Será que o amor é mais forte?
Capitulo Décimo – Um olhar e o mundo parou
Duas decisões estavam tomadas. Ron decidira que iria falar o mais rápido que conseguisse com Lavender. Hermione já decidira que iria até à Toca. Contudo, duas semanas tinham passado sem que nenhum cumprisse o que prometeu a si mesmo.
Ron estava a tentar ganhar coragem para acabar tudo o que alguma vez com Lavender. Ela podia gostar dele, mas não era recíproco e magoá-la, mais do que injusto, seria egoísta e desumano. Assim, Ron acordava todos os dias a pensar no que lhe iria dizer, mas ainda procurava as palavras certas.
Hermione, por outro lado, tinha medo da reacção do pai de Ron. Com Molly estava tudo bem, mas ela sabia que as mulheres, e as mães principalmente, percebem melhor. E tendem a perdoar mais facilmente. Com Arthur, ela não sabia o que esperar. Se um olhar indiferente, uma palavra magoada ou se nem sequer notasse propositadamente a sua presença.
Já Ginny era diferente. Hermione tinha a certeza que ela iria perceber o que fizera e a apoiaria em tudo. Ginny não era um problema para Hermione.
Ela pensava muito em George também. Será que ele teria superado a perda do irmão ou será que a dor que ela ainda sentia era a mesma que a dele? Hermione sempre vira os gémeos como fontes de alegria e de vida, capazes de superar tudo com um sorriso. Ela pensava que, talvez, George a pudesse ajudar a ultrapassar a ausência dos seus pais. Havia vezes em que ela se agarrava a este pensamento de que ainda haveria uma esperança. Mas, depois, ela pensava em Ron. Ela não sabia como ia ser a reacção dele. Se fosse sincera, ela nem saberia o que iria fazer quando o visse. Não sabia se ia chorar, se o abraçaria, se ficaria calada ou se nem se mexeria.
Assim, no meio destas incertezas e receios, duas semanas passaram.
Era sábado e Ron acordou com uma certeza súbita, muito mais forte do que alguma vez teve. Levantou-se com um salto da cama, tomou banho e vestiu-se apressado e sentou-se à mesa do pequeno-almoço, comendo uma torrada, alheio a tudo à sua volta. Só pensava no que tinha de ser feito. E seria naquele dia, ele não tinha qualquer dúvida. No fim de comer, cochichou no ouvido de Harry que precisava de falar com ele e levantaram-se os dois em direcção ao jardim da Toca.
-Então, meu, o que se passa? – perguntou Harry, vendo o olhar determinado de Ron.
-Eu vou agora falar com a Lavender.
-Oh! – respondeu Harry, surpreendido. – Ainda bem que tomaste essa decisão!
-Sim, está na hora de parar de ignorar as cartas que ela tem mandado. Parar de fingir que não se está a passar nada.
-Ela tem-te enviado cartas, é?
-Sim, algumas nem as li. Dizem todas o mesmo, aposto. Quer ver-me, diz que precisa de falar comigo. Ultimamente, tornaram-se mais frequentes. Sinto-me mal por a ir fazer sofrer, mas tem de ser.
-Pois tem, Ron. E tu sabes que, se não o fizeres agora, ela vai sofrer muito mais.
-Sim, eu sei disso.
-Bem, vai agora, antes que percas a coragem!
Despediram-se e Ron materializou-se. Harry ficou a olhar para o lugar onde Ron desapareceu e sorriu, pensando que agora as coisas se começavam a compor.
-XXX-
Naquele dia, Hermione sentia-se preparada. Olhou para a janela e um sol brilhante invadia-lhe a casa. Era sábado, um óptimo dia para ir à Toca, pensou Hermione, sorrindo. Estava preparada para enfrentar um dos maiores medos que alguma vez teve.
Vestiu-se lentamente e saiu de casa, materializando-se.
Quando olhou para a casa onde tantas vezes rira e sentira-se como na sua própria casa, uma pequena lágrima escorreu-lhe pelo rosto sem que ela desse conta disso. Ficou muito tempo a olhar para a casa, lembrando-se de momentos que passou ali. Fora sempre tão bem recebida, com um sorriso e um abraço. Podia ser que hoje não fosse diferente. Não era verdade, claro, seria tudo diferente.
Arriscou o primeiro passo. Sempre lhe disseram que o primeiro passo sempre era o mais difícil, mas ela não concordava. Cada passo que dava parecia-lhe mais difícil e torturante do que o anterior. Ela não sabia o que esperar quando chegasse e isso assustava-a.
