Yo, minna!

Eh,eh,eh... Depois de tanto tempo eu tenho a cara de pau de aparecer por aqui... Mas minha mãe sempre disse que eu sou sem vergonha... ^_^

Oiem, vow logo avisando que este é um capítulo de transição... Não vão esperando grandes emoções naum... Mas, mesmo assim, espero que gostem...

OBS. Lembrem-se que que escreveu o texto que vão ler foi uma pessoa a quem faltam alguns parafusos, por isso sejam gentis... XD


CAPÍTULO X

OoO

- E então... – soluçou – Qual dos dois vai lutar comigo? – outro soluço – Se quiser Yun, posso lutar contra os dois.

Os discípulos de Yun arquearam as sobrancelhas.

- E se eu usar apenas um dos meus braços ainda termino bem a tempo do chá! – tomou um gole da sua garrafa – Mas eu ainda prefiro uma bebida... Mais forte.

- Calma, Beni... – Yun colocou a mão no ombro do amigo – Vocês dois, decidam logo quem vai ter a honra – fez um gesto de desdém com a mão e puxou Takuma e Beni para mais perto de si, formando um pequeno círculo.

Shaoran inspirou profundamente.

"Mas quanta audácia!" – sentia a raiva correr quente em suas veias.

- Eu lutarei contra aquele velho! – falou mascarando a irritação – E você fica quietinha! – se dirigia a Sakura, que ameaçara dizer alguma coisa.

- Como assim? – a garota questionou. Não queria parecer uma pessoa que gostava de ter toda a atenção para si, mas algo lhe dizia que Shaoran não estava dando a devida atenção às habilidades de Beni.

– Não me venha com essa história de "como assim?", você já enfrentou o Shingo, agora é a minha vez de lutar! – nada do que ela dissesse faria com que ele não lutasse.

- Mas...

- Vamos lá, Sakura-chan, você não quer ficar com toda a diversão, não é? – Shingo decidiu interferir – É bom deixar um pouco pra o Shaoran. O cara tá precisando.

"Finalmente alguma utilidade para esse japonês..." – Shaoran pensou, fazendo um sinal afirmativo para Yun, que o encarava.

- Então chegou a hora do jovem Shaoran mostrar a sua evolução nas artes marciais – Yun fez um gesto para que o chinês se aproximasse.

Sakura suspirou derrotada, não havia o que fazer.

- Então o Shaoran vai ter o grande prazer de se tornar íntimo do estilo do Beni – Takuma tinha um meio sorriso no rosto – Estou curioso para ver no que isso vai dar.

- Boa sorte, cara – Shingo tomou o lugar do chinês ao lado de Sakura, ficando tão próximo que os ombros dos dois estavam quase se tocando – Você está toda molhada, Sakura-chan, não está com frio?

- Hããã, não, estou bem – tinha os olhos presos na figura de Shaoran, que se afastava.

- Qualquer coisa eu estou aqui pra te esquentar... – Shingo ofereceu com um sorriso malicioso.

"Ah, seu japonês infeliz!" – Shaoran trincou os dentes ao ouvir as palavras ousadas do filho de Takuma...

Mas como adoraria partir a cara daquele atrevido no meio...

Contudo, há muito tempo havia aprendido que às vezes era necessário se contentar com o que tinha em mãos, então, por enquanto, se conformaria em cuidar daquele bêbado... Daria uma boa lição nele, talvez assim ele parasse com aquele vício tão desprezível.

- O que quer me olhando assim? – Yun foi logo dizendo quando Shaoran parou em frente a ele – O seu assunto é com aquele ali – apontou para o cambaleante Beni.

Shaoran arqueou uma sobrancelha.

- Mas o senhor não vai me dar nem um aviso, conselho, sabe? – estava esperando que o mestre pedisse para que fosse com calma e não provocasse ferimentos sérios no alcoólatra velhote.

Yun passou o braço pelos ombros de seu discípulo.

