Eu sei, eu sei, eu disse que só seriam 10 capítulos, mas... Como eu sou lerda, esqueci de contar com o prólogo e o epílogo. Então, na verdade, a fic terá 12 capítulos.
Fiquei um tanto insegura em relação a esse capítulo então eu realmente gostaria de saber a opinião de vocês. okay?
Grandes acontecimentos estão por vir... TAN TAN TAAAAN *música de suspense*
Boa leitura :)
Seis meses depois
-Só eu que acho que esse não é o melhor lugar para se estar às duas da madrugada?
-Calada. Do que você tem medo? Se eu me lembre bem você não pode morrer. -Retrucou.
-Mas você sim.
-É, mas nada vai acontecer. E caso aconteça, eu tenho você aqui pra me proteger. -Disse dando um beijo na bochecha da morena. -Aqui está bom. -Apontou para um carvalho velho.
-Por que você é tão teimosa? -Perguntou enquanto se sentava na grama mal cuidada.
-Por que você é tão certinha? –Pendurou os dois lampiões de led em alguns galhos mais baixos da árvore e se sentou também.
-Bem... Não sou tão certinha assim, eu sou um demônio, não lembra? -Deu um riso curto.
Um arrepio frio percorreu a espinha da garota ao ouvir a palavra "demônio."
-Sabe, ainda acho estranho quando você se autodenomina um demônio.
-Até onde eu saiba, é isso que eu sou...
- Você não age como um... Pelo menos, não quando está perto de mim. –Abriu a cesta de linho revelando o conteúdo farto. – Sanduíche de atum ou presunto?
-Não estou com fome, obrigado. –Sorriu. –Não sabia que humanos gostavam de fazer piqueniques em parques abandonados. –Brincou.
-É bem melhor que um piquenique em um cemitério. –Deu de ombros mordendo a pêra em sua mão.
-Você já fez isso? –Perguntou fazendo Selena rir.
-Não. Aconteceu em um livro que li.
-Ah...
-Isso é engraçado...
-O quê?
-Você falando assim, tipo, vocês humanos. –Riu débil imitando Demi no final da frase.
-E do que mais eu chamaria? Seres inferiores? Insetos? Não, não, não, tenho um melhor... Marionetes. –Disse rindo.
-Idiota. –Riu junto. –Tem um bichinho no seu pescoço.
-Tira pra mim?
-Como você não sentiu ele andando? –Riu fraco colocando o inseto no tronco da árvore com cuidado.
-Eu não sinto. –Respondeu com obviedade.
-Não sente?
-Não... Pensei que você soubesse. –Franziu o cenho, confusa. –Eu não sei bem como explicar. –Fez uma pausa, parecendo pensar em uma maneira de falar. – Eu não tenho... Sensibilidade ao toque, como os humanos têm. Meu corpo é como um espelho. É real mas se limita a uma camada exterior, refletindo tudo à minha volta. Você me ouve e eu te ouço, você me vê e eu te vejo, mas... Você sente isso? –Perguntou fazendo uma carícia leve no braço de Selena.
-Sim.
-Eu não. –Disse rápido, com um sorriso amargo nos lábios bem desenhados. –Basicamente, é como se houvesse uma barreira que me impede de ter essa experiência.
-E não tem como quebrar isso?
-Tem... –Disse num suspiro.
-E por que você não faz?
-A única maneira de romper essa barreira é possuindo um humano.
-Então... Quer dizer que você não sente nada quando me beija? –Perguntou um pouco chateada.
-Tecnicamente.
-Então por que você faz isso? –"Não que eu queira que você pare." Pensou.
-Por que eu sinto aqui, no coração. –Disse colocando a mão no peito de Selena, sentindo seu coração bater mais rápido. – Eu não perdi a capacidade de sentir emoções.
-Então você pode... Amar? –Perguntou quase em um sussurro. Demi sorriu largo.
-Sim, eu posso amar. Posso me sentir feliz, triste, brava... – A cada palavra ela aproximava mais seu rosto ao de Selena. – E também posso sentir... Desejo. –Sussurrou dando uma mordida leve no lábio inferior de Selena, logo capturando seus lábios em um beijo lento.
Selena poderia descrever o beijo como calmo, doce. E Demetria... Bom, Demetria podia dizer apenas uma coisa.
