1.
Ping, ping, ping.
Ela estava dentro do pesadelo novamente.
Mais fétido, mais escuro.
Mais sozinha.
Não tentava escapar, era tão inútil. Permanecia sentada, encharcada de sangue, chorando baixinho. Estava tremendo novamente, apertando os braços em volta dos joelhos magros e pequenos.
Ela estivera tão perto de não ser mais sozinha, de finalmente ser retirada do banheiro escuro, e agora tudo voltava a ser como antes.
Sozinha... Sempre sozinha. Incapaz de corrigir o passado.
Ela tentou gritar.
Mas só conseguiu chorar.
- Hey Sara acalme-se.
Ela foi envolvida e deixou-se afundar no abraço. Agarrou-se a ele como se não existisse mais nada e enterrou-se de forma quase dolorosa em seu peito.
- Tudo bem, você está em casa, está comigo.
- Eu...
- Não fale querida, está tudo bem.
Ela obedeceu.
Largou-se nele e a pequena Sara do sonho ainda chorou por um tempo. Ela odiava a forma como a criança sempre voltava com o pesadelo.
A respiração entrecortada por soluços foi acalmando-se aos poucos e os dedos que apertavam fortemente as costas dele afrouxaram-se.
- Me sinto meio idiota...
Finalmente conseguiu sussurrar e se afastou com um sorriso frouxo nos lábios.
- Por quê?
- Por chorar como uma criança.
- Adultos também choram.
- Você não chora.
- Quem disse?
- Eu nunca vi.
- Eu choro escondido.
- Really?
- Não.
Gil arqueou a sobrancelha irônico e ela riu. Recostou-se nele respirando fundo.
- Obrigada.
- Achei que os pesadelos tinham cessado.
- E tinham. Voltaram desde que... hum...
- Desde que Amber foi embora. Eu imaginei.
- É. Desde que ela foi. Eu não sei explicar. Não sei se faz algum sentido... Mas é, de alguma forma Amber parou meus pesadelos. - ficaram em silêncio durante alguns segundos - Que você acha?
- Você estava se livrando do sonho ao libertar Amber da mãe e da vida que tinha, por isso seus pesadelos pararam. Livrar Amber era o mesmo que libertar você. Mas tenho certeza de que você também já tinha chegado a essa conclusão.
- Yeah, pensei nisso. É assustador.
- O que?
- Que seus medos dependam da presença de outra pessoa.
- Muitas coisas e sentimentos dependem da presença de outra pessoa. Você só escolhe se quer seguir em frente sozinho ou aproveitar esta dependência.
- O que você escolheria? – ela piscou os cílios ainda molhados e o encarou.
- Há um tempo eu seguiria sozinho.
- E agora?
Ele desviou o olhar de Sara e pousou-o nos dedos entrelaçados dos dois.
- Me tornaria dependente.
- Boa resposta.
Ele sorriu e levou a mão dela até os lábios beijando delicadamente a palma.
- E o que você vai fazer em relação à Amber?
Sara deu de ombros.
- Nada. O que há para fazer? Ela escolheu ir embora e eu aceito sua escolha.
- Mas não concorda.
- Não, mas não podia impedi-la de ir.
- Mas sabe que ainda pode lutar por ela.
- Lutar, lutar... Eu estou cansada.
Ele franziu o cenho e virou o rosto para ela.
- Você nunca desiste Sara, porque desistiria agora?
- Você foi minha última luta Grissom. E valeu a pena com certeza, estou feliz por estarmos juntos, feliz de verdade, mas... Não tenho forças pra persistir em outra por sei lá quanto tempo. Eu estou cansada, realmente cansada...
- O que cansa você?
Estou cansada de fazer justiça depois que as pessoas já sofreram. Estou cansada de ganhar e perder logo em seguida. Cansada de lutar sem ter certeza de que terei realmente algo no final...
- Sara me diga o que cansa você.
- Nada!- ela riu - nada em especial, sabe acho que, que eu fiquei meio abalada por causa do sonho e acabei falando coisa que não tem sentido.
- Sara...
- De verdade! Ei esqueça, tudo bem? Eu só preciso me acostumar a isso tudo e tenho certeza de que vou ficar bem. Eu sempre fico bem. Você sabe que sim.
- O que eu sei é que você costuma se esconder atrás de uma armadura de auto-preservação. Uma armadura bastante dura, mas que tem suas falhas. Por mais que ela a proteja, em alguns pontos ela se abre e você sofre... E não tente usa-la comigo Sara.
Ela sustentou o olhar sério de Grissom, com um sorriso no rosto. Às vezes odiava a maneira límpida como ele podia avaliá-la sem erro.
- Está tudo bem! Tudo ok. Eu... Eu tive um sonho ruim e isso me afetou e fez com que falasse coisas sem sentido. Sinto falta dela sim, mas é superável. Tudo é superável... Eu consigo. Griss eu consigo.
Afirmou isto olhando-o nos olhos tentando parecer convincente.
Mas sabia que de nada adiantaria Ele sempre veria e saberia suas verdades.
E suas mentiras.
