Capítulo 10: O início

Perdi a noção de quantos minutos permaneci ali, parado em frente ao prédio de Ikki, pensando se deveria ou não entrar. Eu tinha a desculpa perfeita para estar ali, duas até. Mas, ainda assim, a ideia de bater em seu apartamento de surpresa me amedrontava, mesmo eu não conseguindo compreender completamente a razão disso. Certo, eu me sinto atraído por ele, não posso negar. Seria impossível não me sentir atraído por alguém tão interessante. Mas isso não significa que seria um risco ficar a sós novamente com meu amigo hétero, não é mesmo?

Havia apenas uma pessoa esperando o elevador. Uma loira muito bonita, por sinal. Cumprimentei-a com um sorriso e murmurei um boa tarde, embora já fossem quase sete horas da noite. Quando entramos no elevador, estranhei o fato de estarmos indo para o mesmo andar, e mais ainda quando caminhamos para o mesmo lado no corredor. Quase perguntei, "Está me seguindo?", mas ela o fez primeiro:

Você está me seguindo?– ela perguntou, olhando-me como se eu fosse uma espécie de tarado.

Não, moça. Estou apenas indo visitar um amigo.– respondi, quando já estávamos em frente ao apartamento de Ikki. Foi então que percebi a besteira que fiz, ao aparecer sem telefonar antes. Ikki deveria ter planos com a moça e, pelo modo como ela estava vestida, planos nada castos. Senti um nó na garganta, quando me dei conta de que estava sobrando ali. Pensei em me virar e ir embora, mas a loira já tinha tocado a campainha, e Ikki imediatamente abriu a porta, dando de cara comigo.

Aquele domingo tinha sido estranho. Acordei tarde, o que na verdade, não é tão estranho assim... Mas o motivo que me levou a despertar ainda mais tarde que o habitual foi o simples desejo de não querer abrir os olhos, de não ter que encarar o dia que se seguiria aos acontecimentos da véspera. Contudo, há coisas que não se pode evitar. Tão logo abri os olhos, fiquei com eles presos ao teto do meu quarto pensando. O que tinha acontecido? Eu tinha rejeitado a Nina noite passada. Tudo bem até aí. Eu realmente não gosto de misturar trabalho e prazer, porque isso sempre me dá dor de cabeça depois. O melhor sempre era me relacionar com garotas que eu veria apenas uma vez na vida. Com colegas de trabalho é sempre mais difícil. Mas... e depois? Durante o banho, eu havia... eu realmente tinha... ?

Levantei-me de supetão da cama, nervoso. Depois daquela ducha, depois de ter me... aliviado... não pensei. Lembro-me de ter terminado o banho, escovado os dentes e ido pra cama, decidido a apagar. E consegui, tendo que em vista que estava realmente cansado. Porém, ao despertar hoje, a lembrança do fato se fez presente e encarei o que tinha acontecido. Certo, eu estava atraído por Hyoga. Eu era hétero, mas estava me sentindo atraído por um homem que, por sinal, estava me fazendo perder a razão. E, o pior de tudo... ele era comprometido. Tudo bem que ele é comprometido com um caolho idiota e impotente, que o oferece para qualquer um, mas ainda assim... Hyoga tem namorado e devo respeitar isso. Então, resolvi concluir esses pensamentos bem ao meu modo. Houve uma atração que eu não podia explicar, mas nem precisava, já que nada mais iria acontecer porque simplesmente era errado, não podia, Hyoga tinha um namorado e eu não devia me intrometer. Simples assim.

O restante do dia, passei terminando de arrumar a capa da revista para o meu chefe... Enviei por e-mail , fiz uma refeição frugal e fui descansar um pouco. Liguei a televisão para ver o que estava passando de bom, mas ao me jogar no sofá, senti algo me espetando. Fui verificar o que era e vi que, no vão entre o braço do sofá e o assento, estavam chaves de carro. As chaves de Hyoga. Retirei-as dali e as memórias do dia anterior voltaram mais forte. Para fugir disso, achei melhor me ocupar e, portanto, deixei as chaves na estante e fui para o meu quarto escuro, a fim de revelar algumas fotos que estavam pendentes. Em meio a esse trabalho, recordei das fotos tiradas no parque... A essa altura, estava cada vez mais difícil controlar meus pensamentos que, rebeldes, insistiam em voltar para aquele russo loiro. Ok, não posso negar que a tal proposta feita por Isaac tenha rondado minha cabeça por várias vezes ao longo do dia. Mas era hora de dar um fim a isso.

Eu vi bem como o russo ficou quando o idiota caolho fez a proposta. Não valeria a pena machucar o Hyoga por conta de uma atração que, na realidade, devia ser apenas curiosidade.

Acreditando que tinha colocado um ponto final nessa história, revelei todas as fotos, sem dar maior importância a nenhuma delas e depois fui mexer no meu notebook. Comecei a fazer algumas pesquisas em sites de compras porque precisava de uma nova câmera fotográfica. E estava online no meu MSN, teoricamente porque esperava por Shun, já que esse era o nosso acordo. Sei que, no fundo, esperava também que outra pessoa aparecesse... mas não me recriminava. Em minha cabeça, eu apenas esperava que Hyoga ficasse online para que eu pudesse dizer que tinha encontrado as chaves dele.

Entretanto, quando menos espero, ouço a campainha tocar. E, quando abro a porta e me deparo com Hyoga parado em frente a mim, como se fosse a materialização dos meus pensamentos e desejos... não consigo reagir.

No entanto, ao seu lado, uma visão nada agradável me chama a atenção. Nina Green. O que ela estava fazendo ali?

Olá, Ikki. – ela quebra o silêncio que, só então, eu reparei que havia entre nós três. – Não vai nos convidar para entrar? – ela usa aquele tom açucarado que me dá náuseas e aponta com a cabeça para Hyoga. Por acaso, eles se conhecem?

Claro. Desculpem. Podem entrar. – respondo mecanicamente, abrindo passagem para os dois. Ainda tentando me situar naquela estranha e inesperada situação.

Desculpe-me Ikki, eu não vou entrar. Só queria saber se você encontrou minha chave. Eu preciso dela. Se estiver com ela aí, pode me entregar, por favor?– percebo que fui seco demais, e trato logo de consertar:– Não quero atrapalhar você. Estou vendo que está ocupado, ou vai ficar, não sei... – atrapalho-me com as palavras, e vejo que estou falando muito rápido. Sem graça, coço a cabeça e tento sorrir, em vão. – Eu deveria ter ligado antes, desculpe.

