Capítulo 09 - Haruka

Ele desembarcou na estação como se estivesse estado ausente por décadas.

A temperatura estava alta e deixar a tranquilidade e leveza do ar condicionado foi uma decisão difícil. A plataforma, os bancos, a máquina de refrigerantes... tudo estava exatamente como ele se lembrava, mas ao mesmo tempo tudo estava diferente. Os quatro rapazes respiraram fundo em uníssono e o primeiro a reclamar do calor foi Rin, seguido por Nagisa. Está calor... eu quero me livrar dessas roupas e me jogar em uma grande...

O pensamento cessou e seus olhos se arregalaram. A mesma sensação de falta de ar começou a precipitar-se, mas não chegou a continuar. Haru sentiu algo esbarrar em seu ombro direito e precisou de alguns segundos para entender o que a pessoa ao seu lado estava falando.

"Sua mala..." Makoto tocou seu ombro e a indisposição desapareceu. "Quer ajuda? Nós vamos para a mesma direção."

"Não, obrigado." Ele apontou para as rodinhas e somente naquele instante percebeu que os outros dois amigos haviam encontrado sombra nas escadarias.

Os quatro seguiram juntos até a saída da estação. Ali o calor do sol os pegou em cheio, mas por pouco tempo.

O moreno viu quando duas pessoas saíram de dentro de um carro e correram naquela direção e se jogaram nos braços de Makoto. Ren e Ran haviam crescido, porém, começaram a chorar enquanto escalavam o irmão mais velho.

"Bom dia," a mãe de Makoto aproximou-se segurando uma sombrinha enquanto o pai acenava do carro. "Eu vou deixá-los em casa. Está muito quente hoje."

"Ooh! Obrigado!"

Nagisa sorriu e foi o primeiro a se aproximar do veículo. Rin agradeceu o convite, mas informou que ficaria na estação porque esperaria por um amigo. Sousuke ligou naquela manhã e avisou que não conseguiria pegar o trem no mesmo horário devido a um imprevisto na universidade. Nós estávamos no meio do caminho quando ele ligou avisando que chegaria no trem depois do nosso. Haru e Makoto se despediram com um aceno e seguiram na direção do carro. Menos um para atrapalhar... Ele sentou-se e seus olhos foram automaticamente para fora da janela. Qualquer sinal de ansiedade havia desaparecido e Haru voltou a experimentar a calma e tranquilidade que sempre fizeram parte de seu ser. Talvez seja a cidade. Eu estou de volta.

O louro foi deixado na porta de sua casa e eles prometeram que jantariam na casa de Haru no próximo final de semana. O restante do caminho foi passado entre conversas e o moreno respondeu prontamente a todas as perguntas que a Sra. Tachibana tinha sobre a Austrália. Eventualmente Ren e Ran fizeram as perguntas e durante alguns minutos ele basicamente resumiu sua rotina que era ginásio-casa, casa-ginásio. Os pais de Makoto o deixaram no início da escadaria, comunicando ao filho que retornariam depois que fizessem compras e pedindo que ele se refrescasse enquanto esperava.

A subida foi feita em silêncio, até a entrada da casa do rapaz de cabelos castanhos. A inevitável despedida, no entanto, não aconteceu e ele virou-se antes que sua companhia pudesse dar as costas e fugir novamente.

"Esta noite eu vou te esperar, Makoto."

"T-Talvez seja melhor conversarmos amanhã. Você deve estar cansado da viagem, Haru." Os olhos verdes não o encaravam diretamente e aquilo só serviu para alimentar um pouco mais sua ira.

"São pouco mais de onze da manhã, eu dormirei a tarde inteira, não se preocupe." Ele virou-se totalmente e o olhar que lançou foi autoexplicativo. "Eu vou te esperar."

"Certo..."

O amigo esforçou-se para sorrir e retirou as chaves do bolso à medida que Haru subia o restante dos degraus. Seu coração batia rápido e a sensação de tranquilidade começava a se dissipar. Ele queria conversar seriamente com Makoto e sabia que não existia outra alternativa, contudo, havia uma parte em seu coração que temia o resultado daquela conversa. Ele disse que não me odeia, o que era o que mais me preocupava. A porta de sua casa foi arrastada e ele avisou que chegara, mesmo sabendo que não haveria ninguém para recebê-lo. As malas foram deixadas no corredor e ele não se deu ao trabalho de desfazê-las ou arejar a casa.

