NARUTO NÃO ME PERTENCE- E SIM A MASASHI KISHIMOTO

ESTA HISTÓRIA TAMBÉM NÃO- É UMA ADAPTAÇÃO DO LIVRO DE SUZANNE ENOCH!

Esse cap também tem hentai, mas é menos que o outro.

CAPITULO V- parte 1

Encostado na porta da baia, Sasuke esperou o cavalariço escovar e guardar Tolley. Os dois haviam tido muito trabalho nos últimos dias. Os cinco quilômetros que precisara cavalgar a mais para despistar possíveis perseguidores tinham valido a pena, porque vira Sakura... e a beijara.

Sem querer, ela lhe dera uma pista valiosa: o livro de visitantes. Como ele jamais havia ido à Guarda Real Montada, não tinha pensado na possibilidade do acesso de não-funcionários. Um acesso periódico seria suficiente para conhecer o lugar.

Claro, poderia ter sido um empregado, hipótese também provável, mas um visitante fazia mais sentido. De um modo geral, os oficiais, funcionários e guardas eram militares de carreira; não precisavam da guerra para receber seus proventos e cuidar do futuro.

Dinheiro também não parecia ter sido a motivação. Poderia ser um inglês simpatizante de Napoleão, mas, como a guerra já terminara havia três anos, um fanático já teria sido objeto de rumores e a Coroa já o teria detido. Poderia ser um espião...

— O que está fazendo? — Yuu entrou na cocheira seguido de Neji.

— Cultivando dor de cabeça, e você?

— Neji vai me levar para pescar. Eu ia cavalgar com Konohamaru Grayson e o tio dele, mas enviaram um bilhete dizendo que Konohamaru está doente.

Neji e Sasuke se entreolharam. Com certeza, a família do menino é que adoecera só de pensar que Konohamaru sairia com um Uchiha...

— Ele vai melhorar logo. — Sasuke procurou não de monstrar a própria revolta.

— Espero que sim, porque Itachi prometeu nos levar para ver o navio dele em Portsmouth, na semana que vem.

— Chibi, por que não vai ajudar John a selar Tempestade? — Neji sugeriu, cutucando o irmão caçula nas costas.

Yuu se virou e cruzou os braços sobre o peito.

— Eu não sou bobo. Por que você simplesmente não diz que quer conversar com Bit a sós?

— Chibi — Neji sorriu, condescendente —, quero conversar com Bit a sós.

— Está bem, mas eu vou acabar sabendo o que é.

— Fora, moleque! -Yuu se foi.

— Como foi o almoço com Uzumaki? — indagou Neji. — Você foi lá, não?

Sasuke esmigalhou uma folha de feno com os dedos.

— Ele e Hina mandaram lembranças, e querem saber como podem ajudar.

— Bons amigos.

— Verdade. — Remexeu a terra. — Divirtam-se na pescaria.

— Ainda não terminei, Sasuke. — O irmão dele o fitou, taciturno. — Eu sei que você se culpa pelo acontecido.

— Por que diz isso?

— Porque o conheço e não sou cego. A vantagem de se ter família é que não precisamos nos sentir sozinhos.

Sasuke comprimiu os lábios. Precisava contar.

—Eu me culpo, sim. Porque, há três anos, tentei resolver a situação e fracassei.

— Como?

— Tentei me matar, Neji. Ou melhor, provoquei os franceses para me matarem, o que é a mesma coisa.

O irmão dele empalideceu.

— Era a única solução para me livrar do Castelo Pagnon — Sasuke prosseguiu. — Eu não agüentava mais aquele lugar. Se não fosse a resistência espanhola ter me encontrado no mato, eu teria morrido.

— Você não está pensando...

— Em tentar de novo? Não. Mas é por isso que não posso comentar com ninguém a respeito do Castelo Pagnon. Por isso preciso resolver isso sozinho: porque é minha culpa, e vocês vão se prejudicar se forem meus cúmplices. Você mesmo vai ser pai daqui a um mês.

— E quero um tio para o meu filho. — Neji o segurou pelo braço.

— Ele vai ter no mínimo três.

— Mas quero que ele tenha um tio com bom senso e inteligência, como você. O que estou tentando dizer é: não nos exclua de sua vida, alegando que é para nosso próprio bem... Nós é que temos de decidir isso.

— Vou pensar no assunto — Sasuke respondeu, reticente. Sabia que não poderia envolvê-los ou iria prejudicá-los definitivamente. — Para sua informação, lorde Neji, a Guarda Real Montada está me seguindo.

— O quê?

— Eu os despistei em Piccadilly, mas vão estar por aqui a qualquer momento.

— Só faltava essa! O que mais tem para contar, Bit? Avise para que eu tome uma bebida bem forte antes.

— Por enquanto é só.

Sasuke suspirou. Não queria falar de Sakura, pois não conseguiria articular as palavras. Além do mais, Neji não entenderia sua obsessão.

Com os cavalos selados, ajudou Yuu a montar e os viu indo embora em passo de trote. Um cavalariço os acompanhava com os caniços.

— Mais alguma coisa, senhor? — Gimbie guardava Tolley no boxe.

Sasuke acariciou o pescoço do cavalo, que retribuiu afagando-lhe o pescoço com o focinho.

— Não, estamos bem.

Ele precisava pensar, mas, como sabia que sua presença na cocheira deixava os cavalariços nervosos, foi para o roseiral.

Estava impressionado com as roseiras. Duas semanas antes não passavam de gravetos e espinhos que pareciam mortos não fosse o tênue verde das folhas. Naquela tarde havia novos brotos e, numa roseira maior, encontrou até um botão de rosa.

Mas as ervas daninhas tinham brotado também.

De cócoras, Sasuke as arrancou. Ah, se os vilões estivessem assim tão expostos entre as pessoas de bem...

Mas, não. Ele próprio se sentira uma erva daninha durante três anos, portanto a analogia não servia.

A metáfora ia além: ele não poderia existir como uma erva daninha esquálida na vida de uma rosa viçosa como Sakura. Ele a tomara nos braços, contara a ela seus segredos mais íntimos, e ela, ainda assim, preferia desposar Kiba Inuzuka.

Sasuke nunca dera muita importância a Kiba.

Quando Sakura o escolhera como futuro cônjuge, entretanto, a indiferença se transformara em antipatia. No momento, com Kiba fazendo o papel de patriota — enquanto ele, Sasuke, se encontrava em uma situação desastrosa, que piorava a cada dia —, a antipatia já se transformara em ódio: um ódio surpreendente de tão obsessivo.

Sasuke esmurrou a terra. O que faria? Ficaria de braços cruzados, deixando Sakura comprometer-se com um indivíduo insosso?

Se não fosse Kiba o pretendente dela, quem seria? Ele?

Bufou, cínico. Ele, Sasuke Uchiha, casado com Sakura Guenevere Haruno...

Impossível, mesmo que quisesse. Afinal, o laço do carrasco já ameaçava enforcá-lo por traição.

Mas não, uma voz insistiu dentro dele. Ele precisava e queria provar que estavam todos errados.

— Deu para esmurrar minhocas, agora? — A voz meiga de Tenten soou atrás dele.

— Só estava pensando.

— Em quê?

— Em como conseguir uma folha de papel à qual eu não tenho acesso, em um lugar onde não tenho permissão para entrar, fingindo que não sei que há gente me vigiando ali no mato.

— Nesse caso, peça a alguém para consegui-la para você, ora.

Sasuke se voltou para fitá-la.

— E envolver outra pessoa nessa confusão?

— Eu poderia lhe dizer o óbvio: que outras pessoas já estão envolvidas. Por que não pede a alguém da família, ou a algum amigo seu?

— Eu não poderia.

— Ora, eu mesma gostaria de ajudar. Que papel é esse?

— Tenten, você não pode...

— Tarde demais, já sou voluntária. — Ela sorriu com bom humor e uma surpreendente determinação no olhar. — Fico aborrecida quando as pessoas de quem gosto são acusadas injustamente. Que papel é esse?

Sasuke se levantou. A vida dos Uchiha mudara muito desde que Tenten viera morar na mansão. A dele mais que a dos outros, exceto por Neji, era evidente.

Agora Sakura também vinha habitar seu mundo obscuro e o inundava de luz.

— Preciso de uma página do livro de visitantes da Guarda Real Montada. Quero saber quem esteve lá na semana passada.

— E onde está esse livro?

— Na portaria da Guarda, aos cuidados de uma sentinela.

— Será que ainda está lá, com toda essa investigação?

— Pelo que sei, eles suspeitam de alguém de fora. Não de um freqüentador assíduo.

— Está sendo vigiado de verdade, Bit?

— Estou. Voltaram há cinco minutos. -Tenten apertou o maxilar.

— Quando isso terminar, vou ter uma conversinha com o general Haruno... Muito bem, só saia do jardim depois que eu for embora.

— O quê? Você não vai...

— Nunca imaginei que fosse falar assim com você, Sasuke, mas fique quieto. Isto é trabalho de mulher.

Tenten afastou-se e entrou na casa. Sasuke pegou o regador e, propositadamente, deu as costas para a entrada, a fim de não vinculá-la a ele.

Dez minutos depois de um lacaio ter deixado a mansão, ele ouviu o ruído de um coche se aproximando. Quando arriscou uma espiadela, avistou o timbre vermelho e amarelo dos Uzumaki fulgurando à porta do veículo.

