O voo do Besouro

Darcy estava atrasado para o almoço na casa de Bingley. Ele não estava entusiasmado, Georgiana estava em casa há menos de dois meses depois de semanas no hospital, mas ela insistiu que ele fosse, porque desde sua alta, ele não tinha saído de seu lado.

Darcy também não estava particularmente feliz em reencontrar a irmã de Jane. Eles tinham se visto apenas uma vez, na boate onde Bingley conheceu Jane, e ele se arrependia do comentário idiota que tinha feito e que infelizmente ela tinha escutado. Ele ficou muito envergonhado. Olhar para ela sabendo que ela estaria pensando nisso seria constrangedor. Talvez, se ele tivesse oportunidade, ele poderia se desculpar e esqueceria isso.

O almoço daquele dia contaria ainda com mais dois integrantes que incomodavam Darcy imensamente. Caroline, a irmã insuportável de Bingley, e Adam, o amigo de faculdade que adorava chamar a atenção para si. De certa forma, as pessoas comparavam Darcy e Adam. Ambos eram ricos, inteligentes e bonitos, mas Adam tinha uma vantagem: ele se sentia confortável entre estranhos. Na verdade, era mais do que isso, ele adorava conhecer novas pessoas. Adam era conhecido por ser alegre e mulherengo.

Ele estacionou perto da casa de Bingley, um enorme sobrado herdado de seu pai e que dividia com Caroline. Bingley também recebia sua irmã Louisa e seu cunhado, Hurst constantemente quando eles estavam em Londres. Ao entrar, foi recebido por Caroline. Como de costume, ela se garrou ao seu braço e o guiou para dentro da casa.

Assim que entrou na sala, Darcy reconheceu muitos colegas que tinham em comum com Bingley. A maioria da empresa de Bingley ou da faculdade. Ele cumprimentou a todos e viu Bingley se aproximando com Jane ao seu lado. Os dois ainda não tinham oficializado o relacionamento, mas era óbvio o apego de Bingley por ela. Darcy teve que reconhecer, ela era impressionantemente bela.

Imediatamente, ele se lembrou da irmã de Jane. Elas eram muito diferentes, nem pareciam irmãs. Ele fez a comparação entre as duas mentalmente. Enquanto Jane era alta, sua irmã era quase um palmo mais baixa. Jane era magra, tinha o corpo esguio de uma modelo, sua irmã, embora também fosse magra, tinha o corpo cheio de curvas generosas nos lugares certos. Jane era loira e tinha os cabelos lisos passando um pouco da linha dos ombros, os cabelos de sua irmã eram escuros como mogno e levemente ondulados, passando do meio de suas costas, quase chegando na cintura. Os olhos de Jane eram de um azul claríssimo, os olhos da irmã dela, que não tinham saído da cabeça de Darcy desde aquele dia, eram escuros, grandes e expressivos como ele nunca tinha visto antes. O pouco que ele tinha conversado com Jane, tinha notado uma personalidade calma e doce. Ele nem ao menos tinha trocado uma palavra com a irmã dela para saber que se tratava do oposto.

Darcy respirou fundo e quase riu. Jane deveria ser considerada a beleza da família, mas sua irmã tinha algo que ele não conseguia decifrar e que era muito mais atraente e apelativo. Ele olhou para Jane e conseguia entender porque Bingley tinha se apaixonado por ela quase instantaneamente, era exatamente o tipo de mulher que atraia Bingley, mas nunca o atraiu. Darcy gostava de mulheres que tinham algum fogo escondido. E ele sempre favoreceu as morenas. Talvez por isso ele tinha olhado tanto para a irmã de Jane na boate. Indiscutivelmente, era uma das morenas mais quentes que ele tinha colocado os olhos.

Ele estava tão absorvido em seus pensamentos que não percebeu Bingley falando com ele.

"Darcy! Acorda, eu estou falando com você!" Disse Bingley em diversão.

Darcy sorriu. "Desculpa, Bingley, estava perdido em pensamentos. O que você disse?"

"Disse que você perdeu o jantar na casa do Adam semana passada. Ele e Lizzie fizeram uma aposta para ver quem aguentava mais doses de tequila e Adam perdeu feio. Foi hilário, Lizzie trocou as doses dela por chá gelado e ele nem percebeu. Ela só revelou para ele três dias depois. Eu nunca vi Adam tão bêbado. Lizzie é terrível. Você tinha que estar lá, Darcy." Bingley dizia rindo.

Darcy franziu a testa. "Quem é Lizzie?"

Bingley olhou para Jane e percebeu que ela estava distraída conversando com Caroline. "Eu esqueço que você não quis conhecê-la. Elizabeth é a irmã de Jane que você insultou na boate. Ela é muito divertida e saiu comigo, Jane e nossos amigos algumas vezes. Lizzie é uma daquelas pessoas que entra em um lugar e acaba fazendo amizade com todo mundo. O pessoal da empresa e da faculdade realmente gostam dela."

Darcy queria perguntar mais sobre ela, mas escutou a voz alta de Adam antes mesmo dele entrar na sala.

"Eu duvido, Lizzie. Nem eu, que toco desde os dez anos consigo... eu não acredito que você consiga." Adam dizia ao entrar na sala com Elizabeth ao lado dele.

Darcy olhou para ela e literalmente perdeu o fôlego. Ele se lembrava nitidamente dela, mas de alguma forma, ela parecia ainda mais bonita. Elizabeth estava usando uma saia verde longa com uma fenda lateral, cropped branco colado no corpo e sandálias. Ela estava sendo provocada por Adam e olhava para ele com um sorriso devastador.