-Quando te beijo, eu sinto meu coração bater mais rápido... –Disse enquanto se afastava lentamente e sorria para Selena, que mantinha os olhos fechados e um sorriso tímido no rosto. - É como se eu deixasse de ser um demônio, e me tornasse humana.
Selena abriu os olhos e fitou a sua amada imortal. Realmente, não tinha chances de ela ser uma garota normal, sua beleza era sobre-humana. O cabelo sempre bem arrumado, sem nenhum fio fora do lugar; A franja reta que cobria a testa parecia não crescer nem um único milímetro, permanecendo no tamanho perfeito; A boca naturalmente rosada; Os olhos... Belos orbes de um tom castanho claro hipnotizante; A pele alva e macia.
Como se não fosse suficiente, as roupas e a maquiagem. O estilo rock dando uma aparência arrogante e sexy. A maquiagem escura sempre realçando os olhos, os tornando ainda mais fascinantes.
Sem contar com a atitude decidida e o sorriso debochado que estampava o rosto da imortal a maior parte do tempo...
Era impossível não ficar paralisado à sua presença. Era como se tudo nela dissesse "Não se meta comigo, sou encrenca", mas ao mesmo tempo puxasse você para perto dela, como um imã; E claro, tinha também o perfume... Delicado, leve e sensual... Sensual, era essa a palavra. Tudo em Demetria exalava sensualidade e perfeição.
Foi arrancada bruscamente de seus devaneios quando o riso contido chegou aos seus ouvidos.
-O qu-
Demetria pressionou seus lábios contra o de Selena surpreendendo a garota. O misto de sensações que o beijo trazia consigo levando Selena quase ao delírio.
Demi quebrou o beijo com selinhos intercalados e mordeu o lábio inferior tentando esconder o sorriso.
-Vai me contar o que é tão engraçado ou o quê?
-Ou o quê. –Repetiu rindo.
-Demi! –Choramingou fazendo biquinho.
-Okay, okay, para de fazer essa cara de cachorro pidão. –Riu novamente, sendo acompanhada por Selena. –É que é tentador demais saber que você está pensando em mim e não saber o que é...
-Você invadiu a minha mente? –A pergunta soou quase como uma afirmação.
Subitamente, sentiu o rosto esquentar. Ela sabia que Demetria podia ver e ouvir seus pensamentos, mas mesmo assim morreria só de pensar em alguém que soubesse de todas as fantasias que ela tem com a garota.
-Sabe, acho que retiro o que eu disse sobre você não se comportar como um demônio perto de mim. –Cruzou os braços.
-Sabe, você é muito safada apesar dessa carinha fofa. – Rebateu com um meio sorriso.
"Culpa sua."
-Eu ouvi isso. –Demi acusou. O sorriso maldoso pregado em seus lábios.
-Argh! Será que dá pra parar com isso?
-Que fofa, você está corando. – Sorriu. Selena deixou um riso curto escapar.
-Cala a boca. –Disse escondendo o rosto nas mãos em forma de concha.
- Vem aqui. –Se aproximou de Selena puxando a garota para deitar em seu colo, começando a fazer uma carícia leve em seu couro cabeludo. –Agora seria uma ótima hora para a senhorita me dizer o porquê de estarmos em um parque abandonado no meio da madrugada.
-Queria conversar.
-Sabia que os celulares existem para isso? –Brincou. – Sobre o que queria conversar? –Perguntou num tom dócil.
-Não tem importância agora. –Se aconchegou no colo de Demi, ficando de barriga para cima, e sorriu.
-Sabe que não pode mentir pra mim, certo?
Selena riu.
-É. Nem se eu fosse tipo, a melhor atriz do mundo. De qualquer maneira você ainda poderia saber o que estou pensando...
-Exato. Agora vai me falar?
-Você ainda não invadiu minha mente pra saber o que é? –Perguntou debochada.
-Se você fosse qualquer outra pessoa, teria feito isso há muito tempo... –Falou fazendo Selena rir. – Mas você não é... Então eu vou esperar, e se você quiser falar, e se sentir cômoda para falar, você sabe que eu vou escutar. –Sorriu gentil. – Mas caso você não colabore, então eu vou ter que partir para trapaça. –Brincou novamente fazendo cócegas na garota em seu colo.
