Capítulo 10 – História familiar
Antes de irem para Pemberley, os Darcys e Miss Catherine foram para Essex, visitar Lord Darcy em Cherry Laurel Manor. Antes de chegarem lá, porém, Mr. Darcy fez questão de esclarecer um pouco da história da família e explicar uma estranha mania do primo.
- Nosso primo é o Duque de Cromer e faz parte da segunda geração que se reconciliou com minha família.
- Como assim, Fitzwilliam?
- É uma longa história e eu cheguei a mencioná-la quando estava cortejando você, Elizabeth. Vou contá-la e espero que ao menos você não durma.
- Você não me engana, Mr. Darcy. Está tentando pescar um elogio a sua habilidade como contador de histórias. Pois bem, prometo solenemente não dormir durante sua história.
Pemberley, 1635
Lord Theodore Darcy, 6º Duque de Cromer, Marquês de Whittle e diversos outros títulos, casara-se com sua prima, Lady Maria Withehall, filha do Conde de Tendring,1 três anos antes, quando ele tinha vinte e dois anos e ela quatorze anos. O casamento fora arranjado pelos pais e eles não eram infelizes, pois havia um certo afeto e respeito entre eles. Porém o casamento ainda não frutificara. Sua esposa havia sofrido alguns abortos espontâneos e essa era a primeira vez que ela conseguira levar uma gravidez tão longe. Agora ela estava em trabalho de parto e o marido rezava por um herdeiro. Após quase dois dias de extremo sofrimento, suas preces foram atendidas e nasceu Bernard, um menino pequeno, porém saudável e com um impressionante par de pulmões que fazia seu choro ecoar pelas paredes de Pemberley. A duquesa, porém, não resistiu ao esforço e ao sangramento e mal teve tempo de olhar para o filho e escolher seu nome antes de fechar seus olhos para sempre.
Lord Bernard Darcy, Marquês de Whittle, crescia forte e saudável. Seu pai, com o herdeiro garantido não pensava em se casar. A política da corte, os negócios e as propriedades lhe ocupavam a maior parte do tempo e se ele desejasse companhia feminina havia ampla oferta de alta qualidade por preços razoáveis. Porém tudo mudou ao encontrar uma jovem dama vienense que acompanhava o pai em uma viagem diplomática.
Therese von Cornaro2 tinha dezessete anos e já havia visto bastante do mundo ao acompanhar o pai em suas viagens. Ela podia andar por Veneza, Florença, Roma e Paris com tanto conhecimento e desenvoltura quanto andava pelo palácio de sua família. Sua pele era um pouco mais escura que o comum entre as damas inglesas, resultado da herança mediterrânea, pois sua família tinha origem em Veneza. Seus cabelos tinham um tom de louro escuro e os olhos azuis também eram escuros, ligeiramente cinzentos. Inegavelmente bela, ela fazia um grande sucesso na cortes por onde passava, mas rechaçava todos seus pretendentes com a benção do pai que a adorava.
Lord Theodore não teve mais sorte que seus outros pretendentes, pelo menos nas primeiras tentativas. Ele finalmente conquistou sua amada quando entendeu que ela só se casaria com o homem que a tratasse como igual e não como inferior, que valorizasse sua inteligência, bom senso e conhecimento tanto ou mais que sua beleza. Convencer seu pai, o Barão Richard von Cornaro teria sido difícil se Lord Theodore fosse o encarregado da tarefa. Mas o barão não podia negar nada para sua adorada filha, embora não lhe agradasse a idéia dela casando-se com um homem que não fosse católico e essa idéia o pertubasse. Therese, há muito desencantada com a religião ao observar o comportamento da alta hierarquia da igreja, não se importava.
Lady Therese
O barão insistiu em um minucioso e generoso contrato de casamento. Se ficasse viúva sua filha teria direito a duas propriedades, Clairborne, que ela traria como parte do dote, e uma propriedade recém adquirida por Lord Theodore em Chesire, Fytton Hall. As jóias, obras de arte, dinheiro e participações em negócios no continente que ela traria também seriam dela em caso de viuvez, além de determinadas jóias escolhidas entre as heranças da família Darcy e os presentes que lhe fossem dados. Todos esses itens seriam herdados pelos filhos que ela tivesse e Lord Theodore também se comprometia a providenciar grandes heranças para todos os filhos que o casal gerasse.
Seis meses após o casamento, Therese teve uma menina, linda e saudável, chamada Beatrice, como ambas as avós. Pouco depois que ela nasceu ganhou do pai uma propriedade em Devonshire, Skylark Manor. Tão generoso presente gerou ressentimento em Bernard e em seu tio, que recentemente sucedera o pai como Conde de Tendring. Após três anos, nasceu Richard, que recebeu ainda mais presentes que sua irmã, uma propriedade na Escócia, Brimstone, outra próxima a Pemberley, além da propriedade de alguns quarteirões em Londres.