Hyoga parece querer se livrar da minha companhia e isso mexe comigo de uma forma que eu não compreendo. Não consigo responder e tento não pensar. Simplesmente me dirijo até a estante da sala, onde havia deixado a chave dele. Tenho a impressão de que ando bem mais devagar que o necessário, como se quisesse reter o russo ali comigo por mais tempo. E, quando enfim regresso até onde ele está, ergo a mão com a chave para Hyoga e então uma frase desponta de meus lábios subitamente, surpreendendo a mim mesmo: – Eu revelei as fotos.– soltei de uma vez, talvez demonstrando alguma ansiedade. – As fotos de sábado. No parque de diversões. Que eu fiquei de te dar, lembra? – sinto-me um idiota, mas não consigo parar de falar. – Não quer entrar um pouco? É só o tempo de eu ir lá pegar. – finalmente me calo, olhando ansioso para ele. E ignorando Nina completamente, que apenas me observa com aqueles olhos verdes, que percebo cheios de curiosidade.

Sorri feito bobo ao me lembrar de sábado. Mesmo sem jeito, resolvi entrar. Confesso que o nó em minha garganta se desfez, quando pensei que estaria atrapalhando a noite dele com aquela loira rebolativa. A moça, apesar de bonita, não combinava com o Ikki. Certo, eu pegaria as fotos e me mandaria dali, antes que realmente estragasse a noite de Ikki. – Está bem, frango, estou louco pra ver as fotos!– respondi, empolgado, enquanto entrava no apartamento.

Sorri em retorno, como tinha parecido se tornar um hábito para mim. Ele sorria, eu retribuía. Era impossível não sorrir para aquele russo. Espero ele entrar e então fecho a porta, como se assim eu pudesse me assegurar de que ele não fugiria.

Ridículo, eu sei.

Vou para o meu quarto escuro, onde faço a revelação das fotos e pego as duas que são do interesse dele. Ambas estavam penduradas em um varal, secando. Retiro-as dali, cuidadosamente, e passo a contemplá-las. A que ele tirou de mim, na saída do parque, antes de irmos embora...

... e a que eu tirei dele. Na roda-gigante. No momento em que eu quase...

Balanço a cabeça negativamente, lembrando-me de que esses pensamentos fora de controle não são bem-vindos.

Regresso rápido à sala, a ponto de ouvir uma pergunta de Nina para o russo:

Desculpe a indiscrição, mas... você é o tal amigo com quem o Ikki almoçou no sábado? – ela questiona, olhando fixo para Hyoga e andando próxima à estante da TV, deslizando os dedos pelas prateleiras, como um animal reconhecendo o território.

Quer dizer que Ikki dava satisfações a ela? Mas ele estava sozinho, pelo menos foi o que disse. Coloco um sorriso falso nos lábios e me aproximo da moça, estendendo-lhe a mão. – Sim, sou eu mesmo. Somos amigos de infância. Desculpe, não me apresentei. Meu nome é Hyoga.

Hyoga? Prazer. Nina Green. Que coisa, eu nunca tinha ouvido falar de você antes...

Percebo o tom de voz provocativo de Nina e me exalto um pouco: – Nunca ouviu e nem deveria ter ouvido. O que você está fazendo aqui, Nina? – pergunto demonstrando em minha voz o quanto não estava satisfeito com a visita dela.

Ah, Ikki... – ela se aproxima de mim, com um sorriso malicioso em seus lábios muito pintados de vermelho. – Eu vim trazer o pedido de algumas fotos que o senhor Kimura queria encomendar para você...

Ele sempre me faz os pedidos por e-mail. – desvio dela e caminho na direção da Hyoga, com as fotos na mão.

Sim, mas dessa vez eu disse que poderia trazer pessoalmente. Hoje foi uma bagunça na revista, muita gente fazendo hora-extra, uma correria danada... Aí, eu disse ao chefe que tinha de resolver algumas questões por aqui, antes de ir para casa... e ele ficou super feliz quando eu falei que não custava passar no seu apartamento. E você conhece o senhor Kimura... – ela soltou um risinho dissimulado, enquanto vinha logo atrás de mim, e pousou sua mão em meu ombro, fazendo-me voltar para trás e encará-la. – ... Ele gosta de funcionários eficientes. Vindo aqui, eu poderia te passar as instruções do trabalho pessoalmente, o que é mais eficiente que fazer por e-mail. Sem contar que e-mail é tão impessoal, não acha? – ela desliza a mão do meu ombro pelo meu braço, de forma sugestiva, e eu apenas acompanho esse movimento com meus olhos, com o rosto sério, sem dizer nada, sem me mover. – Bom, mas eu espero você entregar essas fotos ao seu amigo para então tratarmos de trabalho... – ela lançou um olhar para as fotos em minhas mãos enquanto continuava a acariciar o meu braço.

Nina, eu já disse que não gosto de misturar as coisas. – falo, por fim, encarando-a seriamente.

Não foi o que ficou parecendo quando você me beijou daquele jeito... – ela agora brincava de fazer seus dedos caminharem pelo meu braço até chegarem em minha nuca, onde fez uma carícia de leve, sem se preocupar com a presença de Hyoga ali e como se tivesse tamanha intimidade comigo para isso.

Então eles trabalhavam juntos... Mas obviamente não era apenas isso, tendo em vista a intimidade com que ela tocava o Ikki. Aquilo me incomodava, e muito. Mas disse a mim mesmo que apenas não os considerava um casal bonito. Ikki merecia mais, pensei. No momento em que ela falou do tal beijo, eu me engasguei com minha própria saliva. As coisas entre eles já haviam chegado a este ponto? Bom, definitivamente eu estava sobrando ali, não faria sentido permanecer no apartamento. – É melhor eu deixar vocês falarem sobre o trabalho, não quero atrapalhar. – comentei, com uma expressão mais triste do que eu gostaria de demonstrar.

Acho que nunca senti tanta raiva de uma pessoa por ela se mostrar tão inconveniente. Odiava pessoas que não tinham bom senso de serem discretas quando necessário. Odiava quando me sentia exposto, odiava ainda mais quando alguém fazia isso sem a minha permissão. E, nesse momento em particular, odiava Nina por ter exposto justamente um beijo indevido para a última pessoa que eu gostaria que soubesse disso nesse mundo. Eu ia já dar uma resposta que colocasse essa garota em seu devido lugar, quando escutei Hyoga e, no mesmo instante, como se o bem-estar dele fosse mais importante que dizer algumas verdades para Nina, ignorei a assistente do meu chefe e voltei-me para Hyoga: – Você não está atrapalhando.– falei em um tom suave, até estranhando a calma com que pronunciei aquelas palavras, considerando a raiva que ainda sentia da minha colega. – E eu queria falar com você sobre o site. Eu tive umas ideias e queria ver o que achava.– Tudo bem, eu não devia estar prolongando aquilo. Não tinha decidido, em algum momento daquele conturbado domingo, que eu me afastaria um pouco de Hyoga, vendo-o apenas quando necessário?

Mas então, penso que não estou fazendo nada de mais. Ora, em primeiro lugar, eu o convidava para ficar porque percebi que ele estava se sentindo desconfortável, por achar que me atrapalhava. Era sinal de boa educação provar o contrário a ele. E, em segundo lugar... esse era um bom e necessário momento para ele estar ali. Eu estava escolhendo uma câmera para comprar, mais indicada para as fotos artísticas que eu planejava tirar com mais frequência para pôr no site.