-Sério, Dem. Não foi nada importante. Eu só estava pensando em algumas coisas e percebi que você ainda é um completo mistério para mim, mesmo depois de todo esse tempo.
-Lena, eu já te expliquei isso antes. E o mais importante sobre mim você já sabe, que é a minha natureza. Sabe que não sou humana, o resto é irrelevante. –Disse calma.
-Eu sei. Por isso eu disse que não era importante. Mas é que às vezes me sinto em desvantagem, você sabe tudo sobre mim, e eu não sei quase nada sobre você.
Selena não exagerou ao dizer eu não sabia quase nada sobre Demetria. Mesmo depois que voltaram a se falar, tudo que ela sabia sobre a garota era que ela era o anticristo, nenhum detalhe a mais.
Às vezes, Demetria ainda desaparecia por alguns dias, e mesmo tendo uma ideia do que ela ia fazer, Selena preferia não pensar sobre o assunto.
-Por que não me pergunta alguma coisa agora? Qualquer coisa.
-Só uma? –Fez biquinho.
-Okay... Duas. –Riu.
-Por que você saiu do céu? –Perguntou com cautela.
-Digamos que eu sou uma filha rebelde que saiu de casa porque não queria mais seguir as regras... Eu caí porque queria ter livre-arbítrio. Eu admirava isso nos humanos. –Respondeu simples.
-Alguma vez você já quis ser humana?
-Hum... E deixar de ser o ser mais poderoso na terra? Acho que não. –Respondeu com sarcasmo, dando um riso suave.
-Sério. Nem uma única vez?
-Uma vez... – Disse balançando a cabeça levemente para cima e para baixo, dando ênfase à fala.
-Quando foi?
-Você só tinha direito a duas perguntas, querida. –Deu um selinho rápido em Selena e a encarou com um sorriso divertido.
-Mas você tem que responder direito.
-Eu respondi direito. –Riu.
-Não. Porque não disse quando, e nem porque, e estou curiosa pra saber.
-Eu acho que você vai continuar assim...
-Não... –Reclamou manhosa. –Me conta vai, me conta, me conta, me co-
-Você! –Interrompeu sorrindo.
-O que tem eu?
-Eu quis ser humana por sua causa. Uma vez você dormiu na minha casa e estava chovendo, então você me abraçou porque estava com frio. E eu passei a noite acordada, porque não conseguia parar de pensar em como eu queria saber qual a sensação de sentir o calor do seu corpo contra o meu. Poder de tocar e te beijar sem ter nenhuma barreira estúpida me impedindo de sentir. –Suspirou. Selena sentiu suas bochechas esquentarem e sorriu. –Você fica adorável quando está com vergonha. –Sorriu sem dentes, tocando o rosto de Selena com cuidado, quase como se tivesse medo de machucá-la. –Eu não deveria... Mas eu te amo. –A boca de Selena se abriu, mas não projetou som algum. Ficou totalmente sem reação, um sorriso involuntário se abriu em seu rosto e ela sentiu seu coração disparar. Toda a sua dicção parecia ter desaparecido e seu cérebro não conseguia formular uma única frase coerente. –Acho melhor você se acalmar um pouquinho, não quero o amor da minha vida tendo um ataque cardíaco nos meus braços porque tive coragem de falar que a amo. –Deu um riso nervoso.
-É difícil manter a calma ouvindo você dizer isso.
-E eu posso saber por quê? -Você sabe, não se faça de sonsa. –Sorriu. – Eu te amo.
-É bom mesmo. –Brincou. –Em dezessete anos eu nunca amei ninguém, e não seria legal se eu me apaixonasse e o sentimento não fosse recíproco.
-É impossível não se apaixonar por você.
-É mesmo, você tem razão. –Disse presunçosa fazendo Selena rir. –É a primeira vez que eu sinto medo. –Sua expressão ficou séria de repente e Demetria forçou um sorriso.
-Medo? –Selena parecia surpresa.
-Eu não quero te perder. –Confessou.
-Você...
-Não diga isso. –Interrompeu. – Eu sou imortal, você não. Você é frágil, eu não. Eu sou a caçadora, você a presa. Eu estou apavorada e parece que a qualquer momento eu vou ficar louca. –Falou rápido. O medo é um sentimento estranho, e mais ainda pra Demetria. Era tudo muito novo para ela já que as posições eram sempre inversas. Ela nunca tinha medo. E nunca tivera um motivo para ter. – Eu não quero sentir isso. Eu não quero ter medo. –Sua voz vacilou e por um momento Selena achou que Demetria fosse chorar.