Com o casamento do pai, o jovem marquês passou a ter seu comportamento influenciado mais pelo tio do que pelo pai. E isso não foi bom para ele. O duque certamente não era perfeito, mas era um bom homem, inteligente, leal e honesto. Já o conde era um homem mesquinho, pouco confiável e indiscreto. Seguindo seu exemplo, Lorde Whittle começou a molestar as criadas de Pemberley com seus avanços, contrariando a tradição familiar de não atrapalhar o andamento da casa para a obtenção desse tipo de prazer. Ele também começou a jogar e beber e a ter grandes perdas no primeiro, muitas vezes por causa do excesso do segundo.
O Duque de Cromer faleceu quando seu filho mais novo tinha apenas três anos e seu filho mais velho dezoito. Nesse tempo, Lady Cromer acumulou uma considerável fortuna em jóias e outros bens. Felizmente para seus filhos, ela era uma mulher prática e previdente. Mesmo devastada com a doença do marido e ocupada em ser sua enfermeira, ela arranjou tempo e disposição para transferir a maior parte delas para as propriedades que ficariam em seu domínio ou no de seus filhos.
Quando o testamento foi lido, os presentes para os "von Cornaro", como o conde e seu sobrinho se referiam à segundo esposa de Lord Theodore e seus filhos, enfureceram os dois. O conde ficou especialmente melindrado por não ter sido escolhido como guardião de Lady Beatrice e Lord Richard, ou melhor dizendo, de seus bens. Mas Theodore Darcy não era um homem comum e a escolha dos guardiões de seus filhos mais novos foi uma prova de sua genialidade. Foram indicados cinco guardiões: o avô, Barão von Cornaro; Sir Jonh Claypole; Príncipe Rupert de Rhine; Henry Wilmot, 1º Conde de Rochester; Camillo Francesco Maria Pamphili, sobrinho do papa e aparentado com os von Cornaro;3 Os guardiões ingleses protegeriam o patrimônio em solo inglês independente da restauração da monarquia ou da continuidade do atual regime e os guardiões estrangeiros protegeriam os bens no exterior, adquiridos durante o tumultuado período da 1ª Guerra Civil Inglesa para assegurar a riqueza da família caso os bens ingleses fossem confiscados. Já Bernard teria apenas o tio como guardião.
Lord Tendring até tentou contestar os termos do testamento e das doações feitas em vida, mas não tinha poder para isso. E essa foi sua única atitude como guardião do sobrinho que poderia favorecer o jovem duque. Os hábitos dispendiosos do conde haviam deixado uma grande dívida que o novo Lord Cromer quitou, sem ter consciência disso. Desinteressado em assumir qualquer responsabilidade, pois isso iria certamente diminuir o tempo que ele dedicava ao seu lazer, ele continuou em Cambridge por mais dois anos, pagando altas somas para que não fosse preciso se preocupar com sua educação. Após o seu tempo na faculdade, ele foi viajar pelo continente, onde a dissipação de sua fortuna só aumentou. Suas duas propriedades na França e uma grande quantia de dinheiro foram usadas para conseguir os favores da famosa cortesã Ninon de l'Enclos. Embora ela tenha sido a mais cara de suas amantes, certamente não foi a única e uma de suas propriedades na Inglaterra teve de ser vendida para bancar sua vida dissipada no continente.
Essa primeira temporada na Europa não durou muito. A saúde do conde se deteriorara e o sobrinho favorito fora chamado. Sua volta muito alegrou o tio, especialmente pelo séqüito de demi-mondaines que o acompanhava, oito moças bonitas, mas vulgares, adquiridas nos bordéis de Paris. Lord Tendring pediu ao sobrinho que se casasse com Margareth Bourchier, filha de Sir John Bourchier,4 um importante parlamentar e seu pedido foi aceito.
O casamento foi celebrado em três meses e logo depois o conde faleceu, teoricamente sendo sucedido por seu irmão mais novo, Humprey. Porém o novo conde havia abandonado a Inglaterra há muitos anos, vivendo na Índia e não desejando voltar para a fria Inglaterra apenas para exibir seu título. Monetariamente, ele nada ganhou, pois a propriedade do irmão estava imersa em dívidas. Poucos anos depois, Lord Humprey Whitehall faleceu sem herdeiros, extinguindo o título.
