Capítulo Nove.

Nunca fui uma pessoa de gostar do dia de Ação de Graças, porque sempre me ocupei com o trabalho e normalmente era a escolhida para fazer o plantão noturno, aqui em Nova Iorque, a chefia normalmente fica de folga, então, eu fui convidada para jantar na casa dos Cullen, que iriam reunir uma boa quantidade de funcionários, seus acompanhantes e em alguns casos, família. Rosalie e eu éramos as únicas sem "família". Recusei a passar com meu pai e a perfeita dona de casa e sua torta de abóbora. Minha madrasta é a perfeição em pessoa. Aquele sorriso de Monalisa e cabelos divididos no meio me exasperam. E os pais da minha nova irmã por escolha moram na Irlanda, eles são cientistas e atualmente fazem uma pesquisa lá, ou seja, sobramos.

Pensei em fazer um jantar para nós duas, mas isso significaria que não passaria a noite com Edward. Estamos tendo dois dias de folga antes de um plantão de 36 horas, no qual tudo pode acontecer. Eu não sei realmente se teremos folga, o número de acidentes domésticos é imenso no dia que todas as pessoas estão assando seus perus. Saí do trabalho há duas horas e até agora meu telefone não tocou. Edward está em sua casa, uma ocorrência, considerando que estou a duas horas paradas olhando a quantidade de roupas dele no meu armário. Eu acho que começamos a praticamente morar juntos e não nos demos conta. E isso deveria ser um grande passo assustador. E não é pra mim.

Ele entende meu sentido de organização, não bagunça minhas coisas e não invade meu espaço, na verdade, nas últimas noites, temos tido o mesmo espaço. Comemos pipoca assistindo cirurgias que qualquer pessoa acha repugnante, ou ele não se importa com os documentários científicos e eu não ligo que assista a seus jogos, na verdade, aprendi a apreciar e ele fica me pedindo para memorizar as estatísticas do jogo ou que faça a previsão. Acho que ele me usa. A realidade que o nosso relacionamento está tão forte que me vi preparada para conversar com ele sobre isso. Ou melhor, não. Estou confusa.

Desci a escada e Rosalie estava jogada no meu sofá, olhando para o teto. Ela está acampada aqui desde que ela e Emmett brigaram sobre em qual apartamento eles vão morar juntos. Acho que nós médicos somos intensos e loucos. Já trabalhamos juntos, embora seja difícil se nos vermos dentro do hospital. Talvez seja por isso a nossa necessidade natural de juntar as escovas. E eles querem tanto estar junto que brigaram sobre qual apartamento vão viver.

- Acho que vou conversar com Edward sobre oficializarmos a questão de morarmos juntos. – falei da cozinha e ela levantou a cabeça.

- Não era "só sexo"? – ela retrucou fazendo sinal de aspas.

- Essa era intenção no começo, ele é um potencial parceiro sexual, mas também é um excelente companheiro. E eu posso contar nos dedos nessas últimas semanas quantas vezes ele dormiu em seu próprio apartamento e algumas delas eu dormi junto. – encolhi os ombros e abri a geladeira. Tirei duas cervejas. – Não cheguei aqui preparada para um relacionamento, mas eu estou solteira há quatro anos e sempre caçando homens, traçando perfis, para serem parceiros de sexo. Eu acho que está na hora de evoluir e tentar um relacionamento.

- Você gosta de Edward? Tipo está apaixonada por ele? – perguntou e fiquei em silêncio. Ela abriu a sua cerveja. – Eu me apaixonei por Emmett. Ele é um babaca, mas isso não importa. Ele deixa meias espalhadas, me irrita até a morte, mas eu estou apaixonada por ele. Era o cara que eu mais odiava porque a minha namorada me traiu com ele e honestamente, eu entendo porque ela foi atraída. Somos compatíveis na cama e descobrimos um monte de coisa legais que podemos fazer juntos. Meu pai que não gosta de ninguém o adorou na sua última visita e seu filho Mason? Ele dorme no meu colo e a mãe dele disse que é sinal divino porque ela sempre se preocupa quando o bebê está com Emmett, mas confia em mim. E eu nem gosto de criança. Eu gosto do Mason porque é filho do homem que estou apaixonada. Eu quero morar com ele porque ele me faz feliz.