-Você não precisa ter medo. Vamos aproveitar o tempo que temos... Viver enquanto eu sou jovem. –Demetria ainda continuava séria. –Vamos lá, alegre-se, eu não sou tão velha assim, ainda teremos muito tempo.
-Mas o tempo está passando, Lena. E ele não faz pausas...
-Não vamos mais falar sobre isso, está bem? Vamos apenas viver cada momento como se fosse o último.
-x-
-Demi está dormindo. Mas não é difícil acordá-la, pode subir. –Disse com um sorriso.
Selena estranhou um pouco o horário mas mesmo assim subiu as escadas, indo ao quarto de Demetria.
Abriu a porta devagar, tomando cuidado para não fazer barulho. Quando fechou a porta, mergulhando o quarto na escuridão novamente, causou um clique praticamente inaudível. Selena não pôde evitar o pequeno susto quando uma luz atrás dela foi acesa.
-Por que o susto? Estava planejando me matar enquanto eu dormia? –Brincou.
-Quando a Lexie falou que não é difícil te acordar, eu não pensei que seria tão fácil. –Se virou para a garota sentada na cama, ainda parada na frente da porta. Demetria riu baixo. –Dormindo a essa hora da tarde? –Questionou com uma sobrancelha arqueada. Relaxou o corpo e se encostou-se à porta, cruzando os braços sobre o peito.
-Estava cansada. –Sorriu. –Acabei me distraindo com a Lexie e o Klaus e ficamos lutando por quase quinze horas.
-Ah, desculpa...
-Não tem problema. Dormi por tempo suficiente.
Livrou-se do cobertor grosso e se levantou, ficando de costas para Selena, indo abrir as cortinas que impediam a entrada da claridade no cômodo. Selena engasgou com ar, tossindo baixo.
Demetria não vestia nada além uma blusa baby look cinza colada ao corpo, e calcinha de renda preta.
Preto. Sempre tinha que ter.
Ouviu quando o coração de Selena começou a bater em um ritmo descompassado e sorriu.
-Algum problema? –Se virou para a garota, andando em sua direção com passos lentos.
-Problema? Quem falou em problema aqui? –Revidou praticamente tropeçando nas palavras.
-Tem certeza?
Com a sua velocidade não-humana deu um passo à frente, ficando a apenas alguns centímetros de Selena. Apoiou suas duas mãos na porta, prendendo a garota entre seus braços. Não que ela quisesse fugir.
-Você não está usando preto, que milagre. –Tentou disfarçar o nervosismo.
-Eu acho que você está levemente enganada. –Disse com um meio sorriso. Selena mordeu o lábio.
Demetria se afastou um pouco e pegou a mão de Selena, fazendo com que a garota tocasse com a ponta dos dedos o tecido da sua calcinha. Inevitavelmente Selena abaixou o olhar, seguindo os seus dedos.
-Isso é preto, não é? –Perguntou baixo.
Selena não estava olhando, mas sabia que Demetria estava sorrindo.
-É... Eu... Devo ter... Me enganado.
-Por que está tão nervosa? –Perguntou prendendo Selena contra a porta mais uma vez.
-Eu não estou nervosa. –Respirou um pouco mais fundo.
-Não é o que eu sinto.
Começou uma trilha de beijos e mordidas no maxilar de Selena, seguindo para seu pescoço, onde deixou uma mordida um pouco mais forte fazendo a garota morder o lábio reprimindo um gemido. Selena colocou suas duas mãos nos ombros de Demetria e a empurrou gentilmente, fazendo com que ela a encarasse. Seus olhos estavam brevemente mais escuros, e podia-se ver vestígios de vermelho em sua íris. Levou sua mão à nuca dela e a puxou para si, beijando os lábios convidativos com volúpia.
Desceu uma de suas mãos para a cintura de Demetria, dando um aperto leve no local quando uma mordida sensual foi aplicada em seu lábio inferior. Sentiu os dedos da imortal brincarem com a barra de sua blusa antes de começar a levantá-la devagar.
Demetria largou a boca doce, deixando beijos molhados pelo pescoço de Selena, seus dedos estavam tocando as costelas da garota quando três batidas na porta foram escutadas, fazendo com que as duas parassem com as carícias.
