Nota: Os personagens de Saint Seiya não me pertencem, pertencem ao mestre Masami Kurumada e empresas licenciadas.


Oi gente! Peço desculpa pela demora em postar, mas primeiro eu não tive tempo e depois o site deu piti e não me deixava postar, no entanto cá está mais um cap!

Espero que curtam!


Boa leitura!


Capítulo 10: Uma ilustre visita

I – Como se o mundo fosse acabar

Repentinamente sentiu a jovem escapulir de seus braços com um brilho estranho nos olhos. O tempo parou. Diante de si os orbes castanhos o fitavam não sabia dizer se surpresos, aflitos ou seriam...

Desesperados?

-Lara? O que houve? –Indagou Shura, quando um conhecido barulho de portas, portas de carro se fechando chegou-lhe aos ouvidos. Alguém havia chegado. Tencionou se voltar para trás, mas a jovem o deteve.

-NÃO! –Ela exasperou antes que o rapaz completasse o ato e Shura se voltou surpreso para a mesma, pra não dizer assustado. –Lembra daquele dia em que...; ela começou, porem ponderou sentindo as bochechas instantaneamente adquirirem um tom rosado.

Suspirou. Não havia alternativa. Era questão de vida ou morte; pensou antes de continuar.

-Lembra; ela continuou baixando a cabeça. –Lembra quando te disse para que não me beijasse, para que não me beijasse mais?

-Claro; respondeu Shura ainda inquieto quanto à reação estranha da jovem nos últimos instantes. –Você me disse que solamente en casos…

-Esquece tudo o que eu disse; Ela o interpelou antes que terminasse a frase, finalmente voltando a fitar o rapaz que arqueou a sobrancelha ainda mais confuso que outrora.

Por um instante baixou os orbes sentindo o ardor nas faces aumentar, no entanto, tinha que ter coragem, era a sua dignidade que estava em jogo; pensou dando um baixou suspiro antes de se voltar para o rapaz.

-Me beija; Ela pediu.

-Como? –Shura indagou confuso. Instantes atrás chorava pelo "seu amor perdido", por Aiolos, e agora lhe pedia isso? Não conseguia ver nexo naquilo; ele pensou.

-Me beija; ela insistiu quase que numa súplica. –Me beija como se o mundo fosse acabar e que eu fosse aquilo que você mais ama no mundo...

Os orbes castanhos pareciam estar lhe suplicando desesperadamente, mas por quê? –Indagou-se o rapaz sem de fato conseguir entender o porquê daquilo.

Enquanto isso a jovem se consumia em sua aflição.

Será mesmo que teria que suplicar? –Lara indagou-se desesperada.

-Por favor; ela pediu num fraco sussurro quase inaudível, porem alto o suficiente para que o rapaz ouvisse e isso foi tudo.

O mar de ébano dos orbes do espanhol fixaram-se sobre si como se a pudessem tocar, antes que se aproximasse e atendesse ao seu pedido. Já não importava o significado por detrás daquelas palavras. Só não queria ver aquele brilho angustiado perdurar nos orbes da jovem; pensou Shura.

Aquele olhar quase a fez sentir como se realmente fosse a coisa que ele mais amava no mundo; pensou Lara, porem já não podia mais pensar...

Quente, terno como uma brisa de verão num fim de tarde sentiu seus lábios serem tomados repentinamente pelos do rapaz, acalentando-a. Assim era beijar Shura García Duero, ora cálido e terno, ora quente, lascivo. Sem dúvidas aquele homem sabia exatamente o que fazer e quando fazer para agradar uma mulher.

Sentiu uma das mãos do rapaz afundarem-se entre seus cabelos puxando-a delicadamente pela nuca e aprofundando a caricia. Entreabriu os lábios, totalmente entregue a aquele "balsamo" sentindo-o puxá-la para si e a mão grande apertar-se em sua cintura.