- Você sabe que terão um quarto de bebê na sua casa, não sabe?

- Esse é ponto, quando estamos apaixonados, isso não é importante. Então eu te pergunto, você está apaixonada por Edward ao ponto de querer não só dividir a casa, mas a bagagem que vem com ele? Não estou falando da Kate, vai por mim.

- Ela está insuportável, mas posso lidar com ela. – murmurei brincando com a condensação da garrafa. – É difícil explicar o quão fiquei machucada em meu último relacionamento e eu não confiei mais nos homens por muito tempo. Eu tinha todos os motivos e ainda inventava alguns mais. Não sou boa com sentimentos, mas eu não tenho motivos para não confiar em Edward. Ele me tem. Não é só o meu corpo. Ele me tem, entende? Em tudo.

Meus olhos encheram-se de lágrimas.

- Você está apaixonada. – assenti e as lágrimas caíram. – Por que tem medo?

- Eu me machuquei muito. – sequei meu rosto. – E no fundo, sei que ele não vai me machucar da mesma forma, mas eu tenho medo. Esse medo nunca me deixa, ele me persegue para todo lado, sussurrando desconfiança por trás das minhas ações.

Rosalie segurou minhas mãos.

- Se ficar dando corda para o seu medo, nunca vai ser feliz novamente, Edward te faz feliz. Se joga. Se arrisque. Se não der certo, se você cair, levante, limpe os joelhos e segue em frente.

Rosalie me abraçou apertado e deixei minhas lágrimas bobas caírem, mas eram por finalmente ter um alívio em desabafar sobre meus sentimentos. Não conversei com Edward sobre o que estou sentindo, mas ele sabe que tenho medo, porque sempre acalma meu pânico. Bebemos duas cervejas cada uma e eu me senti mal por ser praticamente nora da anfitriã do jantar e não estava levando nada pra contribuir. Sei que não precisa, mas a necessidade de agradar minhas "duas sogras" me corroía em pânico. Alice sempre me garante que elas gostam de mim, porém, as duas só têm dois modos "amam muito e odeiam muito".

Deixei Rosalie começar a se arrumar e saí em busca de uma confeitaria que pudesse me vender uma torta para sobremesa. Depois de andar alguns quarteirões, encontrei uma que ainda havia doces disponíveis e comprei uma de queijo com frutas vermelhas e outra de abóbora e caramelo. Tive um pouco de dificuldade de carregar as duas ao mesmo tempo, mas cheguei a tempo de tomar banho e me arrumar. Fiz chapinha no cabelo, para deixá-lo completamente liso e diferente do que estou acostumada usar. Nova Iorque já estava fazendo um frio terrível ou eu que não estou acostumada por ter morado anos na cidade quente de Los Angeles.

Coloquei uma meia calça preta fio oitenta, minha ankle boot caramelo de salto fino, uma saia preta no meio da coxa, modelo colegial, mas como estava com uma meia bem escura, não ficou tão curta. Fiquei em dúvida entre dois casaquinhos curtos de lã, um vinho e um marrom. Rosalie escolheu o vinho por conta da cor de um batom que ela tinha na bolsa e ficou magnifico com a maquiagem que fiz. Eu queria estar bem arrumada, atraente, porque iria conhecer o restante da família de Edward, incluindo seus avós e as irmãs mais velhas da sua mãe.

Olhei-me no espelho e meu telefone tocou, era a minha mãe. Desde a notícia que me deixou dias emocionalmente desestabilizada, não sinto a mínima vontade de falar com ela novamente. Fiquei com raiva, muita raiva. Completamente fora de mim. Mas com o passar dos dias, consegui colocar mais essa informação em uma caixinha insignificante no fundo do meu coração, esquecida e com uma pedra em cima.

- Ei linda, cheguei! – Edward gritou do andar debaixo. – O encosto, você pode sair do meu quarto para que eu possa tomar banho? Vou chegar nu. – gritou e Rosalie riu, revirando os olhos. Edward apareceu na porta enquanto a gente ainda ria pelo fato dele ter chamado o meu quarto de seu.