Não estava fazendo nada de mais. Não estava fugindo dos planos racionais que eu mesmo tinha construído para mim.

Não estava me traindo.

Eu até trouxe o meu notebook, pra já começar a trabalhar. Pensei que poderíamos separar algumas fotos hoje.– Sei que Ikki é sempre franco e, se eu realmente estivesse atrapalhando, ele falaria. Ele não parecia ter a intenção de beijar Nina novamente e isso me deixou estranhamente feliz. Fênix estava deixando claro que queria minha presença ali, até preferia a mim, na verdade. Fiquei um pouco mais à vontade, colocando minha mochila sobre o sofá e retirando meu notebook, demonstrando a Ikki que não iria embora.

Muito bom, pato. Pelo visto, você sabe ser eficiente.– eu brinco, buscando amenizar o clima. – Nina, pode deixar que eu me viro com isso aqui. – Pego a pasta que estava na mão dela, onde provavelmente estava o pedido do meu chefe para as fotos. – E agora, se puder sair... eu estou ocupado.– falo com rispidez, mas sentindo que, no fundo, estava até sendo razoavelmente educado, dadas as circunstâncias.

Ela me olha de uma forma estranha. Nunca tinha recebido esse olhar da Nina antes. – Está bem. Eu vou embora. – seu tom de voz não é açucarado nem afetado. – Então... "pato"... "frango"... Boa noite para vocês. – Ela olhou para mim e para Hyoga de forma esquisita e pronunciou os nossos apelidos, aos quais ela prestou bastante atenção, pelo visto, de um modo quase ameaçador. Mas que tipo de ameaça ela poderia representar? Nem me preocupei mais com isso. Fui abrir a porta para ela e, sem dizer mais nada, Nina saiu, para o meu alívio.

Ikki dispensou a moça de forma seca, deixando claro que não havia nada além de uma relação de trabalho entre eles. Mas e o tal beijo? A minha curiosidade foi maior ,e quando ele fechou a porta e voltou a se aproximar de mim, perguntei: – O seu chefe sabe que você anda agarrando as funcionárias por aí, frango? – usei o tom mais divertido possível, sem imaginar o quanto meu comentário soaria ciumento.

Sentei ao lado de Hyoga, sentindo-me à vontade, bem mais à vontade do que eu deveria. Assim que escuto a pergunta, eu olho para ele, um tanto sério: – Eu não fico agarrando funcionárias, russo. Não gosto de misturar trabalho com prazer. – acabo respondendo de forma meio rude. Então desvio meus olhos do dele, fixando-os nas fotos que eu ainda não entreguei a ele. E penso comigo mesmo... não misturo trabalho e prazer... mas pedi a Hyoga que ficasse, para trabalharmos... e não posso negar que certos pensamentos me levam à ideia de um certo prazer que a presença desse loiro me traz e me faz ansiar por mais. Esses pensamentos estão invadindo minha mente, com cada vez mais força, por mais que eu tente evitá-los.

Sendo assim, não preciso ter medo de trabalhar pra você, certo?– não resisti a tal comentário, não quando o que mais queria era colocar um sorriso no rosto dele e deixar claro que estava apenas brincando. Não costumo brincar assim, mas com Ikki é diferente. Eu gosto de deixá-lo sem graça, fazer com que perca aquela pose toda que ele tem. Eu sorri, encarando-o fixamente, esperando a reação desajeitada que tanto queria ver.

Quando é que você vai aprender, pato?– sorrio de canto, recosto-me no sofá e apoio meu braço no encosto do assento, por trás do loiro. – Você sempre precisa ter medo de mim.– falo com o rosto um pouco mais próximo do loiro, como forma de acentuar a ameaça que não passa de uma brincadeira. Porque é apenas uma brincadeira. Eu sei; eu preciso me afastar, mas essas provocações entre nós... Eu não posso abrir mão disso. Isso é algo que sempre tivemos, não representa problema algum.

Eu diminuo a distância entre nossas faces. Se me inclinasse apenas um pouquinho mais, eu poderia beijá-lo, e esta ideia fez meu corpo estremecer. Mas era apenas uma brincadeira, não é mesmo? Eu não podia confundir as coisas, teria resultados catastróficos, se o fizesse. Sorri novamente e mordi o lábio, pensando no que dizer. – Sabe, já me disseram uma vez que cão que ladra não morde... De qualquer forma, eu sempre poderia processá-lo por assédio sexual.

Ele aproximou mais o rosto. Está me desafiando. Ah, pato... você ainda vai conseguir me tirar do sério desse jeito.

Não movo o rosto. Não me aproximo mais, mas também não recuo. Estamos no nosso limite. Um pouco mais e... melhor nem pensar. A mordida que o russo deu em seu próprio lábio foi tão... provocadora... mas me fingi de desentendido: – Cão que ladra pode não morder... mas ele provoca... atiça...– devido à proximidade, minha voz sai um pouco rouca. – Você tem que ter medo de mim, pato, não pelo que eu posso vir a fazer. Mas pelo que você pode fazer por estar na minha presença. – o meu sorriso cheio de charme desponta em meu rosto. Quando quero provocar, uso todas as armas. Não estou exagerando. É apenas uma brincadeira. Nada mais que isso.

De certa forma, ele tem razão. Devo mesmo temer pelo que posso fazer, na presença dele. É nesse momento que percebo o quanto estou provocando, atiçando, procurando... Estava levando nossas brincadeiras ao limite, e não saberia o que fazer quando elas saíssem do controle. O que me intrigava mais, era pensar no porquê de um cara hétero deixar que eu brincasse desse jeito. Qualquer outra pessoa me rechaçaria no primeiro instante, mas o Ikki, não. Ele provoca de volta, me deixa acuado e acaba me vencendo, sempre.

E, desta vez, acho que não seria diferente. – Eu estava pensando em colocar uma marca d'água nas fotos do seu site. Quero dizer, é claro que vou protegê-las contra cópias, mas acho que daria ainda mais segurança. O que acha de uma pequena fênix, nos cantos?– mudo de assunto, porém não me afasto nem um milímetro.

Eu tinha ganhado, mais uma vez. Ele tinha recuado, mais uma vez. Ou melhor... ele mudou de assunto, recuando com a provocação verbal. Mas a provocação física continuava. Aquela proximidade estava mexendo comigo de uma forma inconcebível. Eu nunca tinha me sentido tão atraído por alguém assim. O que era aquilo? Seria por que ele me era, de certa forma, proibido? Não; não poderia ser só isso. Então por quê? De onde vinha essa atração? Como ela podia me deixar tão completamente desnorteado? Eu deveria buscar respostas para isso agora... Deveria eu mesmo recuar... Deveria eu mesmo trazer a razão para esse momento. Ah, eu deveria fazer tantas coisas... mas a única que faço é falar, sem me mover, encarando aqueles olhos claros e mantendo aquela mesma proximidade, tão perigosa, tão tênue: – Você pode fazer o que quiser, Hyoga.– digo, como resposta à sua pergunta. Mas creio que não seja uma resposta ao que ele disse. Respondo aos olhos dele, que falam uma língua que meu corpo parece entender muito bem, apesar de racionalmente eu não saber ao certo o que dizem...

