Capítulo. 10 - Keep this secret.
"Aproveite seu conto de fadas. Ele não vai durar muito."
As palavras pairavam sobre os seus olhos. Já havia se passado três dias. Três dias de deteriorização emocional, de pesadelos e uma angústia sem fim. Ela sentia que o fim estava próximo, mas sentia também que estava cada vez mais apaixonada por House.
E ele desconfiava, obviamente, que alguma coisa estava errada. Ele estava tão certo disso e, o silêncio dela só o atiçava ainda mais. As conversas tinham tantas rachaduras silenciosas que se fosse um edifício já teria desmoronado. Uma hora ele ia descobrir, e ela ficaria aliviada pelo fato de não ter que omitir isso dele.
Mas essa hora nunca chegava.
Cuddy desligou a televisão. Enquanto vestia a saia lápis que aderiu ao seu corpo como uma tatuagem, ela passou os olhos sobre o relógio do criado mudo e sorriu ao encarar o papel de presente amassado por cima dele. Em seu busto pairava a pequena corrente de ouro com um pingente de pássaro. Ela queria entender o significado, mas ele apenas disse que um dia teriam aquela conversa.
Cuddy sentou-se na cama e dobrou a coluna afim de prender a tira do seu scarpim, e seu celular tocou. Ela largou a tira e enfiou a mão na gaveta do criado-mudo, tirando o pequeno aparelho de lá.
"Cuddy."
"Bom dia, doce Cuddy. Como tem passado desde a festa?"
A voz metálica pairou sobre os ouvidos dela, e ela manteve-se imóvel. Quase se esquecera de respirar.
"Não vai responder, Cuddy?"
"Eu... eu, o que você quer?" - A voz trêmula denunciou o medo, e ela pode sentir um riso seco do outro lado da linha.
"Ai ai, Cuddy. Você sabe o que eu quero, e sabe que vai ter que fazê-lo hoje."
"Por favor, não faça isso."
Ela podia prever o que estava por vir. Sabia que a mensagem no dia da festa teria um significado maior e ela tentou ignorar isso durante todo o tempo possível. Mas as conseqüências haviam lhe alcançado tão rapidamente que ela foi obrigada a dobrar os joelhos e sentar-se sobre a cama, com uma das mãos suspensas sobre o abdômen, defendendo-a de um golpe imaginário.
"Termine com ele. Você tem pouco tempo."
"Como assim, pouco tempo? O que você vai fazer?"
"Eu poderia ir atrás da sua filha na Espanha, mas não quero gastar minhas milhas à toa. Ou você achou que mandá-la para outro país ia adiantar alguma coisa?"
Silêncio.
"Cuddy, vou te mandar uma foto para te certificar de que você tem pouco tempo. House vai chegar à sua sala em meia hora. Você tem 45 minutos."
E a linha ficou muda, enquanto Cuddy tentava criar uma linha de raciocínio para convencer House. Não seria fácil. Seu celular tocou e ela apertou a tecla mecanicamente, sabendo que era a mensagem com a foto. Ela esperava algo catastrófico, mas... Não, isso ela não esperava.
Arlene Cuddy usava um vestido azul, vívido com um corte na costa, os cabelos soltos e a mão carregando uma taça de Martini com duas azeitonas. A bebida preferida dela. Mas onde é que sua mãe estava e como Restrito estava com ela? Pela foto parecia que ela estava no Candy Coffee, àquela lanchonete clássica e mediana que elas costumavam ir e ficava há apenas duas quadras da casa de sua mãe.
Discou o número dela rapidamente, enquanto olhava no relógio. Tinha 40 minutos.
"Mãe, oi, a senhora está na cidade?"
"Se não fui atormentar o seu cantinho, querida, é que não estou em Princeton. Porque, há algo que eu precise saber?"
"Não, mãe. Na verdade eu queria te perguntar se o Candy Coffee ainda funciona, eu queria levar o Greg para tomar um daqueles frappuccinos..."
"Eu estou nele nesse exato momento! Os frappuccinos não são meus preferidos, mas você sabe, eu ainda gosto dos waffles deles."
