CAPÍTULO 10

Eu sabia que deveria ter ficado sem graça quando fui acordado na manhã seguinte por Bianca, estando no sofá, completamente nu, tendo Bella no mesmo estado, abraçada ao meu corpo, nós dois cobertos apenas pela colcha grossa que tinha trazido no dia anterior. Mas Bianca já parecia estar tão constrangida com aquela situação, que me esforcei para não piorar as coisas.

— Dr. Cullen, já são sete e quinze — ela informou num sussurro, tomando cuidado para não acordar Bella. — Seu turno não começa em quarenta e cinco minutos?

Quase levantei de súbito, com o susto por estar atrasado, coisa que não acontecia há muito tempo. E só me contive porque se eu levantasse agora, a situação ali ficaria ainda mais constrangedora.

— Ah... Eu... — Bianca gaguejou, lançando um olhar para as minhas roupas no chão, ao lado das de Bella, e pareceu travar uma batalha para decidir se as pegava para me entregar ou não. Mas ela optou por sair da sala. — Eu vou... Vou preparar seu café.

Agradeci num murmúrio e me apressei a me vestir quando fiquei sozinho com Bella, deixando-a ali dormindo enquanto subia as escadas correndo para tomar um banho. Vesti a primeira roupa que encontrei e voltei para o andar de baixo, encontrando Bianca parada ao pé da escada com uma caneca térmica estendida numa mão, e minha maleta na outra.

— Obrigado, Bianca. Você é um anjo — agradeci, agindo sem pensar ao me aproximar e beijar seu rosto, me afastando em seguida. Apesar de nunca ter feito nada daquilo com Bianca, apenas pareceu a coisa certa a se fazer. Ela estava mesmo fazendo muito por mim nos últimos dias. — Não acorde Bella, está bem? Deixe-a descansar um pouco. Quando ela acordar, diga que eu ligo no meu intervalo.

— Sim, senhor, Dr. Cullen — Bianca murmurou, ainda parecendo surpresa com a minha súbita demonstração de afeto.

Despedi-me rapidamente e saí quase correndo para a garagem, conseguindo chegar exatamente às oito no hospital.

A semana seguinte passou tão rápido que era quase como se apenas um dia tivesse passado. E eu queria mais que tudo que fosse diferente. Queria que aquela semana passasse como se tivesse durado um ano ou mais. Porque aquela seria a última semana de Bella em Forks.

Ela agora dormia no meu quarto, me desejando um bom dia quando eu saía para trabalhar e sempre me esperando com um sorriso e um beijo quando eu chegava ao final do dia. E era com ela que eu passava meu intervalo conversando pelo telefone, seja na minha sala ou andando pelo jardim do hospital enquanto comia um sanduíche. À Noite, quando eu chegava do trabalho, jantávamos juntos e íamos assistir a algum filme ou simplesmente íamos direto para o quarto, onde ficávamos longas horas conversando, até que a conversa morria e o desejo assumia o lugar.

Apesar de, no fundo, saber que estava fazendo tudo errado, eu não conseguia agir de outra forma. Sabia que deveria estar usando aqueles últimos dias para me acostumar com a ideia de que Bella iria embora ao final de semana. Mas tudo que conseguia fazer era aproveitar cada segundo, sem sequer pensar no dia seguinte.

Mais uma vez chegou a sexta feira, e eu cheguei em casa tão cansado naquela noite, por ter dobrado o turno, que consegui apenas comer algo antes de cair na cama, exausto, tendo Bella ao meu lado, fazendo carinho nos meus cabelos.

Havíamos combinado de sair no sábado. Eu finalmente a levaria para conhecer a cidade – embora não houvesse muito para se ver – e, dependendo da sua vontade, também a levaria até La Push, a praia que ficava na reserva Quileute.

— Não consigo me decidir sobre a blusa, Carlisle — Bella falou, entrando no meu closet enquanto eu terminava de me vestir, segurando duas blusas nas mãos, parecendo bastante indecisa. Apesar de já ter visto seu corpo nu várias vezes, eu ainda ficava um tanto aéreo quando ela aparecia assim de surpresa, mesmo que apenas uma parte do seu corpo estivesse exposto. Mas o fato é que aquele sutiã ficava realmente bem em contraste com a sua pele alva. — Qual você acha melhor? — ela perguntou, exibindo as blusas à minha frente.

