Olá. Espero que todos estejam bem.

Este era para ser o penúltimo capítulo dessa história, mas um certo elfinho pareceu querer fazer de sua aventura uma seleção de eventos a serem resolvidos e para os quais essa simples autora aqui vai precisar de um pouco mais de páginas, mesmo porque ainda estou lutando para dividir os capítulos em partes de não mais de 15 páginas.

Peço também desculpas pelos erros. Acabo sempre por escrever meus capítulos nos mais inusitados lugares e por fim os passo para o computador com uma gana que me impede de ver todos os absurdos que digitei. Correções e observações sobre os meus delírios são bem vindas, mellyn-nín.

Quero ressaltar que idealizei a cidade dos portos baseando-me em um artigo que li e do qual gostei muito. Senti-me dividida a princípio, mas por fim optei por retratar os elfos do porto como vejo os demais, como pessoas normais e não seres etéreos que parecem não necessitar de praticamente nada para levarem a vida. Espero não ofender ninguém com essa visão. Deixo aqui a recomendação do ótimo texto de Michael Martinez, chamado A vida em uma cidade pesqueira élfica, de 12 de maio de 2001, publicado nas páginas da Dúvendor.

Muito obrigada aos que ainda estão acompanhando. Espero que gostem dessa etapa da aventura do nosso complicado Elrohir.

Mil beijos

Sadie

PS: Aos que esperam as atualizações de Destino peço paciência. Estou com três capítulos prontos também que vão ao ar assim que eu conseguir fazer alguns ajustes, bem como o novo capítulo de Significado das Trevas. Só preciso digitar tudo... Mas eu arrumo um tempo também para isso, podem acreditar.


CAPÍTULO X – O POVO DOS PORTOS

"Os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e tempestades. "

Epicuro


Ao longe o Golfo de Lune era anil. Um espelho de águas cristalinas que refletia o céu acima em uma das mais exuberantes paisagens da Terra-média. Ele partia a cordilheira rochosa a oeste de Eriador largamente, em margens verdes que ganharam tais silhuetas nos primeiros sons da Segunda Era, depois da água ter invadido o que até então não lhe pertencia e levado consigo paisagens que nunca seriam esquecidas.

Beleriand ficara submersa, a Guerra da Ira chegara ao fim, as Montanhas Azuis haviam sido separadas ao meio, o rio perdera seu rumo e a água ocupara seu novo berço natural.

Surgiu então uma larga enseada, na qual os olhos do povo Eldar viram enfim mais esperança do que a transformação inesperada do cenário até então lhes propiciara, e de suas mãos surgiram então, a cada lado das duas margens locais, chamadas de Forlond e Harlond, o abrigo para muitos navios.

Ergueu-se então uma verdadeira cidade, com altas torres abobadadas, faróis e construções de ambos os lados da reentrância natural. Este conjunto arquitetônico primoroso viria a corresponder, mais tarde, à última visão da Terra-média para os membros do belo povo, quando o desejo de partir superasse qualquer outro.

Mithlond, eles a chamavam. Os Portos Cinzentos.

Do topo da colina próxima, a impressão dos que vinham das Torres Brancas a leste era de que a cidade portuária parecia dourada, pois o sol por vezes a acalentava com carinho, fazendo com que a imagem do local ganhasse a plenitude que os olhos cansados dos viajantes ansiavam ver no término de uma árdua jornada.

Para Elrond, infelizmente aquela visão idílica não trazia qualquer paz, por isso o lorde elfo percorria vagarosamente o caminho colina abaixo, com o coração pesado de um prisioneiro que se dirige ao lugar de execução.

Ele parou então em seu cavalo, a poucos metros do portão principal, antes do último declive da estrada na qual estava. Por mais bela que a paisagem fosse o passado ainda era mais forte do que ela e os propósitos do surgimento daquele lugar, onde outrora havia a vastidão de uma terra que fora muito amada, ainda pesava-lhe no coração.

Outros propósitos também lhe pesavam no coração. No momento, até bem mais do que aquele. E foram eles que fizeram o lorde elfo oferecer um ligeiro afago a Durion, seu fiel companheiro, e pedir-lhe que continuasse o trajeto no qual estavam.

Já estava quase nos grandes e imponentes portões da cidade, quando um elfo surgiu, observando o recém-chegado com as sobrancelhas pressionadas. Já o vira bem e provavelmente o reconhecera, o motivo do estranhamento, com certeza era outro.

"Lorde Elrond? O que houve, meu senhor?"