Tenten entrou no coche amparada por Hinata e uma aia, e as três partiram imediatamente.

Sasuke terminou a rega. Teria de esperar para saber o que a cunhada planejara.

X

— Sakura!

Ela pulou, sobressaltada, ao ouvir seu nome. Desceu da carruagem do pai e quase tropeçou ao pisar no chão.

— Kiba...

— Preciso falar com você. — Kiba parou o cavalo baio e desmontou.

À entrada da Mansão Haruno, Ballow a esperava com a porta aberta.

— Estou voltando de um almoço.

Ela deveria sentir culpa, afinal, vinte minutos antes estava beijando Sasuke Uchiha. Entretanto viu-se tomada por uma espécie de enfado quando Kiba a tomou pela mão. Suspirou, contrariada. Ainda precisava pensar em como conseguir a relação do pessoal da Guarda Real Montada sem chamar a atenção do pai.

— Se você me esperar na sala de estar...

— Não, por favor, vamos caminhar. Preciso lhe falar agora. — Kiba a fez pôr a mão em seu braço.

— Não posso me demorar.

Era a primeira vez que ela o via tão ansioso, e se pôs em guarda. Rumou com ele para o roseiral, onde pode riam ir sem acompanhante. Kiba andou depressa, amparando-a pela cintura e, quando ela forçou o corpo para trás, querendo seguir mais devagar, ele a tomou pela mão e a conduziu até o banco de pedra.

— Aqui está bom.

— O que houve?

— Sente-se, por favor.

Ela se sentou e ele continuou em pé, andando de um lado a outro.

— Diga o que há, Kiba, por favor

— Eu a segui. — Kiba parou na frente dela.

— O quê? — Sakura ficou petrificada.

— Não sou cego, Sakura, já notei como você olha para aquele Uchiha. Imaginei que você fosse vê-lo por causa de nossa discussão, pela manhã, e a segui até a residência dos Uzumaki.

Ela sentiu o peito se apertar. Se seu pai descobrisse que ela lhe desobedecera de novo, jamais a perdoaria.

— Eu não sabia que ele pretendia vis...

— Não importa. Você é mulher... Compreendo sua necessidade de cuidar de cachorros perdidos e pássaros feridos. — Kiba sentou-se ao lado dela e segurou-lhe a mão. — Eu disse a seu pai que esperaria até essa confusão serenar, mas não tenho tanta paciência assim.

Sakura refreou o abrupto impulso de ir correndo para casa, pois se lembrou de que ela mesma escolhera aquilo. Justamente por esse motivo decidira aplicar suas aulas em Kiba.

Calma, ordenou a si mesma.

De repente, ele a segurou pelo queixo, ergueu-lhe o rosto e se inclinou para beijá-la.

Sakura ouviu o murmúrio dos cavalariços na cocheira ali atrás, a passagem de uma charrete na rua em frente, o grasnar de duas gralhas no telhado.

Quando Kiba recuou, já estava mais calmo.

— Não vê que fomos feitos um para o outro? — perguntou em voz baixa.

Sakura estudou o rosto bonito à sua frente, a elegância dos ombros retos.

Mas o beijo a emocionara tanto quanto o pai aceitar uma correção que ela fizera em um dos manuscritos. Se era a isto que Sasuke chamava de existência amistosa, ela abria mão.

Kiba ajoelhou-se subitamente diante dela.

— Pode me chamar de abusado, inconveniente, mas eu preciso saber, Sakura... Quer se casar comigo?

Ela engoliu em seco.

— Meus amigos estão com problemas, Kiba, não posso passar por cima deles.

— Não precisamos nos casar amanhã. Quero apenas saber se você vai me conceder essa honra.

Se ela dissesse "sim", o pai ficaria feliz, Kiba seria comandante na Índia e ela teria um futuro seguro e con fortável. Ela poderia ficar ou ir com ele, se quisesse. E o general poderia ir também, quem sabe?

Mas não conseguia deixar de pensar nos olhos, na voz, e no toque de outra pessoa.

— Não sei, Kiba. Eu... estou com outras preocupações no momento.

Ele a fitou, contrariado.

— Pergunto se quer se casar comigo, e você não pode responder porque tem outras preocupações?

— Não, eu... Só quero dizer que podemos conversar amanhã, na semana que vem, ou no mês que vem. Sasuke precisa de ajuda hoje, Kiba. Depois será tarde demais.

Kiba se aprumou e se sentou novamente ao lado dela.

— Tenho que reconhecer que sua lealdade é admirável. Mas, para seu próprio bem, peço que considere a hipótese de Sasuke Uchiha estar mentindo.

— Ele não está ment...

— Se ele roubou os tais documentos, por que contaria a verdade? Logo para você, filha do general Haruno, que seria sua melhor cúmplice? Ele deve ter se esforçado muito nas últimas semanas para conquistar sua simpatia, Sakura. Você é o melhor trunfo dele: a única e derradeira esperança.

— Não fale assim, Kiba. — Ela se assustou com a própria voz. Kiba estava certo: ela era a única chance de Sasuke escapar ileso, fosse ele culpado ou inocente.

— Não falo para aborrecê-la, Sakura. — Ele respirou fundo, levantou-se e a fez fazer o mesmo. — Peço que pense no meu pedido. Aconteça o que acontecer com seu amigo, não vou abandoná-la.

— Obrigada, Kiba. — Ela forçou o sorriso. — Só preciso pensar.

O que havia de errado com ela, afinal? Alguém lhe oferecia tudo o que ela queria, e ela ainda ia pensar? E diziam que o louco era Sasuke...

— Leve o tempo que precisar — concedeu Kiba, e retirou-se depois de dar-lhe um beijo recatado no rosto.

Sakura, ainda no banco, afundou a cabeça nas mãos. Que desastre! Aquilo era precisamente o que ela queria evitar: confusões, desconfianças, complicações... Bastaria dizer "sim" a Kiba, e sua vida, ao aceno de uma varinha de condão, seria novamente simples e tranqüila.

Ela suspirou. Ao menos ainda lhe sobrava algum tempo.

X

Assim que Kiba saiu da vista de Sakura, bateu o cabo do chicote com tanta força na perna que o quebrou ao meio. Jogou-o no mato e se dirigiu à montaria. Definitivamente, ele odiava Sasuke Uchiha.

X

Quando a porta da frente da Mansão Uchiha se abriu, Sasuke deixou rapidamente a biblioteca e se diri giu para o saguão, onde viu Itachi e Gaara entre gando os chapéus e casacos a Dawkins.

— Maldição!

— Boa tarde para você também — Itachi o saudou, cínico.

— Boa tarde. Desculpem... Estou esperando Tenten.

— Sei. Por acaso sabe o que dois sujeitos estão fazendo escondidos no bosque, aí fora?

— Estão me vigiando.

— Imaginei. Posso ir lá despistá-los?

— Não, prefiro que saibam onde estou.

— Estou precisando dar uma surra em alguém. — Itachi enfiou as luvas no chapéu. — Vamos jogar uma partida de bilhar? — perguntou a Gaara.

— Muito engraçado. — O rapaz remexeu a pilha de cartas que Dawkins que entregara e olhou para Sasuke com um misto de zanga e condescendência. —Ainda bem que tenho amigos que não fazem idéia do que está acontecendo em Londres... Preciso responder essas cartas.

— Comentário absolutamente desnecessário, Gaara — ralhou Itachi.

— Deixe estar, Itachi — interveio Sasuke com um suspiro. — O problema o afeta também.

— Sim, mas a você muito mais. — Itachi já subia a escadaria. — Quer jogar bilhar?

Sasuke achou que era o melhor a fazer, pois lera nove vezes a mesma página de Frankenstein e não se lembrava de nada. Acompanhou o irmão.

— Estranho. — Ele pegou dois tacos e jogou um para Itachi. — Agora que não posso sair, estou sentindo falta do ar livre.

— Não vão prendê-lo, Bit. Eu não vou deixar.

— Não está se superestimando?

Itachi soltou uma risada seca, alinhando as bolas.

— Não sei se já percebeu, mas está voltando a ser o arrogante de uns cinco anos atrás... O que eu acho ótimo. Aliás, também para sua informação, faltam uns três dias para aprontarem meu navio em Portsmouth.

— Que bom. Vai se livrar de tudo isto.

— Não vou, não. Pedi prorrogação da minha licença por mais um mês, até que essa idiotice se resolva. E, se for preciso, tenho passe livre para as Américas, em um navio que os presidentes de lá, tenho certeza, gostariam de ver em suas esquadras.

Sasuke fitou o irmão longamente.

— Itachi, você não está falando a sério, está?

— Claro que sim. Não vou permitir que o prendam. Não depois do que já passou no Castelo Pagnon. Encontrei Neji no Hyde Park, e ele me contou o que você disse a ele hoje de manhã... Não se preocupe: Gaara e Yuu não sabem de nada.

— Não. — Sasuke meneou a cabeça. — Prometa que não vai sacrificar sua carreira por minha causa, aconteça o que acontecer.

— Ora, Chibi não vive dizendo que eu deveria ser pirata? Quem sabe não está certo? Sua vez.

Sasuke não sabia se Itachi dissera aquilo para desestabilizá-lo no jogo de bilhar ou porque levara a hipótese a sério. Mas, antes de se decidir por uma ou outra opção, ouviu risos femininos na escadaria.

