SAVE ME

Capítulo 10. Razões

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Manhã.

Yune estava deitado na cama. Largado, exatamente como na madrugada. A garrafa de uísque no chão, praticamente vazia, assim como seu copo.

A dor de cabeça veio forte, pela bebedeira. O corpo nu, as roupas jogadas para o lado, assim como os lençóis. Já aqueles que cobriam o colchão, além de desarrumados, estavam marcados pelos vestígios dos delírios e fantasias da noite.

Apenas fantasias, porque ao fim sempre acordava sozinho. Kai não estava ali, deitado ao seu lado e em seus braços. Queria que ele estivesse por perto, mais do que já estava.

Sentou-se, sentindo a cabeça latejar. Amaldiçoou-se por ter bebido tanto, mas não adiantava se lamentar. Foi um deslize, e não dava pra consertar. O jeito era fingir para si mesmo que nada tinha acontecido.

Olhou o relógio. Sobressalto: era tarde. Já passara muito tempo desde a hora que costumava descer para ver seu moreninho e levar a primeira refeição.

"Ele deve estar morrendo de fome!" pensou, preocupado.

Levantou-se e saiu do quarto em disparada, indo para a cozinha.

Porão

De pé, Kai estava próximo ao banheiro. Estava andando, esticando as pernas, ainda que os movimentos resultassem em desagradáveis sons da corrente presa em seu tornozelo. Estava cansado de ficar parado, e precisava se mover, seguindo com o corpo, o rumo de seus pensamentos.

Não sabia que horas eram, mas imaginava que Yune estava atrasado. Talvez tivesse dormido demais e se atrasado. Talvez tivesse acontecido alguma coisa...

Se tivesse acontecido, poderia fugir? Haveria algum modo de sair daquele lugar?

Precisava esperar, calcular, planejar... sua situação não permitia erros. Um ato qualquer de sua parte podia significar tudo.

Aguardou por alguns minutos. Não soube o quanto, pois sempre, em algum momento acabava perdendo as contas. No fim acabou sentando no chão, encostado ao pé da cama e fechando os olhos, entregando-se a um momento fugaz de meditação. Um daqueles momentos onde não havia o medo, desconfiança ou desespero. Apenas uma tranqüilidade estranha, somente a espera.

Momento que durou até ouvir o barulho na porta. Assustou-se. Não queria sentir isso, mas era inevitável. Queria apenas poder dissimular, mas tinha plena consciência de sua falta de talento. Também sabia que nunca conseguiria enganar Yune.

Olhar para a porta ao escutar o barulho foi um impulso incontrolável, mas logo se arrependeu, pois em questão de milésimo, Yune percebeu que estava sendo observado.

Desviou os olhos de sua figura, voltando a encarar a parede, como se ali houvesse algo de muito interessante. Mas não estava tentando se distrair com aquela típica brincadeira infantil. Apenas não queria ter de encará-lo de imediato.

– Yuukee? O que está fazendo sentado aí?

Sem resposta. Kai não desviou o olhar, não fez gestos ou disse qualquer palavra.

– Eu me atrasei, gomen. Deve estar com fome... isso não irá se repetir.

Mais uma vez, não houve resposta. O moreno parecia distraído, com o olhar quase perdido. E Yune queria sua atenção, desejando saber o que fazia seu anjo parecer mais interessado em uma parede do que em seu carinho.

– Conseguiu dormir?

– Por que a pergunta? Você sabe a resposta. Sempre me dopa.

Foram essas as suas primeiras palavras. As primeiras que não foram de dúvida, desespero ou ódio. Primeiras depois de um longo tempo de silêncio.

Eram de acusação. Havia uma certa ironia também, mas já era alguma coisa. E Yune queria tanto ouvir sua voz... ainda que não tivesse o seu olhar.

– Você não dorme sem eles. Só faço isso porque precisa descansar. É pro seu bem.

– Hum, é bom saber que tenho quem cuide tão bem de mim.

Ironia. Sincera, mas ainda assim, ironia.

– Tudo que eu sempre quis foi cuidar de você. Tudo pro seu bem.

– Meu bem?

– Tudo o que eu faço é pro seu bem. Há quase dez anos só penso em cuidar de você. Tudo isso porque eu te amo.

Kai sorriu ao ouvir aquilo. Sorriso sarcástico, mas que nem por isso deixava de ser belo aos olhos de Yune.

– Amor é bem diferente disso que está fazendo comigo.

– E o que sabe sobre amor, Yukee? Você é tão jovem, não tem experiência, não tem vivência. Só se relacionou com uma pessoa. E agora que estamos juntos, vai descobrir que o Ishihara não significa nada.

– Como pode querer dizer o que sinto por alguém? – perguntou, elevando o tom de voz, deixando que sua tensão falasse mais alto.

– Sei o que pensa, Yukee. Sei tudo a seu respeito. Seus gostos, manias, planos, sonhos... sei o significado de cada gesto seu. Sei mais sobre você do que você mesmo. E sabe por que eu sei de tudo isso? Porque eu te amo. Não é atração, nem desejo. É amor.

– Então me prende aqui por amor?

– Nem sempre as coisas acontecem da forma que se planeja. Se está aqui, preso, como prefere dizer, foi por causa de seu queridinho. Ele me obrigou a tomar essa atitude... estava no nosso caminho. Tive de fazer isso por nós. Pra fazer com que nossa relação dê certo. Eu poderia ter feito algo contra ele... algo mais extremo, mas seria arriscado. Viveríamos com a sombra dele. Então tive de fazer isso.

– Não existe nenhuma relação entre nós.

– Como não? – riu-se, incrédulo – Vivemos grudados, saíamos juntos, dividíamos um apartamento. Sempre gostou da minha companhia...

– Nós éramos amigos! Era só amizade...!

– Da amizade pro amor é apenas um passo. Eu sempre te quis, mas tinha medo de te assustar. Passei anos construindo um vínculo entre nós, e tínhamos tudo a nosso favor até que Ishihara chegou e estragou tudo. – interrompeu-o, cortando quaisquer palavras que Kai pudesse ter. – Se eu não te amasse, desistiria, mas acredito na gente. Nós podemos dar certo. Sei que fui muito rápido, que tudo isso é muito novo pra você, mas tenho certeza que com o tempo, vai me entender.

Abaixou-se de frente a ele, tocando-lhe o rosto entristecido e vago e vendo-o desvencilhar-se, rejeitando-o.

– Pode estar sofrendo agora, mas tudo que estou fazendo é por algo maior. Vai ver, eu garanto.

Viu o moreno abaixar a cabeça, recusando a carícia, recusando-se a olhá-lo. Yune não gostou de sua reação, mas não o questionou nem repreendeu. Deveria entender seus sentimentos, e nem era tão difícil. Óbvio que deveria estar triste, confuso, aborrecido... mas precisava fazê-lo perceber que, no fim de tudo isso, seriam muito felizes juntos.

– Eu trouxe uma bandeja gostosa. Fiz rápido, mas prometo que não vou me atrasar de novo. Por que não come?

– Não estou com fome.

– Não tem problema. Vou deixar aqui. Coma quando tiver vontade.

Segurou em sua nuca, pretendendo um beijo. Tentou aproximar seus lábios do dele, mas o temor de uma rejeição o fez recuar.

Levantou-se, afastando-se e percebendo como Kai tinha o olhar voltado para a parede. Naquele momento, quis mais do que ter o corpo e o amor de seu moreno. Quis seus pensamentos, suas lembranças, passado, futuro... sua atenção... sua alma.

ooOOoo


Continua