X.
O entusiasmo de Olivia arrefeceu quando chegou em sua casa à tarde e encontrou um recado de Nina Sharp. Segundo sua tia Missy,ele havia sido entregue por um criado, na véspera. Rachel estava muito curiosa, mas sabia que arrancar qualquer coisa de Olivia seria muito difícil.
Durante o chá, a tia arriscou timidamente:
-Por que precisou ficar na mansão Bishop, querida? O doutor está doente?
-Nada disso, tia Missy. Ele está muito bem. Nós ficamos examinando os arquivos dos assassinatos das senhoras. Aqueles que saíram no jornal.
A tia ficou horrorizada. Olivia a preocupava com suas esquisitices.
-Olivia, isso não é coisa para mulheres. Pode ser muito perigoso.
Rachel foi em outra direção, bastante diversa, mas igualmente interessante.
-Nós? De quem você está falando?
Olivia enrubesceu, mas respondeu sem hesitação alguma na voz.
-Walter, eu e o filho dele, Peter. Aliás, você já o conhece.
A tia e Rachel trocaram um olhar cheio de entendimento, sendo que na velha senhora ele expressava preocupação, em Rachel, pura malícia. Peter Bishop era lindo, rico e tinha modos encantadores, nada mais natural que a irmã procurasse pretextos para ficar perto dele. Sabia, contudo, que a irmã nunca reconheceria estar interessada no rapaz. Olivia era uma sortuda.
Olivia sabia que Nina Sharp estava preocupada com a sua ida para a casa dos Cox, em Quincy. Suas roupas, seus modos, tudo em Olivia contribuía para deixar a Senhora Sharp apreensiva. Mas dessa vez Olivia resolveu se esquivar de sua influência. Já havia falado com Walter e ele a autorizara a comprar o que fosse necessário para usar na casa dos Cox.
-Não se preocupe com dinheiro, Olivia. A modista está esperando você. Ela vai orientá-la com a aquisição de outras coisas das quais você precisará. Se quiser, pode pedir ajuda a Nina, ela adoraria.
-Obrigada, Walter, mas não será necessário.
-Como quiser, minha querida. Não se preocupe com despesas.
-Não vou esquecer.
Os Bishop e a Senhorita Dunham chegaram à casa de praia dos Cox, na quinta-feira à tarde. Virginia Cox e o marido receberam-nos com gentileza. Os olhos da dona da casa eram especialmente benevolentes quando olhavam para Peter. Ela reparou também que ele e a moça Dunham pareciam bastante chegados. Ele ajudou-a a se desvencilhar da capa, de modo que ela adentrou à mansão, muito bonita, usando um costume de viagem cor de camurça, debruado de veludo marrom escuro. Parecia muito à vontade naquela roupa cara e com o jovem Bishop a seu lado, o que era preocupante.
Virginia Cox resolveu prestar mais atenção nos dois. Amy Jessup era sua afilhada, e a Senhora Cox fazia especial empenho na união. Se fosse preciso, falaria com Nina Sharp para saber da tal garota. Não acreditava que um homem sofisticado como Peter ficasse caído por uma irlandesinha pobre e sem berço.
-Qual deles, Grace? O azul ou o preto?
A velha Grace Higgins que viera para auxiliar Olivia, sorriu:
-O azul, Senhorita Olivia.
Olivia parecia insegura. Roupas nunca tinham sido o seu forte.
-Tem certeza?
-Sim. Não se esqueça que eu servi à Senhora Bishop. Ela era uma grande dama.
-Mas Grace, eu não sou uma dama. Nem das "pequenas".
Grace deu uma gostosa risada.
-Não se preocupe, Senhorita. Ele sabe que a senhora não é uma dama, mas gosta da senhora assim mesmo.
Olivia ficou muito sem graça. Não esperava um comentário tão incisivo.
-Então vou colocar mesmo o azul. E seja o que Deus quiser.
Ela desceu sozinha. O coração estava acelerado. Um jantar de cerimônia na casa de James e Virginia Cox, com várias pessoas ricas e bem nascidas. Ela sabia que essa era a característica mais importante para os esnobes. John Scott não tinha sido convidado. Lincoln só chegaria no dia seguinte, de modo que além de Peter, Walter e Nina Sharp, ela não conhecia mais ninguém.
Assim que entrou no salão, viu Walter sentado perto de Ephraim Jessup e Nina Sharp. Ele sorriu de modo aprovador ao vê-la tão bonita. Peter estava perto de uma grande janela, conversando com a Senhorita Jessup. Olivia instintivamente se aproximou de uma grande coluna, e tentou se ocultar. Olhou novamente para os dois. Amy estava encantadora, vestida de rosa. A cor parecia valorizar seus cabelos escuros, cheios de pesados cachos. Ela era realmente uma beleza, era exatamente o tipo de mulher apropriada para Peter Bishop. Além da riqueza e da boa família, era uma beldade, sabia como se comportar em sociedade. Uma mulher como aquela jamais o envergonharia.
A certeza de seus pensamentos a paralisava. Notou então que Peter conduzia a moça até junto do grupo onde estava o pai dela. Após trocar algumas palavras, ele se afastou e veio em sua direção. Olhou-a apreciativamente, da cabeça aos pés. O coração de Olivia parecia agora que iria saltar pela boca.
-Posso lhe fazer companhia?
-Foi um erro ter vindo. Sabe, não tenho jeito para isso.
-Eu sei que não tem. Não se preocupe, não vou deixá-la.
-Duvido muito que eles tenham nos colocado próximos um do outro na mesa de jantar.
-Já disse para não se preocupar. E, a propósito, você está deslumbrante.
Virginia Cox estava muito contrariada. Dera ordens expressas para que Peter fosse colocado ao lado de Amy, mas ele aparecera comodamente sentado ao lado de Olivia Dunham. Amy estava colocada entre dois senhores idosos, amigos de seu marido. Ela nunca adivinharia que o jovem Bishop em pessoa, trocara os cartões. Nina também não parecia nada satisfeita com a amizade entre o filho e a pupila de Walter. Com esses modos ela nunca arranjaria um marido decente. A Senhora Sharp escutara uma história tenebrosa de uma interferência de Peter Bishop e Olivia Dunham numa investigação da polícia. Felizmente, nem os Cox , nem os Jessup sabiam do ocorrido.
A noite, que começara ameaçadora, estava correndo muito bem. Cedendo aos pedidos da anfitriã, Peter Bishop tocou piano - um improviso de Schubert e depois uma valsa de Chopin. Amy não tirava os olhos dele; aquilo deixava Olivia agoniada, ela não sabia a razão. Era absurdo, mas gostaria de tirá-lo do alcance de Amy Jessup. Quando ele acabou de tocar, para seu contentamento ele veio se sentar perto dela e de Walter. Então ela percebeu que agora eram os olhos de Amy Jessup que a vigiavam.
-Obrigada por tudo, Bishop.
Ele sorriu. Estava parado diante da porta do quarto dela.
-Não tem nada a agradecer. Se não fosse você, tudo teria sido muito aborrecido.
Olivia falou sem sentir.
-A moça Jessup, Amy. Ela está apaixonada por você.
-Ela só me viu duas vezes. Não é possível se apaixonar por ninguém assim.
Ela falou mais para ela mesma do que para ele. A voz era baixa e meio triste.
-Às vezes uma só vez é o suficiente.
-Boa noite, Liv.
Era a primeira vez que ele a chamava assim. Sentiu um formigamento nas pernas. Naquela noite custou muito a dormir.