- Vou lhe dar esse voto de confiança... – sussurrou de modo confidente – Tenho certeza que essa luta renderá frutos maravilhosos – deu uns tapinhas no braço do chinês, empurrando-o na direção de Beni.

Shaoran deu uma última olhadela por sobre o ombro tentando encarar Yun, Mas o velho mestre já tinha lhe dado as costas e se afastara.

Então era isso... Estava livre para fazer o que bem entendesse.

Mais alguns passos e se viu diante do bêbado capenga.

Olhando aquela figura patética começava a se sentir desconfortável com toda a situação, nunca gostara de se aproveitar dos fracos e indefesos, mas de jeito nenhum deixaria Sakura lutar contra aquele cara, os bêbados sempre tiveram a fama de serem libertinos... E se aquele velho se aproveitasse da situação para bolinar a japonesa... Argh, a coisa ia ficar feia!

- O negócio é o seguinte, garoto – soluçou Beni – Você já deve ter percebido que existe uma diferença muito grande entre nós dois.

- Sei - Shaoran olhou para ele como se estivesse diante de um monte de lixo – Uma diferença enorme, eu diria.

- Então vamos facilitar as coisas – enfiou a mão no bolso esquerdo, o que o fez se inclinar totalmente para a esquerda, após poucos segundos soltou um grunhido e passou a vasculhar o bolso direito, o que quase o fez tombar para a direita. Insatisfeito, desistiu de procurar nos bolsos e começou a tatear a parte da frente da camisa que vestia – Ah! – parecendo se lembrar e algo, remexeu no bolso de trás da calça. Foi então que seu semblante se iluminou e ele ergueu a mão.

Entre o polegar e o indicador ele trazia um palito de fósforo.

– Que tal isso, hein? Para ajudá-lo vou usar apenas a mão direita, o que acha?

- Como é que é? – Shaoran não acreditava no que tinha ouvido.

- Tudo bem, tudo bem, a esquerda – Lívido de raiva, Shaoran o viu acender o fósforo, esfregando-o no fundo da garrafa que trazia presa à cintura – E para você não ficar chorando eu termino com a luta antes dessa chama se apagar.

Aquilo foi a gota d'água para Shaoran.

- Ora, seu... – foi pra cima dele com toda a velocidade que tinha, tencionando acertá-lo com um soco de direita bem no meio do nariz.

Mas o velho se inclinou para o lado no último segundo e esquivou-se de seu golpe raivoso.

- Isso é tudo, garoto? – Beni tinha um sorriso nos lábios – Que tal isso? Se você conseguir me acertar uma única vez, eu declaro você o vencedor, hun?

- Seu infeliz! – Shaoran, movido pela raiva, distribuiu toda a sorte de golpes, mas Beni se esquivava de todos, de um jeito que o chinês nunca tinha visto. Ele conseguia inclinar o corpo como de estivesse perdendo o equilíbrio, mas na verdade estava se desviando perfeitamente, impedindo que Shaoran pudesse atingi-lo.


Posicionada entre Shingo e Yun, Sakura via seus temores se concretizarem. Apesar de Shaoran atacar com força e rapidez não conseguia sequer tocar em Beni, que se desviava de forma quase impossível. A japonesa sentiu seu sangue esfriar nas veias. Passou as mãos nervosamente pelos cabelos.

"Ai, ai, ai, ai, ai"

Yun, que a observava com atenção, não conseguiu evitar que um meio sorriso surgisse em seus lábios.

- Não se preocupe jovem Sakura – falou atraindo a atenção da garota – Toda experiência traz crescimento – voltou a observar Shaoran desferir golpes que eram esquivados com facilidade por Beni – Mesmo quando é adquirida através de derrotas.

Sakura encarou Yun com surpresa, em seguida teve a sua atenção voltada para os combatentes.

Shaoran já estava completamente ofegante e Beni permanecia cambaleante em frente a ele.

- Acho que já está na hora de terminar essa brincadeira – Soluçou - Não é, garoto?

Shaoran nunca sentira tanta raiva em toda a sua vida. Por mais que tentasse não conseguia acertá-lo!