A nova Duquesa era uma mulher dócil e piedosa, e tinha grande dificuldade em relacionar-se com o esposo insensível e libertino. Após perder vários bebês durante a gravidez, no parto ou nas primeiras semanas de vida, e ter tido duas meninas, Maria e Margareth, ela finalmente deu à luz ao tão desejado herdeiro em 1671, Lord Abner Darcy, Marquês de Whittle. Porém a situação financeira da família estava longe de ser brilhante e havia pouco para o menino herdar. Lord Cromer perdia fortunas em jogatina e fazia questão de cercar-se de belas mulheres, independente da origem delas. Ele mantinha pelo menos três amantes oficiais em chalés próximos a Pemberley e costumava levá-las em suas viagens, enquanto Lady Cromer era mantida em casa.
No outro ramo da família, Lady Beatrice havia se casado com um nobre prussiano e morrido três semanas após o nascimento de sua filha, que morreu poucas horas após o parto, em 1667. Lady Beatrice foi muito pranteada pelo marido, pela família e por quase todos que tiveram o privilégio de ter contato com ela. Seu marido providenciou uma linda tumba, com uma escultura muito bem feita da falecida e abaixo de seu nome e das datas de nascimento, casamento e morte mandou gravar uma frase que exprimia bem os seus sentimentos: "Deus, em sua infinita bondade, nos permitiu alguns anos em companhia de seu mais belo e gentil anjo."
Lord Richard Darcy havia sido um aluno aplicado e desde muito cedo já assumia responsabilidades referentes às suas propriedades e aos seus investimentos, incentivado pela mãe. Em 1671 ele casou-se com Lady Catherine Seymour, filha do Duque de Somerset5 e logo eles tiveram o primeiro filho, também chamado Richard, que morreu aos seis anos, de catapora. Andrew, nascido em 1673, um menino forte e saudável seria o responsável pela continuidade da família. Os Darcys ainda foram abençoados com mais um menino, Theodore, e duas filhas Catherine e Beatrice.
Aproximadamente na época do nascimento de Andrew, a situação financeira do Duque de Pemberley estava tão precária que ele teve que vender Whittle Manor. Devido ao mau relacionamento entre os irmãos Darcy, Lord Darcy não pode comprá-la diretamente, mas o fez através de um preposto. Há tempos Lady Therese e ele compravam alguns dos bens de família que o irmão usava para financiar seu estilo de vida. A prataria, louça, vários móveis e objetos de arte da mansão e da casa em Londres já estavam na possessão de Richard Darcy. Algumas das jóias da família também tiveram o mesmo destino, embora o contrato de casamento do duque fosse mais restritivo nesse campo e ele tivesse o hábito de presentear suas amantes de origem nobre com algumas dessas jóias. Talvez com algum tipo de aspiração real, ele também gostava de comemorar o nascimento de filhos bastardos com suas amantes de origem mais humilde doando pequenas propriedades para eles. Já as amantes que lhe davam filhas eram geralmente dispensadas sem nenhuma compensação.
Com dois anos de diferença entre eles, os primos Marquês de Whittle e Mr. Andrew Darcy freqüentaram Eton juntos. Porém a diferença entre a forma como eles foram criados e seus temperamentos não ajudou em nada a aproximação dos ramos da família. Enquanto Mr. Darcy era quieto, estudioso e responsável, Lord Whittle passava mais noites na semana em um bordel na cidade e pagava com generosa mesada do pai para ter boas notas sem se dar ao trabalho de aprender nada. A entrada de Lord Whittle em Cambridge custou um bom pedaço de Pemberley, novamente comprado por Lord Richard Darcy através de um intermediário.
Dada as más relações entre os irmãos é fácil imaginar a surpresa de Lord Darcy ao receber uma carta do meio irmão solicitando uma reunião em Londres. A carta foi imediatamente respondida e a reunião marcada. Lord Cromer não queria dar ao irmão a dignidade de recebê-lo em sua casa e muito menos visitar a casa do outro. O encontro foi combinado no escritório do advogado de Lord Cromer e o motivo foi oferecer "algumas traquitanas sem outro valor, a não ser o sentimental" para serem compradas por Lord Darcy. Armaduras, espadas, diários e a maior parte do conteúdo da biblioteca foram vendidos por uma pequena fortuna. O duque não se importou com a perda desses bens, considerados sem importância por ele, mas ressentiu-se ter que vendê-los ao meio irmão. Essa decisão só foi tomada pela consciência que a maioria dos itens não teria valor algum para a maioria das pessoas e apenas alguém com conexão familiar poderia desejar possuí-las. Essa venda sustentou o marquês em Cambridge, vivendo larga e dissipadamente, por dois anos.
O duque, prematuramente velho e cansado, dispensou suas amantes e recolheu-se a sua casa em Londres. Em Pemberley havia a esposa que ele desprezava e ele não queria mais viajar. De suas propriedades a única intacta era Cherry Laurel Manor, em Essex, devido aos rígidos termos em que foi deixada. Outro pedaço de Pemberley foi vendido para que o marquês pudesse viajar pela Europa. Essa foi a última parte que poderia ser vendida, pois o restante estava vinculada aos termos de Lord Edward Darcy, o segundo Duque de Cromer, avô de Lord Theodore. A propriedade agora era quase insignificante.