— As duas são bonitas, Bella — falei depois de me recuperar da visão do seu sutiã.

— Assim não ajuda em nada — ela reclamou, puxando as duas peças para longe de mim, e fez uma cara um tanto emburrada. Bella já estava saindo novamente quando seu olhar pousou na poltrona que ficava no canto do closet, onde eu tinha jogado uma camisa branca básica que tinha vestido agora pouco, mas mudara de ideia sobre o que ia usar, optando por uma parecida, mas azul. — Que tal se eu for com essa? — Bella perguntou, levando a camisa para o seu rosto e respirou fundo, abrindo um sorriso em seguida. — Está com o seu perfume.

E antes que eu falasse qualquer coisa, ela a vestiu. É claro que a camisa ficou grande nela, mas Bella não pareceu se importar e saiu sorrindo para calçar alguma coisa.

Nos encontramos novamente já no andar de baixo, e eu realmente apreciei o conjunto dela. A calça jeans escura justa ficou realmente bem com a minha camisa branca. Vendo-a vestir uma coisa minha, por mais que aquela peça não fosse do seu tamanho, era extremamente sexy.

— Tem certeza que quer ir conhecer a cidade? — perguntei, pensando seriamente em passar o dia em casa, fazendo coisas mais interessantes do que andar pela minúscula Forks.

— Tenho Carlisle — ela respondeu com um sorriso, rapidamente entendendo minha intenção. Ou talvez porque, pela a forma como eu secava seu corpo com os olhos, tivesse ficado um tanto óbvio.

— Uma pena — murmurei, me aproximando mais, e envolvi seu corpo com meus braços, puxando-a para mim. — Uma pena mesmo.

Um suspiro saiu da sua boca antes que eu a cobrisse com a minha, beijando seus lábios sem pressa.

— Eu realmente quero conhecer Forks, sabe? — Bella comentou, falando contra a minha boca, e foi a minha vez de suspirar, mas de frustração.

— Tudo bem.

Afastei-me do seu corpo a contragosto, pegando sua mão na minha e comecei a guiá-la para fora do hall da casa, em direção à garagem. Mas paramos quando ouvimos barulho de chaves na porta de entrada. Bianca provavelmente tinha vindo pegar alguma coisa que esquecera, embora eu me perguntava o que poderia ser tão importante para não poder esperar para a segunda feira.

E estava prestes a perguntar isso, vendo a porta se abrir, quando me dei conta de que ela não era a única que tinha as chaves da minha casa. Edward também as tinha. E foi ele que nós vimos entrar, com os cabelos assanhados pelo vento lá de fora, e um sorriso no rosto.

Soltei a mão de Bella de imediato, mas não tão rápido a ponto de ele não perceber, franzindo o cenho por um instante.

— Edward, o que você está fazendo aqui? — perguntei, com a única intenção de desviá-lo daquele gesto.

— O que mais poderia estar fazendo? Vim pegar a minha namorada.

Lancei um olhar para Bella, vendo que ela o encarava ainda em choque, sem conseguir esboçar nenhuma reação como, por exemplo, falar que ela não era mais namorada dele. Eu bem que queria que ela gritasse isso agora. Mas Bella continuou apenas encarando Edward, como se parecesse estar vendo um fantasma.

— E você aparece assim, depois de duas semanas praticamente sem dar notícias, como se nada tivesse acontecido?

— Não vêm me dar sermões, pai. Estou sem o mínimo saco para isso — ele falou sério, e então se aproximou, estendendo uma mão para Bella. — Vamos, Bella. Já comprei nossas passagens de volta para Phoenix. O voo sai em quatro horas.

Só então ela pareceu se recuperar, piscando rapidamente por um instante, e então, exatamente como eu queria que ela fizesse, Bella bateu na mão de Edward, afastando para longe.

— Você, Edward Cullen — ela começou falando por entre os dentes — é um imbecil de marca maior.

— Como é?

Meu filho era mesmo muito cara de pau. Fiquei impressionado com a sua capacidade para se fazer de chocado.

— Você acha mesmo que, depois do que você me fez, depois de você me deixar aqui nessa cidade, sozinha, para ir correndo para os braços daquela vagabunda loira, eu ainda iria querer ser sua namorada?

— Do que você está falando, Bella? Rose é minha prima e eu precisava...