Aquilo era muito bom... Aquele beijo, o calor de seus corpos a se fundirem. Há muito que não sabia o que era sentir-se assim. Completa. Entregue. Sentir-se realmente importante para alguém; ela pensou lânguida entre os braços do rapaz que agora a envolviam por completo. As mãos pequenas apoiavam-se sobre o peito forte e despido do mesmo, quente, quente como o sol...

Aquilo tudo quase a fazia se esquecer, esquecer Aiolos, a angustia que afligia o seu coração e...

É quase tudo.

-Lara?

Separaram-se subitamente ao ouvirem alguém chamar, alguém que na verdade esperava nunca mais voltar a ver; pensou a jovem antes que ambos se voltassem para trás. Há alguns passos de distancia dois pares de orbes incrivelmente azuis os fitavam, um casal junto de suas malas.

-Lara, quanto tempo... Mal a reconheci; disse o rapaz abrindo um largo sorriso, sorriso que a jovem conhecia e muito bem. Sorriso que nem de longe era inocente, mesmo que viesse daquela cara de "menino carente".

-Milo; Ela murmurou em reposta meio que a contra gosto como se só a menção daquele nome a fizesse sentir-se enojada.

-Acho que já conhece a minha esposa Thétis, não? –Indagou o rapaz passando um dos braços em torno da cintura da jovem ao seu lado.

Ah, como não...

Como não conheceria a sereia? Está certo, acreditava muito em contos de fadas e tudo mais o que fosse absurdamente impossível, mas há exatos três anos dissera a si mesma que não acreditaria em nada referente à mitologia grega, tinha motivos suficientes para isso, porem... Sem dúvida alguma sereias existiam e tal qual nos contos mitológicos, com o seu canto encantavam os homens e os faziam perder-se de amores por si...

Lara cerrou os punhos sentindo o sangue ferver. Rever uma "antiga rival" era tudo o que menos gostaria no seguinte momento, porem como sempre o destino dava voltas.

Thétis chegava a ser quase "pior" que Shina em matéria de beleza, perfeição, se bem que, se as duas fossem postas a um julgamento de quem seria a mais bela acabariam facilmente num empate. Linda, dona de um incrível par de orbes azuis tais qual o oceano, Thétis realmente encantava a todos com a sua beleza. Os cabelos longos e loiros mais pareciam uma cascata dourada a deslizar sobre o corpo bem esculpido da sereia.

E ainda por cima vestia-se incrivelmente bem; pensou Lara.

Thétis vestia um vestido rosa e quase transparente de alcinhas muito finas que lhe chegavam até a altura dos joelhos, dando-lhe uma aparência ainda mais irreal, de deusa intocável. As longas pernas alvas terminavam por expor o delicado pé rosado numa sandália de tiras muito finas e ornadas com pequenas pedrarias, claro terminando num longo salto fino.

E pra que? Com tudo aquilo de pernas? –Ela pensou. É também era alta. Dois a zero para a sereia...

E eu aqui enrolada numa canga desbotada, mais parecendo uma múmia havaiana; A jovem suspirou, praguejando mentalmente contra o peculiar "figurino" que havia escolhido.

Três a zero para a sereia.

Perfeita. O casal perfeito; ela pensou pondo-se a analisar Milo também que se vestia muito bem apesar de simples. Uma calça cáqui e uma camisa branca com os primeiros botões abertos e as mangas dobradas até os cotovelos, o peito musculoso e bronzeado parcialmente à mostra.

Como? Como podia estar tão...

Lindo?

E pior, como podia estar pensando naquele canalha daquela forma? Milo Athanasios podia ser comparado a uma bela garrafa de vinho, que só melhora com o passar do tempo, mas que como o vinho, pode causar muita dor de cabeça quando se "consome" mais do que se deveria consumir...

-Lara? –Ela ouviu Shura murmurar-lhe ao pé do ouvido enquanto a envolvia num meio abraço com o intuito de sutilmente lhe trazer de volta ao mundo real.

Ainda bem que o tinha junto de si, agora mais do que nunca precisava do seu apoio.

E o placar se inverte... Quatro a três contra a sereia.