Rosalie saiu e eu continuei me maquiando. Edward ficou nu, deu-me um beijo no pescoço e correu para o chuveiro.

- Por que não tomou em casa? – perguntei apenas para provocá-lo.

- Estava assistindo jogo, aí perdi a hora e agora estamos à beira de ficarmos atrasado, além do mais, não tenho mais roupas em casa. – disse rindo e colocou a cabeça para fora do chuveiro. – Qual xampu que não posso usar?

- O vermelho.

Saí do banheiro antes que tirasse a minha roupa e entrasse naquele chuveiro com ele. Arrumei a minha bolsa e desci, para ele se arrumar em paz e não deixar Rosalie sozinha.

- Emmett está querendo me amolecer enviando fotos do Mason. – murmurou me mostrando as fotos e a criança era muito gostosa. O sorriso de covinhas lembrava muito Emmett. – É muito gostosa essa criança.

Edward desceu rapidamente perguntando se estávamos prontas.

- Você comprou tortas? – perguntou segurando as embalagens e colocou cuidadosamente no banco de trás do carro. Rosalie iria assegurar que não virassem. – Não precisava, minha mãe disse que ninguém precisava levar. Acho que elas contrataram um buffet. – disse e coloquei meu cinto. Rosalie estava rindo. Edward entrou no carro e ligou, abrindo o portão.

- Eu vou conhecer seus avós e suas tias, não queria ser aquela a chegar sem estar segurando nada. Segundo pesquisas, pessoas que chegam segurando algo como presente ou contribuição...

Ele me segurou pelo rosto e me beijou.

- Fodam-se as pesquisas. – piscou e eu ri. – Elas vão amar você. Eu sei disso.

Senti Rosalie me dar uma cutucada pelo banco e contive meu gritinho. Chegamos à casa de Esme e Carlisle bem rápido, a rua estava misteriosamente sem trânsito, talvez realmente seja uma noite calma, porém, ainda estávamos longe da hora da zona e eu estava me sentindo esquisita em ter folga em um feriado. Meu pai me ligou duas vezes no facetime e não atendi, porque não me interesso com a decoração ostentosa que Sue fez, muito menos os pratos deliciosos que ela passou o dia inteiro cozinhando. Quando eu era criança, eu ficava o dia inteiro na cozinha com a nossa governanta e ela me deixava ajudar em todos os pratos. Não precisávamos de ninguém para sermos feliz.

Sei que meu pai em algum momento teria que casar novamente, ter uma companhia, eu só não imaginava que seria com Sue, mulher de um dos seus amigos não tão próximos, mas amigo e a irritação que iria sentir ao ver os filhos dela sugando meu pai. Eu sei que cometi um ato de puro egoísmo ao assegurar que meu pai casasse sem divisão de bens e que os herdeiros dela fossem excluídos do seu testamento, porque na época, tudo que eu conseguia pensar, era que ela casou com ele misteriosamente na mesma época que Harry faliu. Eu disse ao meu pai que se ela o amava, casaria sabendo que não teria direito ao seu dinheiro. Ele concordou. A cada dois meses, seu advogado me envia uma cópia do testamento do meu pai. A cada dois meses eu me pergunto se tomei a decisão correta.

Já havia muitos carros e Edward estacionou próximo ao jardim. Rosalie saiu bem rápido quando viu Emmett se aproximar pelo jardim com Mason. Ela brigou com ele que estava frio demais para ficar com ele do lado de fora. Edward carregou as tortas sozinho e entramos antes do casal que discutia e flertava ao mesmo tempo. Eu peguei Mason, porque realmente estava muito frio para criança ficar lá fora.

- Finalmente! Sua avó já estava me enchendo. – Elizabeth veio para Edward e me abraçou apertado. – Oi querida, linda como sempre.

- Não fui eu quem o atrasou. – disse em minha defesa e me senti patética querendo a aprovação dela.

- Eu estava assistindo jogo e perdi a hora. – Edward respondeu. – Bella trouxe tortas.