As roupas foram retiradas pelo caminho e ao chegar ao banheiro Haru estava completamente nu. A torneira da banheira foi ligada e ele sentou-se e jogou a cabeça para trás, encarando o teto e sentindo a água inundar aquele pequeno espaço. Só mais algumas horas...

x

O moreno realmente dormiu, mas somente por metade da tarde. A outra metade foi passada limpando a casa, trocando a roupa de cama e dedicando-se às tarefas domésticas. Quando o sol finalmente se pôs, ele seguiu para a cozinha onde preparou a mesma coisa que havia comido no almoço e que fora comprada em uma rápida visita ao mercado: mackerel. Dessa vez, uma simples salada acompanhava o prato principal e ele acomodou-se em frente à mesinha de centro, assistindo a tv enquanto jantava. Após lavar a louça, Haru sentou-se na soleira do jardim, deixando que seus pés balançassem e sabendo que não tocariam o chão. Hoje teremos uma bela noite. O alaranjado havia dado espaço para o azul escuro, salpicado por brilhantes estrelas. A temperatura estava amena se comparada ao calor durante o dia e às vezes uma leve brisa soprava, mas não forte o bastante para mover seus cabelos.

Haru permaneceu sentado na mesma posição por longos minutos apenas admirando o céu. As noites na Austrália continham semelhante beleza, entretanto, Iwatobi reservava sensações que ele não encontraria em lugar nenhum, nem mesmo Tokyo. Todas as suas lembranças estavam ali, as boas e as ruins, e passar tanto tempo fora de casa o deixou saudoso. Ele recordou-se das centenas de noites de verão que passou exatamente ali, sentado naquela soleira e tendo Makoto como companhia. Os dois tomariam sorvetes recostados à porta de madeira, muitas vezes sem trocarem uma palavra. A companhia um do outro era suficiente e ele tinha certeza de que naquela época nenhum deles pensava que aquela calmaria pudesse acabar.

Ele virá? O moreno sabia que ainda não era oito da noite, mas para alguém que costumava viver em sua casa não tê-lo por perto era triste. A distância entre o Japão e a Austrália era compreensível, todavia, o que os separava naquele momento eram alguns lances de escada. Talvez eu devesse ir lá. Suas sobrancelhas se juntaram e ele se pôs de pé, ansioso demais para ficar parado. Aquele movimento coincidiu com duas batidas na porta e seu estômago deu voltas, mas seus pés percorreram a curta distância com passos rápidos.

Makoto tinha um refratário de vidro em suas mãos e um sorriso tímido que combinava com sua camiseta listrada, decorada com um gato preto bordado em cima do bolso. Haru jamais poderia descrever o que sentiu ao vê-lo. Sentimentos e emoções nunca foram seu forte, porém, naquelas últimas semanas seu coração parecia andar de montanha russa, e estar ao lado daquela pessoa era ao mesmo tempo excitante e melancólico. Eu não costumava me sentir dessa forma. Makoto é de casa, praticamente vive aqui, mas algo está diferente. Ele esperava que a conversa que teriam pudesse dar as respostas que tanto necessitava.

"Minha mãe comprou uma melancia e pediu que eu trouxesse alguns pedaços para você."

"Obrigado."

Haru esticou as mãos, segurando o refratário e adentrando ao corredor, sabendo que seria acompanhado. As melancias foram colocadas na soleira do jardim, onde ele voltou a se sentar, servindo-se e ficando feliz ao ver que um pequenino saleiro acompanhava a sobremesa. O rapaz de cabelos castanhos sentou-se do outro lado e aceitou o pedaço que lhe foi oferecido.

"Faz mais de um ano que eu estive aqui." Sua voz soou terna.

"Você visitava seus pais com frequência?"

"No primeiro ano da universidade sim, depois somente nos feriados e na época de férias. Eu passei a dar aula e não podia me ausentar."