"Só um golpe... Só um golpe e eu o derroto" - Shaoran, pensava com determinação.

- Você já teve a sua chance – o chinês o viu flexionar um pouco os joelhos e se inclinar em sua direção – Agora é a minha vez – o velho disse pouco antes de praticamente desaparecer.

Shaoran mal teve tempo de piscar, quando Beni aplicou um golpe com os dedos indicador e médio na parte frontal do seu ombro direito, em seguida o chinês teve a horrível sensação de que não sentia mais o braço, numa fração de segundo, Beni fez o mesmo com o seu outro ombro. Se curvando um pouco, Beni deu mais dois golpes, um em cada joelho do chinês que caiu ajoelhado no chão. Havia perdido o controle da parte inferior das pernas também.

De olhos arregalados, Shaoran encarou o japonês e percebeu que a expressão dele não tinha nada de embriagada.

Com mais um movimento rápido, Beni aplicou outro golpe com apenas os dois dedos, dessa vez na base da nuca do chinês, que se curvou levemente para frente.

Shaoran sentiu como se tivesse levado um tiro de arma de fogo, a cabeça parecia prestes a explodir, mas ele permaneceu firme onde estava.

- Hummm, está agüentando muito bem, garoto, a maioria já estaria nocauteada a essa altura, mas eu não posso continuar brincando, meu tempo está acabando – Beni comentou displicentemente olhando o fósforo cuja chama, quase extinta, se aproximava das pontas dos seus dedos.

Através da névoa que tomara conta de sua visão, Shaoran observou-o desaparecer mais uma vez e reaparecer milésimos depois alguns metros à frente.

- Agora vem a melhor parte – Beni parecia sorrir.


Sakura sentia a testa molhada de suor, tinha as mãos fechadas em punhos.

Sentia o desagradável sabor da impotência amargar em sua boca.

De cenho franzido, viu Beni, com a mão livre, pegar a garrafa que tinha na cintura e levá-la aos lábios, em seguida ele passou o fósforo para a mão esquerda e o trouxe para perto do rosto. Para total espanto de Sakura ele cuspiu em direção ao fiapo de fogo que, como mágica, aumentou de tamanho, tomando a forma de uma cabeça de dragão que se precipitou na direção de Shaoran.

Aquilo foi demais para Sakura, que, com toda a velocidade, se pôs entre um indefeso Shaoran e o dragão de fogo.


Em meio a toda dor e desespero que estava sentindo, Shaoran viu Sakura se postar a sua frente vinda sabe-se lá de onde.

- Água! – ouviu-a gritar, para em seguida ambos serem envoltos por um círculo de água que se transformava rapidamente em vapor.

Tudo o que Shaoran mais queria era poder se mexer e ajudar Sakura, mas os lugares que Beni lhe acertara ardiam absurdamente e a cabeça doía-lhe cada vez mais, sua vista começava a escurecer... Sentia-se cair para o lado.

Quando seu corpo colidiu com o solo e seus olhos se fecharam ouviu um grito de dor. Não teve tempo para questionar de quem teria partido o grito... Foi tragado para a escuridão.


Sentia como se estivessem martelando incessantemente a sua cabeça, levou alguns segundos para perceber que, na verdade, o corpo todo estava doendo. Entreabriu os olhos e foi como se centenas de agulhas os espetassem.

Com um grunhido voltou a fechar os olhos só que dessa vez com mais força.

- Calma, calma – uma voz suave penetrou em seus ouvidos, ao mesmo tempo em que Shaoran sentiu algo frio ser colocado sobre seus olhos, o que surtiu um efeito imediato, aplacando um pouco a sua dor de cabeça.

O alívio foi recebido com um suspiro de satisfação, mas o rapaz não teve tempo para apreciá-lo de forma consciente, pois foi sugado mais uma vez para a obscuridade do sono.


Sakura observava Shaoran com uma preocupação crescente. Sentou-se na cadeira que pusera ao lado da cama do chinês, tentando engolir, sem muito sucesso, o nó de apreensão que se formara em sua garganta.