Suspirou, aliviado. Ao menos Tenten e Hinata não tinham sido presas por causa dele. Estavam todos loucos, pensou, desgostoso. Incrível, mas, nas circunstâncias atuais, ele parecia o único sensato por ali.

— Bit?...

— Estamos aqui — Itachi falou em voz alta.

As duas damas, assim que entraram no salão de jogos, largaram-se no sofá ás gargalhadas.

— O que andaram fazendo? — Itachi quis saber, apoiando-se no taco de bilhar.

— É segredo.

— Melhor contar a ele. — Sasuke indicou Itachi. — Ele quer ser meu cúmplice, portanto tem o direito de saber. Você conseguiu?

— Conseguiu o quê? — Itachi intrigou-se.

—Bem — Tenten deu uma tossidela —, nós fomos à Guarda Real Montada, e eu...

— Foram aonde? —Itachi deixou o taco cair no chão, pálido. — Tenho que me sentar... — Afundou-se no sofá, ao lado de Hinata, e olhou para Sasuke. — Você sabia disso?

— Decerto que sabia. — Tenten interpôs-se. — E não se engane: quem estava correndo algum risco era Sasuke, não nós.

— Confio nelas. — Sasuke apoiou-se na mesa de bilhar. Algo que não temia era morrer, pois, acima de tudo, não precisaria ir para a cadeia.

— Como eu dizia, entramos na Guarda Real Montada, e eu solicitei à sentinela que me anunciasse ao general Haruno. Hina tentou me impedir, porém eu insisti: estava indignada, mesmo, por ele proibir Sakura de me ver... — Tenten apoiou-se no ombro de Hinata. — Além do mais, ando meio irracional.

— Claro, está para dar à luz a qualquer momento — lembrou Hinata, preocupada.

— Enfim, a sentinela disse que o general não estava, mas eu não acreditei.

— E, então — Hinata continuou às gargalhadas —, esta maluca fingiu um desmaio e se jogou nos braços do guarda. Foi a representação do século! Cheguei a pensar que ele ia fazer seu parto ali mesmo...

— Santo Deus... — Itachi enfiou o rosto nas mãos— Neji vai ficar uma fera conosco.

—A melhor parte vem agora — Tenten prosseguiu.— Hina fingiu ficar histérica, e curiosos saíam de suas salas, todos querendo ajudar. Ela pegou o livro de visitantes, começou a abanar meu rosto, e eu comecei a gritar, dizendo que queria ir para casa. Queriam que eu ficasse e esperasse o médico do Exército, mas eu insisti, e eles nos ampararam até nossa carruagem. E aqui estamos nós.

— E?... — Sasuke as interpelou, tenso. — Vocês não foram lá se divertir, não é?

— Então... — Hinata enfiou a mão dentro do vestido e retirou um maço de folhas amassado. — Aqui estão!

Sauske pegou as folhas e as desamassou. Aquelas duas malucas tinham-se exposto por ele, em um ato que poderia ter graves conseqüências para ambas.

— Muito obrigado — agradeceu, comovido.

— O que é isso? — Itachi se levantara e, por detrás de Sasuke, tentava ver do que se tratava.

— As assinaturas de todos os visitantes da Guarda Real Montada na semana passada. — Sasuke percorria a lista com o dedo indicador.

Sakura estava certa. Eram pouco mais de cinqüenta, nos mais variados horários e permanências, e a maioria, de conhecidos, apesar de uns poucos ilegíveis.

— São os suspeitos, Bit? — Itachi enfim situou-se. — Cinqüenta nomes? Não vai tardar e eles vão associar a falta dessas páginas à presença dessas nossas duas da mas por lá.

— É verdade.

Sasuke não prestava mais atenção à conversa, mas a um nome que se repetia várias vezes nos três dias correspondentes às páginas arrancadas, uma assinatura sempre seguida da patente militar, apesar de ele se encontrar em licença voluntária e a meio-soldo: Capitão Kiba Inuzuka.

X

Sakura permaneceu no quarto, ora estudando o próprio reflexo na vidraça da janela, ora olhando para o pátio da cocheira, tentando convencer-se de que não era boba. Afinal, tinha uma justificativa genuína para não aceitar o pedido de casamento de Kiba: das quatro aulas que teria de ministrar-lhe, dera apenas duas.

Mas o problema não era de aritmética.

Suspirou e abriu sobre o regaço a folha de papel gasta, contendo as lições que, pouco mais de um ano antes, quando as escrevera, pareciam tão importantes: dar atenção a quem estivesse com a dama, dançar com várias pessoas, interessar-se por outras coisas que não por si mesmo, e ser franco ao opinar sobre os outros.

— Lixo — falou consigo, amassando a folha e jogando-a na cesta.

Não demorava a dar a resposta a Kiba por causa das lições, mas sim por causa de Sasuke. Quando pensava em uma noite romântica diante de uma lareira, era a voz de Sasuke que ouvia. As mãos ternas que lhe tocavam a pele eram as dele...

A hipótese era insensata, em primeiro lugar porque o pai jamais aprovaria sua união. Em segundo, porque Sasuke jamais a pediria em casamento. Nem teria oportunidade de pedir se, nos dias seguintes, não aparecesse alguém para confessar a traição à Coroa.

Pensar em Sasuke arrastando-se com correntes nas pernas, preso em uma diminuta cela de paredes inteiri ças, apertava-lhe a garganta. Não podiam fazer isso com ele. Se pensassem por um único instante, veriam que Sasuke seria o último homem em Londres, e em toda a Inglaterra, a querer reiniciar a guerra contra Napoleão. E um dos poucos que sabiam o custo real de uma guerra.

Mas, quem? Quem teria roubado os documentos?

Sakura pensava, caminhando pelo quarto. Poderia ter sido qualquer um. Um simpatizante de Napoleão, um mercenário aproveitando-se do confronto de duas partes, alguém com algo a ganhar com o reinicio da guerra.

Ao ouvir uma batida na janela, virou-se com a mão sobre o peito. Sasuke?

A idéia não a desagradou. Pensar em mais um encon tro de amor, ato do qual ela jamais participara até alguns dias antes, vinha lhe tomando muito tempo e imaginação. Quando Kiba a beijara, quando pedira a mão dela, ela bem que tentara se imaginar fazendo amor com ele. Ele era bonito, beijava bem... Mas a possível obrigação de ter com Kiba uma relação íntima não lhe causava nenhum sorriso. Muito pelo contrário.

Novo ruído na vidraça. Deveria ser o estorninho pro curando seu ninho.

Ela abriu a janela.

— Xô!

O pássaro se encontrava um pouco acima, na segurança do ninho, e a fitou com seus olhinhos de contas. Sua pulsação acelerou quando olhou para baixo. Avistou a cocheira, a fileira de árvores que a protegiam da rua, e algu ma coisa se mexendo atrás do carvalho... Sasuke!

— O que você está fazendo?

Ele levou um dedo aos lábios e acenou para ela descer. Tinha um sorriso tênue no rosto bonito, e o coração dela palpitou.

Sakura concordou com um gesto de cabeça e fechou a janela. O pai estava no escritório, mas, como os dois não estavam se falando, ele não a interpelaria. Por via das dúvidas, porém, saiu pela porta dos fundos, passando pela copa e a cozinha.

— Sasuke, é perigoso vir aqui. Se meu pai...

— Ele não vai nos ver. — Ele segurou-lhe a mão e a puxou para a parede lateral da cocheira.

— E os homens que estão seguindo você?

— Estão vigiando minha casa. Eu precisava conversar com você.

— Devia ter enviado um bilhete por Hina.

— Pior do que está não pode ficar. — Sasuke afagou-lhe o rosto com um dedo. — Com você, a minha vida melhora, Sakura. É um fato, mas uma desvantagem para você.

Ela queria que ele a beijasse, mas Sasuke tentava ser cavalheiro; uma parcimônia conveniente, embora indesejada.

— O que quer conversar comigo? — Sakura cerrou os dedos, tentando se impedir de tocá-lo.

— Eu consegui a lista. — Sasuke olhou à volta. — A lista de visitantes da Guarda Real Montada.

— Verdade?

— Umas amigas a surrupiaram... — Ele sorriu, meigo.

— Que amigas? — Ela sentiu uma ponta de ciúme.

— Tenten e Hinata.

— Ah! Como conseguiram?

— É uma longa história. Em breve vão contá-la pessoalmente.

— E a lista trouxe alguma novidade?

— Uma, ao menos: preciso ficar longe de você, e não apenas porque está praticamente de casamento marcado.

— Acredita que eu roubei aqueles docu...

— Não é isso. — Ele inspirou fundo, — Tenha cuidado nos próximos dias, Sakura. Com tudo.

— Com o quê, por exemplo? — A voz dela soou insegura. Sasuke dava a entender que iria desaparecer.

— Ainda não sei ao certo. — Ele a estudou longamente. — Provavelmente não é nada. Eu não devia ter vindo. Queria apenas vê-la... Tome cuidado, por favor.

Ele se voltou para partir, porém ela o agarrou pelo ombro. Sabia como convencê-lo a falar.

— Não vai embora assim, sem mais nem menos... -Deslizou os dedos pelos cabelos escuros, puxou-o para si e cobriu com a boca os lábios dele.

Sasuke correspondeu e ela sentiu as pernas quase dobrarem. Enlaçou-lhe o pescoço e colou o corpo ao dele. Tinha feito aquilo para fazê-lo baixar a guarda, ela poderia dizer, mas o verdadeiro motivo era que não agüentava mais tanto querer. Estivera com ele havia apenas umas poucas horas, mas parecia a vida inteira. Todos os seus pensamentos eram para Sasuke. Pensava se ele estaria a salvo, queria conversar com ele sobre tudo e nada.