Sem sombra de dúvidas estar na companhia daquele homem contava muitos pontos naquele jogo solitário que vinha travando dentro de si.

-Ah sim, claro; Lara respondeu por fim ao ver que o casal apenas a fitava em silencio como se aguardassem uma resposta.

-Estranho; murmurou Thétis. –Eu não me lembro de você. Milo sempre falou de você, que eram muito amigos, mas acho que nunca chegamos a ser apresentadas, então como...

Então ela não sabia? Ou estaria fingindo que não sabia? –Indagou-se Lara e tudo mais o que fora dito pela sereia fora jogado ao vento. Estava longe muito longe dali...

A forma como haviam se conhecido ainda estava muito bem nítida em sua mente, como se tivesse acontecido há alguns instantes atrás. Um jantar. Milo ficara de buscá-la em casa, mas... Não veio. Atrasou-se sabe-se lá o motivo, porem os últimos três meses que haviam passado juntos – os melhores de sua vida – sem dúvida eram capazes de amenizar aquela falta repentina, a única, desde que haviam se conhecido.

Sabia onde provavelmente ele deveria estar, no restaurante grego no centro, onde certamente devia estar a resolver alguns dos pormenores de sua vinda ao Brasil, que na verdade era uma viagem de negócios. Desde que começaram a sair, tentava não pensar nisso, que ele iria voltar à Grécia quando os negócios pendentes da empresa pertencente a sua família fossem resolvidos, porem um dia ele iria partir quisesse ela ou não.

Mas... quem sabe a levasse junto de si?

Era uma esperança, não tão sem fundamento, afinal se davam muito bem especialmente em dias chuvosos, quando não se tinha nada para fazer...

Enfim, mandou uma mensagem para o seu celular, esperançosa de que o recebesse, porem seu celular estava desligado. Rumou para o restaurante. Não tinha nada a perder e tinha quase certeza de que ele estava lá. Desde que haviam se conhecido sempre almoçavam naquele mesmo restaurante, onde por várias vezes ele tivera que tratar de seus negócios também. Pelo menos era o que ele lhe dizia...

Faria-lhe uma surpresa; pensou, no entanto...

A surpreendida fora a si mesma.

A justificativa para o atraso não foi das melhores, melhor dizendo, foi a pior possível. O castelo de cartas tão bem cuidado havia sido desmoronado. Pegar o namorado aos beijos com a "sereia", dona do restaurante, o mesmo aonde iam se encontrar fora mais do que o necessário para acabar com aquele fim de noite, triste fim de noite.

Lágrimas. Desejo assassino. Mágoa. Lágrimas e... Chocolate. Esse havia sido o fim daquela noite e também daquele que julgara ter sido um dos melhores relacionamentos que havia tido. Mais uma vez descobrira que era a abóbora e que o príncipe era um sapo, um sapo pervertido e venenoso. Talvez isso explicasse a enorme tatuagem de um escorpião escarlate em suas costas, uma deixa de quem realmente era.

-É bem; a jovem murmurou sem saber ao certo o que dizer, diante da cara lavada do ex, que agia como se nada – absolutamente nada – houvesse acontecido e da face curiosa de sua esposa que parecia estar realmente sendo sincera até que o mesmo tratou de intervir e encurtar aquela apresentação.

Milo se voltou para a esposa ao seu lado.

-É, bem, como você mesma disse, Lara e eu éramos muito amigos só que antes de nos mudarmos para a Grécia e nos casarmos. Nós tivemos uma pequena rusga e acabamos nos afastando um pouco; Milo fez uma breve pausa fitando os orbes azuis e curiosos da esposa. –Mas aí quando nos casamos mandei uma foto do nosso casamento, aquela da saída da igreja, lembra? –continuou Milo se voltando para a esposa que anuiu.

Agora sim, estava tudo explicado; pensou num meio sorriso.

Como é que podia ser tão baixo? Aquele artrópode venenoso e... Será que também utilizava seu veneno para entorpecer a sereia e lhe cegar quanto as suas...