-Não façam barulho, por favor. –Ouviram a voz risonha dizer. Selena corou e afundou o rosto no pescoço de Demetria.
A garota se afastou devagar e Selena pôde ver seus olhos. O que antes eram apenas vestígios de vermelho, agora dominavam suas íris completamente.
Talvez, alguém pudesse achar aquilo estranho ou até mesmo assustador, mas para Selena a imagem lhe pareceu sexy.
-Seus olhos...
-Estão vermelhos, não é? –Perguntou com um meio sorriso.
-Uh-hu.
Assistiu com fascínio quando Demetria fechou os olhos e pareceu se concentrar em alguma coisa por alguns segundos. Quando os abriu novamente, Selena viu a cor das íris mudarem gradualmente, voltando ao seu tom castanho claro de sempre.
-Por que ficaram vermelhos?
-Excitação. –Respondeu simples, dando de ombros. –Se importa em me esperar um pouquinho? Vou tomar banho. –Disse já na porta do banheiro.
-Não. –Sorriu.
Sentou-se na cadeira giratória perto da escrivaninha e deixou-se distrair um pouco.
Seis meses. Seis meses e um relacionamento indefinido. Seis meses e elas se comportavam como um casal há cinco. Elas não eram "ficantes", namoradas, nem "amigas com benefícios". Não houve um pedido de namoro ou algo parecido, então, em termos técnicos, elas eram apenas amigas que se beijavam.
O famoso "eu te amo" já havia sido dito e elas não se preocupavam em esconder que estavam tendo algo a mais que amizade. Mas a grande questão que ainda ficava era: O que elas realmente são?
Um livro ao lado do computador chamou a atenção de Selena, era um pouco maior e mais grosso que os livros comuns e tinha a capa completamente preta. Curiosa, o abriu e se deparou com a mesma frase escrita três vezes na primeira página, mas com caligrafias diferentes.
Always and forever
Always and forever
Always and forever
Virou a página e sorriu com o que viu. Seis fotos, desalinhadas, de Alexis, Demetria e Niklaus estampavam a folha. As fotografias eram no clássico formato Polaroid e cada uma continha uma pequena legenda, alguns desenhos avulsos também enfeitavam o álbum. Folheou lentamente, vendo cada imagem com atenção.
A coleção era maravilhosa e Selena até reconheceu alguns lugares das fotos, como Paris e Londres.
Não conteve o riso ao ver uma foto de Klaus e Demetria. Os dois estavam na cozinha de uma casa, cobertos de farinha de trigo e chocolate, e Demetria quebrava um ovo na cabeça do amigo. O sorriso feliz/bobo no rosto dos dois era simplesmente encantador. Pareciam duas crianças.
Algumas páginas estavam repletas de fotos dos amigos em alguma ilha. Em uma delas, os três estavam em volta de uma fogueira, dois troncos de árvore lhe serviam como assento e Demetria estava com um violão. A noite parecia avançada e as únicas fontes de iluminação da foto eram as que vinham da fogueira e da lua, o que tornava a imagem ainda mais bonita e interessante.
"cause we all belong right here together" Estava escrito em uma caligrafia meticulosamente bem desenhada no final da folha.
-Se divertindo? –Perguntou apoiando o queixo no ombro de Selena.
-Você me assustou. –Riu.
-Desculpa. –Riu também, aplicando um beijo casto na bochecha da garota. –Amo esse lugar. –Comentou ao ver o álbum aberto.
-E que lugar é esse?
-Seychelles, Madagascar.
-É lindo...
-É... –Concordou. –Talvez nós possamos ir para lá no próximo final de semana. –Sorriu. –O que me diz?
-Está brincando?
-Não. Estou falando sério. Podemos falar com sua mãe amanhã, se você quiser ir.
-Claro que vou querer ir. –Disse sorrindo largamente.
-Ótimo. –Abraçou a garota e logo se afastou indo se sentar na ponta da cama.
-Qual seu lugar preferido no mundo?
-Uh... Pergunta difícil. –Pressionou os lábios. -Eu conheço todos os lugares possíveis na terra, então escolher um único lugar é bem improvável. Mas... Por enquanto, meu lugar preferido é aqui em Bradfort. Com você.