O curador também reconhecera o rosto de Eilafion, um elfo Teleri de cabelos acobreados e porte altivo, com quem combatera há muitos anos, por isso apeou de seu cavalo, fazendo uma breve reverência.

"Rogo que os anos não tenham criado entre nós um motivo para que tratamento tão formal seja necessário, mellon-nín." Ele disse em tom triste, a mão pousada sobre o peito.

O elfo soltou os lábios, parecia preocupado demais com a imagem que via para deixar-se levar pela pequena provocação. Era fato que conhecia o antigo vice-regente de Eriador bem o bastante para dispensar qualquer formalidade, como sempre lhe pedira o bom elfo, mas naquele instante lutar contra aquele mau hábito era a última coisa na qual o chefe da guarda local desejava destinar seu tempo. Ele aproximou-se do recém-chegado ao perceber que não parecia haver, vinda deste, qualquer intenção de fazê-lo.

"Vamos entrar." Propôs. "Mandarei avisar a Lorde Círdan que está aqui."

Elrond soltou os ombros, os olhos ainda percorrendo todo aquele conhecido cenário à procura de uma imagem que já não tinha mais a mesma esperança de ver.

"Eilafion..." Ele disse, seu tom era o de um soldado exausto, mas ainda indisposto a acreditar em uma batalha finalizada. "Por acaso passou por esses portões algum visitante nas últimas semanas?"

O guardião comprimiu os lábios, ainda extremamente incomodado com o ar abatido e angustiado do amigo. Ele deu o último passo que o separava deste.

"Estava em algum grupo que foi atacado, senhor? Está ferido?"

Elrond olhou-o enfim, um sorriso paciente em sua face.

"Meu estado só se deve a longa viagem quase sem interrupções, meu bom amigo." Ele disse, voltando a olhar insistentemente a sua volta. "Agradeceria se pudesse me oferecer a informação que lhe pedi."

Eilafion ainda hesitou em acreditar nas palavras que ouvira, mas depois suspirou.

"Ninguém cruzou os portões que não fosse morador da região nesse término de estação. O frio antecipado parece estar contendo até o comércio local, mesmo em uma região não tão fria quanto a nossa." Ele comentou e voltou a preocupar-se por ver os traços que aquela informação desenharam no rosto do lorde elfo. "O que houve, senhor? Sabe que lhe devo minha vida. Ajuda-lo-ei sejam quais forem as circunstâncias."

Elrond fechou os olhos, comovido com as devotadas palavras. Para ele aqueles tempos de guerra e tudo o que foi necessário fazer neles haviam ficado no passado, pelo menos até o momento. Saber que o amigo ainda julgava-se devedor de algo o incomodava mais naquele instante do que o fizera antes.

A mão de Eilafion tomou seu ombro então.

"Meu filho está desaparecido." Elrond se viu dizendo. A preocupação já não cabia mais dentro do peito, parecendo querer libertar-se.

"Seu filho?"

"É uma longa história. Tenho informações de que viria até aqui."

"Como ele é, senhor?"

Elrond esfregou o rosto com a mão direita, contendo como podia a sensação árdua de estar em mais um discurso improdutivo.

"Não chega à altura de meu peito. Tem cabelos como os meus."

Eilafion sentiu o queixo cair.

"É uma criança ainda?" Ele se viu soltando a indagação em um tom mais surpreso do que sabia ser o sensato, mas Elrond apenas assentiu, parecendo ter previsto tal reação. "Por Varda, meu senhor! Ele está sozinho?"

"Temo que sim... Na verdade não sei... Estive seguindo seus rastros. Soube que foi ferido, mas desde que cruzei a Floresta Velha não encontro mais qualquer pista que me aquiete o coração."

O guardião cobriu os lábios, como se quisesse impedir-se de proferir algum som de desespero. Então ele mesmo passou a olhar para os lados instintivamente, sem saber ao certo qual passo tomar. Elrond voltou a esfregar o rosto, quase não conseguindo conter sua agonia.

"Vamos entrar, Lorde Elrond." Decidiu-se rapidamente o outro, sentindo-se incapaz de indagar os motivos de tão desesperadora situação, mas já disposto a fazer algo a respeito. "Mesmo que não tenha passado por esse portão pode ter entrado de outra forma. É um menino ainda, pode ter-nos passado despercebido. Há muitas crianças élficas nos portos e..." Ele foi dizendo para si mesmo, enquanto puxava sutilmente o lorde elfo pelo braço e fazia seus planos de soldado, analisando as possibilidades e já vasculhando o mapa mental do lugar como só ele sabia fazer.