Quase chegara a sentir pena, se compadecer da jovem que aparentemente havia passado ou ainda passava pelo mesmo que si há alguns anos atrás nas garras daquele inseto; pensou Lara cerrando os punhos e se contendo para não pular no pescoço do mesmo e troce-lo até que se partisse ao meio.

-Mas e você? –Indagou Milo se voltando para Shura e tirando a jovem de seus devaneios assassinos. –Você é pelo que pude ver o; ele ponderou num meio sorriso, um sorriso maroto e cheio de segundas, terceiras e até quintas intenções que a jovem conhecia e muito bem. –É o novo namorado da Lara, isso? –ele completou.

-Isso mismo, Shura García Duero, placer em conhecê-lo; Shura respondeu de forma cortês estendendo a mão em cumprimento.

-Milo. Milo Athanasios e essa é a minha esposa Thétis como havia dito a pouco; continuou Milo enquanto a esposa estendia a mão em cumprimento ao espanhol num doce sorriso.

-É, bem, ahm... Apresentações a parte devem estar muito cansados da viagem, então, bem o que acham de entrarmos? –indagou Lara pedindo aos deuses que aquilo tudo passasse, acabasse logo.

-Isso! Realmente estamos muito cansados não é amor? –indagou Milo se voltando para a esposa e cochichando algo em seu ouvido, fazendo a mesma corar e dar um risinho abafado.

Idiota... Aquela mente maquiavélica e pervertida já deve estar maquinando a orgia da noite; Lara cerrou os punhos mais uma vez.

-Yo te ajudo com las malas; disse Shura se aproximando do casal antes que adentrassem a casa.

II – Mudança de planos

Mais um jantar na companhia dos amigos, mas com um diferencial. Agora a lista de inimigos havia aumentado...

Confraternizando com o inimigo. Aquilo ainda lhe parecia estranho, mais do que isso, algo quase que insuportável, mas teria que levar o teatro até o fim, agora mais do que nunca. Ainda se lembrava da explicação da amiga quanto à mágica aparição de Milo aquela tarde.

- Lembrança -

-Lara, me perdoe... Eu te juro, não sabia que o Milo viria, na verdade em respeito a tudo que ele lhe fez Aiolia e eu decidimos que não o convidaríamos para o casamento, mas...

-Mas? –A jovem interpelou a amiga que a fitava com seus grandes olhos azuis. –Então como explica aquilo ali? –Lara apontou para um ponto pouco distante de onde estavam.

Haviam se afastado até a sacada e ali conversavam, enquanto na sala – um grande cômodo branco rodeado de janelas altas que chagavam até o teto – os demais se entretiam jogando conversa fora. Milo como sempre era o líder, o que coordenava tudo entre risos e piadinhas por vezes infames, porem com seu charme natural conquistava quem quer que fosse ou desejasse. Já sabia essa cantilena de trás pra frente e de frente pra trás. Bonito, inteligente, engraçado. Milo era tudo isso, dentre tantas outras coisas mais. Mas o que poucos sabiam era que o seu veneno era doce e atordoante, porem nocivo.

Pelos Deuses... Amara aquele homem na mesma proporção com a qual o detestava agora. Não o odiava apesar de tudo, porem não o suportava.

-Lara; a voz da amiga a tirou de seus pensamentos. –Milo só está aqui por um motivo. Pelo velho Kinaros...

-Como? –Lara exasperou confusa.

-Isso mesmo, essa foi a condição imposta pelo pai de Aiolia para que viesse ao casamento; Marin completou.

-Mas por quê isso?

-Não faço a menor idéia; a ruiva respondeu com sinceridade. –Os Athanasios e os Kinaros, pelo que sei sempre tiveram negócios em comum, mas ainda sim isso não justifica essa exigência. Assim como você, eu só soube disso hoje. Aiolia não me contou tal exigência imposta pelo pai, porque sabia que eu seria contra; Marin tentou se explicar.