"Makoto..."

"Eu sei," ele encarou o pedaço em suas mãos antes de mordê-lo. "Eu não vou mais fugir, Haru, mas você talvez não goste do que vou dizer."

O moreno tentou ao máximo soar natural, no entanto, a tensão que aquela frase causou foi difícil de disfarçar. Conversar seriamente com Makoto era algo que acontecia raramente, pois ambos sempre se compreenderam bem demais e sem a necessidade de longos diálogos. Contudo, o que aconteceu só provava que talvez aquela amizade precisasse muito mais do que olhares e silêncios cheios de significados.

"Eu quero que me diga o que aconteceu. O que eu fiz para que você decidisse se afastar de mim."

Makoto não respondeu prontamente.

O pedaço em sua mão terminou após quatro mordidas e a casca foi pousada em um canto do refratário. Os olhos esmeraldas fitaram o céu e depois de respirar fundo ele se pôs de pé, pisando no jardim e fazendo Haru arrepiar-se ao recordar-se da última conversa que tiveram e que fora exatamente naquele mesmo lugar e acompanhada por aquela sobremesa. Dependendo do rumo dessa conversa eu nunca mais comerei melancia na vida...

"Você se lembra do dia em que eu me eu me confessei a você?"

"Sim, no final da primavera."

"Estava quente, não como hoje, mas a tarde estava abafada." O amigo caminhava enquanto falava. "Aquela foi minha última tentativa de colocar um ponto final nos meus sentimentos. Eu fui apaixonado por você durante a vida toda, Haru, e em agosto me mudaria para Tokyo e você iria pouco depois para a Austrália. Eu precisava de alguma forma de conclusão para aqueles sentimentos."

"Você nunca me disse isso." Ele tornou-se sério. Haru se lembrava claramente das palavras de Makoto quando ele se confessou e nenhuma delas envolvia aquilo. Ele gostava de mim desde que éramos crianças? Não é possível, são anos...

"Eu sei. Naquele tempo não era importante, mas eu prometi que contaria tudo hoje a você." O sorriso pareceu triste. "Eu vim aqui esperando que você me rejeitasse, mas então você disse que estava tudo bem e que aceitava meus sentimentos. Eu não sabia o que fazer e fiquei muito feliz durante um tempo, mas então, conforme a realidade se aproximava, percebi que era uma questão de tempo até que eu acordasse daquele sonho. Se não bastasse a inevitável distância que estaria entre nós, eu não poderia mais ignorar o que estava acontecendo. Eu sabia que você não sentia o mesmo por mim e que só aceitou minha confissão por perna ou consideração."

"Isso não é verdade." O moreno fechou a mão que estava sobre a soleira de madeira. Aquele último comentário o deixou irritado. "Eu nunca senti pena de você, eu aceitei sua confissão porque parecia a coisa certa a fazer."

"Eu não estou te culpando de nada, Haru." Makoto parou de andar. "E também não importa. Eu precisava terminar aquele relacionamento, pois não era justo que você fosse para a Austrália e algo permanecesse te prendendo no Japão."

"Nós poderíamos ter pensado em alguma coisa. Eu não treino sempre, eu tenho férias e feriados..." Makoto estava certo. Eu não gosto do que estou ouvindo.

"Você se lembra o que respondeu quando eu disse que gostaria que terminássemos?"

As sobrancelhas se juntaram devagar e a cena se repetiu diante de seus olhos, como se ele pudesse revê-la mais uma vez. Haru começava a entender porque as palavras de Makoto o incomodavam tanto e porque era tão difícil escutá-las. Eu não sou a mesma pessoa. Eu realmente concordei com o término. Seus lábios se tornaram uma fina linha e não havia nada que pudesse ser dito e que tivesse qualquer efeito. A responsabilidade pesava em seus ombros, entretanto, o peso em seu coração era muito maior.