Com o coração a bater completamente acelerado dentro do peito e a pedir a Merlin que não fosse o Ron a abrir a porta, ela bateu.
Por uns instantes pensou que não estava ninguém. Porém, ouviu qualquer coisa que se assemelhava a um "Vou já!", mas não reconheceu a voz. Quando sentiu a maçaneta rodar e a porta abrir, ela olhou, com receio, para a pessoa que abria. Com um suspiro audível, constatou que era Molly. Esta, por seu lado, ficou tão surpreendida que, durante cinco segundos, não teve reacção nenhuma. Depois, como que acordada de um transe, exclamou:
-Hermione!
-Olá Molly. Pensei no que disse e… Bem, aqui estou eu. – o coração nunca lhe batera tão depressa, ela temia seriamente que lhe fosse dar alguma coisa.
-Fizeste bem, querida. Anda, entra! O Harry está na sala.
Hermione acenou e Molly foi até à porta da sala e chamou o Harry. Quando ele a viu, quase gritou:
-Hermione! – ela olhou-o, preocupada. Ele sorriu-lhe e ela sentiu-se um pouco mais aliviada. Contudo, o coração batia-lhe tão forte nas costas que lhe doía.
Harry aproximou-se dela e abraçou-a, dizendo-lhe ao ouvido.
-Hoje é o dia mais feliz que tenho desde há um ano atrás.
Hermione não percebeu o que o amigo quis dizer, mas não pôde perguntar, pois atrás de Harry apareceu George. Este olhou para ela e arregalou os olhos.
Hermione percebia a reacção, nem ela mesma esperava que tivesse coragem de ir até ali.
George mudou a expressão de surpresa para uma triste. Depois, voltou a mudar a expressão para uma compreensível. Ele andou até ela sem desviar o olhar e, quando chegou ao pé de Hermione, disse-lhe:
-Eu sei. Eu percebo. Tudo. Desde o que sentiste ao que fizeste. Não te censuro nem culpo.
-Obrigada, George. – Hermione estava tão aliviada e feliz que deixou lágrimas caírem-lhe.
George acabou com a distância e abraçou-a, deixando que as suas próprias lágrimas molhassem a camisola de Hermione. Ficaram assim durante um bocado, até ouvirem barulho atrás de si e uma voz grave exclamar:
-Hermione! O que estás aqui a fazer?
Hermione separou-se do abraço, limpou as lágrimas e olhou para Arthur, que tinha uma expressão que rondava muito o aborrecimento e a raiva. Hermione sentiu uma pontada no peito, pensando que não seria nada fácil.
-Sr. Weasley, eu… - mas a voz morria-lhe na garganta. O pânico começava a consumi-la.
-Como te atreves a entrar nesta casa depois de tudo? – ele disse-lhe, com um olhar que ela não conseguia decifrar.
-Arthur! Não fales assim com a Hermione! – reprimiu-o Molly. – Ela veio porque eu lhe pedi.
-TU O QUÊ?
-Sim, eu pedi-lhe para ela vir aqui.
-Pai, tu não sabes o que ela sofreu. – disse George, olhando para o pai, com a certeza estampada no rosto.
-Caso não te lembres, George, eu também perdi um filho.
Arthur não mediu o peso das suas palavras, e George, com a voz embargada das lágrimas, respondeu:
-Acredita, eu lembro-me muito bem.
-Oh filho! – exclamou Molly, correndo para ele. – Viste o que fizeste, Arthur? Feliz agora?
-George… Eu… Desculpa-me, filho. Eu não pensei no que disse.
George, irritado, limpou as lágrimas com força e, olhando nos olhos pais, explodiu:
-EU SEI PERFEITAMENTE O QUE A HERMIONE DEVE TER SOFRIDO! Ela não tinha mais ninguém, será que não percebes, pai? Ela ficou cmpletamente sozinha, de um dia para outro. Deve ter-se sentido perdida, sem chão, sem rumo. Não deve ter sabido o que fazer da vida. O futuro deve ter-lhe parecido negro e inatingível. Eu sei disso porque também os meus sonhos de um futuro feliz morreram com ele. Os nossos sonhos deixaram de ser "nossos". Não havia mais "nós". Tinha acabado tudo. EU também quis desistir de tudo e fugir, isolar-me. Não o fiz porque sabia que a mãe precisava de mim.
-Oh filho… Eu não sabia… - Arthur tentava falar, mas não arranjava palavras.