Oh Deus. Ela estava lá.
"Tudo bem, mãe, eu..."
Cuddy ouviu um barulho de vento no telefone, adivinhando que Jules havia tomado o telefone de sua mãe.
"Hey Lisa, adivinhe só: nosso jardineiro deu um vestido maravilhoso para a mamãe. É azul e todo intenso e um corte super ousado nas costas..."
Jules se dividia entre rir e falar ao telefone e Cuddy pôde ouvir sua mãe bufar ao fundo:
"E eu não posso usar um vestido ousado, vocês acham que eu estou com 90 anos por acaso?"
"Jules, preciso ir agora" - Ela precisava se desfazer dessa ligação - "mas diga à mamãe que quando a Rach voltar do camping nós iremos passar uns dias na casa dela."
Despedidas feitas, Cuddy olhou no relógio: 35 minutos. Restrito tinha sua mãe e sua filha sob sua doentia mira, e ela não cogitava a idéia de brincar com isso.
House acabara de colocar dois mentos na boca e mastigava ruidosamente. Cuddy odiava esse tipo de coisa e era apenas mais um motivo para que ele fizesse. Subindo as escadas num sorrisinho indolente, ele assoviou ao destrancar a porta e entrar na casa dela.
Jogou as chaves sobre a mesa e desenrolou o lenço que estava no pescoço. Era o cúmulo do gay andar com aquele lenço, mas fazia um vento tão gelado e ele estava um pouco doente esses dias.
"Cuddy?"
"Estou bem aqui" - Ela disse, séria e a voz dela estava tão próxima que ele se virou para encará-la, assustado.
"Que droga, queria me matar de susto?" - Ele sorriu e ela não.
"Precisamos conversar, House."
A voz dela era tão fria que machucava. Ele a seguiu até a cozinha, onde ela não o olhou nos olhos e estendeu uma xícara com algum líquido quente.
"Posso mesmo beber isso?" - Tentou ele, mas nem mesmo a brincadeira conseguira dispersar aquele clima. Ela apenas balançara a cabeça, lentamente, confirmando a pergunta dele.
Ele bebeu o chá, engolindo ruidosamente e lembrando-se mil vezes de que ele odiava chá. Ela mantinha os olhos nele, e os pensamentos corriam desordenados dentro da cabeça dela, confundindo-a. Mas ela sabia o que tinha que fazer. Olhando pela última vez para o relógio, ela começou, a voz saindo as poucos, estrangulada.
"House, isso é um erro."
Ele deu um sorriso e bebeu mais um gole.
"Não me diga que está de TPM, Cuddy."
"Acabou, House."
Ele levantou o olhar, em alerta. A voz dela não indicava nenhum tipo de sarcasmo ou brincadeira. Os olhos dela faiscavam. House colocou a caneca na mesa e se aproximou do balcão, sério. Toda a sua diversão parecia ter escorrido para a xícara.
"Você só pode estar brincando, Cuddy."
"Não estou. Estou terminando o nosso namoro."
"Com que motivo?"
"House, as coisas não estão dando certo, então eu quero dar um tempo."
House estava visivelmente contrariado, e ele dera alguns passos de modo que estava na frente dela agora. Não perto o suficiente. Uma distância segura e confortável os separava.
"Tempo é para pessoas que não sabem o que elas querem. Eu quero você, você me quer. Tempo para quê?"
"House."
"Anda, me diga, Cuddy. Pra que você precisa de um tempo?"
Cuddy o encarou. Ela o conhecia como os caminhos da própria alma, se é que alguém entende o que isso quer dizer. Ela sabia que ele não iria deixá-la ir sem que ela contasse a verdade ou no mínimo, alguma história que fosse devidamente convincente.
Ou algo que o irritasse.
"Eu transei com o Tiler." - Ela deixou que as palavras caíssem como um piano no meio da sala, fazendo o silêncio constrangedor pairar no ar. Ela sentiu o olhar dele queimando-lhe a face. Um olhar de animal ferido, uma mistura de dor e incredulidade. Era praticamente torturante esperar que ele dissesse algo.