Tem certeza disso?– sussurro, fixando meus olhos em sua boca tentadora. Só conseguia pensar em ir até o fim com aquela provocação. Quão desastroso seria, se eu provasse daqueles lábios uma única vez? Será que um selinho o ofenderia?

Os olhos dele dialogam perfeitamente com meu corpo e palavras se tornam desnecessárias. Acho que escutei, vagamente, alguma pergunta dele, mas meu corpo reagia apenas àqueles olhos claros que pareciam dizer, com todas as letras, o que eles queriam de mim e o que meu corpo inteiro ansiava em entregar para aquele loiro, para aquela boca que parecia tão deliciosa, tão incrivelmente saborosa. Naquele instante, tudo parecia tão óbvio... Era tão certo o que eu tinha de fazer... Pouso meus olhos sobre aqueles lábios e eles são os primeiros a devorar aquela boca, enquanto a distância que ainda existia desaparece enfim, possibilitando que meus lábios experimentassem a sensação que eu já vinham imaginando desde ontem. Minha mão puxa, suavemente, o queixo alvo de Hyoga para mim, de modo que eu possa encaixar a minha boca na dele, perfeitamente, como eu parecia já saber que seria.

Obtive minhas respostas, no momento em que ele me deu o que eu tanto queria. Fechei meus olhos e me deixei levar, sem pensar em nada além do beijo de Ikki. Seu perfume invadia minhas narinas, hipnotizando-me. Levei minha mão à sua nuca, puxando-o ainda mais de encontro a mim. Foi nesse momento que insinuei minha língua entre seus lábios, perguntando-me quando ele se assustaria e me atiraria longe.

Senti como Hyoga me puxou para aprofundar aquele beijo e isso me trouxe uma sensação absurda de querer que aquilo crescesse ainda mais, sem limites. Foi quando senti que ele começava a invadir a minha boca com sua língua e aquilo era simplesmente novo para mim. Eu já havia beijado tantas bocas e, ainda assim, aquilo era uma novidade sem tamanho. Não; não tinha nada a ver com o fato de que era a primeira vez que eu beijava um homem. Na verdade, eu sabia... o que eu sentia só era possível porque era com Hyoga. Então, não quis mais compreender. Daria vazão ao que estava sentindo, sem me preocupar com mais nada. Envolvi o russo por inteiro, não apenas com um beijo ainda mais apaixonado, mas com meu corpo, com todo meu ser, tomando-o nos braços com ardor e debruçando-me sobre ele.

Ikki correspondeu tão avidamente, que me assustou por um instante. Era apenas curiosidade? Tinha que ser, imaginei. O certo seria me afastar, pedir desculpas e ir embora dali, mas quem disse que sou um cara correto? Com dificuldade, já que me recusava a largar sua boca, joguei minha mochila de lado e o puxei para cima de mim, totalmente. Eu enredava nossas línguas com uma vontade absurda. Até então, não tinha ideia do quanto desejava aquele homem. Ou seria apenas a carência falando mais alto? Levei uma das mãos aos seus cabelos, puxando-os um pouco e deixando seu queixo na direção da minha boca. Mordi e chupei, repetindo a mesma coisa em seu maxilar e no pescoço. A pele dele tinha um sabor tão gostoso, que me arrependi de não ter provado antes... Voltei a buscar seus lábios, desta vez impondo um ritmo mais lento ao beijo, mas sem largar seus cabelos, que a essa altura já apontavam para todos os lados. Quase inconscientemente, ergui um pouco a blusa dele, e uma de minhas mãos logo passou a acariciar e apertar suas costas largas. Deus, aquele homem era um verdadeiro sonho! É isso, eu estou sonhando com o Ikki? Se for, este é o melhor sonho que já tive. Ofeguei em meio ao beijo e finalmente me dei conta do que estava fazendo.

Separei minha boca da dele, lentamente. Abri os olhos devagar, esperando que ele fizesse o mesmo. Retirei minha mão do corpo dele, e também libertei seu cabelo, mas não sabia onde colocá-las. Deixei-as caírem sobre o sofá, ainda aturdido com o que acabara de acontecer. – Desculpe.– murmurei, ainda mais acanhado do que quando cheguei ao apartamento dele.

Eu nem sabia o que estava acontecendo. Hyoga tinha razão; cão que ladra não morde. Eu falava demais, mas na hora da verdade, ele dominou completamente a situação. O beijo dele era viciante; meu Deus, ele sabia como beijar! Deixei que ele fizesse o que quisesse e ele fez, ele beijou minha boca, meu queixo, minha nuca, puxou meus cabelos, me deixou completamente à sua mercê. Eu me senti arrepiar ante o toque das suas mãos na minha pele quente e já estava disposto a ir até o fim com tudo o que aquele momento parecia acarretar, mas então, de repente... ele parou.

Desfazer o beijo, separar nossos corpos que, por aqueles instantes, pareciam feitos para ficarem daquele jeito, colados, encaixados, unidos... isso foi um tremendo balde de água fria.

Ele se afastou e sentou a uma distância razoável de mim. Eu me endireitei e tinha os olhos confusos. Mas essa confusão era fruto do que tinha acontecido? Ou era advinda de não entender por que tinha acabado?

Você não tem que se desculpar. – respondo, depois de ouvi-lo se desculpar. Não consigo olhar para ele; meus olhos vagam pela sala, como se buscassem algo. Talvez a razão que eu havia perdido? – Eu... fui eu quem... – estava sem-graça. Eu tinha levado Hyoga àquilo. E ele tinha namorado! Parabéns, Ikki... você não queria causar problemas, mas conseguiu foi estragar tudo de vez.

Eu provoquei demais, realmente te devo desculpas. Sei que forcei a barra, Ikki.– estava tão sem graça quanto ele. O que tinha acontecido ali? Eu pensava em algo para dizer, algo que aliviasse o clima pesado que se instalou entre nós, mas não vinha nada a minha mente. Só conseguia pensar no gosto de sua boca, no seu corpo sobre o meu, em sua pele deliciosa... O pior é que a minha excitação já estava visível e eu não sabia como disfarçar. Levantei-me de supetão, caminhando até a estante. – Posso ver seu portfólio novamente?– perguntei, já me afastando.

Ao vê-lo levantar-se, perguntando pelas minhas fotos, como se nada houvesse acontecido, eu sinto algo quebrar dentro de mim. Não era a primeira vez que o russo mudava de assunto abruptamente, dando fim às brincadeiras e provocações entre nós dois. Mas foi a primeira vez em que eu, claramente, senti que não queria isso. Não dessa vez. Mesmo que o correto me parecesse entrar na dele e fingir que nada de mais tinha ocorrido, eu... queria que o mundo inteiro fosse pro inferno. Agora, só me interessava me entender com esse loiro que me fazia perder de mim mesmo:

Você não forçou a barra, Hyoga. Não mais que eu.– eu me levanto e caminho até onde ele está, perto da estante, aproximando-me dele e já sentindo como todo meu corpo parece reagir com essa proximidade, como se um campo magnético envolvesse esse russo e eu reagisse fortemente a isso, sendo atraído de forma visceral até ele.