Quando o marquês voltou de sua temporada na Europa, ele teve duas tarefas a cumprir: quebrar o vínculo de Pemberley – não seria possível quebrar o de Cherry Laurel – e casar-se com uma rica herdeira, Emilia Butler, filha do conde de Ossory.6 O duque não viveu para ver o nascimento de seu primeiro e único neto legítimo, menos de um ano após o casamento, batizado como Lord Christian Darcy, por insistência da avó, que tinha a esperança de que nomeando o neto como cristão ele seria um homem melhor do que o pai e o avô. Abner Darcy, agora Duque de Cromer, vendeu o restante do lar ancestral de sua família e morreu dois anos depois, em um prostíbulo, após consumir uma grande quantidade de álcool e outras substâncias.
Lady Margareth e a nora uniram suas forças para criar o pequeno Christian para ser um homem honrado e reerguer seu ramo da família. Elas se reaproximaram do outro ramo da família quando mandaram uma carta cumprimentando Lord Richard e Lady Catherine pelo casamento de seu filho, Mr. Andrew Darcy com Lady Diana Manners, filha do Duque de Rutland.7 Após uma breve aproximação, Lord Darcy comprometeu-se a ajudar na educação do sobrinho-neto, dando uma anuidade para pagamento de tutores e mais tarde suportando-o em Eton e Cambridge. Para evitar que o novo duque reprisasse o comportamento dos dois últimos, a mãe e a avó inculcaram um forte senso de vergonha pelos dois antepassados e de admiração pelo tio-avô.
Todos os filhos de Lord Richard fizeram brilhantes casamentos, combinando fortuna e afeição, mas apenas Andrew e Beatrice lhe deram netos. Theodore casou-se com Miss Grace Douglas, filha de um baronete que mais tarde herdou o título de Marquês de Queensberry. Catherine casou-se com o Reverendo Lord Charles Beauclerk, filho do Duque de St Albans, e Beatrice casou-se com Thomas Thorne, Barão Thorne, e tiveram um filho, Richard, e duas meninas Catherine e Beatrice. Andrew e Diana tiveram mais três filhas, Diana, Grace e Emilia e dois filhos, Theodore e John.
Apesar da diferença de cinco anos, o duque e o jovem Mr. Theodore Darcy foram muito próximos na infância e a amizade segui por toda a vida. Lord Richard e seus filhos tratavam o rapaz com mais afeto do que os verdadeiros pai e avô seriam capazes. Mr. Theodore Darcy casou-se com Lady Leonor Bertie, filha do Conde de Abingdon8 e eles tiveram apenas um filho, James.
O duque fez um bom casamento sob o ponto de vista financeiro, que seria o início da restauração da prosperidade para esse ramo da família. Isabella Hawthorn era bonita e rica, mas filha de um comerciante. Seu dote era de vinte mil libras e ela poderia esperar ganhar mais quando o pai falecesse. No primeiro ano de casamento ela deu a luz a uma filha, Gabrielle e dois anos depois faleceu, sem dar um herdeiro ao duque.
Christian Darcy tinha que se casar novamente e dessa vez escolheu a única filha de um cavalheiro de Berkshire, Miss Henrietta Laud, que trouxe um dote tão grande quanto sua antecessora, além de Silver Birch Lodge. Logo o casal teve seu primeiro filho, Thomas, nascido no mesmo ano que seu primo James. Alguns anos depois nasceu Christian, que entrou para a Marinha, chegando a ser Almirante e nunca se casou.
Os dois cresceram muito próximos, mais como irmãos do que como os primos distantes que eram, sempre seguidos pelo pequeno Christian, cinco anos mais novo e que idolatrava os dois. Já as meninas não eram tão próximas, pois Lady Gabrielle havia ido morar com um tio e não era tão próxima à família do pai.
Lady Gabrielle fez um bom casamento, com um cavalheiro proprietário de terras, Mr. Robert Todhunter9 e eles tiveram uma única filha e herdeira, chamada de Gabrielle, como a mãe.
Thomas e James casaram-se em uma cerimônia dupla, o duque com a filha de um cavalheiro, Miss Elizabeth Bywood, e o cavalheiro com a filha de um duque, Lady Rosalind Lennox, filha do segundo Duque de Richmond.10
Miss Toadhunter casou-se com Mr. Joseph Ferrars, um cavalheiro com uma propriedade razoável e teve três filhos, Edward, Robert e Fanny.11
Thomas e James também tiveram filhos no mesmo ano. O jovem Lord Christian e Mr. George também cresceram muito próximos, embora o marquês não tenha chegado a idade adulta, falecendo aos 20 anos, após uma queda do arisco cavalo que estava tentando domar. Lady Cromer faleceu pouco depois e o duque não quis casar-se novamente, deixando com o jovem Mr. Darcy a responsabilidade da sucessão do ducado.