Selena sorriu tímida e abaixou o olhar, olhando para as próprias mãos.
-Ainda estão se pegando? –A pergunta seguida da gargalhada de Alexis foi ouvida junto com algumas batidas na porta.
-Alexis, pare de ser tão idiota! –Gritou rindo. –Pode entrar.
-Estou indo fazer compras, e o Klaus vai aproveitar pra ir numa balada nova que inaugura hoje à noite na cidade vizinha. Então só queria avisar que só vamos voltar amanhã.
-Ah, tudo bem.
Alexis foi para perto de Demetria e lhe deu um abraço, sussurrando um "se cuida" em seu ouvido. Depois foi até Selena, dando um beijo amigável em seu rosto.
-Não abuse da minha garota. –Brincou. –Comportem-se. –Disse antes de sair do quarto.
-Claro, mamãe. –Revirou os olhos. –Vem cá. –Chamou a garota para sentar em seu colo, e assim ela o fez. –Quer fazer alguma coisa em especial hoje?
-Na verdade não...
-Então eu posso te levar em um lugar?
-Que lugar? –Perguntou curiosa.
-Se eu falar perde toda a emoção... –Sorriu. –Liga pra sua mãe? Você vai dormir comigo hoje.
-E se eu não quiser dormir com você? –Arqueou uma sobrancelha, rodeando o pescoço de Demetria com seus braços.
-Você não tem querer, a minha palavra é a que conta.
-Convencida.
-Linda. –Disse lhe dando um selinho. –Vamos?
-Vamos... –Se levantou. –Ligo pra minha mãe do caminho.
-Okay... Espera um pouquinho.
Demetria foi até a escrivaninha e abriu uma das gavetas, procurando pela câmera Polaroid. Depois de pegar o tão desejado eletrônico, foi até Selena.
-O que você vai fazer? –Perguntou risonha.
-Tirar uma foto nossa.
Deu um abraço de lado na garota e lhe beijou a bochecha, enquanto mirava a câmera para elas.
-Pronto, agora é só esperar um pouco... –Disse pegando a foto recém-impressa e colocando em cima da escrivaninha, junto com a câmera.
-x-
-Demetria, você sabia que sequestro é crime?
-Pode até ser, mas eu sigo a minha própria lei. –Sorriu.
-Me diz pra onde vamos. Por favor. –Apelou.
-Não. –Riu. – Se acalme, já estamos chegando.
Encostou o carro na estrada e desceu, sendo acompanhada por Selena. A garota olhou ao redor e não conseguiu uma única pista sequer sobre o lugar onde estavam indo. A estrada era deserta e atravessava uma floresta.
-É por aqui... –Pegou a mão de Selena, guiando-a por entre as árvores.
-Você trouxe uma lanterna? Daqui a pouco vai começar a escurecer.
-Não iremos precisar de uma.
Seguiram adentrando a floresta sem a ajuda de nenhuma trilha. O sol começava a se pôr, mas ainda estava claro.
Depois do que pareceram ser quatro ou seis minutos, Selena pôde ouvir o som de água caindo. Andaram mais um pouquinho até que cruzaram alguns arbustos. Demetria parou e olhou para Selena com um sorriso nos lábios.
-Valeu a espera?
-Com certeza.
Admirou o espaço ao seu redor. Em sua frente uma cascata jorrava uma água cristalina, formando uma espécie de piscina. O lugar era rodeado de pedras e a profundidade da água parecia ser grande.
-Fica mais bonito à noite... –Deu de ombros. – Aparecem vários vagalumes, e o reflexo da lua na água é impressionante. E o melhor de tudo é que nenhuma trilha passa por perto daqui... Vamos pular daquela rocha? –Apontou.
-De roupa?
-Prefere sem? –Deu um sorriso pervertido.
-Você me entendeu.
-Qual o problema? Uma hora seca.
-E como vamos chegar lá? –Olhou para a rocha. Ela ficava ao lado da cascata, e era em um lugar consideravelmente alto.
-Eu te dou uma ajudinha.
-E se quando eu mergulhar eu bater a cabeça em uma pedra e morrer? –Perguntou em tom de brincadeira.
-Eu procuro um lugar bonitinho pra te enterrar. –Fingiu não se importar, dando de ombros.
-Uau! Obrigado. Pensei que você gostasse de mim. –Fez drama. Demetria riu.