Só depois de alguns passos, Elrond, que até então acompanhava com atenção as perspectivas esperançosas do antigo soldado, apercebeu-se do que ia fazer e parou de imediato. Eilafion intrigou-se.

"Não... Não posso entrar, meu caro." Elrond admitiu, expelindo aquela verdade, mas se sentindo subitamente vazio ao admiti-la. Quando o outro torceu as sobrancelhas em incompreensão, o curador pressionou os lábios. "Eu e meu filho estamos atados a um impasse diplomático. Enquanto não resolvê-lo não... não posso entrar em qualquer reino élfico. Na verdade nem mesmo poderia estar pedindo-lhe qualquer ajuda sem comprometê-lo e..." Ele tentou continuar, mas nada mais conseguia sair por sua garganta, já amarrada novamente em preocupações muito maiores, que pareciam estar se amontoando como uma pilha pesada demais. Ele tornou a cobrir a face esquerda, dessa vez sem nem mesmo massageá-la duramente como vinha fazendo.

A mão de Eilafion tomou seu ombro novamente.

"Está entre as pessoas mais honradas que conheci, senhor." Ele disse com intensa sinceridade, e Elrond apenas baixou a cabeça. "Jamais deixaria de ajudá-lo ou servi-lo em ocasião alguma e o faria e farei não pelo que fez por mim, embora saiba que tal favor eu jamais conseguiria retribuir a altura, mas por admirá-lo profundamente."

"Sou-lhe grato por suas palavras gentis e boas intenções, mellon-nín." Elrond respondeu com grande esforço. Elbereth, estava tão angustiado que nem mesmo sabia como responder a tão devotada declaração. Ele passou a esfregar a nuca por alguns instantes e tornou a fechar brevemente os olhos. Quando sua atenção voltou-se para o amigo, parecia ainda mais abatido com as palavras que ouvira. "Rogo-lhe então, mesmo sentindo-me egoísta por arriscar assim sua posição, meu bom Eilafion, que percorra os caminhos que mencionou e traga-me qualquer notícia que consiga. Serei ainda mais grato a você do que se houvesse salvado minha própria vida..."

O chefe da guarda assentiu solenemente, comovido e ainda bastante preocupado.

"Acompanhe-me então, senhor. Pode ficar em minha casa enquanto espera por notícias."

Elrond balançou veemente a cabeça.

"Aguardarei aqui. Já infringi muitas regras, permita-me não infringir outras desnecessariamente."

"Está exausto, senhor. Aceite a minha hospitalidade, eu lhe peço. Ficarei muito honrado."

Elrond baixou novamente os olhos, balançando a cabeça.

"Não tenho palavras para agradecer-lhe, mellon-nín. Mas meu cansaço não é físico. Nem muitas noites de sono no mais confortável cômodo que seu coração bom possa me conseguir aliviariam um traço do mal estar que vê em meu rosto. Meu coração pesará menos se eu aguardar aqui." Elrond admitiu, em seguida segurou o braço do guardião. "Agradeço-lhe de antemão, caro Eilafion, e peço-lhe que se apresse."

O nobre elfo ainda hesitou, pressionando os lábios, depois assentiu.

"Pedirei que lhe tragam provisões então." Ele disse, já ao portão.

"Eilafion!" Elrond chamou-o e quando o rosto do amigo voltou-se para ele, balançou a cabeça. "Nada faça a não ser o que lhe pedi, por favor. Tudo o que preciso é a informação pela qual anseio. Informar a outros minha presença aqui só semeará mais sentimentos de preocupação que pouco terão de produtivo. Apresse-se, meu amigo."

O chefe da guarda estagnou-se por um instante, mas depois tornou a assentir em silêncio, forçando o passo pela entrada da cidade. Elrond fechou os olhos, voltando a se afastar. Ele deu alguns poucos passos, depois acabou jogando-se embaixo de um vidoeiro e fechando brevemente os olhos. Não havia mais o que fazer a não ser amargar aquela espera dolorosa. Restava-lhe tentar acreditar que uma reversão total dos fatos ainda fosse possível. Tinha que acreditar.

&&&

Quando Elrond sentiu uma mão pousar em seu joelho, seus olhos se abriram em um sobressalto. À frente dele havia um rosto conhecido, com o entardecer rosa crepuscular a coroar-lhe a silhueta. O mesmo ar morno indicava que pouco tempo havia se passado.