— Precisava de quê? — ela o interrompeu, quase gritando. — Precisava de alguém para te chupar? Precisava daquela vadia para satisfazer seus desejos, seu filho da mãe? — E então, pegando Edward de surpresa, Bella ergueu uma mão, desferindo um tapa certeiro no seu rosto, deixando lá a marca dos seus dedos. — Eu odeio você, Edward!

— Ficou louca, Bella? — Edward perguntou, gritando também, levando uma mão ao rosto como se quisesse sentir se estava tudo no lugar certo. — Eu nunca tive nada com Rosalie. Nós somos só amigos. Só isso.

— Vai se ferrar! — Bella esbravejou, lhe dando as costas, mas Edward a deteve, segurando seu pulso, fazendo-a voltar para perto dele. — Me solta, Edward!

— Não até fazer você entender a verdade, meu amor.

— Não me chama de "meu amor", seu porco! — ela resmungou, tentando se esquivar.

Adiantei-me, resolvendo interferir naquela discussão, porque uma coisa era ele mentir na cara dela, outra muito diferente era ele ficar agarrando-a daquela forma na minha frente.

— Será que você não percebe que eu só tenho olhos para você, meu...

Mesmo quando ele se interrompeu, dando a oportunidade para Bella se afastar sozinha, eu continuei fazendo o que pretendia, puxando Bella para trás de mim, ficando entre os dois.

— Edward, você já foi longe demais. Deixe Bella em paz e...

— Você está vestindo uma camisa do meu pai? — ele perguntou, me interrompendo, embora falasse com Bella, olhando para a sua camisa com o olhar desconfiado.

Apesar de sentir o sangue abandonando meu rosto naquele instante, a resposta chegou à ponta da minha língua. Poderia apenas dizer que ela tinha ficado sem roupa, pelo tempo que estava aqui, e eu lhe emprestara uma camisa minha, apenas por hoje. Mas Bella não me deu tempo de falar aquela mentira.

— Estou. E daí? — ela falou, saindo de trás de mim e veio para o meu lado. — Seu pai, diferente de você, é um homem de verdade, Edward. É educado, atencioso e sabe como tratar uma mulher. — Tentei murmurar um alerta para Bella parar de falar, mas ela parecia bastante determinada a humilhar Edward. — Você é só um pirralha imaturo. Eu vejo isso agora. Sei que deveria estar te odiando profundamente por ter me deixado sozinha aqui, mas teve uma parte boa nisso tudo, sabe? Eu conheci Carlisle Cullen — ela continuou, lançando um rápido olhar na minha direção, um suave sorriso aparecendo nos seus lábios. — E ele é tudo que você não é.

— O que... O que diabos está acontecendo aqui? — Edward perguntou, sua expressão ainda exibindo confusão diante daquilo.

— O que mais é preciso para você entender, Edward? — Bella perguntou, carregando seu tom de ironia, e então, completando o cenário torto, entrelaçou seus dedos nos meus. — Preciso desenhar?

Eu queria realmente puxar a minha mão de volta, porque nada daquilo estava saindo como planejado. Na minha cabeça, Edward jamais saberia do que acontecera entre nós dois. Mas antes que eu pudesse tentar esboçar alguma reação, vi, como em câmera lenta, o punho de Edward vindo em direção ao meu rosto. Eu poderia ter desviado se quisesse. Ele não era assim tão rápido. Mas eu sabia que merecia aquilo.

No segundo seguinte eu cambaleava para trás, ouvindo um grito de desespero de Bella, que prontamente veio me amparar.

— Ficou louco, Edward? — ela gritou, me segurando pelos ombros quando eu me apoiei no corrimão de madeira da escada, vendo estrelas pipocando à minha frente. — Trair é fácil, mas ser traído dói, não é?

— Bella, pare — pedi num murmúrio, tentando encontrar um caminho para aquela situação não desandar ainda mais.

Mas quando ergui o olhar novamente na direção de Edward, vi que não havia mais volta. Ele estava lívido de raiva, suas mãos fechadas em punhos, e acho que ele só não partiu para cima de mim novamente, porque Bella ficou parada à minha frente. E meu filho poderia ser o que fosse, mas sabia que ele jamais seria capaz de levantar uma mão para uma mulher. Mesmo aquela mulher tendo lhe traído com seu próprio pai.