-Pensou errado, desculpa. –Selena a olhou indignada, tentando não rir. O que não funcionou muito bem, já que as duas acabaram caindo na gargalhada.
-Tudo bem, chega de gracinha. Vamos logo.
Tiraram os calçados e Demetria puxou Selena para a parte mais rasa, onde a água batia em seus joelhos.
-Como prefere subir? Da forma mais rápida, ou da forma mais calma?
-E como seria a forma mais rápida?
-Pulando, obviamente.
-Mais calma...?
Demetria ficou de frente para Selena e segurou sua cintura, puxando-a para mais perto de si, sua cabeça repousou no ombro da garota.
-Fecha os olhos? –Pediu calma.
Selena fechou os olhos devagar e depois de alguns segundos sentiu algo irradiar calor ao seu redor seguido pelo barulho suave de asas batendo.
Sentiu um frio gostoso na barriga quando percebeu estar sendo erguida lentamente.
Permaneceu de olhos fechados, aproveitando a sensação. O som das asas de Demetria batendo era lento e reconfortante e realmente foi tudo tão calmo que ela se surpreendeu quando seus pés tocaram a superfície fria da rocha.
Abriu os olhos quando Demetria se afastou. Ao seu ver, ela pareceu quase acanhada.
Na verdade, Demetria se sentia exposta. Nenhum humano nunca tinha a visto daquela maneira, ela estava expondo sua verdadeira forma física. O sentimento que ela experimentava era parecido com o de um humano quando está completamente despido na frente de alguém.
-Eu posso tocar? –Perguntar receosa. Demetria assentiu com um sorriso.
Tocou a asa direita com a ponta dos dedos, sentindo sua maciez. Arriscou alisar as penas negras com as costas da mão.
-É macia... E quente. –Sorriu, se afastando.
-É... Eu... Era um seraph. –Forçou um sorriso enquanto retraía suas asas, subitamente se sentindo mais confortável. – Os anjos dessa classe são capazes de alegrar os outros anjos, iluminando-os com o fogo divino, então possuem grande calor... Quando eu caí não perdi todas as minhas características angelicais. Na verdade, só as minhas asas mudaram de cor. E eu não sou mais tão pura, mas enfim... –Disse com um riso curto.
-Anjos são divididos em classes? Eu pensava que eram todos iguais.
Demi riu novamente.
-Sim, divididos em classes e círculos. O Klaus, a Lexie e eu éramos do primeiro círculo, mas eu era um seraph e eles cherub, a segunda classe.
-Quantos círculos são?
-Apenas três. O primeiro é a ordem de anjos mais próximos do pa... –Pigarreou. –Dele... O segundo círculo é o dos anjos que cuidam do céu em geral, mas não vivem tão próximos a Ele. E o terceiro e último círculo é formado pelas únicas classes que atuam diretamente na terra.
-É a primeira vez que você me fala sobre alguma coisa sobre seu passado. –Falou fazendo Demi sorrir.
-Meu passado mais distante não deve ser tão interessante assim, e o meu passado mais próximo não é muito bom... Então... Vamos pular?
-x-
Sentada numa das mesas mais afastadas da entrada do café, Selena desfrutava do prazer de estar em um lugar calmo. O copo em sua frente já estava pela metade, mas não tinha mais a sua atenção. Estava perdida em seus próprios pensamentos.
-Posso me sentar aqui?
Selena sentiu-se ser puxada de volta à realidade quando a pergunta lhe foi feita.
-Oh, sim. –Sorriu.
Observou o garoto à sua frente. Ele era um pouco mais alto que ela, caucasiano, seus olhos eram negros e tinha o cabelo castanho. Ele vestia uma camiseta xadrez, calça jeans, e supras. Teve a leve sensação de já conhecê-lo de algum lugar.
-Não está esperando ninguém?
-Não...
O garoto realmente lhe parecia familiar, mas mesmo se esforçando, não conseguia se lembrar de onde o conhecia.
-Sou Alec. –O garoto colocou seu copo na mesa e estendeu a mão para um cumprimento amigável com Selena.
-Selena. –Forçou um sorriso, apertando a mão do rapaz.
Simplesmente não conseguiu se lembrar se realmente o conhecia ou era apenas impressão sua, mas algo dentro de si lhe alertou que estava em perigo.