Já fazia mais de duas horas que ele estava praticamente inconsciente, sem que tivesse apresentado qualquer melhora! Nunca, nem sequer no mais louco devaneio, Sakura imaginara que veria Shoaran tão vulnerável.

Não dava para acreditar que Beni possuísse um poder daqueles...

Flashback

Por mais que tentasse, a sua magia não estava superando as chamas e a água estava se transformando rapidamente em vapor.

"Droga!" – com a mão aberta fez um movimento para frente e conseguiu formar uma cortina de água mais poderosa, as chamas enfraqueceram visivelmente, mas em poucos segundos sentiu a água esquentar e evaporar. Um instante depois sentiu as chamas tocarem-lhe a mão direita.

- Ahhh – fechou os olhos e recolheu levemente a mão, mas então se lembrou de que Shaoran estava inconsciente às suas costas.

Não podia deixar o fogo passar ou Shaoran estaria em apuros...

Com os olhos cheios de lágrimas de dor e trincando os dentes, Sakura, mais uma vez, fez o movimento para frente com a mão direita. Como o fogo já estava enfraquecido, com o aumento da água, dessa vez ele se apagou.

Assim que se viu livre das chamas. Sakura caiu de joelhos, segurando o antebraço esquerdo. Pela cortina de lágrimas que não caíram, viu que a mão e o pulso estavam completamente negros.

Engolindo em seco, fechou os olhos e deixou-se cair sentada.

A mão ardia como se ainda estivesse sendo dilacerada pelas chamas. Curvou as costas e trincou os dentes.

Então se lembrou da razão de ter se metido na luta.

Rapidamente, se virou para a figura inerte de Shaoran. Seus olhos se arregalaram ao notar que o pescoço, os ombros e os joelhos do chinês estavam impressionantemente inchados e ostentavam uma cor quase negra.

Mais uma vez seus olhos se encheram de lágrimas. Não teve dúvidas sobre o que precisava fazer.

Estendeu a mão esquerda, mas antes que pudesse sequer tocar em Shaoran, seu pulso foi envolto por uma mão, impedindo que chegasse mais perto.

- Esse tipo de ferimento não pode ser curado por magia, jovem Sakura – Yun ainda segurava a sua mão.

- O quê? – uma lágrima escapou da sua barreira e escorreu por sua face.

- Nós o ajudaremos de outra maneira – finalmente libertou-lhe a mão – O jovem Shaoran precisa ser forte e agüentar... Sem a ajuda da magia.

Outra lágrima desceu pelo rosto de Sakura.

Fim do flashback

Sakura piscou, voltando ao presente.

Yun tinha falado que apesar de estar parecendo muito ruim, o estado de Shaoran melhoraria em breve, mas até lá...

A porta do quarto foi escancarada com um estrondo e a japonesa quase caiu da cadeira. Virando-se para a direção do barulho, viu que a porta havia sido aberta para dar passagem ao mestre Yun e para Takuma, que entraram como raios.

- É hora da ação, jovem Sakura – Yun e Takuma se postaram ao lado da japonesa.

- Com licença – Takuma falou puxando o cobertor de Shaoran.

Diante dos olhos arregalados da japonesa, Takuma rasgou e retirou a camisa de Shaoran, em seguida deu um passo para trás, abrindo espaço para que Yun se aproximasse. Só então Sakura percebeu que Yun trazia um pequeno balde, que pousou sobre a cama.

De dentro do balde, Yun retirou cinco faixas que estavam embebidas em algum líquido de cheiro forte. O mestre chinês colocou as faixas sobre o abdômen de Shaoran, que estremeceu.

- Calma, jovem Shaoran, isso só vai ajudá-lo – enrolou uma das faixas no pescoço de Shaoran, em seguida fez o mesmo com os ombros e os joelhos – Pronto, por enquanto está tudo resolvido – pegou o balde – Takuma... – como se fosse a sua deixa, Takuma voltou a cobrir o Shaoran.