"Mae Govannen, Elrond Peredhel" Saudou-o o elfo de cabelos prateados e rosto escondido pela barba tênue que apenas ele possuía naquela terra. Sua imagem trouxe uma série de pensamentos à cabeça de Elrond, que se desencadearam em uma torrente de incertezas de todos os tipos, mas apenas um rompeu-lhe o silêncio de imediato, apenas um foi capaz de movê-lo de seu estado de extremo cansaço e inquietação pelo lugar no qual estava.

"Eilafion descobriu alguma informação?" A pergunta lhe veio subitamente, quase rompendo-lhe o peito antes de chegar à boca, tomando desobediente o lugar da retribuição do cumprimento recebido. Só quando o senhor dos barcos ofereceu-lhe como resposta um sorriso paciente, Elrond pareceu tomar consciência de seu rompante. "Peço-lhe desculpas, Círdan, meu sábio amigo..."

O armador manteve a mesma serenidade no rosto, não parecia de fato ofendido. Tudo o que fez foi oferecer a mão ao constrangido elfo quando ele pôs-se a se levantar. Elrond por sua vez começava a imaginar que talvez seu comentário tivesse sido mais imprudente ainda do que parecera. Teria Eilafion contado a história ao líder do lugar?"

"Não há pelo que se desculpar. Se eu estivesse em busca de um ente querido não teria metade da cortesia que você demonstra, mellon-nín." Círdan disse por fim e Elrond baixou o rosto em sinal de respeito, mesmo com o peito desesperado em busca de informações. "No entanto, tenho meu coração cheio de dúvidas, as quais preciso ver esclarecidas." Ele completou, mas o fato do amigo não retribuir o olhar tornou claro ao elfo de cabelos claros o quão difíceis tais informações na certa seriam. Ele segurou gentilmente o curador pelo braço, esticando o outro para apontar a direção que gostaria que tomassem.

"Círdan..." Elrond hesitou no mesmo instante. "Não sei se Eilafion informou-o, mas eu..."

"Esse é o berço do Lune." A seriedade tomou então o tom de voz do mestre dos barcos. "Uma terra remodelada por forças maiores do que a vontade de apenas um."

"Um reino élfico." Elrond tornou a baixar a cabeça. "Não posso entrar sem comprometê-lo. É a lei." Ele olhou o amigo nos olhos enfim e respirou fundo. "Estou desonrado, não sou mais considerado alguém em quem se possa confiar."

O mestre dos barcos não proferiu qualquer palavra e seu olhar, ainda fixo no curador, não dizia a este muita coisa. Elrond também nada mais disse, permitindo-se olhar. Círdan era da família dos Teleri, mas nunca conheceu Aman ou mesmo Tol-Eressëa, a ilha que fora lar de seus parentes por muito tempo. Ele não seguiu a nenhum deles, vivendo sempre nas costas da Terra-média. Era difícil encará-lo, pois ele era o mais antigo dos elfos da Terra-média, um dos "não nascidos", um dos elfos originais que despertaram para a vida sob as estrelas, com a música celestial.

Por esse motivo, quando os lábios do armador se desprenderam, Elrond chegou a temer o que ouviria dele.

"Venha, mellon-nín." Foram, no entanto, suas palavras. Ao ouvi-las, Elrond sentiu um leve temor, como se não soubesse se as havia compreendido, mas Círdan enfatizou-as, voltando a segurar o braço do amigo e acrescentando: "No dia que as leis daqueles que se julgam sábios o bastante para resumir tudo em uma dúzia de linhas vigorar aqui em Mithlond, talvez eu construa meu último barco."

&&&

Quando Eilafion entrou no grande salão principal, encontrou a figura do senhor dos portos em pé diante da ampla janela dianteira, as mãos cruzadas nas costas, o olhar, como sempre, navegando nas águas azuis. A casa do armador fora estrategicamente construída a fim de que ele tivesse uma visão das águas em quase todas as janelas.

"Meu senhor?"

"Eilafion." A resposta veio sem que o lorde elfo se voltasse. "Nada ainda?"

"Não senhor. Mas tenho soldados por todo o cais. Devo receber relatórios deles em breve. Tomei a liberdade de enviar outros para fora da cidade, a fim de vasculhar as redondezas."

"Bom trabalho."

"Conseguiu convencê-lo a entrar, senhor?"

Círdan baixou os olhos, assentindo brevemente, enquanto continuava a observar a rotina de seu povo.

Mithlond era uma cidade portuária completa, além das áreas de pesca, havia moinhos, depósitos, celeiros, forjas, estábulos e até pequenos comércios. Os habitantes, quando não pescadores e mergulhadores, eram peleiros, curtidores, tecelões ou outros artesãos. Alguns elfos cuidavam dos pomares, que eram muitos e bastante fartos, mesmo naquela época do ano, outros se dedicavam também à jardinagem.