-Aqui está muito cheio, não acha? –Perguntou olhando fundo nos olhos de Selena. –Por que não vamos para um lugar mais... Reservado?
Sem controle sobre sua própria mente, Selena aquiesceu.
Alec pegou sua mão e jogou uma nota de cem dólares na mesa antes de guiar a garota para o exterior do recinto.
Seu carro estava estacionado logo em frente ao café, e ele abriu a porta do carona para Selena.
-Então, minha querida, você é namoradinha mortal da Lovato? –Perguntou com um sorriso, ocupando seu lugar no banco do motorista. Selena fez que sim com a cabeça. –Você a ama?
-Muito. –Respondeu débil.
-Que pena... –Sorriu. –Isso vai acabar te matando. Um desperdício, devo dizer, você é linda. –Acariciou a maçã do rosto da garota e se aproximou mais, sentindo o aroma adocicado que vinha de sua pele. –E como sempre... A Lovato fica com o melhor. –Disse raivoso.
Usou de todas as suas forças para se controlar e não arrancar a cabeça de Selena ali mesmo, e depois entregá-la à Demetria como se fosse um troféu.
-x-
Selena levantou a cabeça devagar e abriu os olhos. Uma névoa ainda cobria sua mente e ela não conseguia pensar direito. Estava em uma sala escura, amarrada na cadeira.
-Dormiu bem?
Sentiu o pavor lhe dominar quando Alec se aproximou. Ele tinha uma faca em mãos e um sorriso perverso brincava em seu rosto. Selena tentou gritar, mas sua voz havia sumido, e tudo que conseguia fazer era se debater na cadeira, tentando inutilmente se soltar.
Ela sentia uma presença estranha na sala. Uma energia negativa. E aquilo a apavorava.
Alec chegou mais perto, se abaixando em frente à Selena, e segurou seu queixo com força, beijando-a de forma selvagem. Selena sentiu uma dor excruciante quando ele deslizou a faca pela sua perna desnuda, fazendo um corte profundo. A dor era tanta que Selena sentia que poderia desmaiar a qualquer momento.
-Dói não é?
Por um breve momento, Alec riu. E Selena, estranhamente, sentiu a dor em sua perna sumir, respirando aliviada. Quando viu que o corte em sua perna era inexistente, percebeu que sua mente estava sendo manipulada.
Alec se levantou e tirou a camisa, virando-se de costas para Selena.
-Está vendo isso?
A garota sentiu vontade de vomitar ao ver a cicatriz que tomava lugar nas costas de Alec. A cicatriz tinha a forma de um "V" virado de cabeça para baixo e se estendia desde as omoplatas até a base da coluna.
-Doeu muito mais quando eu perdi as minhas asas. Elas foram arrancadas. E sabe quem fez isso? –Deu um riso seco. –Sua querida Demetria... Essa não é a única marca que eu tenho em meu corpo. –Ficou de frente para Selena, mostrando o abdômen. Uma linha reta marcava sua barriga, dividindo-a ao meio. –Sabe quem fez isso aqui? Demetria. E eu quase morri. Eu fui expulso do céu. E sabe de quem é a culpa? Lovato. –Seu tom de voz era baixo e cheio de ódio. –Me acusaram de pecar. Disseram que eu tinha inveja dela. Mas meu único problema era não ser como a maioria dos anjos, principalmente Niklaus e Alexis, que sempre aceitaram estar abaixo da Demetria. Sempre aceitaram o fato de ela ser o braço direito Dele, o fato dela ser melhor em tudo e mais forte. Idiotas. Nove mil e quatrocentos anos e eles sempre aceitaram estar no segundo lugar, sempre perdendo para a Lovato. Até aqui na terra ela é melhor. Ela sempre fica com o melhor! –Gritou enfurecido. –Sabe a quantidade de anjos caídos por aí que adorariam ser o anticristo? Praticamente todos! Mas sabe quem ficou com todo esse poder? A Lovato!
Recolocou a camisa e se agachou na frente de Selena mais uma vez, lágrimas corriam livremente pelo rosto da garota. Ela queria gritar, mas a força estranha presente na sala parecia sufocá-la e tudo que saia de sua boca era um ar escasso.
-Ela não sabe o que é perder... Mas eu vou ter o maior prazer em ensiná-la. –Sorriu.