- Agora é a sua vez, jovem Sakura – Yun se aproximou da japonesa.

Sakura piscou.

- Hã, o quê? – ainda estava confusa com o que acontecera nos últimos minutos.

Yun tomou o braço de Sakura na altura do cotovelo e o ergueu.

- Já está mais do que na hora de cuidar disso, não acha?

Sakura encarou os olhos negros do mestre e depois a grande queimadura quase tão escura que cobria a sua mão indo até o seu pulso, depois se virou para a figura adormecida de Shaoran.

- O Takuma vai ficar tomando conta do jovem Shaoran – Yun revelou, como se pudesse ler os pensamentos da garota – Agora venha.

Sakura se viu sem escolha, com um último olhar para Shaoran e um cumprimento para Takuma, seguiu o mestre para fora do quarto.


- Não quero nem imaginar como foi que você conseguiu aguentar a dor de uma queimadura dessas por todo esse tempo, jovem Sakura – Yun observava atentamente o ferimento da garota.

Com o cotovelo apoiado na mesa da cozinha de Takuma, Sakura mordia o lábio inferior com apreensão. A verdade é que a dor daquela queimadura já estava começando a enlouquecê-la, mas não tivera tempo para se preocupar com aquilo, tivera prioridades maiores com que lidar até o momento, afinal o estado de Shaoran inspirava mais cuidados do que a sua mão.

- Humm, isso não é nada – esperava que o mestre Yun não risse da sua bravata.

Yun a encarou por um instante parecendo mesmo que ia gargalhar, mas a gargalhada não veio. Ao invés de rir, o velho chinês curvou o braço de Sakura em direção a uma pequena bacia que estava sobre a mesa. Pegou uma garrafa de vidro que estava cheia de um líquido transparente, que Sakura a princípio achou que fosse água, mas quando o mestre retirou a tampa, um cheiro salgado se apossou dominou toda a cozinha.

- Talvez isso doa um pouco, jovem Sakura – avisou e começou a despejar todo o conteúdo da garrafa na mão da japonesa, antes que ela tivesse tempo de sequer piscar.

Assim que a primeira gota tocou em sua pele, Sakura percebeu que "talvez isso doa um pouco" foi o maior eufemismo do ano. Se estivesse de olhos fechados poderia imaginar que a sua mão e o seu pulso tinham se transformado numa tocha.

- Mas que... – fechou a boca para impedir que palavrões escapassem e fez força para não se levantar da cadeira e correr para enfiar o braço na primeira poça de água que encontrasse. Sentia os olhos se encherem de lágrimas de dor, mas não teve tempo de vertê-las. Uma sensação de dormência começou a envolver a mão.

- Uma beleza, não é? – Yun comentou voltando a levantar o braço de Sakura - Não precisa se preocupar, assim que o jovem Shaoran melhorar voltaremos para casa e quando lá chegarmos não haverá nenhuma cicatriz marcando a sua pele – revelou começando a passar uma pomada no machucado.

- Isso é bom – Sakura respondeu, acompanhando o trabalho do mestre. A dor se resumia agora a um tolerável latejar.

- Sakura, você já se perguntou por que foi queimada por Beni? – Yun questionou sem encará-la, continuava a passar a pomada.

A garota estranhou a pergunta.

- O fogo superou o poder da carta da água...

Yun franziu levemente o cenho.

- Hum, por mais que Beni seja forte... – fez uma pequena pausa – Você acha realmente que o fogo que ele criou de maneira tão simples, era mais forte do que a carta da água? – a encarava com uma seriedade que Sakura há muito não o vira ter - Já pensou em como você interrompeu a luta?

Sakura ficou vermelha na hora.

- Quanto a isso e-eu... – engoliu em seco – M-me desculpe... Sei que não deveria... – não sabia como se explicar.

Yun terminou de passar a pomada e pegou uma faixa.