- Não precisava, eu mesma passei o dia inteiro no salão, o buffet fez tudo. – Elizabeth riu e mandou Edward colocar na cozinha.

- Eu não queria chegar de mãos vazias. – encolhi os ombros. Mason deixou escorrer uma baba no meu casaco.

- É uma fofa. – retrucou e me levou para onde havia uma senhora e duas mulheres, que eu sabia que eram suas irmãs porque eram parecidas. – Mamãe, essa é Bella, namorada de Edward. – apresentou-me a senhora, que me deu uma avaliada de cima abaixo. Mason deu um sorriso sem dentes pra mim e beijei sua bochecha. – Não ligue para ela, é muito ciumenta com Edward e se serve de consolo, também não gosta muito de mim. – sussurrou e mordi meu lábio para não rir. – Minhas irmãs mais velhas, Irina e Carmen.

- Edward disse que você é uma médica excepcional, só esqueceu-se de dizer que é linda. – Irina disse e me deu um abraço mesmo que o bebê tenha gritado um pouco. – Seja bem vinda à família, mas devo te avisar, não machuque meu sobrinho ou irei caçar você.

- Tudo bem, eu estou morrendo de medo que ele me machuque. – deixei escapar e tapei minha boca. – Desculpe, estou nervosa. – elas riram e minhas bochechas esquentaram.

- Você não é a Kate e por isso já te amo. – Carmen sorriu.

- Meu neto não vai te machucar. O que Edward sabe fazer de melhor é amar. – disse a avó dele e automaticamente olhei para onde ele estava conversando com Jasper e um casal de senhores. – Pelo seu olhar, posso dizer que está apaixonada por ele. – corei profundamente.

- Não vamos deixá-la desconfortável. – Elizabeth disse e segurou meu braço de novo. – Vamos deixá-la curtir a festa. – piscou e dei um sorriso para elas e saí, abracei Esme e Carlisle, cumprimentei o pai de Edward, que não parecia estar lúcido hoje, mas não agiu como se não me conhecesse. E então fui até onde Rosalie estava, pegamos uma bebida juntas e Emmett pegou Mason de volta.

O jantar me deu a oportunidade de perceber que Edward tem muitos aspectos diferentes de mim. Ele tem uma família unida e bem estruturada. Suas primas foram muito simpáticas e seus primos eram o tipo de caras que acham que é a salvação do mundo para as mulheres. Dois deles, antes de saber que eu estava com Edward, me cantaram como se estivessem me fazendo um favor e eu deveria me sentir lisonjeada. O segundo quase tomou um banho de vinho no rosto que foi impedido a tempo de Edward chegar e dizer que eu era a sua garota. Rosalie me confirmou que apesar de muito lindos, são uns babacas. Entendi que Edward é mais próximo das primas, quase que o rei da mulherada do seu lado paterno. E elas me contaram um monte de histórias embaraçosas dele.

Depois da sobremesa, Rosalie disse que iria embora com Emmett, ela, por fim, cedeu e iria morar no apartamento dele, porque já tinha todas as coisas do Mason montadas. Edward e eu nos despedimos de todo mundo e ele perguntou se gostei da sua família. Eu me senti muito aliviada ao ser sincera e dizer sim. Chegamos em casa já bem tarde e eu estava cansada. Ele se jogou no sofá, tirando uma foto e implicando com Rosalie que graças a Deus o sofá era todo dele de volta. Revirei os olhos e subi para me desmontar. Passei tanta maquiagem que não saiu tudo no banho. Desci e ele estava só de cueca no sofá, assistindo tevê. Eu estava só de roupão. Acho que somos um casal nudista.

Sentei ao seu lado e dobrei minhas pernas. Minha cabeça estava revirando em como abordar o assunto. Talvez não precisássemos. Ele já tem a chave, o carro dele está sempre aqui, suas roupas também. Preciso mesmo formalizar e talvez espantar a mosca?

- O que você está remoendo na sua cabecinha? Alguém fez algo que não gostou? – perguntou desviando o olhar da televisão rapidamente.