Eram seu povo, a quem Círdan olhava com carinho, acompanhando-lhes as vidas diárias e simples, ouvindo-lhes os cânticos de exaltação nos momentos de pesca farta, nas entradas das estações, no entardecer de um dia favorável. Agora alguns barcos chegavam com o cair da noite e os pescadores desciam com o sorriso do dever cumprido a embelezar-lhes as faces, e caixotes com o sustento dos que lhe eram caros. A esperar-lhes algumas esposas preparavam-se para auxiliá-los no que fosse possível e crianças as rodeavam com sorrisos e brincadeiras.

Era para elas que o armador agora olhava. Aqueles seres pequeninos e mágicos que faziam parte de seu povo, lembrando-o sempre de um momento que ele jamais tivera, mas que o encantava, despertando-lhe uma curiosidade infindável. Havia muitas crianças nos portos, casais sentindo-se motivados pelos momentos de paz, atenderam ao chamado da natureza a sua volta e se permitiram conhecer o valor da palavra família.

"Há muitas crianças." A voz de Eilafion soou a seu lado, como se acompanhasse o pensamento do líder. "Mas eu as conheço todas."

"Não acredita então que o filho de Elrond esteja aqui?"

"Não sei em que acredito, meu senhor. Atrevo-me a dizer que essa história toda me parece inacreditável."

"O que o surpreende tanto nela, Eilafion?"

O guardião uniu os lábios fortemente, seus olhos ainda em um par de crianças que puxavam cada qual uma parte de uma larga corda no cais em um divertido cabo de guerra. Tinham aproximadamente a mesma estatura que o lorde elfo informou na descrição de seu filho.

"É um menino ainda..."

"Sim. É fato."

"Não imagino qualquer de nossas crianças fazendo a jornada que essa criança fez."

Círdan esboçou um sorriso.

"E você nem ouviu a metade da história dessa criança, meu caro." Ele comentou, lembrando-se do inacreditável relato que Elrond relutantemente lhe fizera, enquanto, mais relutante ainda, acompanhava o líder para dentro da cidade portuária.

"O que quer dizer, senhor?"

Círdan soltou o ar do peito.

"É filho de Elrond. Neto de Eärendil... de Celeborn... de Galadriel..." Ele apenas disse e só aquele fato já pareceu ser justificativa suficiente para toda a história que havia ouvido.

"Não duvido de suas habilidades..." Eilafion buscou justificar-se, ainda olhando para o mesmo par de crianças. "Apenas..."

"No momento tudo o que desejo é ver essa criança, por uma série de motivos."

"Eu também, senhor... Eu também..." Concordou tristemente o elfo, sentindo, no entanto, que o cair da noite não era muito encorajador.

&&&

Elrond olhava o mesmo anoitecer com o coração igualmente angustiado. Círdan lhe oferecera um cômodo o qual pouco aproveitara. Nem bem se banhara e mudara as vestes já estava em pé diante de uma janela, amaldiçoando-se por estar ali parado e não percorrendo, ele mesmo, cada canto daquele lugar. Ele suspirou, olhando a paisagem escura do porto. Alguns elfos acendiam as luminárias próximas ao cais, enquanto o movimento diminuía vagarosamente. Ao longe, famílias inteiras se afastavam. Casais abraçados, acompanhados às vezes de um elfinho saltitando naquela energia inesgotável que apenas os pequenos pareciam ter.

Que lugar abençoado era aquele! Elrond fechou os olhos, sentindo o vento sacudir-lhe os cabelos, enquanto sua mente enchia-se de imagens doces de sua própria família, de vê-los no jardim, dos castelos de terra molhada que os filhos gostavam de fazer às margens da cachoeira, de suas brincadeiras com espadas de galhos, seus saltos nos riachos, suas canções.

Ilúvatar, ele só queria sua família de volta, não importava em que lugar fosse, não importa em que circunstâncias tivessem que viver. Ele daria o braço direito para tê-los novamente a seu lado, para ouvir a voz dos filhos, para ouvi-los o chamarem de pai sem qualquer restrição, como da primeira vez que o fizeram. Elladan fora o primeiro, Elrohir em seguida e eles sorriram ao ver o ar de espanto do pai e repetiram a palavra encantada em uníssono dessa vez, apenas por prazer.