-Vai ver o velho Kinaros acha que o Milo é melhor pretendente para o filho, e que os dois vão se apaixonar nesse meio tempo juntos e no fim vão acabar fugindo no dia do casamento, deixando suas chorosas esposas...

-Lara; a ruiva murmurou chocada.

-É verdade, escreve o que eu disse. Não duvido de mais nada e acredite, ele deve estar trazendo consigo alguma prima de terceiro grau, linda e prendada para oferecer em casamento ao Aiolos, assim todos ficam felizes, tem uma vida perfeita e...

A jovem ponderou por um instante. Os orbes azuis da amiga apenas a fitavam em silencio, mas definitivamente tinham um brilho triste. Como podia ter sido tão insensível? Amaldiçoou-se pelo que havia acabado de dizer.

-Ah, me desculpa; foi rápida em dizer e se aproximou tocando o braço da amiga. –É o seu casamento e eu aqui falando esse monte de besteiras... Mas o Aiolia, ele te ama mais do que tudo e você sabe disso, não é? Eu sou uma idiota demente e nada do que eu digo faz sentido como você bem sabe; Lara tentou se explicar como se o fato de Milo poder ser um "bom partido" para Aiolia realmente fizesse sentido para a amiga e abalasse seu sentimento pelo noivo.

-Não é isso que me entristece; a ruiva respondeu com os orbes marejados. –Sei do amor de Aiolia por mim e a prova viva disto está aqui dentro de mim; ela ponderou levando uma das mãos com sutileza a barriga roliça. –Não tenho porque temer uma possível rival, ou o escorpião sentado no sofá da sala, o que me preocupa é você...

-Eu? –A jovem se afastou confusa.

-Sim, você; Marin confirmou. –Esse jogo que está jogando é perigoso, perigoso demais, onde no fim todos vão sair machucados e muito, inclusive você.

Lara abriu a boca para contestar, porem foi tudo.

-Não pense que não percebi que você mudou de atitude desde que o Milo chegou. Até então, você e Shura eram namorados, mas a uma certa distancia... Agora? Você se joga em cima dele, lança olhares lascivos, se insinua. E tudo isso pra que? Pra que o Milo pense que são um casal de adolescentes em ponto de erupção e que só estão em nossa companhia por pura cortesia, gentileza? Para que pense que por mero puritanismo não fazem amor no tapete da sala e em nossa presença?

-Marin; a jovem murmurou constrangida, mas a amiga tinha razão era exatamente isso que havia feito nas últimas horas. O beijo flagrado por Milo e a esposa havia sido apenas o começo. –Entenda, eu...

-Pare com isso Lara, por você mesma. Não se machuque mais e não machuque mais ninguém...

-Machucar? Do que está falando? –Lara indagou confusa.

-Aiolos. Como acha que ele deve estar se sentindo com isso tudo?

-Ele; a jovem ponderou de cabeça baixa. –Ele não me ama; concluiu com amargura por fim se voltando para a amiga. –O máximo que pode estar sentindo é um ciúmes bobo de amigo, ou melhor, ciúmes bobo de homem, que acha que toda mulher que o rodeia o pertence.

-Você sabe que ele não é assim; a ruiva respondeu. –Eu sinto que ele sofre com tudo isso, mas enfim, por favor, pensa no que eu te disse; dito isso a jovem deu as costas e saiu deixando a amiga no vácuo de suas palavras.

- Lembrança -

É aquilo tudo fazia sentido. Aquela não era a si, mas a sede por vingar-se daquele inseto era maior, maior até mesmo que a motivação inicial com a qual havia traçado seu plano. Aiolos não a amava, agora sabia disso por sua própria boca, então a sua única motivação seria continuar com o plano e por Milo Athanasios no seu devido lugar. Em baixo da terra. Enterrá-lo. Shura a ajudaria. Com aquele homem ao seu lado a fazendo de sua Deusa, nada poderia dar errado; pensou.

-Estoy um poco cansado, o que acha de subirmos amor? –disse Shura com um doce sorriso após uma longa conversa sobre as empresas Kinaros e Athanasios ao término do jantar.