Você se arrepende?– minha voz é firme e não sei de onde vem essa firmeza. No entanto, meus olhos não fogem mais dele. É como se eu tivesse de agir assim, de modo que, fosse o que fosse, aquilo não se perdesse.

Ikki se aproxima de mim, e me arrepio por completo com sua presença. Será que ele não sabe a revolução que está causando em mim? Forço-me a pensar em Isaac, e estava conseguindo manter o foco, até o momento em que ele me perguntou se eu me arrependia. Mordi o lábio, pensando no que dizer. Eu poderia dizer a verdade, ou fugir, novamente. Porém, se realmente seríamos amigos, eu não poderia mentir para ele. – Embora você possa pensar que tem um amigo tarado, não, eu não me arrependo. Você tem um beijo tão gostoso, como poderia me arrepender?– sorrio de lado, tentando demonstrar uma casualidade que não havia em meus pensamentos.

Como se aquilo fosse tudo o que eu precisasse ouvir, mandei, dessa vez em definitivo, a razão pro espaço, puxei aquele russo que me enlouquecia e o beijei de novo, demonstrando uma certeza que eu não estava interessado em descobrir se deveria sentir ou não e agora, de forma ainda mais vigorosa, levei minha mão à nuca do loiro, sentindo a maciez daqueles cabelos entre os meus dedos, tão sedosos como eu já imaginava. Eu tomava posse daquela boca, como se ela me pertencesse desde sempre, enquanto a minha outra mão, mais ousada, acariciava com ardor as costas de Hyoga, até alcançar a sua cintura, que segurei e puxei de encontro a mim, sentindo com mais força a excitação dele, que se chocava contra a minha, causando-me um prazer estarrecedor, obrigando-me a separar um pouco minha boca da dele para gemer e logo morder aqueles lábios que sempre me provocavam quando desenhavam um sorriso absurdamente atraente.

Ikki me beijava tão vigorosamente, me apertava como se eu pudesse fugir a qualquer momento. Eu correspondia com o mesmo entusiasmo, me agarrando a ele e me perdendo no prazer de suas carícias. Deixei escapar um gemido, quando ele mordeu minha boca, e senti minhas pernas bambearem, indicando que eu estava completamente entregue a Fênix, nesse momento. Envolvo minhas mãos em sua nuca, puxando-o ainda mais de encontro a mim, pedindo silenciosamente por mais daquele corpo tão quente.

Eu estava perdido e não me importava; não queria voltar àquela realidade em que essas sensações maravilhosas não eram permitidas. Prensei o corpo dele contra minha estante e meus beijos começavam a ser mais famintos. Eu nunca tinha estado com um homem, mas era impressionante como meu corpo parecia aprender rápido. O prazer que eu sentia ao roçar meu baixo ventre no dele, esfregando meu membro contra o dele, tudo isso era forte demais e impossível de se descrever. Eu estava delirando, sabia disso muito bem, e não me importava, eu só queria mais, mais do Hyoga, mais daquele corpo, mais de tudo o que aquele loiro sensual pudesse me oferecer...

E então, súbito, a campainha. Não sei se ouvi da primeira vez, provavelmente não. A campainha já tocava com certa insistência, mas eu ainda estava decidido a mandar o resto do mundo para o inferno e me fechar naquela realidade que se fazia só minha e de Hyoga. Porém, uma voz, vinda de fora e muito conhecida por mim, me fez despertar de tudo aquilo, ainda que contra a minha vontade:

Ikki? Ikki, eu sei que você está aí dentro. Vamos, abra a porta! Eu preciso conversar com você. - Esmeralda agora intercalava batidas na porta com toques insistentes da campainha. – Por favor, Ikki! Você sabe que eu não viria aqui se não fosse importante... – percebo que a voz dela está muito triste, quase chorosa. – Ikki, eu ouvi barulho aí dentro. Você realmente não quer me atender...?

Eu me afasto de Hyoga, ainda sentindo o fogo que abrasa todo meu corpo queimando de forma intensa. Respiro fundo, buscando controlar minhas emoções. – Hyoga, eu... preciso atender.– falo, sentindo que minha voz está falha devido a toda essa comoção. Não consigo dizer mais nada ao russo, tudo aquilo era estranho, novo, inusitado, maravilhoso e assustador ao mesmo tempo... Sinto-me um tanto perdido, em meio a esse turbilhão de novas sensações e, talvez por isso, meu lado racional tenha conseguido falar mais alto agora e me mandou abrir a porta à minha ex-namorada.

Afasto-me de Hyoga, buscando me recompor, sem muito sucesso, e finalmente abro a porta, encontrando Esmeralda com os olhos verdes bastante úmidos. – Ikki! – ela sorri e se joga sobre mim, em um abraço. – Obrigada por me atender! Eu tive um dia horrível, precisava ver um rosto amigo e...– ela para de falar quando, ainda me abraçando, percebe que eu não estava sozinho. – Oh, eu... não sabia que estava com visita.

Oi, Esmeralda.– não me esforço para demonstrar qualquer empolgação em vê-la. De todos os momentos para chegar, ela precisava escolher agora? Eu coloco as mãos nos bolsos de minha calça jeans, tentando disfarçar o que estava acontecendo ali. Notei o incômodo dela com a minha presença, e vi que queria conversar a sós com Ikki. Pela disposição dele em atendê-la, compreendi que deveria me afastar. – Ikki, posso usar o seu banheiro?

Claro. Você já sabe onde fica.– Fiquei sem saber o que dizer à Esmeralda para explicar a presença de Hyoga ali. Mas, mesmo que soubesse, não sei se ela me ouviria. Esmeralda parecia mais interessada em seguir Hyoga com os olhos, até vê-lo sumir em meu corredor. Aproveito para desfazer o abraço, porque ainda não tinha aquietado completamente o meu estado e, embora nesse abraço eu houvesse recuado por instinto, de modo que evitei maiores contatos com ela, se continuássemos abraçados, ela acabaria percebendo alguma coisa. – Quer beber algo? Café?– falei sem muito ânimo, tentando desviar o foco de Hyoga para o assunto que ela queria tratar comigo.

Café está ótimo.– ela responde, lançando um último olhar na direção do corredor, enquanto eu me dirijo à cozinha. – Ele já sabe onde fica? Então, ele deve vir aqui com frequência... Pelo visto, essa sua amizade com o Hyoga está realmente crescendo...– ela comenta, como quem não quer nada, mas eu a conheço e sei que há muito nas entrelinhas.