-Eu sei. Ninguém sabia. Quer dizer, ele sabia, porque nós sempre sabíamos tudo um do outro. E, mesmo que ele não esteja aqui, ele sabe tudo o que eu sinto.
-George, por favor… - suplicava-lhe Molly, pois não conseguia ouvir mais nada.
-A Hermione deve ter precisado de uma coragem imensa para ter saído de casa e vindo até aqui, sabendo que a poderíamos ter recebido como o pai fez.
Arthur olhou do filho para Hermione e disse-lhe:
-O meu filho sofreu imenso por causa da tua decisão.
-Eu sei disso. Eu sei! –ela agora já não estava sequer importada com as lágrimas, era impossível impedi-las de caírem. – Eu… eu não queria, não era essa a minha intenção. Pelo contrário, eu só o queria livrar de me ver mal. Eu sei que não ia estar com cabeça para lhe dar a atenção que ele merece, nem o iria conseguir apoiar em nada. Não queria que ele achasse que eu o estava a esquecer ou a deixar de o amar. Eu… só fiz o que pensei ser o melhor para ele. Para mais ninguém, só para ele. Mas parece que acabei por magoar quem eu nunca quis. Porque eu amo o vosso filho e nunca vou deixar de o amar. Só quero vê-lo feliz.
-Ele não está feliz, nem sei como é que uma pessoa como tu, Hermione, pode pensar isso. – todos se voltaram para ver de onde vinha a voz. Encostada à parede, ao pé da porta, estava Ginny, olhando-a como se isso fosse a maior das torturas. Hermione estremeceu dos pés à cabeça e sentiu o mundo cair aos seus pés. A sua única certeza provara-se ser o seu maior erro. Ginny não a perdoou. – Pareceu-me ouvir a tua voz e vim ver se tu tinhas mesmo tido a coragem de vir aqui. A esta casa que sempre te abriu os portas com um sorriso, te recebeu com um abraço e te acolheu com amizade e amor. E qual foi a tua retribuição? Ah, sim, a destruição total do meu irmão. Espero que estejas feliz.
Hermione chorava descontroladamente e, quando a voz saiu, parecia um guincho:
- Eu não estou feliz, Ginny! Eu não queria que o teu irmão tivesse sofrido por minha causa! Eu não queria!
-Mas sofreu. Tanto que palavras não sabem explicar o quanto.
Hermione começou a soluçar e teve de ser amparada por George para não cair. Ela tremia tanto que achou que não fosse aguentar o peso do corpo.
-Por favor, Ginny, tenta perceber que o que eu fiz foi por amar o teu irmão. Por amá-lo incondicionalmente. Eu não queria que ele me visse chorar ou sofrer porque eu sei que ele não gosta de ver ninguém assim e não poder fazer nada.
-E dizes tu que conhecias o Ron? Como é que não te passou por essa tua brilhante cabecinha – o tom irónico era mais do que evidente – que, talvez, tudo o que o Ron queria era poder estar lá, para te abraçar quando tu entravas em pânico e para limpar as tuas lágrimas? Ele só queria ter estado lá. Afinal, o amor não é só para os bons momentos.
-Eu sei, mas nós tínhamos passado por tanto, ele também tinha perdido alguém muito importante, eu não queria que ele ainda tivesse mais uma preocupação.
-Vocês podiam ter-se ajudado mutuamente e, quem sabe, hoje estariam a seguir em frente? Mas tu cortaste-lhe as asas e agora ele não consegue voar. Ele está preso aqui.
-Eu… Desculpa. – Hermione não conseguia pensar em nada.
-DESCULPA? Porque me pedes desculpa a mim? Tens de pedir a ele.
-Eu também te fiz sofrer.
-Não, eu não sofri por tua causa. Pelo menos não directamente. Eu sofri porque vi o meu irmão destruir-se a cada dia que passava. A vontade de viver, a alegria de um dia novo evaporaram-se e ele não saía do quarto, apenas vendo os dias passar sem sequer se importar em contá-los.
-Eu… Eu quero desculpar-me… eu queria… eu…
-Não achas que é um bocado tarde demais para isso?
-Nunca é tarde demais para o amor verdadeiro, Ginny. Eu já te tinha dito isso. – todos os olhares se voltaram para Harry, que fixava Ginny.
-E eu já te disse, Potter, que isso só existe nas histórias.
Hermione olhou de um para outro e percebeu que eles se olhavam furiosamente. O que será que acontecera ali?
-Só porque tu não acreditas, não quer dizer que não exista.
