre que ela passava pelos meus olhos. Todas as mulheres da minha família eram extremamente lindas mas a Bella… a Bella prendia o meu olhar como mais ninguém o fazia. A única coisa que chegava lá perto - de prender o meu olhar tanto como Bella faz - são os olhos castanhos de Jacob que me permitem afundar se fixá-los por muito tempo.
Bella abraçou-me, quase instintivamente, sem nada dizer. A minha relação com ela era muito profunda, muito dinâmica também. Como a de Jacob: não precisávamos de falar. Ela apenas sabia o que se estava a passar comigo como se tivesse o dom do Edward, sabia como me podia estar a sentir como se fosse o Jasper. Bella é muito observadora e muito humana - muito mais humana que eu, sem dúvida. Ela tem uma noção enorme do que é racional ou não - apesar de viver com vampiros e se ter transformado num.
O seu cheiro é delicioso, parecia costumar tomar banho de um perfume duradouro e requintado. Cada pessoa tem o seu próprio cheiro mas, sem dúvida, Bella tem o melhor de todos eles.
Pousei as minhas mãos na sua face, para que ela, também pudesse ver que os meus amigos não me tinham feito qualquer mal e, honestamente, acho que nunca me fariam algo assim. Talvez tenha dado demasiada confiança mas neste momento parecia-me certo e natural. Bella colocou as suas mãos frias em cima das minhas e sorriu.
"Não preciso que me mostres. Eu acredito em ti."
Ora aqui estava algo que eu queria mesmo ouvir. Claro que tinha de ser a minha Mãe - a mais racional da família. Ela conhecia-me muito bem e tinha uma confiança enorme em mim.
"Obrigada, Mãe." Puxei-a delicadamente para mim para puder abraçá-la novamente. "Mãe… posso fazer uma questão?" Era sobre o que o meu subconsciente estava a pensar e que, de repente, tornou-se muito claro. Algo que eu não compreendia mas que duvidava desde o principio.
"Claro que sim. O que é?"
"Quais são as probabilidades dos meus novos amigos lobos me magoarem?" perguntei. Era uma pergunta que servia para o teste. Se fizesse a pergunta directamente não haviam provas de como eu tinha razão.
"Nenhumas. Zero, totalmente." respondeu orgulhosamente. Era mesmo essa a resposta que eu esperava. Agora podia encurralar a questão.
"Então porque é que toda a família continua tensa? Não me digas que é por ainda estarem preocupados comigo porque já todos sabem que estou inteiramente bem. Nem pelos meus amigos porque acabaste de dizer que a possibilidade de me fazerem mal era nula. Algo entre vocês, que começou mesmo antes de eu me ter perdido, se está a passar. E sinto que é algo mau. Quero saber."
Bella suspirou e eu vi Edward a aproximar-se da cozinha, perto de nós.
"Saíste teimosa como a tua mãe." respondeu Edward orgulhoso. Acariciou a minha bochecha.
Não mudes de tema, paizinho!
Edward e Bella trocaram olhares cúmplices. "Nós iremos falar sobre esse assunto assim que os teus amigos se forem embora."
"Prometem?"
"Prometemos." disseram os dois ao mesmo tempo antes de começarem a rir.