Ela não o deixaria partir. Não sem que ele a tocasse.

Ainda se beijando, foram baixando para a grama até que ele se sentou contra a parede da cocheira e a colocou sobre o colo de frente para ele. Acariciou e massageou os seios túrgidos por cima do fino vestido de musselina, deixando-a arfante de desejo. Àquela hora da tarde os criados já estavam na cozinha jantando, mas qualquer ruído poderia atraí-los. E havia apenas uma barrica d'água e um coche a protegê-los.

Sakura não se importou. Não deixaria de exercer sua parte na ação. A ereção de Sasuke repuxava-lhe a calça, e ela começou a desabotoá-la, apressada.

— Céus... — gemeu em meio aos lábios e línguas que se beijavam, fogosos.

Sasuke a suspendeu e levantou-lhe o vestido até as coxas. Ela se apoiou nos joelhos e, sem pensar duas vezes, deixou-se penetrar pelo membro nervoso.

Ele a preenchia toda, expandindo-a. Sakura se firmou e, com um suspiro pesado, Sasuke cravou-lhe os dedos nas ancas, movendo-a para cima e para baixo, excitado.

— Sakura — Sua voz saiu rascante e ele inclinou a cabeça para trás, levantando o corpo contra o dela.

— Continue... Continue... — ela entoou num gemido, movendo-se no mesmo ritmo. Fitou os olhos de Sasuke, in finitos, atemporais, e uma tensão espiralou dentro dela, comprimindo-a até a loucura. Soltou uma exclamação de gozo, que ele abafou com a boca. Em seguida, ele mesmo se retesou e gemeu, derramando-se dentro dela.

Ainda ofegante, Sakura repousou a testa contra a dele. Sasuke acariciou-lhe lentamente as coxas, por baixo do vestido.

— Ainda vamos passar um dia inteiro fazendo isso — murmurou com um sorriso.

Ela soltou um suspiro, deliciando-se com a possibilidade.

— E uma noite também — prometeu, beijando-o no contorno do maxilar antes de abraçá-lo com um longo suspiro. — Céus, estamos no pátio da cocheira, em plena luz do dia, e a quinze passos da porta dos fundos da minha casa... E isso porque confio em você, Sasuke. — Fitou-o nos olhos. — Espero que também confie em mim e me conte o que está acontecendo.

Fez menção de sair do colo dele, porém Sasuke a puxou para baixo.

— Fique.

A palavra reverberou no coração dela. Comovida, Sakura o beijou de novo, agora lentamente.

Sasuke se recostou à parede de madeira e se deixou acariciar.

A sensação era gloriosa, ela refletiu, sonhadora: ele ainda dentro dela, e ela saboreando o prazer de saber que o excitava, e que era a primeira mulher que ele queria depois de quatro anos de inferno.

Respirou fundo, acariciou-lhe o musculoso tórax por cima da camisa e o fitou.

— Conte-me.

— Eu li os nomes no livro... — Sasuke desejou ter acreditado nos próprios instintos e ter ido embora enquanto era tempo, apesar do prazer de estar com ela.

— E?

— Shhh!

A porta da cozinha foi aberta e ele se encolheu com ela. Na posição, difícil foi se manterem imóveis e em silêncio.

Alguém despejou uma jarra d'água nas folhagens do quintal, e a porta se fechou novamente.

Não podiam abusar mais da sorte. Assim, depois de muito relutar, Sasuke a retirou de cima dele.

Os olhos verde-claros de Sakura cintilaram ao sol poente quando ela se levantou e ajeitou a saia. Sasuke ficou em pé também e abotoou as calças, sentindo-se muito mais satisfeito do que poderia se permitir em tais cir cunstâncias.

— Como eu ia dizer, todos os nomes na lista de presença da Guarda são pertinentes, exceto...

— Exceto? — ela repetiu ao vê-lo hesitar.

Sakura não iria gostar de ouvir, e não sem motivo. Mas ele aprendera a respeitar seus instintos e ela precisava saber

— Kiba Inuzuka — revelou, taciturno. — O que ele pode ter ido fazer na Guarda Real Montada?

— Como?

— Kiba esteve lá quatro vezes na semana passada. Você sabe por quê?

Sakura franziu a testa.

— Ele está lendo o manuscrito do meu pai. Andou entregando e apanhando material lá.

— Pegando material? — Se Kiba entrava e saía com documentos, alguns a mais não despertariam suspeitas.

— Kiba estava indo ao prédio para ver meu pai, sem dúvida. — Sakura cruzou os braços sobre o peito com um suspiro. — Quem mais está na lista?

Sasuke pegou a lista no bolso e a entregou a ela.

— Não vão demorar para saber quem arrancou estas páginas, e por quê. Se tiver alguma coisa em mente, Sakura, melhor dizer logo.

Ela pegou a lista, mas devolveu-a sem dar muita aten ção aos nomes.

— Não foi Kiba, Sasuke. A vida dele já está planejada: casar comigo, ser promovido a major, ir para a Índia, ficar rico... Por que iria roubar documentos, correndo o risco de ser preso ou reiniciar a guerra com a França?

— Não sei. Ele está mesmo confiante de que vai se casar com você?

— O que isso tem a ver com o roubo? — Ela começou a ruborizar.

Alguma coisa acontecera entre ela e Kiba, Sasuke tinha certeza.

— Casar-se com você é para Kiba a base da pirâmide, Sakura — ele explicou, seguro. — Por isso minha pergunta é pertinente.

— Seu raciocínio me parece conveniente, Sasuke... De suspeito você passa a suspeitar de Kiba.

— Talvez seja. — Ele pausou, atento aos ruídos da Mansão Haruno. — Você diz que confia em mim... Só estou pedindo sua opinião.

— Eu confio em você — ela o examinou longamente —, mas também não tenho motivos para desconfiar de Kiba.

— Sakura!

Os dois se sobressaltaram ao ouvirem o grito do general.

— Esconda-se! — ela sussurrou, aflita.

— Devem ter lhe contado sobre o tumulto causado por Tenten e Hinata na Guarda Real.

— Tomara que não!

Sakura teria ido ao encontro do pai, porém Sasuke a agarrou pelo braço.

—Kiba chegou a pedi-la em casamento? — Ele tentou simular indiferença.

— Pediu, sim. Hoje de manhã.

— E qual foi sua resposta? — Sasuke sentiu o peito petrificar. Tinham se amado mais uma vez, porém Sakura continuava determinada a separar sentimento e futuro, apenas para levar uma vida simples e "conveniente". Se ela tivesse dito "sim", teria de abordar as coisas de uma outra maneira.

— Eu disse que precisava pensar um pouco mais. — Ela o empurrou e foi ao encontro do pai. — Agora, vá!

Sasuke suspirou. Ela não aceitara! Pedira tempo para pensar, o que já bastava, embora ele preferisse uma recusa definitiva.

Também precisava de tempo para decidir o que fazer. O autor do roubo devia ter simplesmente apanhado os documentos e sumido de circulação. Não se escondera; apenas esperara alguém ser acusado.

Os passos pesados do general Haruno vinham em sua direção.

— O que você estava fazendo atrás da cocheira? -Sasuke agachou-se atrás das folhagens, à sombra de um olmo. O general caminhava célere, os punhos cerrados. Espiou atrás da cocheira, como se esperasse encontrar um dos amigos da filha, virou-se e inspecionou os arbustos.

— Eu já disse que estava pensando. — Sakura se aproximou dele, tensa. —Aconteceu alguma coisa para o senhor berrar assim? Fiquei até com medo.

Ela detestava mentir para o pai. Se o fazia era porque confiava nele e não queria denunciar sua presença.

Sasuke ficou satisfeito, porém tentou não dar muita importância àquela atitude. Uma coisa era ela confiar nele, outra coisa era dispensar Kiba por causa dele...

Haruno estava zangado, contudo Sakura conseguiu levá-lo para dentro antes que a vizinhança os ouvisse discutindo.

Sasuke não gostou de deixá-la a sós com o pai, mas, se interferisse, seria pior para todos. Se o general mandasse prendê-lo, ele não poderia fazer o que ainda tinha a fazer.

Esgueirou-se até a rua, e tomou uma carruagem de aluguel até os fundos da Mansão Uchiha. Pulou a cerca e escalou a treliça, chegando ao quarto. Para dar cobertura a Sakura, caso o general desconfiasse, desceu ao jardim e foi regar as rosas. Os dois espias não o tinham visto sair nem voltar, e continuavam do outro lado da rua, atrás das folhagens.

— Gostaria que Chibi desse ao estudo a mesma atenção que você dá às rosas. — Neji veio observá-lo, surgindo do nada.

— Estou só fazendo de conta. — Sasuke apontou a indigesta platéia com um gesto.

— Sakura teve alguma idéia?

— Não perguntei. — Ele se aprumou. — Ela não se mostrou muito segura para colaborar. Disse que não é justo confiar em mim e não confiar em Kiba.

Aborrecia-o o fato de Sakura não privilegiá-lo em detrimento de Kiba, mas pensaria naquilo depois.

— Ela pode ter razão.

— Poder, pode, mas deixa tudo mais difícil para mim.

Neji bufou.