- Acho que devemos morar juntos. Oficializar o morar juntos. – vomitei o que estava pensando e registrei sua expressão surpresa. Merda. Ele vai dizer que não e a decepção me lavou. E eu tive a certeza que realmente quero oficializar nosso relacionamento a esse passo.

- Você quer dividir oficialmente e permanentemente, sem chance de me expulsar quando estiver irritada, com contas e todos os problemas no pacote? – perguntou e balancei a cabeça positivamente. Mordi os lábios. Edward simplesmente me pegou para seu colo e me beijou.

- Se você me irritar, talvez te expulse para o sofá. – sussurrei contra seus lábios.

- Sorte a sua que o sofá é muito confortável. – beijou meu pescoço e olhou em meus olhos. – Eu quero morar com você, mas eu acho que vai precisar abrir um espacinho no escritório para meus livros e no armário para mais algumas coisinhas.

Sorri e ele abriu meu roupão, beijando minha boca e raspando os polegares nos meus mamilos. Gemi contra sua boca e começamos a comemorar nossa nova decisão no sofá e depois partimos para o quarto.

Acordei tarde no dia seguinte, ele acordou antes de mim e ficou na cama implicando com sua mãe, informando-lhe que havia mudado de endereço e que "coisas aconteceram". Eu podia ver Elizabeth andando de um lado ao outro e surtando, acordando Esme e Alice, dizendo que "algo aconteceu com Edward porque ele estava misterioso". Eu ri lendo as mensagens dela insistindo para ser claro, achei maldade e também engraçado. Depois de muita tortura, disse que agora moramos juntos e ela enviou várias carinhas com corações nos olhos.

Aproveitando que ele anunciou para família, resolvi fazer o mesmo. Meu pai não se intromete na minha vida a não ser que eu peça sua ajuda, o que acontece quase sempre, mas ele não chegou a encontrar com Edward como meu namorado. No meu aniversário, Edward estava no limbo. Charlie perguntou e disse que não, então, não sei como será a sua reação. Abri o aplicativo e vi que tinha um monte de mensagem de Renée, já era o terceiro número que eu bloqueava. Abri uma conversa com Charlie. Dei bom dia e perguntei se ele estava bem, ele respondeu que sim, enviou uma foto do seu prato do jantar ontem à noite e outro do seu café da manhã. Meu pai costuma acordar com as galinhas. Ele perguntou se eu estava bem e decidi soltar a bomba de uma única vez com a seguinte frase: Estou namorando e agora nós moramos juntos.

Ele demorou mais de quinze minutos para responder. Edward e eu ficamos tensos, olhando para o aparelho até que meu pai enviou uma carinha do emotion coçando o queixo. Perguntou quem era, eu respondi Edward Masen, ele botou outra revirando os olhos, que me fez rir. Depois enviou outra pensativa: Mas já morando juntos? E eu sabia como quebrar seus medos sendo honesta: Estou pronta para seguir em frente. Ele me faz feliz.

Meu telefone começou a tocar logo que Charlie visualizou. Era o facetime.

- Eu vou começar o café da manhã para você conversar a vontade com seu pai. – Edward me deu um beijo e saiu da cama só de cueca.

- Oi pai.

- Eu preciso olhar em seus olhos quando repetir exatamente o que escreveu lá.

- O quê? Que estou morando junto com Edward?

- Não. A outra frase...

- Eu me sinto pronta para ser feliz novamente.

Charlie abriu um sorriso imenso.

- Não sabe o quanto sonhei te ouvir dizendo isso, Bella. Você é a garota mais bonita e mais inteligente do mundo inteiro e tenho muito orgulho de ser seu pai, pela força e coragem que tem em desbravar o mundo. Tenho certeza que serão felizes. – sorri emocionada com meu pai. – Acho que vou organizar uma visita para o natal.

- Eu te aviso se estiver de folga. – sorri e senti cheiro de algo maravilhoso. – Tenho que descer porque estou faminta.

- Passe o número de telefone dele por mensagem.

- Tudo bem, eu te amo.

