Sirius não levantou a cabeça quando perguntou:

— Olá! Tem uma reserva?

— Six, sou eu — Lily anunciou, rindo ao vê-lo erguer os olhos com expressão surpresa. — Vim encontrar James.

— Lily? — Os olhos finalmente subiram do decote para o rosto sorridente.

Com a ajuda de um sutiã especial e do vestido escolhido na loja pela Sra. Vance, ela parecia ter uma silhueta sinuosa.

— Acha que James vai gostar? — perguntou insegura.

Sirius tossiu.

— Eu... creio que ele vai gostar muito mais quando puder levá-la para casa. — Virou-se para entrar no salão, e Lily o seguiu.

— Esta noite é muito importante — ela comentou em voz baixa, quase cúmplice.

Sirius assentiu.

— Por fim decidiram ouvir a voz do coração?

Ela parou.

— O que quer dizer com isso?

Sirius virou-se sorrindo.

— Lily, toda a equipe do restaurante e do clube tem considerado a possibilidade de sacudi-los para fazê-los enxergar a realidade. Já estávamos duvidando de que algum dia conseguissem enxergar o que sempre esteve diante de vocês.

— E que evidência é essa?

— Amor. — Ele ficou sério. — James já chegou. Está esperando por você.

Lily olhou para a mesa que costumavam ocupar.

— Não o vejo sentado.

Sirius balançou a cabeça e fez um gesto indicando que esperava ser seguido.

— Ele decidiu experimentar algo diferente esta noite.

James havia telefonado meia hora antes dizendo ter tido um contratempo e sugerindo que fosse encontrá-lo. Sentindo o coração bater mais depressa, Lily seguia Sirius e era forçada a admitir que estava nervosa.

Continuava dizendo a si mesma que aquele homem era apenas James. Haviam jantado juntos centenas de vezes naquele mesmo lugar. Era um velho hábito. Mas era inútil. Saíra com muitos rapazes ao longo dos anos, mas não se lembrava de ter estado tão nervosa.

— Aonde vamos? — perguntou a Sirius, notando que ele atravessava o salão principal.

— Já disse que James solicitou algo especial.

— Sim, mas onde?

Sirius passou pela porta de vidro que levava ao pátio e apontou para um patamar rochoso sobre o lago.

— Ali. — E beijou-a no rosto. — Agora vá.

Lily seguiu em frente sozinha, tentando não se deixar fascinar pela cena. A mesa era iluminada por uma dezena de velas cujas chamas dançavam embaladas pelo ar morno da noite. James estava em pé na beira do patamar, olhando para a superfície escura do lago.

— James — ela chamou enquanto se aproximava.

Quando ele se virou, todo o nervosismo desapareceu.

— Lily... — O nome pronunciado por seus lábios era como uma carícia. — estava esperando por você.

Estivera esperando por ele durante toda sua vida.

— Estou aqui — disse. — Estou aqui há muito tempo.

— E eu fui tão cego que não a vi. — Depois de ajudá-la a sentar-se, James acomodou-se na outra cadeira. — Agora a vejo com clareza. — Ele serviu champanhe em duas taças de cristal e entregou uma delas a Lily. Depois ergueu a outra taça. — A nós.

Hesitante, tocou a borda da taça na dele e estudou-o enquanto ele bebia.

— Por que não está bebendo? — James estranhou.

— Porque estou ansiosa, e nós dois sabemos o que pode acontecer quando misturo álcool e nervosismo.

— Um gole não vai fazer mal algum.

Nunca fora capaz de negar um pedido de James. Por isso sorveu um gole da bebida espumante.

— Vejo que teve muito trabalho — apontou em seguida. A palavra ambiente jamais poderia descrever o que James conseguira produzir.

O céu iluminado pela lua emoldurava o cenário do banquete, e a água batendo contra a parede do rochedo servia como melodia. Por mais lindo que fosse, Lily não conseguia apreciar o conjunto, porque todo seu ser estava concentrado no homem. James.

O fato de estar ali, de ter se esforçado para criar aquela atmosfera romântica e envolvente era suficiente para enchê-la de ternura. Experimentava sentimentos aos quais não estava habituada. Sentimentos de amor que tentara negar por muito tempo.

James sorriu.

— Confesso que não tive muito trabalho. Sirius me ajudou.

— Foi muita gentileza dele. — Continuava sentada ali, incapaz de pensar em algo inteligente para dizer.

James removeu a tampa de uma baixela de prata.

— Ostras? — ofereceu.

Lily sentiu o estômago protestar.

— Creio que não, obrigada.

Ele parecia desapontado.

— Experimente uma — insistiu, escolhendo a maior concha no topo da pilha. — Esta parece ótima.