— Gostaria que você parasse de dizer que o problema é seu, que tem de resolvê-lo sozinho, e que nós não podemos nos comprometer.

— Mas é isso mesmo. — Sasuke jogou o regador junto da parede da cocheira.

O visconde se aproximou e pousou a mão nos ombros dele.

— Onde quer estar amanhã, ou na semana que vem, Sasuke? Se tanto faz, deixe-nos de fora. Caso contrário, faça-me o favor de pedir ajuda.

Neji virou-se e foi para a casa.

Sasuke espanou a calça com as mãos, pensativo. Algumas semanas antes, ele não teria o que dizer, pois não via futuro para si.

Naquele dia, entretanto, a pergunta e a resposta eram uma questão bem mais complicada. Onde ele queria estar na manhã seguinte, na semana seguinte, para sempre?

Com Sakura, evidentemente.

Ao pisar no primeiro degrau, parou, ignorando a pre sença de Dawkins, ainda à porta, esperando-o entrar.

Ora essa. Tinha vinte e oito anos, três dos quais passara a serviço do Exército inglês, e quase quatro praticamente morto. Sabia que vinha melhorando lentamente nos últimos dois. Não era bem uma melhora. Na verdade, era como se estivesse saindo de um poço. Mas tudo mudara nas últimas semanas. Agora ele se sentia vivo. Até mesmo as acusações e os mexericos tinham servido para lhe devolver as emoções. Vinha redescobrindo antigas sensações, inclusive seu senso de humor.

A paixão, esta ele devia a Sakura, por quem, agora sabia, não sentia exatamente gratidão. Ele a queria. Queria abraçá-la, conversar com ela, protegê-la, olhá-la apenas... E não suportaria que ela fosse pertencer a outra pessoa.

— Não vai entrar. Bit? — Neji o chamou de dentro do vestíbulo.

— Já vou.

Sasuke suspirou. Tinha um bom motivo para querer culpar Kiba Inuzuka. O que queria dizer a Sakura Guinevere Haruno não seria fácil nem mesmo antes de ele ser capturado e encarcerado no Castelo Pagnon... Queria dizer que a amava. Não conseguiria mudar-lhe o plano de levar uma vida simples, mas gostaria de saber se ela um dia poderia amá-lo.

Para descobrir isso, precisava resolver aquela situação rapidamente. E para tanto, teria de fazer algo que jamais imaginara nas circunstâncias: pedir ajuda.

X

Sakura estava em vias de arrancar os cabelos. No escritório do pai, as mãos pousadas no regaço, ouvia-o vituperar os amigos dela.

— O relatório do tenente Stanley diz que há páginas faltando no livro de visitantes, e você quer que eu acredite que foi coincidência?

Sakura preferiu calar, pois vira as folhas e sabia que não era coincidência. Mas precisava pensar, apesar dos gritos do pai. Sasuke, entre tantos nomes, suspeitara de Kiba. Seria ciúme?

Um surto de arrepios irrompeu-lhe nos braços.

— Os Uchiha persuadiram a marquesa a fazer a encenação, na cena. Espero que o Uzumaki seja mais sensato!

Sob o olhar da lógica, o acontecido não incriminava Kiba ou Sasuke. Sasuke vivera três anos como sobre vivente do Castelo Pagnon. Por que de uma hora para outra iria bancar o traidor? Quanto a Kiba, havia quatro semanas colaborava com o general no capítulo a respeito de Salamanca, e...

E desde então ele começara a visitar o general na Guarda Real Montada!

Sakura se concentrou. De fato, havia uma forte coincidência: a prisão de Sasuke e o roubo tinham vindo a público ao mesmo tempo.

— Não tenho outra opção — o pai dela dizia. — Por você dei a Uchiha o benefício da dúvida na questão anterior, mas agora temos de novo um roubo na Guarda Real Montada, em plena luz do dia, e obviamente para favorecê-lo! Que outras provas você quer, Sakura?

— Papai, o senhor mesmo acabou de dizer que havia umas trinta pessoas na portaria quando as páginas do livro sumiram.

— Foi outra coincidência? Você espera que eu acredite?

— O senhor conhece Tenten e Hinata tão bem quanto a mim. Espero que se lembre de que elas não são delinqüentes.

— Eu não disse que o fizeram em benefício próprio, e sim para aquele maldito irmão de lorde Neji! — O ge neral se largou na poltrona da escrivaninha, abriu uma gaveta e apanhou uma folha de papel. — Já é hora de ele responder algumas perguntas oficialmente.

— O senhor vai mandar prendê-lo? — Ela ficou furiosa.

— Vou pedir que ele se apresente à Guarda Real Montada para interrogatório. Se ele não for, mando prendê-lo.

— Não! — Sakura se levantou e arrancou-lhe a pena da mão.

— Você enlouqueceu, Sakura? Devolva a pena!

Sasuke precisava de tempo: ou para resolver aquela confusão, ou para fugir para o exterior.

Uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto. Não, ela não o queria longe dela. Queria-o ali, em Londres.

— Dê mais um dia a ele, papai — pediu com a voz trêmula. — Senão...

— Senão o quê? — O pai estava vermelho de raiva.

— Senão eu nunca mais vou falar com o senhor. — Outra lágrima escorreu, traiçoeira.

— Você... — o general se interrompeu, aturdido — está falando a sério?

— Sim.

Ele abaixou a cabeça. Quando a levantou novamente, Sakura pensou que jamais o vira tão exausto e acabado.

— Se isto fosse há alguns anos, a esta hora Uchiha já estaria preso, e talvez até fosse réu confesso — murmurou ele com voz grave. — Mas hoje descobri que o afeto de minha filha é mais importante que minha carreira e que meu dever para com a pátria.

— Papai... — ela começou, comovida.

— Hoje é quarta-feira, Sakura. O prazo para Uchiha será até sexta, ao meio-dia. Sugiro que envie a ele um bilhete para avisá-lo. Ele estará sendo vigiado. Se fugir, melhor não levar os papéis. Se não o encontrarmos em Londres, será perseguido até o fim do mundo.

— Obrigada. — Sakura levantou-se.

— E, Sakura, esteja ele envolvido ou não neste roubo, não o quero mais na Inglaterra. Diga a Uchiha que deixar o país será a melhor solução para ele.

Ela fitou o pai, estarrecida. Protestara com tal veemência, que o pai devia ter percebido que Sasuke era para ela mais do que um simples amigo.

Agora o general tinha motivos para livrar-se do rival de Kiba, homem a quem ele privilegiava.

— Sasuke é inocente, papai — reafirmou, tensa.

— Espero que sim.

Sakura engoliu em seco. Assim esperava, pois, se Sasuke fosse embora, ela talvez não o deixasse ir só.

X

Sasuke ia entrando em casa quando o mensageiro da Mansão Haruno chegou. O remetente do bilhete era Sakura e o mensageiro, um lacaio do pai dela. Portanto o general tinha conhecimento da mensagem...

O coração de Sasuke disparou. O que seria? Haruno teria descoberto a respeito dele e sua filha?

A caligrafia era nítida, bonita e floreada. Sakura em pessoa.

Mas o breve sorriso que ele exibia ao abrir o bilhete logo se apagou.

Querido Sasuke,

Meu pai sabe das páginas arrancadas do livro de visitantes, e está convencido de que você é o culpado por ambos os roubos. Assim, insiste que vá à Guarda Real Montada para interrogatório.

Entretanto eu pedi, e ele concordou, que você tenha até sexta-feira, ao meio-dia para terminar o que começou. Se ainda estiver em Londres no fim desse prazo, ele enviará um pelotão para prendê-lo. E devo informá-lo que até lá você será vigiado.

Itachi vinha descendo a escadaria. Ao perceber a expressão grave no rosto do irmão, quis saber:

— De quem é?

— De Sakura.

O rapaz se desviou imediatamente, foi à sala de visitas e voltou com Neji.

— O que está acontecendo. Bit?

— Um minuto. Já estou acabando.

Tome cuidado, Sasuke. Tenho a impressão de que Kiba só começou a freqüentar a Guarda Real Montada mais assiduamente há exatas quatro semanas...

Sempre sua,

Sakura

Enquanto os irmãos discutiam o bilhete, sugerindo que o general Haruno devia ter enlouquecido, Sasuke olhava a assinatura da mensagem: "Sempre sua".

Era impressão, ou as palavras tinham um significado especial?

— Por que ela mencionou lorde Kiba e a Guarda Real Montada? — Gaara perguntou, arrancando o bilhete das mãos de Neji.

— É uma pista.

— De quê? — Yuu quis saber, aderindo ao tumulto acompanhado de seu professor particular.

— Pensei que ela não fosse ajudar — Neji comentou, fitando Sasuke.

— Ela, quem? — Yuu estava curioso.

— Ela deve ter mudado de idéia — Sasuke respondeu, distraído.

Precisaria descobrir um pouco mais sobre Kiba Inuzuka, além de seu desejado casamento com Sakura. Iria se informar sobre sua patente de major e sobre o tal posto de comandante na Índia.

— Você só tem um dia e meio — Itachi lembrou. — Como vai se preparar em tão pouco tempo?

— Haruno quer que eu vá embora da Inglaterra.

O motivo que Sakura usara para convencer o general a dar-lhe mais tempo convencera-o também da necessidade de afastar o problemático Sasuke Uchiha de sua filha...