Grissom passou o polegar de leve sob o olho esquerdo dela secando a pele ainda molhada. Ali havia um abarreira. Algo a estava cansando e incomodando. E Sara não se abriria tão facilmente.
Ele seria paciente.
- Gostaria de ajudá-la.
- Você me ajuda estando comigo. Mais... Mais do que qualquer outra coisa ou qualquer pessoa. Acredite.
- Não posso ajudá-la a evitar estes sonhos.
- Mas pode me ajudar a esquecê-los... -Ela elevou o corpo até ficar com o rosto no mesmo nível que o dele.- Me ajude agora.
Beijou-o de leve e deixou que ele a levasse.
Para muito longe da escuridão.
2.
Amber jogou-se na pequena cama que rangeu e olhou para o teto.
Estava descascando. Teddy teria que passar outra mão de tinta, mas dessa vez não azul.
Roxo.
Roxo era a cor que ela queria para o quarto todo.
Bonnie odiava roxo. Dizia que era uma cor morta que trazia coisas ruins.
Amber quase riu. Ruins eram os dias dela no momento.
Era quatro da tarde e ela não tinha nada para fazer. Sua mãe estava dormindo - visto que passara a maior parte da noite enchendo a cara em alguma reunião dos artistas New Age de Ted. Ele devia estar pintando alguma coisa em algum lugar. Bonnie esquecera de pagar a conta de luz, o que resultara em energia cortada. Sem televisão, sem música.
E a escola estava tão chata que ela escapara pelo portão na hora do intervalo.
Não tinha amigos ali.
Não tinha Sara...
Amber levantou e foi até a janela. A rua estava vazia e o céu nublado. Suspirou e voltou a deitar.
Talvez tivesse feito a escolha errada então.
Queria estar em algum lugar em que as pessoas se importassem com ela e que não a esquecessem durante dias. Um lugar em que a amassem e demonstrassem isso
Queria estar em Vegas. No apartamento roxo.
Ela levou os joelhos ate o peito e abraçou-os. Os olhos arderam, mas ela não chorou.
Estava sendo forte não é? Sara era forte.
Sara não ficaria chorando como uma menininha boba. Ela agüentaria a escolha de cabeça erguida. E engoliria o medo. E Amber um dia seria como ela.
Mesmo assim...
Às vezes ela ficava com um pouquinho de medo. E com um pouquinho de vontade de chorar. Era tão difícil viver daquele jeito.
Cuidar de sua mãe estava cada vez mais difícil. Bonnie nunca parecera tão imatura ou aérea quanto agora. Amber achava seriamente que a viagem tinha acabado com o pouco de sanidade que restava em sua mãe. Ela passava o dia dormindo. Se Teddy estivesse em casa ela ficava trancada no quarto pintando telas que quase nunca finalizava. E se Teddy saísse para algum trabalho, Bonnie também saia. Para onde, Amby não fazia a menor idéia, mas a mãe costumava voltar um dia depois sem lembrar de quase nada que fizera anteriormente.
Odiava o papel de adulta. Odiava ter que se portar como tal para tomar conta de sua mãe.
- Amby?
Bonnie abriu a porta do quarto e colocou a cabeça entre o vão.
- Hum?
- Onde está Teddy?
- Não sei mãe.
- Oh, que horas são?
Bonnie entrou completamente no quarto. Vestia um roupão azul desbotado fechado frouxo na cintura e os pés estavam descalços. Sua cabeleira loira caia sobre o rosto, um pouco emaranhada e cobria parcialmente a face. A maquiagem formava uma máscara borrada em torno dos olhos e dava-lhe um ar envelhecido.
- Minha cabeça vai estourar. Querida, que horas são?
- Não sei mãe.
- Deus bebi demais... Hum, pequena você está bem?- Bonnie observou a filha enroscada em si mesma na cama.
- Uhum.
- Tem certeza?
- Claro, só estou com sono.
- Certo, eu vou descer vou procurar Teddy.
- A comida ta na geladeira. E tem café feito.
- Oh você é maravilhosa!- Bonnie soprou um beijo e virou-se para sair. Parou antes de chegar à porta. - Amby quer conversar?
Amber virou a cabeça que estivera entre os braços e encarou a mãe. Bonnie estava parada com a mão na maçaneta.
E estava séria. Pelo menos parecia.
- Não mãe... porque?
Bonnie suspirou e passou as mãos pelos cabelos ajeitando-os. Foi em direção a cama da filha e sentou.
- Eu não lembro bem o que fiz ontem à noite. Não lembro bem de quase nada que faço essa é verdade- ela riu- Sou estabanada e Teddy vive dizendo que eu tenho todos os parafusos frouxos e coisas do tipo. Acredita? Oh mas eu o amo, mesmo que ele fique dizendo que eu sou maluca. Bom, eu acredito sabe? Não sou das mais certas... - ela olhou para o rosto interrogativo de Amby- Mas eu ainda sou mãe. E eu ainda sinto essas coisas estranhas que as mães sentem sobre os filhos.
- Hã, que coisas?