— James, sei que teve muito trabalho para organizar tudo isto, mas nunca comi ostras e não pretendo começar agora. Elas são moles, cinzentas... Sempre como alimentos verdes, amarelos e vermelhos, como mandam os manuais de nutrição, mas jamais consumo substâncias cinzentas. E moles.

— Só precisa abrir a concha e sugar o que há dentro dela — ele explicou, unindo a ação ao discurso.

— Nesse caso, por que perder tempo? Não vai ter tempo para sentir o gosto de nada.

— Por favor, experimente — ele persistiu aborrecido.

— Lamento, James, mas vou me limitar ao champanhe.

— Não está facilitando as coisas, não é?

De repente ela riu, mais por nervosismo do que por qualquer outra coisa.

— E desde quando eu facilito sua vida?

A ruga na testa deu lugar ao riso.

— Tem razão.

— Teremos apenas ostras e champanhe? — Devia comer alguma coisa, ou acabaria embriagada. Queria comer, mas se recusava a engolir aquela coisa... cinzenta.

— Não. Sirius servirá o jantar dentro de alguns minutos.

— Que bom. — Ficaram sentados num silêncio pouco confortável. Lily olhava para a água. As luzes de várias embarcações cintilavam no lago, lembrando as velas sobre a mesa. — Você teve uma idéia linda.

— Não tão linda quanto você.

— Oh. — O que poderia dizer? James jamais fizera elogios como aquele. Sonhara ouvi-lo dizer tais coisas algum dia, mas nunca acreditara na possibilidade de realizar seus sonhos.

— Lily?

A voz profunda arrancou-a da reflexão silenciosa, causando um sobressalto. Havia algo na voz dele que a deixava apreensiva.

— Sim?

— Escute, é melhor irmos direto ao ponto. — Ele falava como um homem a um passo da execução.

De repente Lily compreendeu o sentido daquela noite. James queria tornar a desilusão menos dolorosa. Podia sentir o coração despedaçado no peito, mas tentou ignorar a dor. De alguma forma, sobreviveria ao sofrimento.

— Não se preocupe com isso — disse. — Eu entendo. Você pensou melhor e compreendeu que estava enganado. Sempre soube que acabaria ouvindo a voz da razão e percebendo que jamais daríamos certo. — Não o deixaria perceber que morria aos poucos.

— Droga, Lily! Até quando vai continuar transformando nossas vidas num tormento? Sempre? — James levantou-se e contornou a mesa. Ajoelhado ao lado dela, pegou mais uma ostra da pilha. — Vamos, experimente.

— Já disse que não quero comer ostras.

Ele balançou a cabeça.

— Você vai.

— Vou o quê? — Qual era o problema com ele, afinal? Teria insistido nas férias tarde demais? James parecia confuso, desorientado... Talvez houvesse sofrido um esgotamento nervoso.

— Vai continuar transformando nossas vidas num tormento. E vai me enlouquecer também, só para ter certeza de que não se esforçou em vão. — Ele abriu a ostra e reagiu aborrecido. Depois de jogá-la no chão, escolheu outra concha.

— James? — Estava começando a ficar nervosa de verdade. — Por que fez isso?

Ele falava enquanto ia abrindo outra ostra.

— Quando nos mudamos para a casa ao lado da sua e você começou a envolver-me em suas confusões, eu pensei, Céus, que amolação.

— Eu sei. Nunca tive a intenção de colocar-me entre...

Com gentileza, ele a calou pousando a mão sobre seus lábios. O aroma de peixe a fez recuar, e Lily decidiu que não queria ser tocada novamente enquanto ele não fosse lavar as mãos.

James jogou a ostra no chão e escolheu outra.

— Mas, ao longo dos anos, você mudou.

Lily deixou escapar uma gargalhada amarga.

— Sim, deixei de chutá-lo enquanto tentava escapar da morte num trampolim para fazê-lo depilar minhas pernas.

James repetiu o gesto de desprezar a ostra e escolher outra.

— E espalhar loção hidratante em suas costas queimadas pelo sol. Quando éramos crianças, você me irritava. Mas, depois de um tempo, superei esse sentimento. Você era apenas alguém que fazia parte da minha vida, de mim.

— Obrigada... acho.

— Fique quieta. Passei o dia todo trabalhando nisso.

Ele ficou em pé e pegou outra ostra.

Que diabo estava fazendo? Por que jogava as conchas no chão?

James manteve o comportamento estranho enquanto falava.

— Como eu dizia, você deixou de me irritar e passou a fazer parte de mim. Como um grão de areia que consegue penetrar na concha da ostra. Depois de algum tempo, ela já não acusa mais a presença do corpo estranho, porque conseguiu transformá-lo em algo lindo e precioso.