Elrond cobriu o rosto com as palmas, esfregando-o devagar, mas não conseguindo deixar de vasculhar aquelas lembranças como quem busca mais um pouco de energia em uma batalha dura demais. Ele reergueu os olhos para a paisagem a sua frente. Elbereth como havia crianças no porto. Elas estavam por toda a parte, mesmo ao anoitecer. Corriam, pulavam, empurravam caixotes, construíam casas imaginárias, fingiam pescar, cantavam... Elrond olhou cada uma delas, desenhou cada sorriso, cada traço, como se ainda tivesse a esperança de reconhecer em um daqueles rostos o semblante que tanto procurava.

Pelas esquinas algumas delas já partiam devagar, levadas com carinho por um dos pais, esfregando os olhos cansados, ou ainda cantarolando uma cantiga qualquer. Os casais só criavam um filho por vez até a fase adulta para depois pensarem em uma segunda experiência, a não ser que fossem abençoados, como ele, com filhos gêmeos. Mas não vira qualquer caso desses, o que o fez questionar-se se não havia gêmeos no porto. Todos os casais pareciam ter apenas um filho.

Naquele instante surgiu, virando a esquina, um elfo caminhando apressado, enquanto trazia duas crianças pelas mãos. Elrond deixou-se levar pela imagem por um tempo, julgando que fosse enfim uma resposta àquela dúvida. Não custou muito, no entanto, para que o lorde elfo percebesse que as crianças não tinham a mesma idade. Eram um menino e uma menina que caminhavam em um passo estranhamente urgente. O curador envergou o cenho, intrigado, e mais intrigado ainda ficou ao perceber o elfo que as conduzia trazê-las para dentro da casa na qual estava.

Sua atenção, no entanto, não conseguiu manter-se fixa naquela idéia e ele se viu voltando a olhar para o pedaço de mar que podia ver da janela do quarto, deixando-se perder pelo brilho que a lua refletia nas águas daquele golfo. Ficou em meio a outros pensamentos pouco reconfortantes em um quase absoluto silêncio, até que alguém bateu na porta de seu quarto. Sem esperar resposta, a voz de Eilafion surgiu.

"Lorde Elrond. Acho que temos notícias de seu filho!"

Elrond nem se apercebeu da rapidez com que tornou o rosto do amigo visível. Logo ambos desciam as escadas em passo apressado e ele estava diante das duas crianças vistas há pouco. Uma delas, a menina, era com certeza bem mais nova do que Elrohir, já o menino se não tivesse a mesma idade do gêmeo, com certeza seria apenas poucos anos mais velho. Ambos tinham cabelos claros e olhos muito azuis. O brilho intenso que emanava deles parecia ter algo de surpresa, mas também de apreensão. Círdan posicionava-se atrás dos dois, apoiando as mãos nos ombros deles.

"Yulion, Arehen, este é Elrond, o pai do menino que vocês conheceram." Apresentou-os o mestre dos barcos.

Elrond ainda os olhou por um minuto, depois, sentindo a urgência movê-lo mais do que a cautela, ajoelhou-se diante dos pequenos, surpreendendo-os.

"Crianças, por favor me digam o que sabem."

A pequenina arregalou ainda mais os olhos, estremecendo, mas o rapaz baixou a cabeça, endurecendo o rosto como quem não parecia disposto a colaborar. Círdan ao perceber o silêncio que se fizera, dobrou igualmente os joelhos, fazendo com que os dois elfinhos sentissem o cerco apertar-se à volta deles.

"Não vimos nada... nadinha..." A pequena foi logo dizendo, quando os olhos do armador fixaram-se nela. Havia em todo o porto um respeito extremo pela figura de Círdan, respeito este que se estendia de adultos a crianças igualmente, por isso os pequenos, por certo, sentiam estar em uma situação no mínimo delicada, por terem sido levados à presença do lorde supremo.

Nisso um outro elfo entrou rapidamente na sala. Estava em trajes de pesca ainda, parecendo ter acabado de desembarcar.

"Lorde Círdan, o que se passa, meu senhor?" Disse com um breve curvar de tronco, depois olhou para as duas crianças. "Yulion? O que aconteceu, ion-nín? O que você e sua prima andaram aprontando?"

Elrond que estava de costas, ergueu-se então, olhando o recém-chegado por um instante, depois apoiando a mão no peito, esperando ser apresentado.

"Undon, este é Elrond Peredhel, o senhor de Imladris." Círdan fez seu papel e o curador engoliu aquele título que não lhe cabia mais de forma amarga, porém olhou para o pescador com respeito.

"É um prazer conhecê-lo, Lorde Undon." Ele disse em uma leve reverência.

O recém-chegado ergueu surpreso as sobrancelhas.