Enrolei-me mesmo de pijama porque estava um friozinho. Edward diminuiu o aquecedor de madrugada porque estava quente demais para nossas atividades. Desci descalço e ele estava fazendo algo maravilhoso com queijo e presunto. Beijei suas costas e enchi minha caneca de café. Ele virou a omelete e colocou em um prato, começando a fazer a segunda. Belisquei uma pontinha e decidi que a partir daquele momento a cozinha era toda dele.

- Com quem aprendeu a cozinhar? – perguntei depois de ter devorado todo meu prato. Ele sorriu e limpou a boca. – Estou falando sério. Aprendi a cozinhar porque achava incrível poder separar todos aqueles ingredientes e o que a mistura deles resultaria. Quando Charlotte se tornou a governanta da casa, tive uma babá que me ensinou a fazer muita coisa, ela era brasileira e eles possuem versões de pratos completamente diferentes dos nossos. Quando completei 16 anos, meu pai autorizou uma viagem para lá, experimentei todo tipo de prato que pode imaginar e conheci toda família dela. Charlotte e eu amamos.

Eu já havia contado a Edward sobre a minha família paterna disfuncional. Ele entendeu que Charlotte, apesar de hoje ser apenas funcionária de alto nível e confiança do meu pai, foi a mulher que me criou e me amou como sua filha.

- Meu pai me ensinou a cozinhar. – Edward disse para minha completa surpresa. – Ele amava e ficar na cozinha com ele era o meu passatempo preferido. Havia dias que chegava da faculdade para o final de semana, precisando estudar com ele e tirar duvidas, fazíamos isso na cozinha, livros na mesa, comida no balcão, ele me pedia para falar o que eu sabia sem tirar cola nos capítulos e assim ia me ensinando o que eu tinha duvida. Entre uma refogada de molho de tomate caseiro com manjericão, ia uma matéria inteira.

- Que maravilhoso. Meu pai queima tudo que faz na cozinha, até ele mesmo. A mulher dele uma vez me ligou desesperada que ele foi esquentar um pouco de leite e queimou a mão. Eu tive que explicar a ela nunca deixar Charlie na cozinha, ainda mais sozinho.

- Minha mãe não cozinha nada. Ela é uma completa negação. Eu me lembro de chegar da escola e ela querer organizar um jantar surpresa para meu pai e fazer coisas que não consigo descrever o que era. Nós sempre moramos do lado da Tia Esme e quando minha mãe fazia esses experimentos, eu fugia depois que ela ia para o quarto e jantava.

Nós limpamos a cozinha juntos, assistimos a um filme e preguiçosamente ficamos sofá até que fomos ao apartamento dele com algumas caixas, pegamos o que ele queria, enchemos o carro e voltamos para casa. Edward carregou as caixas e enquanto ele arrumava os livros, pendurei seus diplomas na parede, espalhei algumas fotos que trouxemos dele com sua família e arrumei todo armário, porque não queria que ele alterasse a minha organização. Tivemos que trocar a roupa de cama de lugar para alinhar seus sapatos e ficou muito no alto, eu teria que comprar uma escadinha porque só ele iria conseguir tirar os lençóis dali. É injusto ser baixinha.

- O que você pensa de fazer com aquele espaço vazio? – perguntou depois que sentamos nos banquinhos da ilha da cozinha. No fundo da sala havia um espaço meio inútil, com uma poltrona que eu nunca sentei para tomar chá e olhar a janela. Uma parede com quadros. Era embaixo do corredor de cima, que na verdade, era apenas uma longa sacada e dava para ver as três portas, closet, escritório e meu quarto.

- Não sei. Não tenho nada para colocar aqui. Alguma ideia?

- Nenhuma. Só foi uma dúvida, porque está vazio.

- Meio que me incomoda que esteja vazio, mas, não me vem nada à cabeça para fazer ali. – olhei o relógio e tive uma ideia. – Acho que devemos fazer um bar. Vou olhar na internet alguma decoração que possa combinar com a sala.

- Nós quase não bebemos. – disse e continuamos olhando para parede. – Acho que devemos fazer um jantar de inauguração.

- É mesmo?