"Eu não acredito em você."
Ela deu um meio sorriso, encarnando a melhor personagem que podia. Enganá-lo era a última coisa que queria, doía como facadas de aço, mas havia vidas em jogo. Ele a encarou, sem um pingo de gentileza.
"Isso faz de você uma vadia infiel. Uma vagabunda."
"Posso conviver com isso."
Ele deslizou a mão sobre a mesa, derrubando a xícara no chão violentamente, quebrando-a em duas peças. O barulho a assustou, mas ela se manteve em pé, na mesma posição rígida.
"Digamos que isso seja verdade, Cuddy. Você sabia muito bem que ele estava louco pra transar com você. Vai me dizer que você não pode agüentar a pressão?"
"House, o que está feito não se muda. O que nós tínhamos acabou, portanto deixe minha chave e saia."
House segurou no braço dela e a puxou para mais perto, e ele pode sentir quando a respiração dela tornou a acelerar.
"Mesmo que você tenha feito isso, não quero terminar com você. Foi um erro, mas não é como se você estivesse apaixonada por ele. Eu posso relevar levando em conta o número de prostitutas que..."
"Esse não é o verdadeiro problema." - Ela o interrompeu. "Eu não tenho mais certeza se você me faz feliz."
House soltou-a imediatamente. Então, era isso. O problema não era a traição em si, mas sim a incerteza dela com respeito ao relacionamento dos dois. Ele podia lidar com o sexo, mas não com a dúvida. Ela estava em dúvida sobre o que sentia por ele, mas ele jamais teve dúvidas sobre o que sentia por ela. Talvez esse fosse o fim.
Ele debruçou e pegou os dois pedaços da xícara, sob o triste olhar dela. Jogou-os cuidadosamente no lixo e saiu da cozinha, cabisbaixo. Segundos depois, Cuddy escutou a porta da frente batendo lentamente.
Seu coração batia devagar e pesado, as mãos tremiam freneticamente e então, ela sentiu as primeiras lágrimas vindo à tona, assim como as primeiras gotas de chuva que anunciam uma tempestade incontrolável.
Dentro da cafeteria, Wilson flertava abertamente com a enfermeira Gabriella. Ele já mantinha a famosa postura de "caçador nato", debruçado sobre a própria com as pernas abertas num ângulo de 40 graus. House estaria rindo da sua cara se estivesse por ali.
"Então, eu estava tentando terminar a palestra e esse neurologista ficava insistindo na pergunta sobre a questão da eutanásia e eu tive que gritar que aquele não era o assunto da palestra."
Gabriella riu, colocando a mão inocentemente, ou não, sobre o ombro dele, enquanto segurava seu café com a outra. Ele sorriu daquele jeito quase tímido e ela debruçou-se sobre o colo dele.
"Você é demais, James."
"Não, você que é... eu vi o que você fez pelo paciente com o traumatismo craniano, passando por cima da decisão da Cuddy."
"Foi irresponsabilidade."
"Claro que não. Ele poderia ter morrido se você não tivesse passado ele na frente dos outros. Mesmo sabendo que podia ser advertida, você fez o que era certo e salvou a vida daquele homem."
"James..."
Wilson impulsionou-se para cima, e ele pode sentir os lábios dela roçarem nos seus. Era quase um delírio poder beijá-la logo de uma vez. Assim que ele sentiu que ela cedia, os lábios entreabriram-se delicadamente e seu celular tocou.
Não, não era uma impressão. Seu celular estava gritando.
Contrariado, Wilson afastou-se dela e sentou-se corretamente, retirando o celular do bolso. Ele apertou a tecla central e leu a mensagem que acabara de chegar.
"Está aberta a temporada de caça. Mova-se."
Wilson deixou Gabriella e seu café para trás, caminhando apressadamente. Ele tinha uma missão a cumprir.
House estava descendo pela rua paralela á sua casa, pensativo. A bengala ricocheteava contra o chão congelado pelo frio, enquanto ele tentava enfiar a mão desocupada no bolso do jeans. Não conseguindo, enfiou-a no bolso da jaqueta.