— Você não pode ir embora da Inglaterra! — Yuu bateu os dois pés no chão em protesto. — O que está acontecendo?

— Yuu! — Quase todos os adultos gritaram ao mesmo tempo.

— Eu quero saber!

Enquanto Itachi pedia ao professor Trost para deixá-los a sós, Sasuke agachou-se em frente ao menino, zangando consigo por ter de envolvê-lo.

— Estou com um problema. Mas estamos tentando resolvê-lo antes que piore.

— É o mesmo de antes?

— É. Mas já está perto do fim, Chibi.

— Eu quero ajudar também.

— Você ser meu irmão já ajuda. — Sasuke sorriu afetuoso, afagando-lhe os cabelos.

— Promete que não vai embora?

— Prometo. — Sasuke retribuiu o abraço repentino de Yuu, o que ele perderia se não se cuidasse ou fugisse.

— Que atitude vamos tomar? — Gaara insistiu, abrindo espaço na roda para Tenten, que já lia o bilhete.

— Antes de qualquer coisa, vamos para a sala de visitas.

— Sakura deve estar arrasada. — Tenten tomou a dianteira, entrou na sala e sentou-se no sofá. Ao terminar a leitura, olhou para Sasuke, condoída.

— Eu também estou. — Ele se sentou perto da porta, aguardando pelos demais. — Muito bem... Estão dispostos a me ajudar?

— Você manda. — Neji e Tenten deram as mãos.

— Em primeiro lugar — Sasuke inspirou fundo —, preciso de alguém que tenha uma conversa com Kiba sem deixá-lo desconfiar de nada.

— Para isso nenhum de nós serve. Que tal Uzumaki?

— Boa idéia. — Sasuke alisou a sobrancelha. — Neji, o leilão de Tattersall é amanhã, não?

— É, mas o lugar é muito aberto.

— Melhor ainda. Posso observar sem ser visto.

— Que tal ficar em casa, fora de perigo, e eu ou Neji fazemos isso? — Itachi propôs.

— Não, porque já perdi muito tempo dentro de casa. E Kiba pode desconfiar de Uzumaki.

— Hina pode ir — lembrou Tenten. — Ela já se ofereceu para ajudar.

— Pode funcionar.

— Vou pedir a Hina para enviar uma mensagem a Sakura. — Tenten demonstrou sua costumeira astúcia. — Aliás, Hinata e Uzumaki deviam estar aqui conosco, planejando.

Ela se levantou, amparada por Neji, e rumou para o escritório. Instantes depois, um lacaio saiu, e Sasuke ouviu Tenten avisar Dawkins que viriam mais duas pessoas para o jantar.

— Não estou entendendo, por que vamos observar lorde Kiba? — Yuu estava sentado em frente a Itachi, a expressão muito séria para a idade.

— Chibi, por que não vai se arrumar para o jantar? — Neji sugeriu.

— Porque esta família é minha também, e eu quero saber. Não vou atrapalhar.

— Chibi, você vai saber de tudo quando tiver a idade certa. — Sasuke tentou acalmá-lo.

— Mas eu já posso ajudar! — Yuu sussurrou com os olhos rasos d'água.

— Está bem. — Sasuke não deixaria seu irmão caçula, seu maior defensor, chorar assim. — Vamos observar lorde Kiba, porque achamos que ele roubou umas coisas e quer pôr a culpa em mim.

— Como ele vai pôr a culpa em você? -Gaara bufou, impaciente.

— Yuu, depois explicamos.

— Ora essa, a pergunta é bem pertinente — Tenten intercedeu. — Se Kiba é mesmo o culpado, como conseguiu armar tão bem contra você?

— Eu contei para alguém que... que estive no Castelo Pagnon.

Sem a presença de Yuu, tudo seria muito mais fácil.

— Contou para Sakura? — Yuu indagou, arguto.— Ela pode ter contado a ele. Eles vão se casar, não vão?

— Não. — Sasuke interveio antes que um dos demais respondesse, mas engoliu em seco. — Ela só contou para o general.

— E o general Haruno contou para Kiba — deduziu Yuu de pronto.

Houve silêncio no recinto. Desde o início, Sasuke chegara a desconfiar que o general tivesse espalhado o boato, mas, por menos que gostasse dele, o homem era o pai de Sakura.

— É isso — admitiu. — Haruno contou para os oficiais no comando da Guarda Real Montada, e um deles pode ter passado adiante.

— Mas — Gaara franziu a testa —, lorde Kiba é que poderia tirar proveito dos seus antecedentes, Sasuke. Se estamos achando que foi ele...

— Os oficiais comandantes não iriam espalhar uma coisa dessas sem investigar — Neji acrescentou.

— Provavelmente, não — Itachi complementou, sorvendo um gole de conhaque. — Se forem como os almirantes, só divulgam alguma coisa depois de apurá-la até o fim.

— Considerando que o general faz gosto no casamento de Kiba com Sakura, pode mesmo ter confidenciado a ele. Mas, infelizmente, não temos como confirmar.

— Nós, não — Tenten concordou. — Mas Sakura pode.

— Não vou pedir a ela para interpelar o próprio pai.

— Se ela conseguir levar Kiba ao leilão de Tattersall, já será suficiente.

Sasuke não gostou da idéia. Sabia que para Sakura era difícil desconfiar de Kiba. Mas questionar o pai seria para ela ainda pior.

Por outro lado, apesar de se sentir meio tolo só de pensar, ele já estava com saudade dela. Qualquer coisa que a aproximasse dele seria bem-vinda.

— Não sei se ela deve participar disto, afinal, é filha do homem que quer prender Bit — Gaara ponderou.

A discussão pegou fogo e Sasuke aproveitou para pensar.

Sakura tinha razão ao dizer que ele queria desconfiar de Kiba. Era fácil para ele odiar aquele infeliz, todo bonito e charmoso, que se considerava herói por ter levado um tiro de raspão no braço, e por contar histórias sobre as fraquezas e infortúnios dos outros soldados... Mas detestava-o, principalmente, porque até mesmo ela achava que Kiba seria melhor marido do que ele.

— Essa discussão não leva a nada — declarou Neji, já irritado. — Temos um dia e meio. Não gosto de ultimatos, mas Haruno está com a faca e o queijo na mão.

— Por que não damos uma surra em Kiba para ele confessar? —Itachi falava a sério.

— Nada disso — Tenten interveio, muito séria, ostentando sua poderosa posição de viscondessa Uchiha e sobrinha do duque de Wycliffe. — Precisamos de provas, e de um motivo, o que até agora não temos.

— Nós vamos conseguir — garantiu Sasuke, ele na posição de quem passara sete meses dependendo da sorte e dos caprichos de soldados que odiavam os ingleses— Não quero ir embora da Inglaterra. Levei quatro anos para voltar para cá.

A porta do estúdio se abriu.

— Estão todos bem? — Lady Uzumaki entrou, apressada, sem nem mesmo ser anunciada pelo mordomo, Naruto a acompanhava.

Tenten entregou a ela o bilhete de Sakura, e os dois o leram ao mesmo tempo.

— Obviamente estamos aqui porque requisitaram nossa ajuda — o marquês começou, ao terminar de ler.

— O que jamais eu negaria, uma vez que, aparentemente, minha esposa também está envolvida até o pescoço...

— Foi por uma boa causa — Tenten protestou.

— Não estou reclamando. — Uzumaki sorriu, meio cínico. — Hina me contou. E gostei de saber onde ela escondeu as folhas...

—Naruto! — Hinata corou. — O assunto é sério.

Uzumaki amparou Hinata até uma poltrona vazia, em cujo braço sentou-se.

— Vamos planejar sua fuga, Sasuke, ou vamos pegar esse lorde Kiba Inuzuka?

— Vamos pegá-lo! — Yuu respondeu, entusiasmado. Todos deram idéias e ofereceram hipóteses. Sasuke as ouviu, comovido. Era muito interessante ver tanta atividade e entusiasmo em seu favor. Neji tentava assumir o controle do grupo e Uzumaki media forças com ele. O que todos precisavam ter em mente, porém, era que aquele jogo e seu respectivo resultado eram sua responsabilidade.

— Tudo isso vai depender de Sakura. -Todos se calaram quando ele os interrompeu.

— Ela precisa convencer Kiba a acompanhá-la ao leilão, onde encontrará Uzumaki e Hinata.

— E nós vamos fazer o quê lá? — Uzumaki perguntou.

— Procurar parelhas e tentar convencer Kiba a comprar um cavalo novo.

— Por que nós queremos que ele compre um cavalo novo? — Yuu quis saber.

— Não queremos — Sasuke explicou, olhando para Uzumaki. — Queremos apenas que ele fale sobre suas finanças. E, se possível, o que pretende fazer da vida se Sakura não quiser se casar com ele.

— Essa possibilidade nem deve existir para Kiba — Tenten ponderou. —Sakura é muito direta.

— Tenho motivos para acreditar que Kiba deve estar ansioso para saber qual será a resposta dela — Sasuke explicou calmamente.

— Nossa parte não será difícil. — Naruto espanou de seu paletó azul um imaginário grão de poeira. — E você, Sasuke, o que vai fazer?

— Vou escutar, para ver se estamos no caminho certo, depois irei à casa de Kiba. — Sasuke olhou para Yuu, preocupado. — Isso não se faz, ouviu? Só em caso de emergência.

— E quanto a nós? — Gaara perguntou.