-Claro, é uma ótima idéia; Lara que estava sentada ao lado do rapaz no sofá foi rápida em responder e ignorando o pedido da amiga, manteve o mesmo tom provocativo de antes, enlaçando o braço no do rapaz.

Houve um murmúrio de protestos, porem o casal subiu para o quarto.

III – Entre amigos

-Apreciando a noite? –uma voz conhecida se fez presente, fazendo o rapaz encostado na sacada se voltar para trás. Já fazia alguns minutos que o observava ao longe, silencioso, a fitar o manto da noite enquanto os demais ainda conversavam na sala.

-Sabe, ainda me custa acreditar que você está mesmo casado; Disse Aiolos se voltando para trás e se deparando com os orbes azuis do amigo. Seu meio sorriso denotava uma certa incredulidade quanto ao que acabara de dizer, como se fosse o mesmo que dizer que de um dia para o outro começasse a chover de baixo pra cima.

-Foi ao meu casamento, não foi? –Disse Milo abrindo um largo sorriso enquanto se aproximava do amigo, e imitando o gesto do mesmo encostou-se na sacada dando as costas para a noite escura. –Mas eu é que imaginava vê-lo casado depois de todos esses anos...

-Eu? –Aiolos indagou surpreso.

-Preciso dizer com quem? –Continuou Milo, o sorriso se alargando.

-Se fala da Lara...; Começou Aiolos desviando o olhar, porem foi interrompido.

-Nãooo; Milo respondeu veemente balançando ambas as mãos de forma displicente e então recostou-se preguiçosamente contra a bancada atrás de si. –Por quê pensaria isso? Dentre todas as mulheres do mundo justamente nela?

O rapaz ponderou voltando os orbes para o céu como se estivesse a pensar, revirar suas memórias antes de se voltar para o amigo, como se uma luz se acendesse em seu inconsciente.

-Ah é claro, como poderia me esquecer das suas ameaças veladas de morte lenta e dolorosa se ousasse ferir o coração de sua melhor amiga? Ahm... De ter voltado com um olho roxo para a Grécia e de termos ficado sem nos falar por quase um ano? Isso, bem, isso não conta como provas para a minha recente descoberta, não é?

Foi a vez de Aiolos ponderar durante longos minutos. Voltou os orbes para além da sacada e o céu escuro, porem Milo definitivamente não apreciava o silencio.

-Você a ama; ele continuou. –Sei disso melhor do que ninguém. Infelizmente descobri isso da pior forma possível, mas sabe qual é o problema? Como sempre você é ponderado demais, não se arrisca e...

-Ela tem o Shura agora; Aiolos se voltou para trás finalmente fitando o amigo. Uma troca de olhares e então um pesado silencio caiu sobre ambos. Aiolos mais uma vez se voltou para o céu escuro dando as costas para o amigo que permaneceu em silencio, mas como sempre por pouco tempo.

-Eu te disse meu amigo... a fila anda...

IV – Explicações

Silencio.

Silencio subindo as escadas. Silencio enquanto se aprontava para dormir. Silencio enquanto armava a barreira protetora em volta do inimigo...

Aquilo definitivamente a estava incomodando. Shura havia cumprido e muito bem o seu papel de amante latino durante a noite toda. Atencioso, gentil, carinhoso. Apaixonado. Exatamente como queria que fosse, porem desde que haviam se distanciado dos olhos dos amigos havia se calado de tal forma, que um silencio sepulcral parecia pairar entre ambos. Havia terminado de montar a barreira de travesseiros no centro da cama, enquanto o rapaz jazia deitado em silencio do outro lado, ainda vestindo as roupas que usara no jantar.

-Pronto. Ahm; Disse Lara, como se temesse despertar o rapaz de seu mantra silencioso. –Já pode se trocar. Estou pronta e bem, você sabe; Ela completou lançando uma rápida olhadela sobre a barreira antes de se sentar e se enfiar debaixo dos lençóis, tal qual a noite passada até que se escondesse por completo feito um coelho assustado em sua toca.