Cuddy estava mentindo, ele tinha certeza. Bom, ele já não tinha mais certeza. Ela teria mesmo feito aquilo? Tinha coragem para traí-lo, tão descaradamente? Não era possível. Não podia ser possível. Ele confiava nela o suficiente para saber que ela era uma pessoa de caráter integro e jamais o trairia por sexo.
Ele aceitaria, mesmo sem vontade, se ela tivesse se apaixonado por outra pessoa. Mas ceder à mera atração... Não era coisa dela.
House virou a esquina, e o vento gelado chocou-se com o seu rosto, fazendo-o ofegar de frio. Ele viu sua casa, e a lâmpada da cozinha estava acesa, o que era estranho. Ele não havia deixado-a desse jeito. House deu apenas mais um passo e quase chegou ao portão de casa, mas teve seu corpo arremessado para o lado, sendo jogado no chão. Ele tentou entender o que estava acontecendo, mas sentiu uma forte pancada na cabeça. Passou os dedos pelo centro da dor e viu o sangue que escorria em seus dedos.
Foi aí que o mundo se apagou para ele.
Mas o mundo não apagou para o par de botas pretas que arrastavam House até o carro, deixando um rastro imundo de pegadas na calçada de cimento queimado.
Cuddy desceu as escadas correndo, e qualquer outra pessoa poderia ter se esborrachado escada abaixo com múltiplas fraturas nos membros, mas não ela. Ela corria com seus saltos vertiginosos como se estivesse de tênis, explanando uma elegância fora do comum.
Mas em seu rosto, havia uma expressão muito longe de elegante. Combinava porções exatas de desespero e aflição, de dor e uma leve pitada de lágrimas. A porta lateral do hospital abriu lentamente e por questões de segundos Cuddy não atravessou o vidro.
Ela esbarrou com alguém, mas não se deu ao trabalho de pedir desculpas. Suas mãos tremiam violentamente quando ela tentava colocar a chave na fechadura. Não conseguiu. Ela respirou fundo e sentiu as lágrimas cortarem seu rosto delicado.
Tiler West estava entrando no hospital, de costas para ela.
"Tiler."
E ela precisou gritar só essa vez, porque ele dera a volta na barra do corrimão e estava chegando bem perto dela. Rápido. Assim que ele notara o nervosismo dela, seu sorriso se desfez.
"Cuddy, está tudo bem?"
O choro explodiu dentro dela, e ela olhou em volta, preocupada.
"Sim, eu só preciso abrir essa porta e sair... eu..."
"Você está tremendo, Lisa. Está passando mal, quer que eu chame uma ambulância?"
"Não... Por favor, Tiler, me... Me ajude. Me tire daqui logo."
Tiler abriu a porta do passageiro e ela sentou-se, os soluços tragavam sua garganta firme e a faziam pular com cada puxada de seu diafragma. Ele sentou-se no banco do motorista e respirou fundo.
"Cuddy, o que está acontecendo? Porque está desse jeito?"
Cuddy respirou fundo, esticando os braços e fechando os punhos, numa terapia rápida de controlar a ansiedade que havia adquirido nessa corrida. Ela sentiu o corpo relaxar então enfiou a mão na jaqueta que usava e tirou seu celular. Ela apertou alguns botões e então estendeu o celular à ele.
Na pequena tela de LCD à sua frente, Tiler identificou a fotografia. Era Gregory House, com a cabeça ensangüentada, e inconsciente. Nos seus lábios havia uma fita grossa e roxa, mantendo-o em permanente silêncio. Pela foto dava pra notar que ele estava precisamente amarrado à cadeira em que estava sentado. E pela situação, ele devia ter levado umas boas pancadas.
Na legenda da foto havia um endereço.
Tiler levantou os olhos e fitou-a, e entendeu pela sinopse daquele olhar de que ela não planejava adiar o encontro. As palavras dela ecoaram pelo vazio do carro:
"Não chame a polícia."
