Capítulo 10
- FORAM ambos maravilhosos.
A voz profunda da Pansy ainda fazia com que Ginny apertasse os dentes mas tratou de se controlar e servir a Pansy o terceiro limoncello, oferecendo-lhe o copo enquanto ela estava sentada no sofá, com o cabelo negro caindo sobre os ombros e o seu casaco o suficientemente desabotoado para deixar ver a seu escultural figura.
Dizer que Ginny tinha visto mais vezes Pansy que Draco nos poucos dias seguintes ao ataque de Snape era dizer pouco. Pansy aparecia na cozinha enquanto Ginny tentava concentrar-se e logo desaparecia com Draco para pouco depois voltar e lhe contar os progressos de Snape enquanto Draco desaparecia para fazer algumas chamadas.
O casamento de Ginny, se lhe podia chamar isso, tinha passado a fase das brigas e parecia ter se estagnado na da resignação.
- Onde está Rosa? - perguntou Pansy depois de dar um gole na sua bebida.
- Ginny deu-lhe a noite livre. Outra vez - disse Draco com um sarcasmo que não passou despercebido.
- Quer o seu marido só para si, querido - disse Pansy - E a verdade é que não a culpo - acrescentou. Ginny estava a ponto de dar a sua resposta mas Pansy adiantou-se – Rosa é uma mulher difícil. Não sei por que ainda não a despediste, Draco.
- Mas ela parece te adorar - assinalou Ginny.
- Só porque já estou fora da vida do seu querido e estimado Draco. Ele é como um filho para ela e nenhuma mulher parece ser suficientemente boa para ele, enquanto estiveres com ele não terás qualidade nenhuma. Quando eu estava aqui tratava-me como lixo, mas agora que me fui embora trata-me como uma Santa. Não te culpo por quereres te ver livre dela e ter a casa só para ti. Eu sei que quando Snape voltar para casa farei tudo o que seja por ele. O hospital está tratando de tudo para que venham enfermeiras a casa, mas eu não quero. Vou cuidar dele eu mesma, um casamento deveria ser só o marido e a mulher, sem terceiros a meterem o nariz. Isto foi uma grande...
- Chamada de atenção? - perguntou Ginny quase sem voz.
- Exactamente o que queria dizer - respondeu Pansy com um sorriso - Ao vê-lo tão doente, tão frágil, incapaz de fazer nada - fechou os olhos e uma lágrima deslizou pela sua bochecha pálida e perfeita – Quando telefonei na outra noite, senti-me mal por ter vos incomodado, mas a enfermeira disse que tinha que voltar para casa para procurar a medicação do Snape e ir a casa para descansar. Não podia materializar-me ali porque toda a aldeia e arredores estão protegidos contra esse tipo de magia. Além disso estava perdida, completamente transtornada e as minhas lágrimas estavam pondo Snape nervoso. Mas não devia ter chamado o Draco.
- Tolices - disse Ginny sentando-se ao seu lado e agarrando a mão da morena para lhe oferecer a sua primeira amostra de afecto real - É obvio que devias chamar. Somos amigas.
Olhou para Draco e viu o sorriso que este lhe dirigiu, e sentiu de repente que a culpa que tinha sentido durante a última semana se multiplicou. Tinha agido como uma egoísta e uma mimada nos últimos dias e sentia-se cheia de remorsos.
Pansy não só estava triste, estava totalmente angustiada. A devoradora de homens que Ginny imaginou parecia ter desaparecido e deixado ali aquela mulher pálida sentada no sofá.
- Será melhor ir embora - disse Pansy enquanto fechava o casaco, fazendo gestos a Draco para que se sentasse ao vê-lo tirar as chaves do carro - Vivo a uns minutos daqui e o ar fresco far-me-á bem.
- Não deves andar - disse Ginny – está frio e choveu há pouco. Draco leva-te.
oOo
Ginny esfregou a janela do salão para tirar o bafo e viu como Draco abria a porta do co-piloto e guiava Pansy gentilmente. Vê-lo tocar costas da morena era uma acção que pouco antes a teria posto completamente ciumenta, mas a pena que sentia por Pansy a tinha comovido.