- Isso significa o que eu estou pensando?
- Não sei o que você está pensando, Elizabeth.
- Você será o herdeiro de seu tio? Você será o futuro Duque de Cromer?
- Sim, mas isso ainda deve demorar. Lord Cromer é muito saudável.
- Ele tem oitenta anos! Fitzwilliam, você deveria ter me contado isso antes! Eu não estou preparada para me tornar uma duquesa, eu mal dou conta de ser Mrs. Darcy de Pemberley, Whittle, etc...
- Elizabeth...
- Eu sou só uma Bennet de Longbourn. Eu sou baixa demais, impertinente demais, comum demais para ser... ducal.
- Você é a mulher mais linda, inteligente, fantástica e impertinente que eu conheço. Você é extraordinária e não comum.
- Mas...
- Se eu tivesse falado sobre isso com você, sua resposta a minha proposta de casamento seria diferente?
- Eu não sei... Acho que não estou à altura de ser uma duquesa. Eu não sou capaz de ser uma grande dama.
- Quantas duquesas você conheceu até agora?
- Só Lady Greenville.
- E quantas grandes damas?
- Algumas, suas tias, Eleanor Wright...
- E no que você acha que é inferior a elas?
- Eu certamente não sou tão elegante, nem tão talentosa. Eu toco piano mal, estou lutando para aprender a tocar harpa, canto toleravelmente e não sei desenhar nem pintar direito. Eu não tenho a postura de uma grande dama.
- Sabe o que eu vejo quando olho para minha esposa? Beleza e elegância sem arrogância, bom gosto natural, um grande talento musical a ser dilapidado, um coração terno e generoso, uma mente rápida e afiada. Você, meu amor, já era uma grande dama quando eu a conheci. Mas agora eu posso prover os meios para estender sua boa influência no mundo. Mrs. Darcy certamente já é um modelo de conduta nos lugares onde é conhecida e também o será nos lugares em que se tornará conhecida.
- Fitzwilliam, eu acho que eu não consigo...
- Elizabeth, você pode fazer qualquer coisa que você quiser. E eu estarei ao seu lado o tempo todo, me esforçando para fazê-la feliz.
- Nós teremos que passar mais tempo em Londres do que gostaríamos, pois você vai ter que participar da Câmara dos Lordes. – Elizabeth estava um pouco mais calma após a promessa do marido.
- Eu sei. Outra vantagem de ter comprado Pulvis, que é perto da cidade. Poderemos passar alguns dias lá durante a temporada.
- Porque nada disso foi mencionado no nosso contrato de casamento?
- Foi sim, nas cláusulas sobre futuras heranças.
- Não explicitamente.
- Eu sou só o herdeiro presuntivo. Lord Cromer e Kitty podem apaixonar-se perdidamente à primeira vista e ter um filho, que será o herdeiro do título.
- Fitzwilliam, como você é bobo! – riu-se a moça.
- É uma possibilidade, ora. E fez você rir. Eu amo o som da sua risada.
- Nós já não tivemos algumas conversas sobre bajulação, Mr. Darcy? – provocou Lizzy.
- Sim. E eu disse que dizer a verdade não é bajular.
- Minha risada é o seu som favorito então?
- Não foi isso que eu disse.
- Então você não gosta tanto assim da minha risada.
- Como eu já disse, eu amo a sua risada. Mas não é meu favorito.
- E qual é seu som favorito? Georgiana tocando harpa?
- Não, embora eu também goste muito desse. Eu não vou te dizer agora o meu som favorito.
- Por que não?
- Quando você fizer o som que é o meu favorito eu vou dizer.
- Então é um som que eu faço? Talvez seja esse: Eu te amo, Fitzwilliam Darcy. – a última frase foi sussurada no ouvido, provocando arrepios no cavalheiro.
- Deus meu, como eu adoro ouvir isso. – disse começando a beijá-la apaixonadamente. – Mas não é esse também. Mais tarde eu vou mostrar para você.
- Me mostre agora.
- Nós estamos chegando à nossa próxima parada. Hoje à noite, em nosso quarto eu vou mostrar para você.
- Mal posso esperar. Provavelmente eu vou ficar pensando nisso o caminho todo. – fingiu-se de emburrada, cruzando os braços e fazendo biquinho.
- Isso é um problema sério e como foi causado por mim, terei que fazer algo para distraí-la durante a viagem. Que tal se eu ler para você em voz alta?
- Pode ser. Mas talvez possa pensar em uma maneira melhor de passar o tempo.