— Você pode ir comigo. Não vamos ter muito tempo para procurar os documentos roubados, e preciso de alguém para comprovar que eu não os plantei lá, se for o caso.

— É melhor alguém que não seja da família — Itachi contestou.

— Eu sei quem pode nos ajudar — Neji intercedeu. — De que nos valeria ser amigo do duque de Wycliffe, se não pudéssemos usá-lo num esquema desses?

— Se ele souber o risco que corre... Vocês três têm de ocupar Inuzuka o tempo necessário para a nossa busca.

— Temos que ser bem-educados?

— Sim, porque ele tem acesso a Sakura e ao general Haruno. Kiba não pode desconfiar de nada.

— E se vocês não encontrarem nada? — Uzumaki perguntou, preocupado.

— Temos que encontrar. Eu não quero ir para a cadeia, e prometi não ir embora da Inglaterra.

Dawkins bateu à porta para anunciar o jantar, e todos se levantaram. Tenten ficou para trás, e Sasuke, curioso, acompanhou-a.

— Tenho duas perguntas a fazer. — A viscondessa deu-lhe o braço.

— Quais? — Sasuke perguntou, embora já as adivinhasse.

— Primeira: o que vai fazer se encontrar os documentos na residência de Kiba?

— Denunciá-lo.

— Ao general Haruno?

— Ele está chefiando a investigação oficial. — Sasuke ocultou o calafrio que lhe percorreu o corpo.

— Ele é amigo de Kiba, e não gosta de você.

— O sentimento é recíproco, mas posso lidar com Haruno. — Sasuke surpreendeu-se ansioso pelo encontro. — E a segunda pergunta?

— Como você sabe que Sakura não aceitou o pedido de casamento de Kiba?

— Ela me disse.- Tenten sorriu.

— Ela parece confiar muito em você.

— Sou bom ouvinte. — Ele sorriu de volta, e a cunhada o fitou com afetuosos olhos castanho-claros.

— Tenho o pressentimento de que esse não é o único motivo, Sasuke Uchiha...

A porta da sala de jantar, ele cedeu a frente.

— O tempo dirá — falou com um longo suspiro.

X

— Já vai dormir? — O general Haruno postou-se à porta do escritório, com a mão na maçaneta.

— Acho que sim. — Sakura estava no patamar das escadas. — Estou cansada.

— Quer que eu peça a Helena para levar seu jantar?

— Não, obrigada, estou sem fome. — Ela continuou escadaria acima.

— Sakura!

Ela parou e se voltou para fitar o pai.

— Você tem que encarar o fato de que Sasuke Uchiha é o suspeito mais provável — falou o general. — Tem de estar preparada para o pior.

Sakura engoliu com dificuldade. Entrava em pânico a cada insinuação de que Sasuke seria preso; principalmente quando essas vinham do pai dela, em quem, até três a quatro semanas atrás, tinha plena confiança.

Por que tudo mudara tanto? Porque ela teria muito a perder? Porque ela gostava de Sasuke?

Ela descobrira a resposta: a vida só poderia ser simples e tranqüila se não houvesse influências externas importantes.

A revisão de memórias de guerra, segundo alguns generais, seria um trabalho pavoroso para uma mulher. E ela agora se perguntava: por que não se incomodara? Só se sentira afetada quando Sasuke mostrara a ela a verdade e o horror da guerra.

— Por que ele é o suspeito mais provável, papai? — Debruçada na balaustrada, Sakura procurou controlar-se, usando um tom calmo e regular. — Por que foi torturado e sobreviveu? Se eu não tivesse contado nada ao senhor, vocês suspeitariam de quem?

— O fato, minha filha, é que você contou, e eu agradeço, pois facilitou muito a investigação.

— O senhor descobriu quem espalhou a notícia em Londres?

— Eu já disse, Sakura, isso não importa.

— Importa, sim. Quem poderia se beneficiar com a continuação da guerra? Ou da venda dos documentos? Porque, francamente, Sasuke Uchiha não tem nada a ganhar num ou noutro caso. E o senhor sabe disso, senão, não teria dado mais tempo a ele.

— Fiz isso por você.

Ela inspirou fundo, ainda sem acreditar que estava em vias de fazer a temível pergunta.

— O senhor chegou a mencionar a estada de Sasuke no Castelo Pagnon para Kiba?

— Está suspeitando de Kiba? — o general perguntou, perplexo.

Ela se aprumou e desceu as escadas, apressada. Se não mudasse já a linha de pensamento do pai, não conseguiria as informações necessárias.

Precisava de respostas, e era a única capaz de conse gui-las.

— Kiba sentiu ciúme de Sasuke no início de minha amizade com ele, papai. Pode ter espalhado a notícia para antipatizá-lo aos olhos de todos, sabendo que a fonte era fidedigna. Sasuke não espalharia o boato se tivesse roubado os documentos.

— Isso é ridículo, Sakura. Se o Uchiha é inocente, quanto antes o interrogarmos, melhor será para todos nós.

— Não foi Sasuke — ele afirmou, resoluta.

E se também não fora Kiba, poderia ter sido um dos colegas do pai que, já de idade avançada como ele, fora incapaz de perceber que o suculento boato poderia destruir a vida de uma pessoa.

— Boa noite, papai — murmurou, frustrada.

— Boa noite, Saky. E saiba que Kiba, apesar do suposto ciúme, não teria contado a ninguém. Tenho certeza de que ele sabe guardar segredo.

Sakura quase tropeçou num degrau, e ajeitou o sapato para disfarçar.

Kiba sabia! Seu pai contara a ele.

Céus, precisava contar a Sasuke! Desejou que ele estivesse de novo escondido em seu quarto, esperando por ela, mas seu coração batia tão depressa que ela pensou que fosse desmaiar. Acabara de constatar que Kiba, por mais improváveis que fossem as acusações de Sasuke contra ele, não era tão inocente quanto ela imaginava.

A noite passaria sem incidentes, disse a si mesma. Mas avisaria Sasuke de sua descoberta na manhã seguinte.

Sua neutralidade terminara. Dali para frente, ela to maria partido.

Sakura não dormiu bem. O dilema a perseguira: Kiba o fizera por ciúme ou outro motivo execrável?

Ela despertou com o raiar do sol, e logo começou a escrever o bilhete. A meio caminho, já pensando em como fazê-lo chegar a Sasuke, recebeu uma mensagem de Hinata:

Sakura,

Naruto e eu gostaríamos que você e Kiba fossem conosco ao leilão de Tattersall, agora, pela manhã. Mas é melhor você mesma entrar em contato com Kiba e convidá-lo...

Algum esquema estava em andamento, e, ao que parecia, felizmente Sasuke entendera que ela se encontrava disposta a ajudar.

Ela leu no bilhete a hora e o local, mas não entendeu o motivo do encontro. Talvez fosse melhor assim, caso o general o interceptasse.

Infelizmente, o pai dela agora também não merecia sua plena confiança, refletiu, amargurada.

Escreveu rapidamente um bilhete para Hinata, acei tando o convite, e começava a redigir um para Kiba, convencendo-o a acompanhá-la, quando o pai bateu à porta do quarto.

— Sakura?

Ela escondeu os dois bilhetes debaixo da agenda.

— Entre, papai. O que há?

— Tenho uma reunião agora de manhã, e quero me precaver contra possíveis inconvenientes na minha ausência.

— Inconvenientes? O senhor acha que eu vou fugir com o peixeiro ou coisa assim? — Indignada, ela respirou fundo. — Estou escrevendo um bilhete para Kiba, perguntando se posso acompanhá-lo ao leilão de Tattersall. Ele quer comprar um novo cavalo e... bem, eu fui meio rude com ele ontem.

— Rude como?

— Ele me pediu em casamento.

— Ah, é? Por que não me contou? Qual foi sua resposta?

— Que eu preferia esperar essa confusão com Sasuke terminar. — Sakura ficou aliviada por poder contar a verdade, o que, aliás, pouco adiantava em meio a tanta complicação. — Kiba pode ter considerado isso uma recusa, e quero que ele saiba que não foi.

— Um exemplo de lealdade, meus parabéns. Quanto aos seus outros amigos, você deveria escolher melhor. — Ele deu meia-volta. — Cumprimente Kiba por mim, e pergunte se ele já terminou o capítulo.

– Está bem, papai.

X

Sasuke e Itachi chegaram a Tattersall minutos antes de Naruto e Hinata. Felizmente, já havia muita gente nos currais e nas barracas da feira. Não ser visto não seria nenhum desafio, mas escutar uma conversa... tarefa quase impossível. Mesmo assim, Sasuke estava de terminado a cumpri-la.

Deixaram os cavalos com dois meninos vestidos em trajes típicos.

— Onde quer que eu fique? — Itachi perguntou.

— Em um lugar alto. Caso Kiba saia e vá para casa, tem de chegar lá antes dele. Senão, você também estará em apuros.

— Você só vai até lá se ele disser algo que o incrimine. Do contrário, você fica, certo? — Itachi pedia confirmação.

— Posso não gostar de Kiba, mas gosto muito menos da idéia de ser preso.

— Ótimo. — Itachi o incentivou, sacudindo-o pelos om bros. — Vou me posicionar. E você, onde vai estar?

— Estarei aqui, onde ninguém me vê e posso escutar todos.

— Diga-me, Sasuke — o irmão perguntou, achando graça —, onde você arrumou essa roupa?

— No fundo da cocheira. Não quero ser reconhecido.

— Não vai precisar se preocupar com isso.