Quando Draco voltou estava pálido, cansado e tenso.
- Estive fora muito tempo? - perguntou ao entrar. Tirou o casaco e os sapatos - Não esperavas que a deixasse no portão pois não?
- É óbvio que não.
- Ofereceu-me um café - disse ele - Mas naturalmente recusei. Não queria dar-te mais argumentos.
- Draco, por favor, não quero brigar.
- Eu tão pouco - de repente toda a ira pareceu ter desaparecido do seu corpo. Ginny viu olheiras negras sob os seus olhos, marcas que nunca tinha visto nele e soube então que a tensão dos últimos dias começava a deixar-se notar.
Horrorizado pelo que tinha acontecido no restaurante do seu pai, Draco tinha andando a fazer visitas surpresa a cada hotel e restaurante que possuía, fazendo reuniões, partindo à alvorada até altas horas da noite num esforço por assegurar-se de que ninguém sofresse do mesmo modo que a família Weasley tinha sofrido.
E o que tinha feito ela em troca?
Queixar-se de que estava sozinha, comportar-se como uma menina consentida de dois anos para chamar a sua atenção.
E nesse momento tinha um grande amigo doente e encontrava uma esposa ciumenta que questionava cada movimento que fazia logo que ele chegava a casa.
Mas aquilo tinha acabado.
- Eu não gosto de discutir contigo, Draco. Desculpa se duvidei de ti. Ver a Pansy esta noite fez-me dar conta de como fui egoísta, não só com ela mas também contigo. As últimas semanas não podem ter sido nada fáceis para ti - engoliu saliva e tratou de calcular suas palavras mas não lhe saiu nada. O mais inquietante de tudo era a falta de resposta por parte de Draco ante a sua desculpa - O que tento dizer é que...
- Economiza as palavras - disse ele sem se alterar, sem nem sequer malícia na sua voz, embora Ginny tivesse preferido. As suas brigas passionais e confrontos intensos deixavam-na destroçada, mas aquela resposta nula ante a sua desculpa era ainda mais dolorosa, e abriu mais os olhos surpreendida ao ver que Draco virava-lhe as costas para dirigir-se às escadas.
- Draco, por favor.
Ele girou sobre os calcanhares e olhou-a, mas parecia tão exausto que momentaneamente Ginny ficou parada.
- Estou cansado, Ginevra. Levo dias acordando às cinco e voltando para casa depois da meia-noite. Espero que percebas que até eu preciso dormir.
- Não é da Pansy de quem quero falar, Draco. É de nós.
- Estou certo de que a discussão pode esperar até amanhã - disse ele com um sorriso.
O abismo que havia entre eles quando ela se deitou na cama parecia alargar-se infinitamente. Mentalmente desejava que ele se aproximasse dela como fazia todas as noites mesmo a dormir.
Menos naquela noite.
Uma mão tentativa e trémula da ruiva procurou um dos ombros fortes de Draco. Mesmo adormecido, ela podia notar a sua tensão, sentir os músculos apertados sob as suas mãos. Retirou a mão de repente quando ele, inconscientemente, afastou o ombro, e uma horrível premonição assaltou-a quando Draco virou-lhe as costas e se afastou mais dela e da sua vida.
oOo
Draco despertou com o primeiro som do alarme, saltou da cama com uma disciplina militar embora o seu corpo rogasse por mais umas quantas horas de sonho, e ela observou-o com olhos sonolentos. Ginny tinha passado a noite dando voltas na cama, e a dor na sua barriga era algo em que não queria pensar mas que não podia ignorar.
- Tens um aspecto horrível - disse ele enquanto fazia o nó da gravata.
- Não dormi muito bem - admitiu ela encolhendo-se na cama para ver se assim a dor desaparecia, desejando que ele partisse para que ela pudesse enfrentar aquilo. Ansiava por um pouco de intimidade.