"Eu garanto que consigo, Adam. Garanto que sou melhor que você também." Ela dizia com um brilho nos olhos que Darcy não consegui parar de admirar.

Darcy notou que a conversa de ambos tinha chamado a atenção de toda a sala, que agora estava assistindo em diversão.

Bingley se aproximou de Elizabeth. "Por mais que eu odeie confirmar, Lizzie, Adam é um grande pianista, tão bom quanto um profissional."

Darcy revirou os olhos. Adam tinha prazer em exibir sua destreza no piano, mas ele tinha que admitir: Adam era um fantástico pianista.

"Eu estou falando para você, Lizzie, se eu não consigo tocar 'O Voo do Besouro' inteira sem erros e sem a partitura, você não vai conseguir." Adam dizia com um sorriso provocador e o rosto altivo.

Darcy percebeu quanto Elizabeth primeiro trocou um olhar divertido com Jane e, em seguida, estreitou os olhos fitado Adam intensamente e seus lábios se curvaram em um sorriso quase imperceptível. "Pois então, eu o declaro um pianista mediano. Eu toco O Voo do Besouro inteira, perfeitamente sem erros e vou adicionar um grau a mais de dificuldade: eu a executo vendada."

Adam gargalhou. "Eu pago para ver, Lizzie. Se você conseguir tocar essa música vendada, eu saio agora daqui, vou até aquela sorveteria caríssima que você disse que adora e que fica do outro lado da cidade, e trago um pote do gelato que você escolher."

Darcy conhecia a música que eles estavam se referindo. O Voo do Besouro, composta por Nicolai Rimsky-Korsakov, é considerada uma das mais difíceis músicas para piano. Pouquíssimos pianistas são capazes de executá-la. Ele riu e admitiu que dessa vez ele concordava com Adam. Ele duvidava que ela conseguiria.

Os olhos de Elizabeth estavam iluminados e ela sorria abertamente, mostrando os dentes brancos e perfeitos. "Eu espero que você esteja de carro, Adam. Eu vou exigir minha recompensa."

Adam, nitidamente divertido, olhou para Bingley. "Charles, você tem algum lenço, ou qualquer outra coisa que podemos usar para vendar essa senhorita convencida aqui?"

Bingley pediu para Caroline buscar um de seus lenços o que ela fez a contragosto. Em pouco tempo, ela voltou com um lenço preto nas mãos e entregou a Adam.

"Sente-se, por favor, senhorita." Adam disse enquanto a guiava para o banco do piano.

Elizabeth sentou-se e Adam a vendou, abaixou e falou algo no ouvido dela que a fez corar e acotovelar ele na altura da cintura. Ele riu.

Elizabeth ficou séria e levantou ambas as mãos até o teclado, tocando algumas notas aleatórias. Darcy ficou hipnotizado enquanto observava as mãos delicadas dela pairando por alguns segundos sobre as teclas. Ela respirou fundo e iniciou sua performance fazendo todos os queixos da sala caírem. Foi a execução mais precisa que qualquer um daquela sala já tinha visto. Assim que ela terminou, as pessoas comemoraram como se fosse um gol de final de campeonato. Elizabeth retirou a venda dos olhos, se posicionou ao lado do piano e fez uma mesura exagerada. Adam era o mais chocado de todos.

Elizabeth ficou de frente para Adam e passando a mão na frente do rosto dele, disse: "Na. Sua. cara!" Fazendo todos rirem. "Eu acredito, senhor, que você está me devendo algo." Elizabeth completou, tentando e falhando em reprimir um sorriso.

Adam estava com olhos arregalados. "Como? Eu nunca vi isso, Elizabeth, sério. Eu vou comprar qualquer coisa que você exigir depois disso. Faço questão de cumprir com o prometido."

"Eu quero de chocolate com avelãs, por favor." Dessa vez, ela nem tentava esconder o sorriso vitorioso.

Balançando a cabeça e sorrindo, Adam pegou a chave de seu carro e saiu para cumprir com o prometido. Darcy assistia enquanto muitas pessoas caminhavam até Elizabeth e faziam perguntas sobre suas habilidades no piano, mas ela era muito vaga.

"Assim como Adam, eu toco desde criança. Eu tenho que saber tocar bem, eu sou musicista, é a minha profissão. Tenho certeza que se ele respirasse música como eu, ele saberia fazer exatamente o que eu fiz." Ela disse com humildade.

Nesse momento, Darcy estava próximo a ela e não resistiu em fazer um comentário. "Eu li em algum lugar que um pianista famoso disse, ao ler a partitura, que era impossível de tocar. Também li que poucos pianistas conseguem executá-la dessa forma."

Elizabeth olhou para Darcy pela primeira vez aquele dia e o reconheceu instantaneamente. "Foi Vladimir Von Pachmann quem disse isso. Acredito que na época em que foi composta, isso poderia ser verdade, mas hoje muitos pianistas conseguem tocá-la. Nem todo mundo de forma perfeita, mas muitos conseguem."

"E você considera sua execução perfeita, Elizabeth?" Ele perguntou, a olhando intensamente.

Ela arqueou uma sobrancelha e Darcy notou o brilho provocante de volta em seus olhos. "A considero tolerável, eu suponho, mas não o suficiente para me tentar a chamá-la de perfeita." Ela se virou com aquele sorriso devastador no rosto e caminhou até Jane, deixando Darcy olhando para ela com o rosto quente de vergonha.