Em silencio o rapaz se levantou, deu a volta e rumou até a suíte do outro lado do quarto.

-Droga; A jovem exasperou fitando a luz pálida que saía por debaixo da porta do banheiro.

Ele está fazendo greve? Greve de silencio comigo? Pra mim essa história de greve era coisa de mulher, mas... É, ele ta fazendo greve de silencio comigo; constatou emitindo um suspiro angustiado e assoprando impaciente a franja que insistia em cair sobre os olhos.

Shura sabia quem Milo realmente era, já havia confidenciado isso a ele certa vez, talvez não com todos os pormenores, porem ele sabia, então... Qual era o significado daquilo? Agia como se... Não. Aquilo não era humanamente possível, não fazia sentido algum; pensou.

Agia como... Como um namorado ciumento? Com ciúmes da presença do ex? –Indagou-se para depois balançar a cabeça freneticamente. Aquilo não fazia sentido algum. Mantinham um plano pré-traçado, um teatro. Nunca haviam sido mais do que isso, ator e atriz daquela peça, mesmo que visse nele um amigo, alguém a quem pudesse confiar e revelar segredos como os de Milo Athanasios, no entanto, de fato sua atitude a deixava confusa.

Foi então que a porta rangeu, sinal de que saia do banheiro tão silencioso quanto havia entrado. Fechou os olhos. Ver aquele homem sair do banheiro vestindo só aquela cueca boxer não era algo que devesse ver, não agora, tão perto de dormir... Aqueles velhos sonhos com toda a certeza povoariam sua mente a noite toda; pensou fechando os orbes e puxando as cobertas até o pescoço.

Um espaço de tempo que pareceu bem mais do que alguns poucos segundos se passou e não ouvia um ruído que fosse. Ousou espiar pelo canto dos olhos, curiosa como só ela era, porem se arrependeu. O rapaz jazia parado em pé, em frente a si, porem vestido.

-É, bem, é, eu...; Ela balbuciou sentindo as faces se esquentarem, diante daqueles orbes negros e silenciosos cravados em sua face.

-Acho que precisamos conversar, no é? –ele disse.

-Sobre? –Ela indagou tentando fazer-se de desentendida. Quem sabe ele desistisse daquela conversa, que já o era demasiadamente constrangedora.

Eu o beijei. Flertei e...; Corou.

As palavras de Marin agora ressoavam como um sino em sua mente. Havia se insinuado para ele e se havia deixado bem claro até mesmo a amiga o que 'desejava' dele, ele obviamente também havia percebido suas intenções pouco castas, mesmo que como parte daquele teatro pré montado; Lara pensou exasperada sentindo o rosto pegar fogo, como se só agora percebesse o que havia feito.

-Sobre lo que você realmente quer de mim; Respondeu Shura.

-Como? –A jovem balançou a cabeça para ambos os lados, franzindo o cenho.

-Esta noche, ficou bien claro que su alvo no era exatamente el Aiolos...; Ele murmurou.

-Deu pra perceber? –Indagou constrangida enquanto se levantava e se recostava contra o encosto da cama.

-Es, dio; respondeu Shura sentando-se ao lado da jovem.

-É, bem, eu, enfim, acredite tive uma causa nobre para agir como agi; ela continuou. –Sabe quanto você cultiva um belo canteiro regando-o com a força do seu coração e ele floresce? Aí uma bela de uma praga, aparece e devasta tudo aquilo que cultivou com tanto carinho? E pior, você descobre que aquela praga sempre esteve ali entre as roseiras, porem apenas invisível aos seus olhos. Melhor dizendo, você descobre que a praga e a roseira são um único ser...

Shura assentiu em silencio e então a jovem continuou.

-Esse é Milo Athansios. Ele não foi apenas um ex-namorado, foi alguém que me marcou, deixando o rastro de seu veneno...