"Sabe, quando você apenas concordou comigo doeu, mas me fez ter certeza de que era a coisa certa a fazer. Eu precisava te livrar daquele fardo e o que veio depois foi a minha vez de me livrar do meu." O rapaz de cabelos castanhos colocou as mãos dentro dos bolsos da bermuda. "Eu escolhi deliberadamente me afastar de você, Haru, porque não havia nenhuma outra maneira de eu te esquecer. Os primeiros seis meses foram terríveis. Eu amava falar com você, fosse por mensagens ou através do telefone, mas depois que desligava eu me sentia miserável, pois não conseguia superar aqueles sentimentos. Então eu tive de tomar uma decisão e hoje sei que não foi a mais sábia, mas entenda, eu estava desesperado para te esquecer."

"Falar comigo... te machucava tanto assim?"

"Sim." Embora sua expressão não estivesse totalmente séria havia uma visível nuvem sobre os olhos verdes. "Nós sempre estivemos juntos por isso foi tão difícil me privar da sua presença, mesmo distante. Eu estava sempre ouvindo sobre você através de outras pessoas, principalmente Rin. Saber que você estava vivo e bem já era suficiente para mim."

O moreno havia juntado as mãos na metade da conversa e as encarava durante aquela pausa. Ele entendia os motivos do amigo e suas desconfianças haviam se mostrado corretas. Ele suspeito que o fim do relacionamento houvesse sido o catalisador, todavia, não ousou tocar no assunto. Eu tenho minha parcela de culpa por esse afastamento. Foram inúmeras as vezes que encarei meu telefone ou a tela do computador, mas não tive coragem de entrar em contato. Seus olhos se fecharam e as batidas de seu coração se tornaram mais rápidas, anunciando que seria uma questão de tempo até que ele começasse a sentir o mal-estar que o assombrava há meses. Eu preciso fazer alguma coisa. Eu sugeri a conversa e preciso manter meu lado do acordo. Makoto deve ter juntado toda a sua coragem para me dizer essas coisas.

"Eu sinto muito," o pedido de desculpas soou baixo. Ele não estava acostumado a se desculpar com aquela pessoa. "Naquele dia, eu fui leviano com os seus sentimentos." Não... não é somente isso. Haru juntou as sobrancelhas e levou a mão esquerda até a altura do peito, apertando o tecido da camiseta azul escura. "Eu fui leviano com os meus próprios sentimentos. Eu nunca deveria ter aceitado sua confissão sem uma forte resolução da minha parte. Eu fui irresponsável e presumi que seus sentimentos por mim fossem garantidos somente por que éramos amigos de infância, desculpe."

"Você não precisa se desculpar, Haru." A ternura naquelas palavras tornou seu coração ainda mais apertado. "Eu só estou expondo o que aconteceu para que possamos virar essa página."

"Não, eu preciso. Eu não entendia os meus próprios sentimentos. Quando você se confessou, Makoto, eu aceitei porque realmente acreditava que fosse o curso natural que as coisas deveriam seguir."

"Éramos dois garotos, Haru, não existe nada de natural nisso." Makoto colocou a mão na nuca e pareceu incomodado. "Eu sempre soube que meu amor não era natural. Eu me confessei certo de que me rejeitaria por sentir nojo ao saber que outro homem nutria aqueles sentimentos por você."

"Eu jamais sentiria isso." Suas sobrancelhas voltaram a se juntar.

"Eu sei e quando você me aceitou eu fiquei tão feliz que chorei quando cheguei em casa, mas depois... depois eu me dei conta do peso que havia colocado em suas costas, principalmente quando começamos a ficar mais próximos. Você aceitou minha confissão, mas não fazia ideia de que vinha com beijos e outras coisas, não é?"

Ele sentiu-se corar e virou o rosto automaticamente para o outro lado. Haru lembrava-se muito bem dos momentos íntimos, ainda que não houvessem sido muitos. Makoto foi meu primeiro beijo. Na época, aquele contato não lhe tirou muitos pensamentos e ele não deu a devida importância. Beijar parecia complicado e todas as vezes que Makoto o tocava a timidez falava mais alto e ele acabava se esquivando. O moreno não costumava pensar profundamente nas necessidades físicas inerentes a um relacionamento. Sua própria intimidade sempre foi vista como obrigação e ele preferia cruzar uma piscina de um quilômetro sem pausas a passar um minuto desvendando o próprio o corpo.

Porém, isso foi antes.