- Não estou falando sobre isso, jovem Sakura. Pelo o que eu conheço de você, a sua reação não me surpreendeu de maneira nenhuma. Você tomou a decisão correta – começou a enrolar a faixa na mão da japonesa – Estou falando da maneira como você invocou a carta da água.

Sakura suspirou de alívio, pensava que levaria uma bronca por se meter onde não devia...

- Bem, eu corri e invoquei a... – foi então que sofreu um estalo de esclarecimento.

Quando vira aquela chama com cabeça de dragão, correra como uma louca, se pusera na frente do ataque e chamara os poderes da carta da água, mas não tinha invocado o báculo mágico e nem estava com as cartas naquele momento!

- Como...? Eu...?

Yun achou graça na confusão da garota.

- Isso mesmo. Você usou os poderes da carta sem estar de posse dela e do báculo, por causa disso os poderes mágicos não foram utilizados por completo – Yun prendeu a faixa no lugar e entrelaçou os dedos das mãos sobre a mesa – Quando percebeu que a água estava virando vapor, você fez um movimento para frente com a mão direita imaginando que assim poderia aumentar o poder. Uma atitude instintiva que estava correta, o poder aumentou, mas não foi o suficiente e o fogo levou a melhor.

Fez-se um momento de silêncio no qual Sakura pensava nas informações dadas pelo mestre e ele avaliava as expressões dela.

- Como eu consegui isso? – Não tinha dado atenção ao que fizera antes, pois com o estado de Shaoran e todo o resto, não tivera tempo. Mas agora...

Yun suspirou. Estava na hora de explicar mais algumas coisinhas sobre magia para a escolhida de Clow.

- O que você fez, jovem Sakura, é algo totalmente possível. Usar a magia espontaneamente. – encarou-a com seriedade - Mas como você mesma viu, sem a presença do báculo, que serve para canalizar o seu poder mágico, a magia da carta, que também não estava presente, não saiu completa, apesar de você utilizar mais poder do que o normal para invocar a magia – fez uma pequena pausa, escolhendo as palavras - O fato de você poder utilizar seus poderes mágicos dessa forma é muito útil, pois poderão existir situações em que você não esteja com as cartas ou até mesmo esteja impossibilitada de libertar o seu báculo – não revelaria que estava muito mais do que satisfeito por descobrir que o nível dela tinha atingido patamares tão altos, na situação em que estavam ele só podia receber esse avanço inesperado com alívio – Com um pouco mais de treinamento tenho certeza de que você vai aperfeiçoar essa técnica, que é perfeita para ocasiões em que se quer usar a magia com um pouco mais de descrição... Sem palavras mágicas, por exemplo – revelou.

Sakura estava de queixo caído e totalmente sem palavras.

- Bem... Eu... Hã...

Yun ergueu uma sobrancelha.

- O que acha de deixarmos esse assunto de lado por enquanto?

- Por mim tudo bem - Sakura não poderia estar mais feliz em concordar.

- Certo, agora preste bastante atenção que eu vou lhe dar instruções sobre como cuidar do nosso querido Shaoran – agora vinha a parte divertida – Você está lembrada de que, logo após a luta, Shingo levou Beni para a casa dele, não está? – sorria amplamente - O Takuma e eu vamos até lá buscar o filhote dele, nenhum de nós confia naquele garoto sozinho com o velho, nunca dá pra saber quem é mais irresponsável – balançou negativamente a cabeça – O resultado disso é que só voltaremos amanhã no começo da tarde – concluiu.

Sakura arregalou os olhos.

- O quê? Eu vou cuidar sozinha do Shaoran?

Um lento sorriso tomou conta dos lábios de Yun.

- Calma, jovem Sakura, não haverá complicações sobre isso, afinal logo ele acordará – Seu sorriso aumentou – Ouça...


Pé ante pé, Sakura entrou no quarto em que Shaoran dormia, segurando com força o pequeno balde com água fria, a japonesa se aproximou da cama. Pousando o balde no chão, sentou-se na cadeira que havia ocupado mais cedo.

Só esperava que tudo desse certo.