— Você... Vocês... — Ele falava por entre os dentes, seu corpo tremendo de leve, parecendo ter dificuldade para se controlar. — O que aconteceu entre vocês?

— O que você acha que aconteceu, meu amor? — ela perguntou, mais uma vez carregando a voz de sarcasmo, dando alguns passos na direção dele, até parar à sua frente. — Carlisle foi tão atencioso comigo, Edward — Bella continuou, deixando sua voz suave agora, levando uma mão ao braço dele, acariciando-o por cima do casaco de linha cinza. — Quando você foi embora, ele me deixou ficar para eu não ter que dizer aos meus pais o que tinha acontecido. Nós assistimos filmes, lemos livros muito interessantes e até dançamos uma noite dessas. Seu pai dança muito bem. E ele tem dedos incríveis também, sabia? E uma língua deliciosa. E acho que nem preciso dizer que a sua minúscula experiência no quesito sexual não é nada se comparado a tudo que ele me ensinou esses dias.

— Bella, pare com isso — exigi novamente, falando mais firme agora, mas isso só serviu para que Edward desviasse seu olhar enojado para mim.

— O santo Dr. Cullen, sempre bancando o homem correto e honesto. Quem diria, não?

— E sabe o que mais, Edward? — Bella continuou, não satisfeita com o estrago que estava fazendo, voltando até onde eu estava e me abraçou de lado pela cintura. — Eu tinha planejado perder minha virgindade com você nessa viagem, mas então percebi que você não era merecedor disso. Só posso dizer que fiquei muito feliz de não ter me entregado a você. Porque a minha primeira vez com Carlisle foi mágica.

— Bella, por favor, pare! — implorei dessa vez, me afastando dela, segurando-a pelos ombros com vontade de sacudi-la para fazê-la perceber o quanto estava sendo infantil. — Por que você está fazendo isso?

— Você não percebe, Carlisle? — Edward perguntou, um tom seco e irônico fazendo sua voz soar calma e controlada. Lancei um olhar na sua direção, vendo-o ainda apertando as mãos em punhos. — Ela te usou para se vingar de mim. Foi isso, não foi, Bella? Você usou meu pai porque era o meio mais eficiente de me atingir.

Aquilo era tão ridículo que me fez querer rir. E eu até teria rido de verdade se não tivesse voltado à atenção para Bella e visto a culpa nos seus olhos.

Foi como se eu tivesse levado um choque naquele instante, me obrigando a tirar as mãos dos seus ombros e recuar um passo.

Isso não poderia ser verdade. Bella não era assim. Ela era doce, meiga e inocente demais para aprontar algo desse nível. Algo tão baixo como esse absurdo que Edward estava insinuando. Ela não poderia ter armado esse tempo todo. Uma coisa era ela realmente ter ficado com raiva de Edward pelo que ele lhe fez. Mas me usar numa espécie suja de vingança? Não. Isso era impossível.

Certo?

Mas então por que ela continuava olhando para o chão, como se quisesse evitar meu olhar?

— Ela te enganou direitinho, não foi, Dr. Cullen?

— Vai se ferrar, Edward! — Bella gritou, voltando sua atenção mais uma vez para ele, falando com a voz tão afiada que parecia ser de outra pessoa. Alguém sem o mínimo de ressentimento. — Você é um filho da mãe que merecia muito mais do que isso! Se eu soubesse que você chegaria hoje, pode ter certeza de que daria um jeito de fazer você nos ver transando. Seria perfeito jogar nessa sua cara imbecil o quanto seu pai me satisfaz. O quanto ele é bom em me dar prazer. E eu ainda ia gemer bem alto para você ver o que perdeu me trocando por aquela vagabunda.

— E quem está sendo a vagabunda agora? — Edward perguntou, sorrindo de leve, arqueando uma sobrancelha.

E eu sabia que ele receberia o troco antes mesmo que Bella erguesse a mão mais uma vez, dando outro tapa no seu rosto, dessa vez tão forte que fez Edward cambalear para trás. Mas ele logo se recuperou, voltando para onde Bella estava e segurou seu braço com força, sacudindo seu corpo.

— Se você me bater mais uma vez, Isabella, eu juro que...

— Solte-a, Edward! — ordenei num grito, me apressando a puxá-la para longe dele, mais uma vez colocando-a atrás de mim.

— Você está mesmo defendendo essa vadia depois do que ela fez? — Edward perguntou, parecendo incrédulo com minha reação.