Antes de descobrir que seus sentimentos por Makoto sempre existiram, mas estiveram adormecidos e mascarados por uma íntima e sólida amizade. Aquela situação toda serviu unicamente para que ele se arrependesse por não ter dado valor àquele amor quando ele foi confessado. Os poucos beijos eram lembrados todas as noites e sempre o faziam corar. Depois que o reencontrou, ao voltar da Austrália, Haru pegou-se sentindo coisas que nunca havia sentido: arrepios, calafrios e desejos. O auge de suas descobertas aconteceu após seu primeiro sonho erótico com o amigo, que o fez levantar do futon de Nagisa e ir às pressas até o banheiro. E, então, pela primeira vez em vinte anos ele sentiu real prazer em tocar-se, apesar de que aquela realização tenha sido seguida por culpa e vergonha.

As descobertas, no entanto, não foram somente físicas. Certas atitudes que não lhe causariam reação alguma em outro tempo agora faziam seu sangue ferver. Um bom exemplo foi a irritação que Haru sentiu ao ver o modo como Makoto estava constantemente em contato com outras pessoas. O amigo sempre foi amável e gentil, mas aquela gentileza, sendo destinada a outros, não lhe agradava. Naquela noite que ele dividiu a cama com Nagisa eu praticamente não peguei no sono. Eu sabia que era egoísmo, mas queria puxá-lo para o futon. Eu não tinha ideia de que era tão possessivo. Ele me faz descobrir coisas novas sobre mim todos os dias.

O resultado de todas aquelas realizações não o surpreendeu, somente foi motivo para tristeza. Makoto estava livre de seus sentimentos, contudo, ele havia se tornado refém de emoções tardias e que, aparentemente, já haviam sido esquecidas. Aquela conversa provavelmente tiraria o peso das costas do amigo, mas o seu continuaria indefinidamente e Haru se perguntava se aquela não seria sua punição por ter percebido tarde demais que sempre esteve apaixonado por Makoto.

"Ouça, Haru," O rapaz de cabelos castanhos aproximou-se, afastou o refratário e sentou-se ao seu lado. "Isso tudo é passado. Ter você ao meu lado novamente é a melhor coisa que poderia ter me acontecido. Eu senti muita falta da sua amizade e se você ainda estiver disposto eu ficarei imensamente feliz se pudéssemos ser amigos mais uma vez. Eu prometo não me afastar nunca mais de você."

Passado... Ele virou o rosto para encará-lo e engoliu seco. Seu coração tornou-se aflito e o moreno sentiu o peito mover-se com rapidez conforme a respiração começava a ser feita manualmente. A ansiedade e o medo o envolveram e a sensação de que ficaria sem ar e acabaria se afogando foi tão forte que por um instante ele achou que fosse desmaiar.

"Você está bem, Haru?" Os olhos verdes o encararam preocupados.

Um toque.

A mão direita tocou seu rosto e toda a angústia desapareceu, como a água descendo por um ralo. Os olhos azuis se arregalaram e Haru entendeu o que estava acontecendo. Ele já havia percebido que ao lado dos amigos suas crises passavam rapidamente ou até mesmo nem sequer aconteciam, entretanto, aquela era a primeira vez que ele compreendia exatamente a raiz do problema.

Era realmente passado? Havia alguma chance, a menor que fosse, de Makoto ainda nutrir algum sentimento por ele além da amizade? Se sim, Haru se sentia confiante o bastante para tentar uma aproximação? Ele não sabia.

Ele não fazia ideia se tinha o que era preciso para conquistar uma pessoa, ainda mais Makoto que era popular e provavelmente o interesse amoroso de várias pessoas, mas não poderia ficar com essa dúvida em seu coração. Naquela noite eles estavam sendo honestos, não? E honestidade era uma estrada de mão dupla.

"Makoto, eu quero que me responda com sinceridade," O moreno inclinou-se e suas mãos o seguraram pela camiseta, apertando o tecido entre seus dedos, "mesmo que isso signifique me machucar, eu não me importo."

"C-Certo," O amigo o olhou ainda mais preocupado, "eu prometo."