- Depois de nossa parada veremos. – eles já haviam chegado à pousada onde almoçariam e trocariam os cavalos. Eles reservaram uma sala privativa e encomendaram a refeição enquanto a outra carruagem, com Miss Darcy, Miss Bennet e suas acompanhantes estava alcançando-os.
- Kitty, o que você tem achado da viagem até agora?
- Estou adorando, Lizzy. Nós nos revezamos lendo, apreciando a paisagem, conversando e dormindo um pouco. Viajar com Georgiana é ótimo e estou ansiosa para chegar. E você?
- Minha viagem tem sido muito instrutiva. Fitzwilliam estava me contando sobre a história da família dele. Papa me deu alguns baús com documentos sobre a história da nossa família. Ainda não tive tempo de vê-los. Talvez nós duas possamos fazer isso juntas, o que acha?
- Excelente idéia, Lizzy. Não sei nada da nossa família além de que nosso avô casou duas vezes e Papa é o único filho da segunda esposa. E dos Gardiners, só sei que nosso avô ocupava o lugar que agora é do tio Phillips.
- Meu conhecimento sobre o assunto não é muito maior que o seu. Vamos aprender juntas. E talvez Georgiana possa compartilhar com você parte da história dos Darcys no caminho.
- Eu comecei com o sexto duque, que é o mais recente antepassado em comum nosso e do atual duque.
- Você gostaria de ouvir a história, Kitty?
- Gostaria sim. Quantas gerações há de distância entre vocês?
- O atual duque é o décimo, e nós falaremos sobre quase duzentos anos.
- Nossa! Acho que Longbourn nem existia na época.
- Não só existia, Kitty, como já era propriedade dos Bennets. Pelo menos essa parte da história eu sei, mas iremos saber mais quando explorarmos os documentos.
O duque os recebeu com cordialidade e bom humor. Era fácil notar o afeto pelo sobrinho e ele preocupou-se ligeiramente com a aparência do jovem casal Darcy, pois ambos estavam corados e com a respiração rápida, como se tivessem viajado a pé e não na grande e confortável carruagem. Felizmente o duque não fez menção à sua preocupação, pois isso iria fazer com que o casal corasse ainda mais. Mr. Darcy cumpriu com o prometido e começou a ler poesia na carruagem. O poeta escolhido, ele anunciou havia sido um clérigo do século XVII, Robert Herrick. Mrs. Darcy não o conhecia e não entendeu quando o marido riu de seu comentário de que Mary deveria conhecer sua obra. A risada não foi explicada, mas quando ele começou a ler os poemas, hedonistas e eróticos, começando com o poema sobre Julia desamarrando seu corpete, o motivo fixou claro.11
Lord Cromer gostava dos benefícios que a idade lhe proporcionava. Sua posição social e riqueza sempre lhe proporcionaram mais liberdade que o comum em relação às regras da sociedade, mas as vantagens da idade eram inigualáveis. A sinceridade que seria considerada rudeza, as manias que seriam consideradas estranhas e mal-vistas, transformavam-se em excentricidades da velhice. Quando Lady Catherine o procurou, buscando ajuda para convencer Darcy a trocar de noiva, Lord Cromer explicou detalhadamente a inadequação de Miss de Bourgh para ser a esposa de alguém, especialmente se esse alguém viesse a ser um duque, como tê-la como sogra era um castigo que ele não infligiria a seu pior inimigo e como os Fitzwillians de Selby eram tão inferiores aos Darcy que a diferença entre eles e os Bennets tornava-se insignificante. Afinal o título de conde só estava na família há três gerações e o de visconde há cinco, assim como o de barão. Embora os dois primeiros tenham sido obtidos em reconhecimento a nobres ações em prol da Coroa Inglesa – ajudando a princesa Henrietta a fugir para França durante a Guerra Civil e mais tarde por ações nessa mesma guerra–, o título mais recente e mais importante fora dado por motivos menos nobres, nunca comentados e a família havia estado no comércio há menos de duzentos anos.
A nova Mrs. Darcy, bonita, inteligente, charmosa, doce, vivaz e simpática, rapidamente conquistou o afeto e respeito do velho duque. O fato dela ter o mesmo nome e temperamento semelhante ao da falecida duquesa, que fora adorada pelo esposo, certamente ajudou. Embora não tenha se apaixonado perdidamente e proposto casamento para Miss Catherine Bennet, em pouco tempo a jovem conquistou o lugar de uma neta no coração do duque.
As duas semanas passadas em Cherry Laurel foram animadas, divertidas e interessantes, o que fez com que os Darcys prometessem voltar no verão seguinte, após passarem a temporada em Londres, com boa vontade e expectativa de prazer.