"O prazer é meu, Lorde Elrond. Chame-me apenas Undon, senhor." Ele pediu, retribuindo a saudação. "Espero que minhas crianças não lhe tenham causado qualquer problema."

Elrond não respondeu, voltando apenas a olhar os dois elfinhos sem saber o que dizer. Foi Círdan quem tomou a palavra, enquanto afastava-se dos pequenos, puxando sutilmente os dois elfos pelo braço.

"Undon cria a sobrinha depois que o mar levou seu irmão." Ele disse em tom baixo ao amigo, procurando visivelmente não se fazer ouvir pelos pequenos. "A mãe de Arehen decidiu seguir o esposo no hall dos que esperam."

Elrond soltou um pequeno suspiro. Eram poucos os elfos que tinham energia o bastante para conduzirem sozinhos os filhos à maturidade. Crianças élficas precisavam da presença de ambos os pais e da forças deles para que pudessem percorrer saudáveis e de coração acalentado os anos de sua infância. Por isso mesmo os elfos só eram agraciados pelo desejo de darem continuidade a sua linhagem em épocas de paz.

"Eu lamento por isso." Ele disse, sentindo realmente o peso daquela triste história, mas também não conseguindo deixar de pensar em sua própria família, agora tão fragmentada.

"Sou-lhe grato." Undon respondeu, ainda confuso. "O que aconteceu, senhores?"

Círdan e Elrond trocaram um breve olhar e o armador se dispôs a esclarecer os fatos.

"O filho de Elrond está desaparecido e temos suspeitas de que suas crianças o tenham visto."

Undon curvou as sobrancelhas.

"Seu filho, senhor?"

"Sim." Elrond respondeu. "É um menino ainda. Da altura e talvez idade do seu. Estou em busca de qualquer notícia dele desde que saí de Imladris."

"Ilúvatar." O pescador clamou surpreso, voltando-se imediatamente para o filho. "Yulion, vocês o viram?"

As crianças não responderam, mas a pequenina apertou as mãos sobrepostas na frente do corpo, ela balançou então um dos pesinhos, parecia nervosa.

"Arehen?" Insistiu o tio.

"Ele pediu para não contarmos. Nós prometemos. Pediu não, porque ele não fala... então eu deixei ele escrever nas páginas vazias daquele livro que você me deu. Assim eu consegui entender o que ele queria e..." A elfinha foi dizendo então, mas apertou os olhos quando o tio encolheu-se diante dela. "Desculpe... Ele pediu e nós prometemos... Se alguém descobrisse, então ele não ia poder fazer o que tinha que fazer e..."

"Cala a boca, Arehen!" Irritou-se por fim o primo. "Não era para você falar nada, sua garota sonsa! Agora vamos ser castigados!"

"Não fale com sua prima assim, Yulion!" Aborreceu-se o pai, segurando o filho pelo braço.

"Ela é uma idiota." O rapaz libertou-se com um movimento brusco, afastando-se. "Eu disse pra não ajudar ele e ela ajudou, eu disse pra não falar pra ninguém e ela foi logo falando para o soldado, agora está contando tudo pra você. Ela nem sabe guardar um segredo. Eu não vou levar a culpa dessa inútil. Ela é que fez o que não devia. Castigue a ela."

"Espere um pouco..." Tentou entender o pai, antes de ser interrompido pelo discurso de defesa da menina.

"Ele tinha que levar a espada..." Arehen disse, assustada com o tom do primo. "Ele precisava devolver a espada do guerreiro porque não era dele... Precisávamos ajudar."

"Precisávamos ajudar uma ova!" Rebateu o outro. "Você é que foi uma sonsa como sempre foi."

"Não sou sonsa."

"Parem vocês dois!"

"É claro que é. É uma sonsa inútil."

"Parem!"

"Não sou não!"

"Eu disse parem!" Repetiu o pai, segurando cada um por um dos braços. "Estão me envergonhando diante de Lorde Círdan e seu convidado!"

Elrond pousou a mão na face esquerda, enquanto as crianças ainda diziam algumas afrontas uma para a outra e o pai buscava contê-las. O que lia nas entrelinhas daquela discussão não parecia nada promissor. Ele, por fim, cobriu o rosto com ambas as mãos e só o descobriu quando sentiu o braço de Círdan envolver-lhe os ombros. A informação subentendida naquele discurso também parecia clara demais ao armador.

"Venha se sentar."

"Elbereth, Círdan." Elrond disse, passando a se mover angustiadamente sem saber ao certo aonde ir. "Ele conseguiu, não foi? Conseguiu o barco e tentou ir até a ilha..."