- Ah essas, tipo quando o filho ta namorando escondido e a gente sabe mesmo que ele não tenha dito nada, ou quando ele esta com febre, mas na escola não em casa. Aí a mãe onde quer que esteja sente que tem algo errado. Essas coisas.
- Pressentimentos?
- Talvez. É. Isso também. Eu sempre tive em relação a você, mesmo que não pareça. Na verdade raramente parece não é? E desde que voltamos de Vegas você está diferente. Diferente não de uma forma normal, diferente de uma forma diferente? Você me entende? Ah você entende, sempre consegue. Então eu sinto. Amber eu posso ser a pessoa mais desligada do universo e provavelmente sou mesmo, mas eu sei quando a minha filha está sofrendo.
- Mãe...
- Oh meu Deus o que eu fiz? Eu não deveria ter feito isso. - Bonnie escondeu o rosto entre as mãos – eu fui uma mãe tenebrosa. Deveria ter ficado com você. Eu perdi minha filha e foi culpa minha. Porque eu sempre faço tudo errado hã? Uma vez na vida eu poderia pensar antes de toma alguma atitude. Estou arrependida Amber, arrependida de ter deixado você com a Sara. Achei que era certo... Mas não foi. Ela ama você e você a ama de uma forma maior e muito forte. Acabei dando outra mãe para minha própria filha. Eu mesma tirei você da minha vida...
- Ei mamãe - Amber levantou-se e pegou a mão de Bonni entre as sua - O que está dizendo? Você não me perdeu. Eu estou aqui não estou? Voltei para casa.
- Você não voltou e eu vejo isso, você está lá com Sara.
- Não entendo...
- Eu sei que agi errado. E essa é a pior parte sabe meu bem? Eu deixei você em Vegas sabendo que isso traria conseqüências para Sara. Sabia que em algum momento você se sentiria sozinha. E eu voltei? Nããão, eu fiquei com Teddy. Odeio o amor... Esse tipo que tira o juízo, não o que sinto por você, claro.
- Mãe, você sabia que Sar ia ter problemas?
- Claro que sabia. Uma filha caída do céu. Imagine isso? Eu não conseguiria. Mas quando pensava sobre isso, a parte de mim que não tem juízo nenhum falava: oh não se preocupe. Sidle é grandinha e saberá o que fazer. Divirta-se! Isso é tão errado! E a cena? Viu a cena que fiz quando voltei? Eu me portei como uma vadia egoísta! Eu deveria beijar os pés de Sara e pagar por ter cuidado tão bem de você...
- Mãe, por que você fez isso?
- Na verdade... Na verdade não era pra fazer. Eu ia chegar e leva-la embora. Agradecer e voltar para casa. Mas aí quando eu olhei para Sara eu vi.
- Viu? Viu o que?
- Que ela amava você como uma mãe ama um filho - Bonnie fungou e não segurou as lágrimas silenciosas. - E quando se ama desse jeito se é capaz de tudo.
- Como...?
- Amber eu vi nos olhos dela quando disse que levaria você embora que ela lutaria para tê-la lá. Sara só não fez nada mais porque respeitou sua decisão de vir embora. Se dependesse dela Amby, você permaneceria lá. E eu também percebi a sua reação, pequena... Você queria ficar.
- Não, eu queria voltar!
- Meu amor - Bonnie passou o polegar sobre a face da filha olhando carinhosamente - não minta para mim. Eu é que costumo ser boa nisso na nossa família.
Amber queria mentir. Queria desesperadamente mentir e deixar sua mãe feliz.
Mas não conseguiria.
Suspirou e baixou a cabeça. Bonnie chegou mais perto dela e a abraçou forte, afagando-lhe os cabelos. Amber deitou o rosto no colo da mãe e permaneceu ali por um bom tempo.
Apenas se sentido amada.
Bonnie permanecia calada também. Algo dentro dela estava quebrado e doía profundamente. Suas atitudes impensadas estavam lhe custando o maior tesouro de sua vida. E ela sabia que doeria muito mais, quando ela tomasse a única atitude correta.
- Amber lembra-se quando eu falava do amor a distância?
- Quando você namorava aquele fuzileiro naval?
Bonnie riu.
- Isso mesmo, há um ano atrás acho. Você lembra?
- Hum, você dizia que quando há amor a distância não significa nada.
- Isso mesmo. Se o amor for verdadeiro e forte podemos estar em qualquer lugar do mundo que não será menor, nem acabará.
- Porque está dizendo isso?- Amby levantou os olhos castanhos e encarou os olhos verdes e brilhantes da mãe.
- Não importa onde estejamos, eu e você. Sempre seremos mãe e filha e sempre, sempre amaremos uma a outra. - Bonnie sorriu e levantou-se.
- Só quero que seja feliz Amber. Não importa onde esteja.
Soprou um beijo para a filha e saiu do quarto.
Amber continuou sentada e olhou para fora. O céu estava totalmente escuro e trovões gritavam a chuva que cairia.
Ted costumava dizer que a chuva era capaz de lavar a alma dos humanos e carregar todas as suas preocupações e temores.
Sem pensar duas vezes, ela levantou-se e rumou para fora.