Pânico. Alerta de família conhecendo a minha casa e tendo "acesso" livre começou a soar nos meus ouvidos e eu tinha que ter previsto. Edward é filho único, o garotinho da mamãe e da tia. Mordi o lábio sem saber o que dizer. Realmente não custava nada e até seria divertido organizar um jantar, mas acho que não sei lidar mais com sogras. Perdi o jeito. A família dele é muito sufocante e unida, posso imaginar quantos jantares por semana seremos obrigados a comparecer agora que somos um casal e quantas vezes as duas irão aparecer querendo fazer programas maternais comigo.

Percebi que Edward ainda estava esperando uma resposta. Merda.

- Acho que é uma boa ideia. Podemos organizar para nossa próxima folga, o que acha?

- Tudo bem, mas eu preciso combinar uma coisa com você. Será o nosso pacto, tá?

- O que seria, seu bobo?

- Minha mãe e minha tia são impossíveis e você já deve ter percebido que o apelido delas é "gêmeas do mal". Elas fazem praticamente tudo juntas e são unidas ao extremo, também são intrometidas e muito, mas muito inconvenientes, não por maldade, mas porque elas pensam que precisam controlar o mundo. – disse e assenti, compreendendo seu ponto. - Então nós iremos convidá-las para um jantar, podemos chamar os meninos, Rosalie e quem mais for próximo... Mas nunca dê o código do portão para elas. Nunca. Ou nós iremos acordar elas mudando a decoração da sala. Nós podemos estar transando e de repente minha Tia Esme entrar e dizer que encontrou uma roupa perfeita para você. Se você der o código ou a chave, eu juro que vou trocar porque eu gosto de andar de cueca em casa e poder transar o tempo que quisermos. Combinado?

- Combinado, parceiro. Confesso que estava meio em pânico porque não estou acostumada. Cresci sozinha com Charlie, mesmo que tenha morado pouco com a minha mãe, nós nunca fomos um tipo de família barulhenta. Charlie e eu somos unidos, mas ele, apesar de ter o código do portão, não vai entrar sem ser convidado. Ele só vai fazer o que eu pedir. É assim que ele é, respeita meus espaços e decisões, me apoia sempre e quando estou errada, não tem problema nenhum em me dizer, mas não me impede para que eu possa aprender.

- Ele me enviou uma mensagem de voz mais cedo. – Edward riu e não me contou.

- O que disse? – perguntei curiosa.

- Nada demais. Coisas entre genro e um pai bastante protetor com a sua filhinha. – piscou e me puxou para perto. – Quer sair para jantar?

- Vai me levar em algum daqueles restaurantes que me indicou no primeiro dia? – perguntei lembrando o quanto ele conhece essa cidade.

- E depois para o lugar que vende a melhor torta alemã que já experimentei nessa minha vida de trinta e cinco anos de idade. – sorriu e me inclinei para beijar seus lábios.

- Tudo bem, eu vou me vestir.

Não demoramos a nos vestir e nos agasalhar bem. Saímos a pé e conversamos um pouco com Jane e Félix. Edward não sabia que eles eram meus inquilinos, nem que eu era proprietária de todo prédio. Ele custou o mesmo que uma cobertura no central park e achei que valia mais a pena e era mais o meu estilo. Caminhamos pelas ruas de braços dados, eu estava maravilhada com o quanto a noite era movimentada e linda, mesmo no frio que ele jurou que ainda não estava tão preocupante. Não precisamos de reserva e nem ficar na fila. O maitrê quando viu Edward logo sinalizou para entrarmos e dois lugares foram colocados no balcão. Edward me explicou que ali era o melhor lugar para comermos e logo descobri porquê.

O Chef era amigo de Edward da escola, nós éramos servidos o tempo todo e eles queriam que eu provasse a maior parte do cardápio. Cada prato que vinha era mais gostoso que o outro. E eu comi sem pena porque não me importo muito com essas questões de dieta. O bife com batatas e um molho especial da casa estava muito gostoso, mas a peça de salmão assado ao molho agridoce me deixou louca e eu sabia que sempre iria querer comer aquele prato. A casa não tinha muita especialidade em sobremesas e quando pagamos a conta, eu estava tão cheia que poderia ser confundida com uma mulher bêbada. Seguimos para confeitaria que estava aberta e com algumas mesas ocupadas. Edward pediu dois expressos que vieram bem quentinhos e foi maravilhoso para aquecer por dentro e um pedaço de torta.