Círdan não respondeu, ele apenas voltou seus olhos para as duas crianças que agora observavam aquele agoniado elfo, com faces pálidas, totalmente esquecidos de suas pequenas desavenças. Foi da boca da menina que a uma das piores notícias que Elrond podia ter ouvido soou.

"Uma balsa... Não foi um barco de verdade... Ele foi na nossa balsa de brincar..."

Elrond fechou os olhos, mas endureceu o corpo e só não saiu daquele lugar imediatamente porque os braços de Círdan voltaram a segurá-lo.

"Quando pequena?" O armador perguntou, enquanto continha o amigo.

"Ontem à noitinha."

"Quase madrugada." Adicionou o menino. O ar abatido daquele pai parecia tê-lo comovido. "Nós não íamos ajudá-lo. Eu só estava esperando meu pai chegar para contar a ele, mas eles se atrasaram porque o mar estava bravo, então, quando chegaram, ele já tinha partido."

"Meu bom Ulmo..." Undon clamou. "Eu vi a tal balsa no mar... Mas não havia ninguém nela... Era tarde, o mar estava agitado e uma tempestade armava-se no céu, por isso nem pensamos em recuperá-la..."

Dessa vez Elrond teve que se sentar, pois se não o fizesse cairia ali mesmo onde estava. Círdan tomou seu lado, ainda envolvendo-o pelo ombro.

"Quero todos os barcos no mar." Disse o armador. "Cobrindo toda a costa daqui até Tol Morwen."

"Mas senhor... o mar está arisco demais desde ontem. Hoje será ainda pior. Todos os pescadores voltaram porque não é prudente arriscarem-se. Não é sensato pedir-lhes que enfrentem as águas noturnas..."

"Misericórdia, Círdan." Elrond sacudiu com força a cabeça, erguendo-se em um impulso. "Não posso mais fazer o que estou fazendo." Ele disse em um tom alto e quase de desespero. "Não posso mais comprometê-los... Por favor, ceda-me um barco ou feche os olhos enquanto eu levo um, mas permita-me ir à busca de meu filho sozinho, permita-me esse último passo nessa missão que me cabia, mas temo não ter tido a competência suficiente para findá-la a contento... Permita-me ao menos completá-la, seja como for..."

"Elrond..."

"Sou filho de Eärendil..." Ele disse, os olhos já cheios de lágrimas, o peito arfante. "Se o mar, o céu ou o destino quiser me levar em um barco de forma idêntica ou diferente da do meu pai, e mesmo que não pelo mesmo nobre motivo, que assim seja... Mas, haja o que houver, se minha incompetência vier a ser castigo para alguém, que seja apenas para mim e ninguém mais... Eu... Eu preciso tentar encontrar meu filho, não importa o que tenha acontecido a ele..."

"Espere o amanhecer, senhor." Undon ainda quis aconselhar. Ele lamentava pelo que havia acontecido àquele pai, pois conhecia bem o mar e suas perdas. "Amanhã todos poderemos ajudá-lo..."

"Eu não vou ter paz... nem com o raiar do mais belo dia... nem com um mar espelhando o mais azul de todos os céus..." Ele disse e dirigiu-se atordoado até a porta. Antes de sair, no entanto, uma mão segurou a sua, quando se voltou, encontrou o olhar claro e singelo de Arehen.

"Ele estava na balsa, mas meu tio não o viu..." Revelou a pequenina, enfatizando aquela certeza com um movimento de cabeça. "Eu disse pra ele se esconder com a minha manta. Meu ada me deu uma manta cinza e ninguém me vê quando me escondo embaixo dela. Os adultos dizem que não podemos ir para o mar grande por causa dos monstros maus, então eu emprestei a minha manta para ele, porque assim os monstros do mar não iam ver ele e tentar comer ele... iam achar que a balsa estava vazia... Ele estava lá. Eu sei que estava."

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E o mar correspondera as perspectivas negativas do experiente Undon, mostrando-se mesmo mais do que indisposto naquela noite, tal qual estivera na véspera. Ele sacudia as ondas em um oscilante vai e vem, ensopando o cais dos navios, impossibilitando a função das velas.

Mesmo assim, ignorando quaisquer argumentos que a Elrond e aos demais ocorreu dizer, o próprio Círdan lançou seu brado e seu barco ao mar revolto, oferecendo ao curador e a todos os boquiabertos elfos em terra, lembranças do porquê ele fora chamado por muitos de senhor dos ventos e mestre das águas...