-Ah, mas só porque o grandioso Harry Potter diz que existe, tem de existir, não é?
-Não é nada disso! Eu só acho que devias lutar mais pela felicidade do teu irmão.
-Eu sou capaz de ser a ÚNICA pessoa aqui preocupada com isso!
-Desculpa, Ginny, mas estás a ser injusta. – falou George, extremamente sério. – Todos aqui nos preocupamos com ele. Apenas mostramos isso de maneiras diferentes.
-Até tu, George? Até tu estás do lado dela? – disse Ginny, apontando com a cabeça para Hermione, que olhou para o chão, completamente desamparada.
-Sabes, isto não é uma guerra. Não há lados. Eles querem o mesmo, não vês? Só querem encontrar a felicidade outra vez. E tu sabes que só serão felizes juntos.
-Enganas-te, maninho. O Ron encontrou a felicidade novamente. Com a Lavender.
Hermione sentiu-se subitamente enjoada e apeteceu-lhe vomitar. Começou a ver tudo a andar à roda e uma dor atingiu-a bem em cheio no coração. As pernas cederam ao peso do corpo. George reparou e amparou-a, fazendo-a sentar-se numa cadeira. Hermione sentia-se zonza.
-Não digas disparates, Ginevra! – censurou-a Molly.
-Ele beijou-a, sabias, mãe?
-Como é que sabes? – inquiriu Harry, atónito. Ele pensava que mais ninguém sabia, só eles os dois.
-Orelhas Extensíveis. Obrigadinha, maninho, – disse, olhando para George. – dão mesmo jeito.
Hermione não se sentia mesmo nada bem, mal ouviu Molly mandar Ginny para o quarto e ela saindo, cantarolando. Mal ouviu Harry lamentar quando é que Ginny ficara tão fria, desculpando-se logo a seguir, ao lembrar-se que era a família dela que ali estava.
Mas Hermione não estava importada com o que eles lhe responderam, ela só tinha duas coisas na cabeça: a Ginny odiava-a profundamente e Ron tinha beijado a Lavender. Era o começo do fim da sua vida.
Ouviu Molly mandar toda a gente embora, para Hermione respirar, porque estava muito pálida. Eles saíram e Molly abaixou-se à sua frente.
-Ele pode ter feito mesmo isso, mas ele voltou para casa bêbado.
Hermione arregalou os olhos e abriu a boca, mas nenhum som saiu. Molly continuou:
-Isso não pode significar que ele esteja feliz, não é? – Hermione limitou-se a acenar distraidamente com a cabeça, pensando que Ron devia estar mesmo mal para ter estado a beber.
Molly aproximou-se dela, abraçou-a fortemente e disse:
-Não te preocupes, vai ficar tudo bem…
-Mas, a Ginny…
-Ela vai perceber que está errada.
Nesse momento, ouviu-se um barulho vindo do jardim e, momentos depois, a porta da rua a fechar-se com um estrondo.
Um minuto depois, Hermione viu o seu maior receio aparecer à sua frente. Com os cabelos revoltos, os olhos vermelhos e um semblante preocupado, enervado, enraivecido e… aquilo era arrependimento? Parecia-lhe.
Ela viu-o levantar os olhos e olhar para ela. Dois minutos se passaram em que eles só olharam um para o outro, sem fazerem um movimento sequer. Era como se o mundo tivesse simplesmente parado. Os relógios não andavam, nada se movia, era como se tivessem posto o mundo em pausa. Contudo, ao fim desses dois minutos, puseram o mundo outra vez no play e ambos voltaram à realidade. Hermione começou a tremer e Ron arregalou os olhos, desatando a correr escadas acima, fechando a porta com força assim que chegou ao quarto.
Ron pensou que aquele dia não poderia piorar. Primeiro ele tinha ouvido aquilo vindo de Lavender e, minutos depois, aparece-lhe Hermione. Ao fim de um ano, volta a vê-la. Justamente naquele dia. Só lhe apeteceu chorar.
O que acharam deste capítulo? Por favor, digam-me o que acharam? O que acham que vai acontecer a seguir? No próximo, vamos saber o que Ron e Lavender conversaram. Preparem-se! E também vamos ter a tão esperada primeira conversa entre o Ron e a Hermione depois de tudo o que aconteceu! Por isso, não percam o próximo capítulo! Será que vai ficar tudo bem? Um ano já chega para eles estarem separados, não acham? Bem, vamos ver o que acontece a seguir! Preparem-se! Deixem review! Obrigada por todo o apoio!