Com todo o cuidado retirou a toalha que tapava os olhos de Shaoran, assim que a sua mão tocou na pele do chinês, Sakura percebeu que ele estava mais quente do que o normal. Engolindo em seco, se apressou em mergulhar a toalha na água do balde que trouxera e, após espremê-la um pouco usando a sua mão esquerda, a colocou de novo sobre os olhos de Shaoran. Yun tinha dito para sempre manter cobertos os olhos do chinês com a toalha molhada, para diminuir-lhe a dor de cabeça.

Quanto àquilo não haveria dificuldades...

"Se ele tiver febre, o que vai acontecer com quase certeza, você tem que fazer compressas de água fria pelo corpo dele" – Yun tinha lhe contado, com um sorriso que Sakura achava ter sido de zombaria.

Tentando assumir a consciência de enfermeira que precisaria usar naquela situação, Sakura puxou o cobertor de Shaoran até a altura dos joelhos dele, pegou a toalha seca que trouxera pendurada no ombro e a submergiu dentro do balde, repetiu o processo de espremer como fizera antes, só que dessa vez ao invés de pousá-la sobre os olhos de Shaoran, teria que passá-la pelo corpo dele.

"Procure se concentrar na testa e no peito dele" – Yun alertara.

Nada de muito complicado...

Começou pela testa do rapaz, desceu pelas bochechas e, após um momento de indecisão, começou a passar a toalha pelo peito e pelo abdômen do chinês. Aquela ação a lembrava tanto do que fizera poucas horas antes...

Flashback

... lutava para manter a pulsação sob controle, nunca imaginaria que teria coragem de fazer uma coisa daquelas, mas estava mais do que satisfeita por ter aquele tipo de contato com Shaoran, e mais satisfeita ainda por não ser repelida pelo chinês e nem sabia como reagiria caso ele a rejeitasse, porque simplesmente não conseguia parar! Suas mãos correram pelo peito dele, subiram para o ombro e...

Fim do flashback

Balançando a cabeça de um lado para o outro, Sakura obrigou-se a se concentrar, estava tratando da saúde de uma pessoa, por isso não podia ficar pensando bobagens num momento importante daqueles.

Repetiu o processo de passar a toalha pelo corpo do chinês uma, duas, três... Incontáveis vezes, quando percebeu que a temperatura dele tinha baixado. Deixando escapar um suspiro que era um misto de alívio e cansaço, jogou a toalha dentro da água que restara dentro do balde.

- Hummm – ouviu e se voltou para Shaoran, viu que ele se mexia na cama.

Enfiou a mão no bolso da calça e retirou um pequeno saco de papel que Yun tinha lhe dado.

"Quando ele acordar, misture isso num copo de água e faça-o beber"

Com mais um olhar para Shaoran, Sakura correu para fora do quarto.

Voltando em poucos segundos com uma jarra de água e um copo, encheu o copo, colocou a jarra sobre a cadeira em que estivera sentada, pegou o saquinho e despejou o pó na água.

- Agora é que são elas... – mirou a figura semi-consciente de Shaoran.

Curvou-se sobre ele e, com todo o cuidado, passou o braço por baixo do pescoço do chinês, que soltou um resmungo.

- Nem adianta reclamar... Não tem outro jeito – Sakura sussurrou para ele. Apoiou a cabeça dele na curva do seu cotovelo esquerdo e com a mão enfaixada, encostou o copo nos lábios do chinês.

- O que... – ele murmurou rouco.

- Isso vai fazer você se sentir melhor – Sakura sussurrou de volta, surpresa por ele já conseguir falar.

- Humm – ele resmungou, mas tomou tudo em poucos goles, suspirando no final.

Sakura sorriu aliviada por, no final das contas, não ter tido tantos problemas para fazê-lo beber.

- Shaoran? – perguntou, ainda segurando-o nos braços.

- Hum?

- Como está se sentindo?

- Ótimo – respondeu com azedume, o que deixou Sakura satisfeita, pois se ele tinha força para demonstrar irritação estava em franca recuperação – É você, Kinomoto? – Sua voz era incerta.