Lara completou e então baixou os olhos. Bela hora para bancar a sentimental; pensou. Porem se não contasse a ele, ele jamais iria entender o porquê daquela sede de vingança. Alguns minutos de silencio se passaram e então Shura finalmente voltou a falar.

-Más você tambien o marcou...

-Como? –Lara se voltou confusa. –Acho que você não me entendeu ou não fui clara o bastante; ela continuou. –Ele me traiu e eu o flagrei. E com quem? Com a sereia lá em baixo na sala... Entendeu agora?

-Insisto, você lo marcou...; Disse Shura e a jovem o fitou ainda mais confusa.

-Como? Ele se casou, continuou sua vida. Quem parou de viver durante esses anos fui eu. Me tranquei em minhas mágoas, derrotas e deixei a solidão tomar conta de minha vida. Me diga, quem marcou quem?

-La sua marca foi, digamos, um poco más profunda y deixou una bela de una cicatriz; Insistiu Shura porem estranhamente um meio sorriso se formava em seus lábios. –Se esqueceu? De la mordida que el Ramón dio nele? De la mordida en lo trasero?

Durante alguns instantes a jovem ponderou, como se aquilo não lhe fizesse sentido, até que a fixa caiu, ou melhor, os créditos do cartão telefônico via mundo da lua, acabou. Uma sonora gargalhada tomou conta do quarto, antes que a jovem voltasse a falar.

-Bobo; Ela disse ainda se recuperando do acesso de riso, levando ambas as mãos aos orbes marejados de lágrimas, mas lágrimas de risos, enxugando-os com as costas das mãos. Incrível, mas três anos não foram capazes de fazê-la esquecer tal cena. –Mas ele deve mesmo ter a cicatriz até hoje, caso não tenha feito uma plástica. Ficou uma semana sem poder se sentar direito, por conta dos dentes ferinos de Ramón.

-Tiene uno sorriso lindo sabia? –Indagou Shura levando uma das mãos ao rosto da jovem que recuou sem jeito. –No perca más tiempo chorando por conta de las cosas passadas, cosas que no a devem afetar más. Já passou. Ele no merece que sofra por ele; sentenciou.

-Tem razão; a jovem assentiu. –Milo é passado, mas...

-Tiene la necesidad de 'lhe dar lo troco'? –Indagou Shura abrindo aspas com os dedos ao fim da indagação.

-É, em partes; a jovem respondeu sem jeito. –Queria que ele visse que apesar de tudo, eu estou bem e que ter batido a porta na cara dele há três anos e chorar de encontro à porta, tão alto que ele pôde perfeitamente ouvir do outro lado, não significou mais do que ele possa imaginar ter significado. Quero que ele pense que não o amei em momento algum, quero que sinta o que senti, que ele não foi mais do que mera diversão para mim e que se chorei foi por conta do meu orgulho ferido e não por...

-Amor? Pelo amor que sentía por ele? –Indagou Shura.

-Já nem sei se um dia o amei, mas; a jovem ponderou. –Sim, é isso que eu quero.

-Más, e el Aiolos?

-Se não se importa, prefiro não falar sobre isso pelo menos por hoje; Ela pediu com aparente amargura.

-Está cierto. Amanhã conversamos mejor sobre isso tudo, por hoje solamente durma y descanse. Coloque las ideas en orden; disse Shura e então se aproximou repousando um beijo terno em sua face. –Buena noche; completou se afastando e dando a volta para se deitar.

A jovem se afundou na cama. Aquele toque, aquele beijo fora doce...

Tocou a face como se ainda sentisse os lábios do rapaz sobre sua pele e então se afundou entre os travesseiros cobrindo-se até a cabeça.

Mas o que estava sentindo? Aquilo era tão estranho e... Não sabia dizer, mas sem dúvida alguma o destino conspirava contra si, lançando aquela maré de sentimentos e tentando afogar-lhe em suas águas turvas, no entanto, por hoje como dissera Shura, apenas dormiria. Se entregaria as carícias de Hypinos e nos braços do Deus do sono encontraria o refúgio depois daquele dia mais do que agitado.

Continua...