Enquanto os Darcys e Kitty viajavam para o leste, um grande comboio saiu de Hertfordshire rumo ao norte. Os recém-casados Bingleys foram para a lua de mel e boa parte do restante da família Bingley voltou para suas casas pelo mesmo caminho. Apenas Caroline e os Hursts não os acompanharam, pois viajaram para Bath.
Os recém-casados tinham privacidade na carruagem, mas a cada parada a família se reunia e geralmente se separavam entre mulheres e homens. Em uma dessas paradas, Lady Macmilliam a separou do grupo para conversarem em particular.
- Jane querida, você sabe que meu pai se casou de novo recentemente?
- Sim, Charles me falou sobre isso.
- Eu gosto muito de Cassie, mas acho provável que ela não goste muito de você no começo.
- Farei o possível para não ofendê-la quando nos conhecermos, mas por que você acha isso? Ela também esperava que Charles se casasse com alguém mais rica e mais importante?
- Não, não é nada disso. Não sei o que Charles lhe contou, mas Cassie é de origem humilde, filha de pessoas em cuja casa você não visitaria. Ela é muito bonita e foi isso que possibilitou que ela se casasse tão acima de seu nível social. Temo que ela se sentirá ameaçada por você.
- Desculpe-me, Lady Macmilliam, mas não compreendo.
- Por favor, me chame de Sarah, agora nós somos primas. Cassie sentirá que seu lugar na família será ameaçado por você. Ambas são Mrs. Bingley, mas você é mais bonita, mais rica e socialmente mais importe do que ela. E você já era tudo isso antes mesmo de sua irmã se casar com Mr. Darcy. Para Cassie, ter cem libras de dote era um sonho.
- Farei o possível para convencê-la de que desejo que possamos ser amigas.
- Charles tem razão quando a chama de anjo! Na verdade eu a alertei para que você não dê muita importância se ela for mal-educada. Serena, Sean e eu ficaremos em Scarbourough para facilitar as coisas para você.
- Isso é muito gentil, mas não creio que seja necessário. Vocês devem ter outras obrigações...
- Que nada! Assim visitaremos meu pai e um ou outro parente que não vemos há tempos.
- Eu certamente ficarei feliz em ter a companhia de vocês.
- Que bom! Mas em breve você se cansará de nós, pois iremos para Londres em fevereiro e ficaremos durante toda a temporada. Creio que seus planos são semelhantes.
- Serão sim. Lizzy também irá passar a temporada em Londres.
- Seremos um grupo grande e alegre e Londres nunca mais será a mesma! – brincou.
Como previsto, Cassandra Bingley não gostou de Jane Bingley. Cassandra era realmente bonita, ruiva, olhos verdes, altura mediana e curvas generosas. Ela estava muito orgulhosa de sua ascensão social e se esforçava para ficar à altura de seu novo papel, tendo aulas de música, línguas e boas maneiras.
- Por favor, me diga, Mrs. Bingley, qual instrumento a senhora toca?
- Nenhum, em minha família...
- Uma dama da sua estação social não toca nenhum instrumento! Chocante! Mas talvez a senhora tenha se dedicado às artes.
- Não, eu não desenho e nem ao menos entendo de pintura.
- Meu Deus! Como a filha de um cavalheiro não tem nenhuma prenda?
- Bem, eu bordo...
- Ora! Bordar e costurar não são atividades exclusivas de damas da sociedade. Por que você não aprendeu...
- Cassie, o que certamente não é uma atividade digna de uma dama da sociedade é interrogar sem piedade uma nova conhecida.
- Sarah querida, nós estamos em família, as regras são mais flexíveis. Estou curiosa sobre a estranha maneira que Mrs. Charles Bingley foi criada.
- Há mais sobre ser uma dama do que aulas podem ensinar.
- Serena querida, você, sua irmã e suas primas não tiveram governantas e foram a escolas para aprenderem a ser damas? Certamente ao menos parte do que é ser uma dama pode ser aprendido em aulas. Se a filha de um cavalheiro foi criada sem a educação própria de sua classe...
- Ainda assim ela é a filha de um cavalheiro e superior socialmente a nós duas.
Isso silenciou Cassandra por algum tempo, mas os ataques continuaram durante toda a duração da visita.
Uma velha vizinha da família, Mrs. Smith, explicou parte da dinâmica familiar dos Bingleys para Jane.
O bisavô do atual Mr. Bingley, Charles, havia sido um cavalheiro e casara-se com a filha de um cavalheiro, Lucy Sidney. Porém ambos eram pobres. O filho mais velho, também chamado Charles, herdara a pequena propriedade do pai, o segundo, Benjamim, tornara-se pároco, o terceiro, chamado John, soldado e o quarto, Jerome, resolveu ser comerciante, para reverter a precária situação financeira da família. Competente, determinado e com grande talento para os negócios, ele conseguiu se tornar próspero em pouco mais de uma década. Porém nesse tempo a propriedade da família tinha sido vendida para arcar com as despesas da longa doença da mãe e do irmão que voltara inválido da guerra, entre outros problemas. Ele foi o único dos irmãos a ter filhos e estava decidido a não só reconquistar o status da família, como ascender além da posição de seu pai e a conquistar grande riqueza.