— Está dizendo que sou irritante como um grão de areia?

— Não. Estou dizendo que é uma das mulheres mais lindas que jamais conheci. E a pérola que a ostra abriga por toda a vida sem notar, uma jóia que sempre esteve dentro dela.

Lily beijou-o nos lábios. O cheiro até que era suportável.

— Humm. Muito melhor do que os garotos com quem pratiquei — murmurou. — Então sou uma pérola?

James pegou a última ostra da baixela.

— Sabe que arruinou meu pedido? — Abriu a concha e exclamou: — Aha! — E entregou-a a Lily. Havia uma pérola no meio da massa acinzentada. — Quer se casar comigo?

Lily nem tocou no anel. Apenas olhou para ele fascinada.

— Acho que o fiz perder o juízo — sussurrou.

— Depois de tantos anos, já estou acostumado.

— Manipulei você, James. Usei truques baixos para seduzi-lo.

— Pode repetir essa tolice centenas de vezes, se quiser, mas não vai conseguir alterar os fatos. Eu quis estar na cama com você. Duvido que tenha desejado outra coisa com a mesma intensidade.

— Tem certeza?

— Lily... Vai pensar que me tornei um sujeito aborrecido e meloso, mas você é minha pérola. Irritante, mas linda.

— Foi nisso que trabalhou o dia todo? — Era impossível conter o riso. — Quanta honra, James!

— Não sei se merece tanto esforço. Depois de ter me atormentado com aquelas histórias sobre os rapazes com quem treinou... Seus dias de prática acabaram. — Ele pegou o anel dentro da concha. — Diga sim, Lily. — E colocou a jóia em seu dedo.

— Sim. — O pedaço de seu coração que havia sangrado durante anos de repente cicatrizava. — Oh, sim!

James beijou-a. A princípio foi um beijo terno, mas em segundos a ternura transformou-se em fogo e paixão.

— Acho que não precisa praticar mais — ele gemeu.

— Você também é um especialista. Tem certeza de que é isso mesmo que quer? — Precisava estar certa. Sabia que seu coração pertencia a James Potter, mas não o entregaria de verdade enquanto não estivesse segura do amor daquele homem.

— Lembra-se da noite em que depilei suas pernas?

— Vagamente.

— Pois bem, tive a sensação de ter arrancado também a venda que cobria meus olhos. Olhei para você e não vi mais a boa e velha Lily, minha amiga.

— O que viu?

— Uma mulher que me fez arder. Uma mulher que eu amava. Desde então, tenho tentado encontrar um jeito de lhe dizer tudo isso sem arruinar nossa amizade.

— Quer dizer que depilei minhas pernas por isso? Se houvesse usado cera depilatória há dez anos, não teríamos perdido tanto tempo? James! Se soubesse que pernas sedosas eram capazes de operar milagres, já teria depilado as minhas no ginásio.

James sentou-se na grama que cercava a mesa e, rindo, convidou-a a imitá-lo. Lily acomodou-se ao lado dele.

Ficaram ali por algum tempo, trocando beijos apaixonados, até que uma tosse persistente os interrompeu. Lily estava sentada no colo de James e foi a primeira a erguer a cabeça. Sirius estava parado ao lado da mesa, carregando uma bandeja e sorrindo com ar divertido.

— Trouxe a comida? — ela indagou.

— Comida? Chama as criações de Frank de comida? Se ele descobrir, terá de passar um mês jantando em outro lugar. — Havia um brilho debochado nos olhos de Sirius.

— Néctar dos deuses — ela anunciou com um suspiro, tentando levantar-se sem expor mais do que considerava decente. Mais tarde promoveria uma grande exposição para James.

— Vejo que chegaram a um acordo — Sirius comentou enquanto depositava sobre a mesa uma garrafa de vinho.

Lily estendeu a mão e moveu os dedos.

— Ora, ora! — Sirius segurou a mão dela e examinou o anel à luz das velas. — Isto significa o que estou pensando?

— O que acha que significa, meu caro amigo?

— Vejamos... que vocês dois finalmente enxergaram a verdade?

James estava em pé atrás dela, os braços em torno de sua cintura.

— Sei que devia ter preparado tudo com maior antecedência, mas acha que consegue convencer a diretoria do clube a organizar uma recepção para nós em... um mês?

— Um mês? — Lily gritou. — James, ninguém pode organizar um casamento em um mês. E com seu trabalho, os convidados serão muitos e importantes, o que quer dizer que teremos de pensar em algo muito especial.

— Oh, será especial, mas não para os convidados. A propósito, haverá uma pequena mudança em minha carreira.

— Mudança?

— Falaremos sobre isso mais tarde. — James olhou para Sirius. — E então, o que acha?