Haru engoliu seco, respirou fundo e fez a pergunta que mudaria o curso de sua vida para sempre:

"Você ainda me ama?"

Makoto claramente não esperava ouvir aquelas palavras, visto que a mudança em sua postura e fisionomia foi visível. Seus olhos passaram de preocupados e gentis para sérios, e suas mãos se ergueram tocando as de Haru e as retirando de sua camiseta. Aquele foi um momento difícil, e ele ouvia as batidas de seu coração como se estivesse em sua garganta. O silêncio, todavia, foi a pior parte e cada segundo tinha o peso equivalente ao de horas. Ele queria repetir a pergunta, mas sabia que aquela coragem momentânea foi fruto de seu desespero. Espontaneidade não era característica de sua personalidade.

"Haru..." As mãos que seguravam as suas se abaixaram e os dedos se entrelaçaram discretamente. "Eu disse, não foi? Que você não iria gostar do que ouviria? Eu te amei durante a vida toda e muita coisa aconteceu..."

Ele vai me rejeitar. Makoto vai me rejeitar com toda a gentileza do mundo e e

"Você não supera esse tipo de sentimento. O amor que eu sinto por você é para a vida toda, mesmo que você não goste de saber disso."

Haru sentiu como se houvesse mergulhado em uma profunda e límpida piscina. A tensão, os problemas e a vida lá fora desapareceram completamente e nada mais importou além daquele momento. Seu braço direito moveu-se, seguido pelo esquerdo, como em uma braçada. Todavia, eles não cortaram a água e seus dedos, na verdade, voltaram a puxar a camiseta de Makoto, que nessa altura estava toda amassada... ou fadada a isso. Seu corpo projetou-se à frente e tudo fez sentido. Se sua atitude seria repreendida futuramente pouco importava; a única forma de seguir em frente era deixar os medos para trás e abraçar o desconhecido, o que, naquele instante, estava longe de ser totalmente estrangeiro.

Ele conhecia aquela pessoa a sua vida inteira.

Moralmente ele nunca concordaria com aquela atitude, mas o mesmo não poderia ser dito sobre a forma como seu corpo se lembrava de cada detalhe. Seus lábios tocaram os de Makoto e, ao contrário do último beijo trocado na sacada de Nagisa, aquele não foi tímido, gentil e transbordando medos e inseguranças. O moreno não havia beijado ninguém na vida além de Makoto e certamente não saberia explicar onde aprendeu tamanha ousadia, porém, não foi difícil deixar que sua língua invadisse a boca do amigo.

Toda ação gerava uma reação e Haru sabia que sua atitude seria respondida à altura. As mãos envolveram sua cintura e ele sentiu o corpo sentar sobre o colo do rapaz de cabelos castanhos com facilidade enquanto o beijo era intensificado. As sensações que aquela carícia proporcionava seriam impossíveis de serem descritas. Ele não havia sentido nada igual antes, assim como nunca achou que desejaria outro ser humano como desejava Makoto. Seu grande amor sempre foi a água e ele achou que ela seria suficiente. Eu estava errado. Aquele que eu sempre precisarei para o resto da vida é Makoto.

O moreno não teve ideia de quanto tempo ficaram presos naquele beijo e nem como suas costas encontraram o piso de madeira da soleira. As bocas se entreabriram sedentas e necessitadas por ar, no entanto, os lábios se conservaram próximos, esbarrando e provocando, como se esperassem para ver quem cederia primeiro. Isso, claro, até a realidade atingir Makoto, e seus olhos embaçados por desejo se arregalarem e ele se jogar para trás, encarando-o com assombro. Eu não posso permitir que ele peça desculpas.

"D-Des—"

"Eu te amo, Makoto." Sua primeira confissão saiu como algo que ele diria para a moça da loja de conveniência ou o atendente de qualquer restaurante familiar. Contudo, intimamente seu coração batia acelerado e ele desejou ser mais expressivo e menos introvertido. "Eu estou atrasado, desculpe."

A última parte foi seguida por um toque naquela bela e gentil face. Ele não sabia nenhum outro modo de transmitir seu amor e entre calar-se para sempre e ouvir uma rejeição, a segunda opção não soava ruim. O amigo jamais o magoaria intencionalmente e se seus sentimentos permaneciam inalterados, então Haru tinha a chance de finalmente oferecer o amor que aquela pessoa tanto merecia.