Você sempre me disse que eu precisava ter amigos. Pois bem. Agora eu tenho.– falo sem olhar para ela, buscando manter minha atenção no café que estou preparando, enquanto ela se senta do lado oposto em que eu estou, apoiando os cotovelos no balcão que separa a sala da cozinha. – É, fico feliz que tenha me dado ouvidos. Pelo menos, em relação a isso... – ela suspira e já me sinto impaciente. Não estou disposto a começar aquela discussão com ela, mais uma vez. Não agora.

E o que ele está fazendo aqui? Num domingo à noite?– ela pergunta, ainda tentando manter o tom casual. Eu sei o quanto ela está estranhando. Ela sabe muito bem do quanto eu prezo meu espaço e o quanto odeio receber visitas. Até mesmo Shun às vezes tem receio de me visitar, dependendo do dia. E mesmo quando namorávamos, havia dias em que eu não queria ver ninguém e me fechava no meu apartamento, não abrindo a porta para qualquer pessoa.

Estamos trabalhando juntos. Hyoga trabalha como web designer e eu pedi que ele fizesse um site para mim, pra que eu pudesse expor minhas fotos mais artísticas... para tentar alavancar o meu trabalho. – respondo em um tom insípido.

Sério?– os olhos dela brilham. – Isso é ótimo, Ikki! Eu sempre achei que você deveria valorizar mais o talento que possui! – ela bateu palmas de contentamento, enquanto eu olhava para ela como quem ainda não compreendia o que ela fazia aqui. – Eu posso ficar para ver? Ah, Ikki! Eu sempre quis tanto ver você criando gosto pela vida, seguindo em frente, apegando-se a algo que possa fazê-lo crescer... Eu sempre te pedi que me ouvisse... Eu sinto que faço parte disso! Posso ver o processo de criação de vocês? Por favor, eu quero participar desse momento, que é tão importante na sua vida...– ela falava com sinceridade, eu sei. Mas definitivamente não queria que ela ficasse ali mais que o necessário.

Você não veio desabafar sobre seu dia? Não é melhor falarmos sobre isso?

Não...– Esmeralda baixa os olhos, triste. – Estou muito chateada... talvez, mais tarde, eu me sinta melhor para desabafar. Mas agora, se eu puder ver esse site começando a nascer... Ah, Ikki!– ela agora volta a sorrir amplamente. – Isso seria a melhor terapia para mim no momento!

Retornei do banheiro e Esmeralda estava toda empolgada, falando a respeito do site do Ikki. Olhei pra ele discretamente, como se perguntasse em que enrascada nos meteu. Sentei-me ao lado de Esmeralda, no balcão. Vi como Ikki me observava, com uma expressão engraçada em seu rosto, o que me divertiu um pouco. – Então, pelo que entendi, você vai ficar pra ver nosso trabalho, Esmeralda?– dirijo-me a ela, evitando demonstrar a decepção que sentia.

Vou, sim! – ela responde prontamente, impedindo-me de dizer qualquer coisa. – Ikki me contou que você está criando um site para expor os trabalhos dele. Acho uma excelente ideia! – Esmeralda abre um sorriso gentil para Hyoga. – E, se quer saber, a ideia inicial foi minha... Eu vivia dizendo que ele precisava fazer algo assim. – ela demonstra-se toda orgulhosa e eu continuo calado. Era estranho, não sabia o que dizer. Eu estava com esse russo até poucos minutos atrás, prestes a fazer... nem sei ao certo, mas agora, minha ex-namorada está aqui, estou servindo café a ela e mal consigo encarar o loiro...

A postura de Esmeralda me incomodou. Ela agia como se ainda fosse namorada de Ikki, e o fato dele não rechaçá-la a respeito, demonstrou que eu não devia mais estar ali. Busquei o olhar de Fênix, tentando deixar claro minha situação constrangedora, mas ele já não me encarava. Apesar de chateado, compreendi a situação dele. Eu mesmo estava completamente confuso com o que havia acontecido naquela sala, o caso dele deveria estar pior, com toda a certeza. Resignado, levantei-me do balcão. – Na verdade, acho que deveríamos deixar pra outro dia. Acredito que vocês queiram conversar, não há a menor necessidade de trabalharmos agora. Eu posso levar seu portfólio, Ikki, e adiantar o serviço. Depois mostro como está ficando, e você diz o que gosta...– digo, colocando as mãos nos bolsos e sorrindo sem graça.

Não!– acabo demonstrando, em minha voz, uma comoção maior que deveria. – Eu... quero dizer...– olho para Esmeralda que estranha minha atitude. – Isso é importante, pato. Vai dizer que já cansou? Pensei que você fosse mais resistente. Pensei até que estaria disposto a varar a madrugada, se necessário. – Cheio de ambiguidades; nem eu acredito no que estou dizendo, no que estou propondo. Aliás, o que eu estou propondo?

Ikki, se o Hyoga está cansado, deixa ele ir.– Esmeralda fala sem segundas intenções, ela sempre teve esse jeito de querer amenizar o que digo, quando pareço grosseiro demais. – Nem todo mundo precisa seguir esses seus hábitos de não ter hora pra dormir, pra acordar, pra se alimentar direito...– ela usa aquele tom de repreensão que eu detesto e acabo bufando discretamente. – Aliás, se resolverem virar a noite trabalhando, não vou poder acompanhar vocês até o fim... Você sabe que eu não consigo ficar acordada até muito tarde, Ikki.

Ignorei o ar de esposa mandona, que Esmeralda mantinha. Concentrei-me apenas na mensagem que Ikki parecia tentar me passar. Varar a madrugada? Definitivamente ele não estava falando de trabalho, ao contrário do que a loira ao meu lado pensava. Embora não soubesse direito o que estava acontecendo entre nós dois, mandei a razão às favas, e decidi ficar. Afinal, meu próprio namorado havia sugerido isto, não é mesmo? Eu não poderia negar o quanto desejava Ikki, e já que estava liberado para satisfazer meus desejos, por que me controlar? – Está bem, vou mostrar a você o quanto um cisne pode ser resistente...

Um cisne pode até ser resistente, mas nunca mais do que uma fênix.– eu brinco, provocando. É engraçado. Mesmo com toda essa tensão sexual que eu sinto incrivelmente forte entre nós, essas provocações continuam surgindo com naturalidade. Inclusive, me ajudam a ficar mais tranquilo. - Quer café?– eu pergunto, agora conseguindo olhar nos olhos dele. E tenho a leve impressão de que eu nunca pronunciei essas duas palavras antes com tanto desejo e malícia. Espero que Esmeralda não tenha percebido. – Afinal, você vai precisar... se quiser acompanhar o meu ritmo.– não omito um sorriso e, dentro de mim, uma voz que não se cala. O que deu em mim? Eu agora não só estou caminhando nessa direção desconhecida, como pareço fazê-lo sem me repreender mais. Se antes eu tinha algum escrúpulo, acho que o perdi, e não sei exatamente quando ou onde...