No mais velho, Charles, essas esperanças foram concentradas. Seria dele a responsabilidade de adquirir uma propriedade, após conseguir uma boa fortuna no comércio. A filha mais velha, Matilda, se casou com um comerciante muito bem de vida, James Reeth, e recebeu cinco mil libras de dote. A segunda filha, Prudence, contrariou seu nome e casou-se por amor com um pobre soldado, Edmund Charville, não tendo recebido nada como dote do pai. Sem filhos, o casal conseguiu economizar e comprar uma pequena casa em Whitby. A mais nova, Bárbara, casou-se com um cavalheiro, Nicholas Westfall, dono de uma propriedade que rendia três mil ao ano, tendo recebido do pai um dote de quinze mil libras. Eles também não tiveram filhos e com a morte do marido ela recebera uma casa em Scarbourough e uma anuidade de mil libras, além dos rendimentos de seu dote. O outro filho, Archibald, tinha o dever de apoiar o irmão e tornara-se advogado em Pickering, dedicando-se prioritariamente aos negócios do irmão. A relação entre os irmãos era de uma espécie de vassalagem em relação ao irmão mais velho, não como a de um senhor de terras e seus servos, mas a de um rei e seus nobres.12
A nova Mrs. Bingley fora plenamente aprovada por ser bonita, gentil e principalmente, ser filha de um cavalheiro. Assim como Miss Bingley e Mrs. Hurst, alguns membros da família desejavam Miss Darcy ou uma moça com título, mas o respeito que tinham pelo rapaz os fez aceitar a nova esposa com entusiasmo.
Embora não admitisse para ninguém, Jane via a aproximação da partida para Pemberley com alívio, em parte pela rudeza de Cassandra Bingley, em parte pela excessiva atenção dos outros, mas principalmente por saudades da família.
1 e 2 – personagens inventados;
3 – personagens históricos. John Claypole, foi genro de Oliver Cromwell; Príncipe Rupert era primo do Rei Charle um dos poucos personagens históricos que combinam ao menos em parte com a noção romântica e fantasiosa de príncipe que temos, pois era bonito, corajoso e inteligente; Henry Wilmont foi um nobre leal à monarquia; Camillo Pamphilii largou a batina para casar-se e o palácio Doria-Pamphilii é um museu fantástico de Roma.
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wiki/Henry_Wilmot,_1st_Earl_of_Rochester
wiki/Camillo_Francesco_Maria_Pamphili
4 – Sir John Bourchier foi um dos parlamentares que assinou a sentença de execução do Rei Charles I. Não encontrei informações sobre filhos, por isso aproveitei e inventei Margaret .
wiki/John_Bourchier_(regicide)
5 – Os Seymours tinham origem real, sendo descendentes de Mary Tudor. Eles tiveram três filhas, a mais velha tendo inclusive casado com um Conyers Darcy, conde de Holderness. O nome Conyers, repetido em três gerações, vem do sobrenome materno. Será que foi dessa família que Jane Austen tirou a inspiração para Fitzwilliam Darcy? Catherine Seymour eu inventei.
wiki/William_Seymour,_2nd_Duke_of_Somerset
6 – Thomas Butler, 6º Conde de Ossory, teve três filhos, James, Charles e Elizabeth. Inventei mais uma menina, Emilia.
wiki/Thomas_Butler,_6th_Earl_of_Ossory
7 – Adorei esse sobrenome. John Manners teve três filhos, John, Catherine e Dorothy. Inventei Diana.
wiki/John_Manners,_1st_Duke_of_Rutland
8 – James Bertie teve 3 filhos e duas filhas do primeiro casamento. Resolvi lhe dar mais uma filha de seu segundo casamento.
wiki/James_Bertie,_1st_Earl_of_Abingdon
9 – Inventado por mim
10 – Realeza novamente, dessa vez através de descendência bastarda. O Duque de Richmond, era neto do Rei Charles II e uma de suas amantes, Louise de Kérouaille. Ele teve doze filhos e acrescentei mais uma menina.
wiki/Charles_Lennox,_2nd_Duke_of_Richmond
11 – Imaginando o tipo de livros que os personagens teriam lido e gostado, encontrei Robert Herrick (1591-1674). Ele não era muito famoso em vida, mas foi redescoberto no começo do século XIX. Apesar dos poemas exaltando Julia, ele nunca casou-se e nenhuma mulher real parece ter sido sua musa.
robert-herrick/
12 – Personagens inventadas por mim, cidades verdadeiras.