- Você tem razão. É muito gostosa.

- Se tem uma coisa que eu gosto de fazer é apreciar uma boa comida. Em nossa próxima folga, vou te levar em um restaurante que é um pouquinho longe daqui, mas todos os pratos são servidos com espetinhos com alguma carne. A última vez que fui lá com Rosalie, nós contamos quarenta palitos de espetinhos na mesa.

Edward tirou algumas fotos minha no caminho para casa e tiramos um monte de fotos juntas. Enviei uma para meu pai e deslizei o dedo em cima do número da minha mãe, considerando desbloquear, porque sinto sua falta, mas a mágoa ainda era grande demais para simplesmente fingir que não estava acontecendo. Chegamos em casa e fui direto para o quarto. Edward ficou em baixo fechando as cortinas e acionando o alarme noturno. Tomei um banho quentinho e deitei. Eu estava cheia demais para fazer sexo e ele também. Justamente por isso não demorei a dormir.

Acordei no meio da noite com a cama vazia. Levantei meio confusa e ele estava no closet, se vestindo.

- Foi chamado? Aconteceu alguma coisa com Eric? – perguntei sonolenta.

- Parece que tem dois pacientes parando e o outro cardiologista que daria suporte está em uma cirurgia de emergência. – disse e colocou o sapato. – Volte para cama, volto assim que der. – me empurrou de volta para o quarto, deitei e me cobri. – Descanse, beicinho. – beijou-me e saiu.

Apesar do sono, demorei a pegar no sono, pensando muito na minha mãe. Eu queria conseguir perdoá-la, mas a cada vez que penso em dizer as palavras, elas se embolam na minha boca e meu coração se inunda em uma mágoa sem fim. Não só porque ela nunca abriu mão de Victória e ainda a defendeu, alegando que ela foi seduzida, ela nunca me deu atenção, nunca me compreendeu. Renée não sabia lidar com meu QI elevado e não tinha paciência com a minha dificuldade de socializar e definir meus sentimentos.

Fui uma criança incompreendida. E abandonada, porque enquanto Victória passou toda a sua vida sendo mimada por minha mãe, eu vivi com Charlotte, que me ensinou sobre absorventes mesmo que eu já tivesse desvendado o mistério e me levou ao médico quando meu relacionamento com James avançou o suficiente para que ela achasse que eu deveria me prevenir – e eu já sabia tudo sobre o assunto, porque já era uma estudante de ciências biológicas aos dezoito anos de idade, preparando-me para passar para pré-med. As suas intenções carinhosas e maternais que fizeram toda diferença.

Quando Edward voltou três horas depois, eu estava com dor de cabeça de tanto sono. Recebi um e-mail informativo do Dr. Banner e do Dr. Evans, houve muitas emergências, mas todos os pacientes estavam estáveis no momento, os que já estavam internados com tratamento clínico e pós-ops. Tranquila que o andar estivesse bem cuidado, rolei para o lado e senti que ele estava muito cheiroso. Provavelmente tomou banho ao sair da UTI. Ele me abraçou e nos embolamos no outro.

- Os pacientes?

- Um deles faleceu, mas era questão de tempo, já era um senhor de idade avançada. Outro estabilizou.

- Recebi o relatório dos plantonistas agora, disseram que a emergência ficou bem cheia, mas deu para todo mundo trabalhar bem sem chamar os atendentes. – sussurrei e bocejei.

- Isso é bom, significa que estamos ensinando certo. – suspirou e beijou minha testa, logo adormecendo.

Fiquei ouvindo o som das batidas do seu coração e implorei internamente que nós nunca fizéssemos o outro sofrer. Era o começo de uma nova fase da minha vida e mesmo que muito assustada com todas as possibilidades, eu estava incrivelmente animada.