É, pelo visto, teremos muito trabalho esta noite.– respondo sugestivamente, ignorando por completo a presença indesejada de Esmeralda. Eu não sei o que está dando em mim, ontem mesmo fiquei ofendido com a sugestão de Isaac, agora não consigo pensar em nada além de enfiar minha língua na boca de Ikki. Eu devo estar louco! Fênix faz questão de me entregar a xícara de café em minha mão, e deixo que meus dedos toquem os dele.

O toque de seus dedos nos meus é eletrizante. Céus, eu nunca senti algo assim. Talvez porque todas as garotas com quem estive sempre foram fáceis demais? Então minha atração por esse loiro era fruto apenas do meu desejo de conquista? Bom, eu não ia pensar demais agora. Não queria. Fosse o que fosse, essa sensação me embriagava e eu queria mais era mergulhar nela. – Cuidado, pato. Tá quente. Não vá queimar a língua...– acho que já estou exagerando. Se continuar assim, Esmeralda vai acabar percebendo.

Olha, eu nunca entendi as brincadeiras e provocações entre vocês, mas dá pra ver que estão fazendo isso agora. Sei que nunca se deram bem, mas acho melhor resolverem isso. Em vez de ficarem jogando indiretas um para o outro, ofendendo-se desse modo, por que não esclarecem tudo e resolvem suas diferenças? Se não fizerem isso, fica complicado de vocês trabalharem juntos.– Esmeralda fala olhando de mim para Hyoga, com a expressão séria. E não consigo evitar, precisei morder os lábios para evitar um riso fora de hora diante do que ela nos dizia.

Faltou pouquíssimo para que eu gargalhasse. Pelo menos, não estávamos sendo tão indiscretos como eu pensava, ou será que Esmeralda é mais tonta do que eu imaginava? Sorri largamente, sem desviar os olhos de Ikki. – É, frango. A Esmeralda tem razão. Acho que deveríamos resolver nossas diferenças.– brinco. – Mas, até lá, prefiro continuar me divertindo às suas custas.

Esmeralda suspira, como se estivesse diante de duas crianças. Mas é possível que ela tenha compreendido que tanto eu quanto Hyoga gostamos dessas provocações e que não deveria continuar pedindo para que parássemos. Aliás, ela nem devia. Era algo que eu tinha com o loiro e não gostaria de perder por nada nesse mundo. – Já que estão dispostos a trabalhar a noite inteira, eu vou poder acompanhar só uma parte, então não vamos perder tempo. Quero ver o que já fizeram e os planos que têm para o que ainda não concretizaram.– ela se levanta, levando sua caneca consigo, e dirigindo-se à mesa de madeira, sentando-se diante do meu notebook, que estava aberto. Sem cerimônia, ela analisa o que eu estava fazendo ali e então seus olhos verdes se estreitam, como se olhasse atentamente para algo: – Desde quando você tem MSN, Ikki?– Ela pergunta demonstrando certa surpresa com isso. – E olha só, tem alguém querendo falar com você aqui.– de fato, havia uma janelinha piscando e Esmeralda abriu-a imediatamente. – É o Shun!– e, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ela já estava teclando algo.

Esmeralda, o que está fazendo?– pergunto meio nervoso, tomando meu notebook das mãos dela.

Eu só estava cumprimentando o seu irmão.– ela responde, com os olhos surpresos por conta da minha atitude. Eu leio o que ela enviou a meu irmão e realmente não havia nada de mais. Apenas o cumprimentava e dizia que estava aqui comigo. Na mesma hora, eu digito: – Shun, estou um pouco ocupado agora. Depois a gente se fala, está bem? – envio e desligo o MSN imediatamente. Sei que Shun iria me perguntar muitas coisas, a começar sobre o porquê de Esmeralda estar em meu apartamento em um domingo à noite. Mas eu me entenderia com ele mais tarde.

Olha, Esmeralda. A gente ainda não tem quase nada pronto do site.– falo de forma cortante.

Nada? Então, o que vocês estavam fazendo aqui antes de eu chegar?– ela pergunta sem malícia, mas de modo a me desconcertar.

Eu disse quase nada. Estávamos... discutindo ideias. Algo como... marca d'água? Não é isso, russo?– pergunto, meio sem-jeito, como quem pede ajuda ao loiro.

Exatamente. No momento em que você chegou, eu estava dizendo ao Ikki que gostaria de colocar uma marca d'água nas fotos do site, uma fênix, na verdade. Seria apenas uma medida de segurança.– socorri Ikki, no momento em que ele buscou meu olhar. – Não tem muito tempo que estou aqui, na verdade.– menti. – Vamos selecionar as fotos então, Ikki?– desvio o assunto e já vou logo pegando o portfólio.

No sofá, vejo as fotos que tiramos no parque e imediatamente as escondo em minha mochila. Seria um desastre se a tonta curiosa as visse.

Vou para o sofá, seguido por Esmeralda, e me sento ao lado do russo. Ela se senta do meu outro lado. Hyoga me entrega o portfólio e eu começo a passar as fotos, em silêncio. Minha amiga de infância, sentindo alguma intimidade que há um tempo ela não manifestava mais em relação a mim, fica muito próxima e se debruça sobre meu braço, para apontar uma ou outra foto de que ela gosta mais: – Ah, está vendo essa aqui, Ikki? É linda! Acho que você soube captar um momento tão único do pôr-do-sol... o céu rosado aqui... alaranjado ali... ficou maravilhoso. É uma foto tão romântica. – Ela suspira e apoia a cabeça em meu ombro, com os olhos verdes fixos na foto aberta.

É, eu gosto dessa foto. – não sei como me portar nessa situação. Não posso simplesmente mandar Esmeralda se afastar de mim, posso? Olho de esguelha para o loiro, tentando ler a expressão em seu rosto.

Por um momento, eu realmente pensei em disputar com Esmeralda. Mas desisti, quando percebi que perderia. Mesmo se também apoiasse minha cabeça no ombro de Ikki, não teria a mesma intimidade que eles tinham. Isso me entristeceu um pouco, mas tentei não demonstrar. Desviei minha atenção para as fotos, selecionando as melhores, e já pensando em como dispô-las no site. Eu não deveria sentir ciúmes de Ikki, se realmente era isso o que eu estava sentindo. Estamos atraídos um pelo outro, apenas isso. Queremos colocar em prática anos de provocações, sugestões e insinuações, e isso é tudo. O que ele e Esmeralda sentem um pelo outro não me diz qualquer respeito.

A única voz presente ali era a de Esmeralda. Apenas ela falava. Dizia suas impressões sobre as fotos, o que mais gostava em cada uma delas... talvez, ela estivesse tentando me fazer participar disso que mais parecia um monólogo. Mas era em vão. Toda a minha atenção estava em Hyoga. Ele não olhava para mim, estava atento às fotos. Parecia realmente concentrado na tarefa do site, o que eu não acho ruim, porque realmente queria que esse site fosse pra frente, mas... eu sinto que ele ficou um pouco distante agora. Ora, Ikki. É claro que ele ficou distante. Essa situação toda é estranha demais, e não há, definitivamente, uma cartilha que nos diga sobre como agir.