- Isto talvez te faça sentir melhor – disse ele enquanto entregava a Ginny um montão de papéis que tinha tirado da sua maleta. Ginny sentou-se e começou a ler - São as escrituras do restaurante. Verás que o teu pai é o dono agora – acrescentou o louro enquanto ela sentia uma certa tristeza - É irrefutável, Ginevra. Os meus advogados estiveram a trabalhar nisso a semana toda.
As lágrimas alagaram os olhos de Ginny e ele estendeu uma mão para passar o polegar na face dela e logo depois retirá-lo.
- Não nos temos feito muito felizes um ao outro, não é? Estou cansado de brigar e de ver te tão mal, como uma prisioneira aqui. Não era o que pretendia - disse apertando a sua mão contra a de Ginny. Ela teve que morder o lábio para evitar que lhe caíssem as lágrimas - Já tens o que querias. Marcus saiu da tua vida e o teu pai tem o seu restaurante outra vez, que é exactamente o que ele merece.
- Mas e tu?
- Eu? - disse ele com uma gargalhada - Com a tua permissão, é obvio, direi à minha mãe que a minha única tentativa de casamento falhou, que a única coisa que queria no mundo eu perdi e que partiste da minha vida. Isso manterá afastada da cabeça dela a ideia de me ver casado de novo durante um par de anos pelo menos. Assim como vês, não foi uma completa perda de tempo.
Acabou! E Draco parecia aliviado.
- A Pansy… - começou a dizer ela, mas Draco abanou a cabeça.
- Não é só pela Pansy. Sabes muito bem. É culpa minha. Tu querias detalhes e eu neguei-me a te dar isso mas não pensei que tivesse que contar-te tudo.
Surpreendida, abriu a boca para detê-lo, para deter o horrível final, mas Draco continuou imparável. Era evidente que o seu discurso de despedida estava ensaiado.
- Eu não queria só diversão, não queria uma amante com um anel no dedo. Queria uma esposa, alguém em quem confiar e alguém para me apoiar.
- Eu quero ser tua esposa - rogou ela, mas ele voltou a abanar a cabeça.
- Snape é como meu segundo pai, já sabes. Disse-te isso várias vezes. Mas vieste alguma vez ao hospital comigo? Deste-me a mão? Estiveste ali comigo? Sei que o hospital te traz más lembranças do Ron, mas eu teria te ajudado a superar isso se tivesses ido comigo e me tivesses mostrado que te importavas.
- Mas eu importo-me - insistiu ela, mas foi como se não tivesse falado.
- Pansy não é minha amante. Repeti isto até não poder mais, mas tu empenhaste-te em não acreditar em mim. Eu não posso viver assim, não consigo enfrentar a acusação nos teus olhos cada vez que chego dez minutos atrasado a casa. Expliquei-te como eram as coisas no primeiro dia que estivemos juntos. Acreditei que confiarias em mim. Admito que disse coisas horríveis, mas foi pela agitação da briga, uma briga que continuamente instigaste. Estás-te a afastar de mim. Cada dia sinto-te um pouco mais longe, cada dia sinto mais a tua distância - ficou a olha-la durante mais um momento antes de lhe dar um beijo na bochecha - Ambos merecemos algo melhor, Ginevra. Sabes tão bem como eu.
Vê-lo partir, ver como ia embora era como se de repente lhe tivessem tirado o chão de debaixo dos pés. Queria lançar-se sobre ele, rogar por uma segunda oportunidade, por poder voltar no tempo. Mas lutando com as náuseas e a dor a única coisa que conseguia fazer foi cair de novo na cama. A porta fechou-se e as lágrimas finalmente saíram. A dor do seu estômago não era nada comparada com a do seu coração.
Tinha-o perdido, tinha perdido o único homem que tinha amado, e as náuseas triplicaram. Ao escutar o helicóptero afastar-se, levá-lo para longe, sentiu-se totalmente alagada pela dor. O suor corria-lhe pela cara e a dor de barriga aumentou ainda mais. Sentia como se o seu mundo tivesse desabado de repente.
Levantou-se a correr e conseguiu chegar à sanita a tempo de vomitar.