O objetivo era ser confundido com os serventes das cocheiras de Tattersall. Ele usava um chapéu amassado, enfiado até os olhos, calça e camisa esfarrapadas. As bo tas sujas de lama e excremento de cavalo, felizmente do tamanho certo, não o fariam mancar ainda mais. Se não o reconhecessem, ele poderia circular pelo lugar à vonta de. O mau cheiro fazia parte do disfarce.

Esperava Uzumaki e Hinata quando, à beira do aglo merado de gente, e por causa da tensão e do aperto, lembrou-se do transtorno do pânico que sempre o rondava nas reentrâncias sombrias de sua mente. Estava ocupado demais no momento, entretanto, para lhe dar atenção.

Viu Itachi logo depois, em uma sacada próxima, conversando com uma bela mulher. Fazia sentido. O irmão sempre tirava o máximo proveito de qualquer situação.

Ao fim da primeira volta, avistou Naruto e Hinata chegando, e mal acreditou que os dois pudessem estar ali para ajudá-lo. Ele tinha bons amigos. Melhores do que imaginava ou julgava merecer.

Uzumaki parecia à vontade, porém era mais dado a subterfúgios do que Hinata, que não parava de olhar para os lados, para trás, para a multidão, obviamente procurando por ele ou Itachi. Sasuke demorou a se aproximar para dizer que tudo corria bem, depois de muito pedir licença e desculpar-se, pois as pessoas não costumavam dar passagem a cavalariços.

— Bom dia, milady. Milorde... — Ele os saudou, segu rando a aba do chapéu.

— Você me assustou! — Hinata exclamou em voz baixa.

— O cheiro está de amargar. — Uzumaki achou graça.

— É parte do plano. Itachi está me dando cobertura... Mas finjam que não estamos aqui.

— Está bem. — Hinata inspirou fundo. — Sakura nos enviou um bilhete, dizendo que ia tentar convencer Kiba a trazê-la, mas não tive mais notícias. Se ela vier, os dois devem estar chegando.

— A qualquer momento.

Sakura iria ajudar, ele se entusiasmou, tentando não rir feito um idiota ao imiscuir-se de novo na multidão. Queria rir, cantar e dançar, porque ela decidira não confiar de todo no dourado lorde Kiba.

Por outro lado, talvez ela não devesse se arriscar tanto. Se Kiba desconfiasse do esquema, talvez até tentasse fugir da Inglaterra.

Sasuke culpou-se. Mas não permitiria que aquele infeliz maltratasse Sakura.

Uma brisa cálida tocou-lhe a pele, como se anunciando a chegada dela. Voltou-se e avistou-a em meio à multidão. Usava um vestido de musselina justo e decotado, que lhe realçava a curva dos seios. Ao ver Kiba todo atencioso ao lado dela, sentiu os lábios ressecados. Tinha vontade de amarrotar-lhe as fuças, fosse ele traidor ou não.

Quando Hinata acenou para os dois, Sasuke aproximou-se, á espreita. Aguardou pacientemente pelos amistosos apertos de mãos e abraços.

Discreto, examinava o rosto de Kiba em busca de indícios que confirmassem a suspeita de todos. Sempre amável e elegante, o homem personificava o perfeito cavalheiro inglês.

Se ele, Sasuke, mostrasse tal aspecto e conduta, talvez a nobreza não tivesse dado ouvidos aos boatos tão depressa, refletiu, desgostoso. Naquele momento, por exemplo, usando aquela roupa rasgada e malcheirosa, qualquer pessoa o acharia deplorável... Só esperava que não o reconhecessem.

X

— Comprar para o aniversário do general — Sakura dizia, com a mão no braço de Kiba. — Mas ele tem um gosto muito particular.

— Comprando ou não hoje, é sempre bom saber quem está produzindo animais de qualidade — Kiba comentou.

— Não necessariamente. — Uzumaki segurou o braço de Hinata e caminhou entre a aglomeração até onde estavam os proponentes compradores. — Se um criador produz um bom cavalo, nem sempre os demais potros terão a mesma qualidade. Se você gostar de algum, deve comprar, Sakura. E se seu pai não gostar, pode vender depois. Não concorda, lorde Kiba?

— Kiba, por favor. Respeito sua opinião, mas sou mais cuidadoso em minhas compras.

— E precisa ser... Afinal é o quarto filho, não? — Naruto provocou, num misto de insulto e comiseração— Não conheço bem Fenley, mas dizem que é bem avarento.

— Verdade. — Kiba acabou rindo da pilhéria. — Na filosofia dele, depois do primogênito, os outros filhos têm que se arranjar por conta própria.

— Uma visão muito rígida —Sakura solidarizou-se com o pretendente. — Seu pai deve se orgulhar de seu êxito.

Sasuke quis beijar Sakura. Ela estava jogando o jogo com perfeição. Era óbvio que Kiba precisava de uma promoção, a qual lhe daria o direito de escolher seu posto. Se não a conseguisse com o casamento, só uma guerra lhe propiciaria nova oportunidade. Daí o roubo dos documentos na Guarda.

Mas para realizar seu sonho da maneira mais fácil, entretanto, Kiba precisava arrumar um culpado para o roubo dos papéis que tinha como garantia... e Sasuke e os boatos haviam sido uma conveniente coincidência.

— Vai orgulhar-se muito mais quando eu me firmar na minha carreira. — Kiba beijou a mão de Sakura, ostentando seu sorriso sedutor.

— Você ainda está no Exército, não? — Naruto instigou.

— Estou. E as oportunidades são muitas... Uma será minha. Nossa — ele se corrigiu, sorrindo para Sakura.

Desgraçado.

Sasuke debruçou-se numa roda de charrete, pensando em maquinar alguns métodos para livrar-se do infeliz, caso não conseguissem culpá-lo do roubo.

— Aposto que a família Uchiha teria preferido que Sasuke não tivesse se alistado no Exército... — Uzumaki contrapôs, astuto.

— Naruto! — Hinata fingiu-se incomodada.

— É a verdade.

— Todo esse acontecido trouxe muitos problemas para o general — Sakura admitiu, e olhou casualmente na direção de Sasuke.

O coração dele quase parou.

— Sasuke é meu amigo — ela prosseguiu, tornando a se concentrar em Kiba. — Estaria mentindo se não admitisse que estou arrasada com as últimas notícias.

— O leilão de parelhas está quase no fim — Uzumaki avisou.

— Tão cedo? —Sakura desembaraçou-se da mão do pretendente. — Com licença, volto num minuto.

— Esteja à vontade. Você vai sozinha ou devo chamar sua aia na carruagem?

— Vou com você, Sakura — Hinata prontificou-se. — Preciso tomar um refresco também.

Sasuke afastou-se rapidamente da charrete, dirigiu-se à construção mais próxima e entrou numa alameda de serta. Sakura e Hinata chegaram instantes depois.

— Como sabia que eu...

Sakura o agarrou pela lapela e o beijou com ânsia. Sasuke não retribuiu porque estava muito sujo, e por que ouviu Hinata exclamar, ansiosa.

— Sakura! — Ele a beijou de novo, então recuou. — Cuidado, alguém pode nos ver.

— Eu já vi... — Hinata arregalou os olhos. — Há quanto tempo vocês dois...

— Agora não temos tempo de explicar — Sakura finalizou, sem tirar os olhos dele.

E aqueles olhos verdes revelavam mais esperança e medo do que ele vira nos últimos tempos. Sasuke a acariciou no rosto com um suspiro.

— Sinto muito tê-la envolvido nisto. Sei que não podia ajudar porque...

— Mudei de idéia, Sasuke. — Ela o fitou de alto a baixo. — Está interessante...

— Temos que voltar — Hinata interpôs-se. — Se não podem me explicar, também não podem namorar. Ouviu alguma coisa importante da conversa, Sasuke?

— Quase. Hina, desculpe, mas precisamos ficar a sós um momento.

— Está bem... — ela concordou, contrariada. — Estarei ali. — Apontou a entrada da alameda e se foi.

— O que você quer saber? — Sakura o puxou pela manga.

— Ganhei mais um dia porque você pediu, não foi?

— Tomara que esteja certo, Sasuke, senão vou ter de pedir muitas desculpas ao meu pai por conta de Kiba.

— Por falar no general, preciso saber se você estaria disposta a perguntar a ele de novo quem começou esse falatório.

— Quer confirmar se foi Kiba?

— Sakura, eu preferia que houvesse outro jeito...

— Meu pai contou a Kiba que você esteve no Castelo Pagnon, um dia antes da reunião na Guarda Real Montada.

Sasuke soprou o ar, aliviado. Eles estavam certos, só podia ser Kiba.

— Obrigado — ele agradeceu com um sorriso, sabendo quão difícil fora para ela interpelar o pai.

— Gostei... — ela sussurrou.

— Gostou do quê?

— Desse sorriso. — Sakura o tocou nos lábios, acariciando-os com o dedo, e o beijou lentamente, saboreando o contato. — Temos que voltar agora — completou, relutante.

— Ainda tenho uma coisa a fazer... — murmurou Sasuke. — Pode manter Kiba ocupado?

— Posso. Mas tome cuidado. E, Sasuke... Se precisar sair do país para se proteger, saia. Mas me avise onde está.

— Você é a razão do meu sorriso. — Ele a tocou no rosto, comovido, antes de bater em retirada pelos fundos.

Tinha uma residência para revistar.