— Deixe-me verificar as reservas antes de responder. Volto num minuto.

— Não precisa correr, Sirius. Pode responder amanhã.

— Não, não. Prefiro cuidar disso agora mesmo.

Lily deteve o amigo.

— Six, creio que James está tentando dizer, à sua maneira polida, que queremos conversar a sós.

— É isso mesmo! Saia daqui. Quero namorar em paz. — Ele riu.

— Ei, espere um minuto. A noiva não tem direito a opinar sobre o casamento?

— Não. A única coisa que pode dizer esta noite é sim.

Ela olhou para Sirius.

— Lamento, Six, mas quero ser uma esposa obediente e submissa. Sendo assim, sou obrigada a concordar com tudo que meu marido diz.

— Quem a ouve pode até acreditar nisso—James resmungou.

— É verdade. Felizmente, não há mais ninguém aqui para obrigar-me a cumprir o que acabei de dizer.

— Vê o que vou ter de aturar, Sirius?

Rindo, Sirius os deixou sozinhos.

— Finalmente! — James exclamou aliviado.

— Algum motivo especial para desejar tanta privacidade?

— Tenho planos.

— Humm, estou gostando disso...

— Jantar, Lily. Planejo jantar com minha noiva. Precisamos conversar.

— Não gosto disso. — Sempre que James assumia aquele tom sério e firme, algo não ia bem.

Sentaram-se à mesa, e ele descobriu os pratos que Sirius deixara pouco antes. Lily sentiu o aroma tentador do fetuccine.

— Deixe-me adivinhar... O seu é camarão?

— Se o pobre Ned não houvesse errado o pedido naquela noite, hoje não estaríamos aqui.

— O nome é Ted. E você só precisava ter pedido para estar aqui.

— É o que estou fazendo agora. O que pensa de um homem que deixou de ser um sócio em potencial para a firma?

— James! O que aconteceu?

— Bem, lembra-se de quando perguntou se eu era feliz no trabalho?

— Sim.

— Eu respondi que ninguém gostava tanto assim de trabalhar, mas você me desmentiu e disse que era feliz na sua profissão. Pois bem, eu me demiti da firma. Compreendi que não era feliz lá porque estava sempre tenso, angustiado.

— James, tem certeza do que está fazendo?

— Absoluta.

— E quais são seus planos?

— Vou abrir um pequeno escritório. Só defenderei casos que despertarem meu interesse, que me façam sentir o entusiasmo que eu havia perdido. E adivinhe onde será o escritório?

— Nem imagino.

— Perto da Encore. A nova sócia da loja vai gostar de almoçar com marido todos os dias.

— Oh, ela terá um marido? Que mulher de sorte!

— Diz isso porque não conhece a sorte do homem em questão. E então? Aceita viver com um sujeito cujo rendimento mensal perdeu alguns zeros?

— Desde que esse sujeito seja feliz e me faça feliz, nada mais terá importância.

Trinta minutos mais tarde, James e Lily retornavam ao apartamento.

— Nunca mais se atreva a usar esse vestido fora de casa — ele disse enquanto a abraçava.

— Por quê? Não gostou dele? — Lily fechou os olhos e sentiu os lábios em seu pescoço.

— Adorei! Especialmente quando percebi que não usava nada além dele.

— Tinha esperanças para esta noite.

— Certo. Vamos mudar as regras. Está proibida de sair de casa sem suas roupas íntimas. De agora em diante, vai usar várias camadas de roupa como qualquer mulher normal.

— Quem disse que vai se casar com uma mulher normal? Lamento desapontá-lo, James, mas você ama uma maluca.

— Tem razão.

— James!

— Eu amo você. — E empurrou-a para o quarto, onde terminou de despi-la.

— Sabe de uma coisa, James?

— O quê?

— Também amo você.

— Pensei que nunca fosse dizer... E então, não está feliz por ter depilado as pernas?

— Estou. Isto quer dizer que vai me devolver a camiseta de futebol?

— Ela estará no nosso armário, junto com todas as nossas roupas.

— Uau! Lembre-me de comprar mais alguns tubos daquela cera depilatória!

Fim!


Oi geeente! Agradeço do fundo do coração a todos que acompanharam Esperando Por Você e também os comentários maravilhosos que recebi. Lindo, lindo esse Jay não é Lady Aredhel Anarion, acho que ninguém resistiria a ele *-* Verdade Ninha Souma, uma declaração muito romântica e que tal esse pedido de casamento um tanto inusitado? ;D Infelizmente Esperando Por Você chegou ao fim, mas espero que curtam também minhas novas fics: A Esposa do Irmão, Trapaça do Destino e Summer! Um beijão enorme no coração de vocês e até breve.