— Meça suas palavras, moleque! — esbravejei, me contendo com esforço para não devolver o soco que ele tinha me dado um pouco antes. — Eu não te coloquei no mundo para você se comportar dessa forma. Limpe sua boca imunda e pense mil vezes antes de tentar agredir a sua namorada.

— Eu não sou namorada dele — Bella me corrigiu, falando com autoridade, mas se calou antes de falar qualquer coisa a mais, quando me voltei na sua direção. Não sei o que ela viu no meu olhar, porque não sabia sequer o que estava se passando pela minha cabeça naquele instante, mas seja lá o que ela viu, a fez recuar.

— É sim, Isabella — retruquei, me surpreendendo ao ouvir minha voz soando calma, mesmo que por entre os dentes. — Vocês dois se merecem. — Se ela demonstrou alguma reação diante daquelas palavras, eu jamais saberia, porque aquela foi a última vez que olhei nos olhos de Isabella Swan.

Não sei quanto tempo passei trancado no meu escritório, tentando entender o que tinha acontecido. Tentando lembrar algum momento em que eu poderia ter percebido que aquilo tudo não passava de uma armação de uma mente infantil e doente de uma garota magoada pelo namorado. Eu queria colocar a culpa toda nela, mas sabia que eu é que tinha sido o culpado por me deixar levar por todo aquele tempo. Bella, desde o começo, me manipulara com seus joguinhos de sedução, primeiro me fazendo acreditar que não era virgem, depois me levando a crer que havia algum sentimento da sua parte também. Que eu não tinha sido o único a me deixar levar pelo coração.

Mas todo esse tempo, tudo não passara de um jogo sórdido de vingança, onde eu fora escolhido ao acaso, apenas por estar mais perto.

Todo aquele tempo pensara que Bella era inocente, mas eu tinha sido o ingênuo naquela relação. Mas a culpa era minha por me deixar enganar. Por achar que Bella poderia mesmo querer alguém como eu.

E pensar que eu quase me expus para ela, dizendo o que sentia. E que tinha pensado seriamente em pedir para mantermos uma relação à distância, onde eu prometeria visitá-la nas minhas folgas e a traria para passar as férias comigo, até que ela terminasse os estudos e então, num sonho louco e distorcido, eu a pediria para ficar comigo para sempre.

Sim. Eu tinha sido o ingênuo precipitado.

Quando finalmente saí daquele escritório, o sol já havia se posto completamente. A casa estava às escuras e nenhum som se fazia ouvir, a não ser aqueles que vinham da noite lá fora.

Subi as escadas ouvindo meus passos ecoando, sem me dar ao trabalho de acender as luzes. E como se obedecesse a um comando automático, deixei que minhas pernas me guiassem até o quarto daquela que tinha sido a responsável por, pela segunda vez na minha vida, me fazer pensar num futuro ao lado de alguém.

A porta abriu sem barulho nenhum, e eu passei longos minutos observando o cômodo agora vazio. A cama estava arrumada, e as cortinas abertas me permitiam ver um pouco do que poderia estar ali dentro. Mas não havia nada. Nenhum sinal sequer que poderia indicar que aquele quarto estivera abrigando alguém há apenas algumas horas. O closet pequeno estava aberto e, assim como o restante do quarto, completamente vazio.

Ela tinha ido embora. Isabella Swan tinha deixado a minha casa, Forks e a mim, sem uma única palavra de despedida ou um pedido de desculpas.

Só o que eu tinha agora eram as lembranças do que tinha sido. Nada mais que recordações de dias loucos, confusos e igualmente perfeitos, em que eu estive ao lado de uma bela mulher, que me fizera sentir importante e que, pela primeira vez, não me criticara pela minha falta de tempo por conta da minha profissão. Que me esperara à noite quando eu chegara cansado, que me abraçara feliz por simplesmente me ver, e que me queria sem pedir nada em troca. Agora eu sabia que tudo não passara de ilusão e mentiras. E por mais que eu estivesse odiando naquele dia, e que provavelmente continuaria odiando-a pelas próximas semanas ou meses, eu sabia que nunca deixaria de pensar nela, na sua voz doce, no seu sorriso contagiante, nas suas brincadeiras tentadoras, nos seus pés de anjo. Eu sabia que nunca deixaria de amá-la.