"Você está falando sério, Haruka?" A indagação veio seguida por duas fortes mãos que o seguraram pelos braços. Eu me esqueço como ele é grande e forte. O incômodo em seus membros não foi nada se comparado à estranheza por ouvir-se chamado daquela forma. Makoto nunca o chamava de Haruka.

"Eu não brincaria com essas coisas, e não me chame de Haruka, Makoto."

"D-Desculpe, mas..." O rapaz aliviou o aperto, porém, suas mãos permaneceram onde estavam.

"Eu percebi meus sentimentos tarde demais, eu sei. Eu precisei que você me abandonasse para que tudo fizesse sentido." A cada palavra ele lutava para tentar soar o mais sincero possível. Aquele beijo foi sua melhor cartada e nele foram depositadas todas as frases que ele infelizmente não seria capaz de formular. "Se... se você não sentir o mesmo, apenas me diga, eu não qu—"

"Eu te amo." Os olhos esmeraldas se tornaram sérios e o doce e gentil Makoto Tachibana transformou-se em um convicto homem de quase vinte anos que tinha literalmente à sua frente o amor de sua vida e que faria o impossível para não perdê-lo. "Eu sempre te amei e tenho certeza absoluta de não há espaço para mais ninguém em meu coração. Meus sentimentos por você continuam os mesmos."

Makoto tocou as mãos de Haru, acariciando-as com seus dedos e levando-as até os lábios, onde depositou um gentil beijo, seguido por um daqueles sorrisos que o moreno amava. Ele vai chorar... Haru sentiu-se sorrir ao vê-lo passar as costas de uma das mãos rapidamente sobre os olhos e aquele foi sem dúvidas o momento mais tranquilo desde seu retorno ao Japão. Ele não sabia o que fariam a partir daquele dia e como lidariam com a distância. Nada disso importaria pelo menos até o final de julho. Ambos dariam aqueles passos lado a lado e decisão alguma os separaria novamente. Então é assim que Rin se sente. Haru sempre imaginou como o amigo conseguia viver visitando o Japão a cada oportunidade.

"Haru..." A voz o trouxe de volta à realidade. "E-Eu posso... te beijar de novo?"

"Você vai pedir todas as vezes?"

"S-Sim, digo, não! Q-Quero dizer, e-eu não sei..." O modo como aquele homem perdia-se nas palavras e corava como um adolescente fez seu coração tornar-se apertado. Makoto era fascinante. "Eu não sei o que fazer."

"Você pode fazer o que quiser." Haru tentou soou o mais indiferente que conseguia. "Eu farei o que quiser também."

"Então... eu posso?"

Ele meneou a cabeça discretamente em positivo e foi impossível não arrepiar-se quando a mão tocou seu rosto, acariciando a pele antes do beijo. Qualquer outro sentimento além do grande amor que sentia por aquela pessoa desapareceu e Haru deixou-se mergulhar completamente em Makoto, sentindo-o em seus braços e decidido a cuidar e proteger aquela pessoa pelo resto de sua vida. Suas mãos precisaram de uma dose extra de coragem até tocarem os largos ombros. Não demorou a que ambos estivessem grudados mais uma vez e o beijo teria durado mais tempo se dessa vez não partisse do moreno a pausa. Eu estou me esquecendo de alguma coisa muito importante.

"Makoto, que horas são?"

"Horas?" Ele precisou de alguns segundos para processar a pergunta. "Oito e dezoito."

"Que horas o ginásio fecha?"

"Nove horas eu acho, por quê?"

"Eu preciso que venha comigo."

Haru colocou-se de pé e o puxou pelo pulso, cruzando a sala e chegando a porta de entrada em uma velocidade absurda. Seus tênis foram colocados entre diversas perguntas e Makoto repetia os gestos mesmo não entendendo absolutamente nada do que estava acontecendo.

"Para onde vamos, Haru? E sua casa? Nós deixamos a porta da sala aberta!"

