.mentira.

Já se passava da meia-noite quando Minerva ouviu pequenas e leves batidas em sua porta. Esperou apenas mais duas batidas para decidir se levantar e ver o que poderia estar acontecendo. Quando abriu a porta e viu que Pomfrey estava ali, o rosto quase vermelho e as mãos se remexendo, pensou o pior.

-O que houve, Poppy?

-O Sr. Potter e o Sr. Malfoy... Estão na enfermaria. – não foi necessário que a enfermeira dissesse mais alguma coisa. Minerva pegou seu roupão e o jogou sobre os ombros, saindo de seu quarto enquanto o apertava na cintura.

-O que aconteceu?

-Potter chegou carregando Malfoy, ambos sujos e sangrando. – Poppy viu Minerva a observando com um rosto surpreso. – Sim, Malfoy com as pernas machucadas e Potter com cortes horríveis na mão.

Minerva analisou o que a mulher disse, aquilo lhe indicava briga. Mas se eles haviam brigado, porque chegaram juntos na enfermaria? Teria que esperar por respostas, porque sinceramente ela não entendera muito bem o que acontecera ali.


Malfoy observou Potter mexer no machucado costurado na mão esquerda, a faixa tampando a linha que fechava os cortes feitos pela faca dele. Ainda estava sentado em sua cadeira observando Potter quando o outro o olhou, aqueles olhos verdes, ainda mais atentos que antes.

-Ela foi chamar a diretora.

-Seria um milagre essa velha não fazer isso. – Malfoy disse irritado já esperando para receber a bronca da diretora.

Harry observou Malfoy olhar para si, a irritação totalmente visível. Sabia que ele esperava tomar uma bronca da diretora, mas Harry também já estava esperando tomar uma bronca. Apesar que sabia bem que talvez a diretora não fosse tão severa com ele. E toda aquela sensação de que sentiam pena dele, e de como as coisas soavam falsas ao seu redor, voltaram com força.

Draco viu quando Potter fechou os olhos, tentando respirar rápido, batendo os dentes com certa força, como se estivesse querendo segurar algo com toda sua força. E foi então que quando o outro abriu os olhos novamente, ele viu. Os olhos por detrás dos óculos tortos estavam dilatados. As pupilas escuras pareciam tomar conta de todo o olho do outro e aquilo deixou Draco confuso.

-Tentando explodir Potter?

-Tentando continuar na realidade.

A resposta fez Draco ficar e silêncio enquanto via o outro sorrir para o nada, respirando mais calmo, mas a postura tensa, como se ele estivesse pronto para enfrentar alguém.

Ele via que Potter estava realmente lutando contra algo, realmente percebeu que escutava mais a voz do garoto agora do que em qualquer outra ocasião em que estava por perto. Ele falava com os amigos, mas nunca assim, nunca tanto. E ele sabia que era sua culpa, Potter sentia necessidade de enfrentá-lo, sentia necessidade de rebater o que ele dizia, e isso inflama a discussão. Draco adorava discutir com Potter, por que isso alimentava a fera que morava dentro de si e que sentia ódio do moreno. Sabia também que seu ódio estava alimentando Potter. Era uma situação onde todos ganhavam com a rivalidade que sentiam.

Ouviram passos se aproximando e quando as portas da enfermaria se abriram, a diretora Minerva entrou quase que marchando, olhando de um garoto para o outro, avaliando os estragos. A senhora observou atentamente Potter e depois Malfoy, vendo os ferimentos, os hematomas que começavam a aparecer e os machucados já limpos.

-Muito bem, quem vai me dizer o que aconteceu e porque estavam fora da cama nesse horário?

Por alguns segundos, Harry encarou Malfoy, pensando se deveria dizer algo ou deixar que o loiro se enforcasse. Mas Malfoy apenas o mirou com a mesma intensidade, sabendo que se começasse a falar, a velha descontaria trilhões de pontos da Slytherin, e isso ele não iria permitir. Harry abaixou a cabeça por um segundo, a coragem enchendo sua boca e as palavras deslizando por seus lábios.

-Malfoy e eu apenas perdemos noção da hora.

Madame Pomfrey, Minerva e Draco ficaram atônitos com a resposta do rapaz. Eles o olhavam parado ali, sentado na cama, com os braços cruzados e os olhos fitando todos eles, como se ele não entendesse o que estava acontecendo. Minerva limpou a garganta antes de continuar.

-E você se bateram?

-Uma conversa acalorada.

Malfoy quase quebrou o pescoço virando para olhar da diretora para Potter, que mentia descaradamente para a diretora. Seus olhos eram questionadores, e quando viu Potter lhe olhar, percebeu que deveria concordar com isso, ou seria pior para ele. Porque a diretora iria trucidar os dois se soubesse que Potter estava mentindo. Com certeza o culpariam, e essa não era uma culpa que Malfoy queria.

-Uma conversa acalorada? Sr. Malfoy?

-Sim, foi isso. Quidditch.

Harry sorriu um pouco mais, e quando a diretora voltou a olhar para ele, ele a observou seriamente, olhando fundo em seus olhos, evitando desviá-los e deixar que ela visse que era mentira. Minerva percebeu que algo não se encaixava ali, tinha algo de estranho naquela situação, era praticamente impossível que Harry Potter e Draco Malfoy estivesse apenas conversando e que por causa de Quidditch tivessem discutido e trocado socos.

Ela sabia que poderia aplicar detenções até que eles dissessem o que estava acontecendo. Mas então, lembrou-se do que Poppy disse, que Potter havia chegado carregando Malfoy. E olhando na cama, ao lado de Harry, ela viu a gravata verde e prata da Slytherin suja de sangue. Aquilo viera enrolado na mão de Harry. Algo estava acontecendo, eles estavam realmente se dando bem. Mas, por quê?

-Muito bem. – disse resignada, ao ver que nenhum dos dois falaria mais alguma coisa. – Tirarei cinqüenta pontos de cada casa, e espero sinceramente, não vê-los mais fora da cama, após o toque de recolher.

Ambos assentiriam, e Minerva saiu, balançando a cabeça. Não estava entendendo o que acontecia, mas ficaria de olho nos dois rapazes, descobriria o que eles estavam aprontando. Madame Pomfrey disse que chamaria o diretor da Slytherin para ajudar Malfoy a chegar lá, mas Harry se ofereceu, fazendo o outro negar várias vezes antes de desistir da discussão que começaram e aceitar.

Harry levou muitos minutos para ajudar o outro a andar, mas quando finalmente chegaram na entrada da Slytherin, Harry apoiou Malfoy na parede, e virou-se voltando pelo corredor.

-Até amanhã, Malfoy.

Draco apenas olhou por cima do próprio ombro antes de dizer a senha e entrar no Salão Comunal.