Não sei dizer o que há entre nós agora. Não tenho a menor ideia.

É desejo? Vontade de conquistar o proibido? Curiosidade?

Eu realmente não sei, mas sinto que, seja lá o que for... nesse instante... eu não quero esse distanciamento. Não quero a frieza que, de repente, instalou-se entre nós.

Eu não posso afastar Esmeralda de mim. Mas posso me aproximar de Hyoga.

Por isso, discretamente, sem que ela perceba... eu levo minha mão direita, que está ao lado do russo, até a mão dele e entrelaço meus dedos aos seus. À minha esquerda, Esmeralda continua a tagarelar, sem notar esse movimento que, em mim, pareceu causar um verdadeiro terremoto, em que tantas certezas pareciam ruir, para dar lugar a algo novo.

Estava compenetrado, tentando ignorar o que Esmeralda dizia, quando sinto Ikki segurar minha mão. É incrível como esse simples gesto fez com que me sentisse tão bem. Meu corpo inteiro se arrepiou, tanto pelo carinho contido em seu gesto, quanto pela expectativa de receber carícias ainda mais íntimas. Olho para ele e sorrio, tomando cuidado para que sua ex-namorada não perceba. Eu posso não ter tanta intimidade como ela, mas esta história parece prestes a mudar. Com o polegar, faço uma leve carícia na mão de Ikki, para demonstrar o quanto apreciei o toque. Sei que deveria pensar muito, antes de qualquer coisa, mas não consigo. O desejo crescente dentro de mim impede-me de raciocinar direito, e tudo o que mais quero é que Esmeralda suma daqui, para que finalmente possamos ficar juntos. Olho meu relógio de pulso e vejo que o tempo parece passar devagar, provavelmente pela ansiedade que sinto. Aperto um pouco a mão de Ikki, extravasando minha urgência.

Sinto como a mão de Hyoga parece me dizer o que não podemos verbalizar no momento. E eu concordo, aquela situação estava ficando insustentável. Desfaço o contato entre nossas mãos, que me estava sendo tão agradável, e volto meu olhar para minha amiga: – Esmeralda, olha só... Eu não quero ser grosso, mas... será que você pode ir embora? – Eu realmente não tenho tato algum... mas agora não é o momento de me repreender. – Desculpa, é que eu e o Hyoga temos tanta coisa pra fazer e... você estando aqui... atrapalha. – acabei sendo tão sincero em minhas palavras que me assustei um pouco. Por isso mesmo, resolvi emendar: – É que você me desconcentra, Esmeralda...

Ah.– ela me olha um pouco confusa. Em um primeiro momento, ela me pareceu chateada, mas depois do que eu disse, para buscar amenizar o que era uma verdadeira ofensa, seus olhos assumiram um novo brilho. – Ah, entendi! Desculpe, Ikki!– agora, a voz dela se fazia tão gentil que quem se sentiu confuso fui eu. Ela não tinha entendido o que eu havia acabado de falar? – Não sabia que ainda tinha esse poder sobre você. – ela fala sorridente e se levanta do sofá, deixando-me atônito diante dessa declaração. – Está certo, eu não quero atrapalhar vocês, muito menos... desconcentrá-lo.– Esmeralda caminha na direção da porta enquanto eu continuo sentado no sofá, sem reação. - Não vai abrir a porta para mim, Ikki?– só então desperto, vou até ela, abro a porta e recebo um beijo delicado na minha face. Um beijo que, não sei se foi apenas impressão, mas veio a ser perto demais da minha boca. – Tchau. Bom trabalho!– ela se despede, olhando-me de forma luminosa. – Tchau, Hyoga!– ela fala mais alto, acenando para dentro do apartamento. Eu sequer respondo. Fecho a porta e me volto para trás, a fim de encarar o loiro, sem saber o que dizer.

Meu Deus! Ela realmente não percebeu, não é? Queria ser inocente assim...– sorrio, ainda sem acreditar na ingenuidade de Esmeralda. Como ela caiu na conversa da desconcentração? – Então... Sobre aquele papo todo de resistência... Eu realmente estou louco pra descobrir quem ganha: o cisne ou a fênix; ou melhor, o pato ou o frango...– mordi o lábio e fiz um sinal com a mão, chamando-o descaradamente.

Estava com o corpo apoiado na porta, de frente para o russo. Quando o vejo me chamando com a mão, dessa forma tão abusadamente sedutora e provocante, eu sorrio de canto: – Eu tenho uma certa fama, pato descarado... Nunca ouviu dizer que, quando a fênix parece estar acabada, ela renasce?– começo a caminhar na direção dele, os olhos escuros e predadores sobre esse loiro que se via tão delicioso agora. – Pensei que, depois de todos esses anos, depois de tantas provocações... você tivesse aprendido algo. Mas, pelo visto... eu vou ter que te ensinar o que acontece quando você brinca tão perigosamente com fogo.– paro bem próximo a ele, com as mãos nos bolsos da calça e abro um sorriso charmoso. – Onde foi que nós paramos?

Eu me levanto e paro na frente dele. – Você estava me prensando contra a sua estante, e me beijando como nunca fui beijado antes... – chego mais perto, roçando meus lábios nos dele, mas não faço qualquer movimento. Envolvo minhas mãos em seu pescoço, enquanto continuo com um sorriso cínico. – Quer que eu te ajude a se lembrar?

Pato cínico. – desvio minha boca da dele, em um jogo de sedução: – Me ajuda a lembrar o que a gente tava fazendo, então...– sussurro perto do seu ouvido, mordendo de leve a orelha dele.

Eu ouço suas palavras e perco o pouco controle que me restava. Puxo-o pra mim, colando nossas bocas num beijo sôfrego, enquanto ele envolve minha cintura com os braços. Lentamente, caminhamos em direção ao quarto, sem desfazer o beijo, muito menos afrouxar o abraço. Sua língua se enreda na minha de uma forma tão deliciosa, que sei que poderia viver apenas de seus beijos. Minhas mãos descem por suas costas, no exato momento em que batemos na parede. Acredito que o quarto dele esteja perto, mas não abro meus olhos para checar. Desfaço o beijo por um momento, apenas para retirar o meu cabelo desgovernado do nosso caminho. Ikki segura-os com uma de suas mãos, ergue o meu rosto e volta a me beijar. Antes de voltar a me perder naquela boca maravilhosa, abro os olhos e constato que o quarto realmente está próximo. Puxo-o em direção ao cômodo e, uma vez lá, empurro-o sobre a cama e me deito sobre ele. Antes de beijá-lo novamente, olho-o nos olhos e pergunto: – Você sabe que isso vai mudar muitas coisas, não é?

Eu sabia. Sabia que tudo mudaria e, apesar dos receios que ainda me cercavam, algo dentro de mim dizia com força que, não importava o que viesse pela frente... Nós dois encontraríamos um meio de resolver tudo. Tínhamos a sutileza do cisne e a resistência da fênix do nosso lado.

O que poderia dar errado...?


Continua...