"Ninguém vai entrar." Ele trancou somente a entrada e se apressou a descer as escadas, pulando vários degraus. "Avise sua mãe que vamos ao ginásio. Não, por telefone."

"Não chegaremos a tempo, vamos deixar isso para amanhã, Haru."

"Nós correremos. Vamos, Makoto."

Os dois se encararam e o amigo se pôs a correr.

O céu estrelado daquela noite era decorado por uma belíssima lua cheia que serviu como guia enquanto os dois jovens corriam pelas calçadas, como se suas vidas dependessem disso. Haru sentiu a gota de suor escorrer por seu rosto, pingando ao chegar ao queixo e o lembrando de todas as vezes que eles percorreram aqueles caminhos. Não importava onde ele estivesse Iwatobi sempre seria sua casa e Makoto o seu porto seguro.

Eles chegaram ao ginásio em cima da hora e foi o rapaz de cabelos castanhos quem precisou dar as explicações necessárias para que o vigia os deixasse entrar. Com a desculpa de que Sasabe-san havia ligado e pedido que eles buscassem algo na piscina principal, os dois adentraram as instalações e assim que pisaram no chão de mármore o moreno desfez-se dos tênis, da camiseta úmida com suor e daquela bermuda que servia somente para restringir seus movimentos.

"H-Haru, espere."

Makoto tentou segurá-lo pelo braço, mas era tarde demais. A bermuda de natação preta com detalhes roxos era a única coisa que omitia sua nudez e o moreno parou ao encarar a larga piscina. Já faz meses... Ele fitou a cristalina água e assim que se viu refletido fechou os olhos e respirou fundo, colocando-se em posição. Tudo ficará bem. Eu tenho certeza. Seus joelhos se flexionaram e sua mente tornou-se branca. Não havia ansiedade, tremedeiras ou crises. Seus braços se projetaram à frente e a próxima coisa que ele sentiu foi a inexplicável sensação de tranquilidade quando seu corpo mergulhou dentro da piscina.

A água o tocava com gentileza e dessa vez ele não poderia compará-la ao toque de um amante. Makoto tem mãos grandes e pesadas. Ele me faz sentir seguro. Desculpe, Haru sentiu como se precisasse fazer aquele comunicado oficialmente, mas eu finalmente encontrei alguém que amo mais do que você. A sensação da água entre seus músculos a cada braçada havia se tornado menos rígida, como se ela o estivesse deixando ir. Eu amo Makoto.

Haru cruzou a piscina, retornando à borda e sendo recebido pelos ternos olhos verdes que estiveram sobre ele durante toda a sua vida. A mão que tanto ansiava lhe foi oferecida e ele a aceitou sem hesitação. Entretanto, ao contrário do que Makoto provavelmente esperava, ele não se permitiu ser puxado, pelo contrário. Suas pernas tocaram a parede da piscina e o moreno se jogou para trás, puxando-o para baixo e vendo-o cair como barulho. Makoto emergiu em segundos, a roupa completamente ensopada, mas uma expressão gentil e amigável.

"Isso é errado, Haru-chan."

"Não me chame de Haru-chan," ele deu um passo à frente e eliminou a distância entre eles. "Você acha que é errado?"

"Muitas pessoas vão achar."

"Você?"

O rapaz de cabelos castanhos tocou suas mãos que estavam dentro da água e daquele ângulo os olhos esmeraldas pareciam ainda mais brilhantes.

"Não existe nada mais certo do que eu e você."

O moreno foi puxado para cima e o beijo que trocaram foi longo. Eu achei que a resposta era a Austrália. Quando nadei contra Rin eu percebi que amava a água e que a adrenalina de uma competição era tudo o que eu precisava. Eu estava parcialmente certo. Eu continuo querendo isso, mas a outra metade eu deixei aqui. Suas mãos se tornaram mais apertadas sobre os ombros de Makoto, como se tivesse medo que ele desaparecesse dentro da piscina. O barulho do beijo ecoava pelo ginásio e Haru sentiu-se sorrir durante a carícia, certo de que os beijos de Makoto definitivamente tinham o delicioso e genuíno gosto da liberdade que ele sempre buscou.

Continua...