- Sim.

- Pode tirar esse pano do meu rosto? – falava baixinho e Sakura imaginou que ele dormiria em breve.

- Se eu fizer isso, sua dor de cabeça vai piorar.

- Humm.

Sakura pousou a cabeça dele sobre o travesseiro libertando o braço, ajoelhou-se ao lado da cama e passou a acariciá-lo na cabeça.

- O que você... – suspirou – Está fazendo? – Shaoran perguntou num fio de voz.

- Nada – Sakura passava a mão pelos cabelos dele, colocando-os para trás – Não estou fazendo nada – sentiu que o chinês relaxava e, em seguida, percebeu que ele havia adormecido.

Sem tirar a mão dos cabelos do chinês, encostou a testa na beirada da cama e fechou os olhos. Estava aliviada porque tudo tinha ocorrido bem, a febre cedeu e Shaoran estava se recuperando até mais rápido do que esperava.

Nem queria pensar no que faria ali sozinha se ele piorasse...


Sentindo uma pontada no pescoço, Sakura acordou. Estava curvada, com a cabeça recostada na cama de Shaoran.

Droga. Havia dormido numa posição pouco confortável. Levantou do chão, alongou as costas doloridas, e sentou-se na cadeira, massageando o pescoço, por fim bocejou ruidosamente.

Foi quando se deu conta.

"Maldição" – Praguejou em pensamento.

Como fora capaz de dormir quando devia tomar conta de Shaoran?

Se chutando mentalmente, pousou a mão na testa do chinês adormecido, para seu completo alívio descobriu que a temperatura dele estava normal.

"Ainda bem!" – levantou-se da cadeira e se espreguiçou languidamente.

Que horas deveriam ser?

Era em momentos como aquele que adoraria ter um relógio...

Foi até a janela e a entreabriu. Pela cor do céu dava pra ver que faltava muito pouco para clarear.

Voltou-se para o lado da cama de Shaoran e mirou as faixas que o mestre pusera nele.

"Por volta do amanhecer, você já pode tirar essas faixas, jovem Sakura. Mas não se esqueça de, depois que retirá-las, passar um pano molhado sobre as áreas afetas" – Yun lhe dissera.

Com bastante cuidado, retirou as faixas uma a uma colocando-as no chão.

- Puxa! – exclamou baixinho, mirando as surpreendentes marcas arroxeadas que cada faixa daquela cobrira.

- Pelo menos não há mais nenhum inchaço... – pegou o balde que fora seu companheiro durante a noite passada e pegou a toalha que estava boiando dentro dele.

- Assim que começou a passar o pano sobre o primeiro hematoma, Shaoran gemeu e se retraiu um pouco.

- Shhh, shhh. É para o seu bem... - Pousou a mão enfaixada na testa dele.

O chinês pareceu se acalmar.

Deixando escapar um suspiro triste, Sakura recomeçou a tarefa, sentia que Shaoran, apesar de inconsciente, estava totalmente retesado, por isso foi meticulosa. Com movimentos fortes e precisos, passou a toalha por cima das manhas escuras, e em poucos minutos terminou.

Jogou a toalha dentro do balde e voltou-se para o chinês. Notou que ele ainda estava completamente tenso.

- Pronto, pronto, já acabou – passou a mão por entre os cabelos dele – Daqui a muito pouco tudo isso vai passar – Sob as pontas de seus dedos, sentiu que ele relaxava e voltava a dormir tranquilo.

Com um sorriso se recostou na cadeira.

Suspirou.

Puxa vida como estava cansada!

Reuniu o que restava das suas forças e se levantou. Arrastou os pés até o armário do quarto e tirou de lá um lençol limpo, voltando para o lado da cama retirou o que Shaoran usara durante a noite e o substituiu pelo que pegara.

- Melhor assim, não é? – sorriu para a figura adormecida do chinês.

Segurando o lençol sujo, Sakura pegou a sua mochila e saiu do quarto. Estava louca para tomar um banho...

É claro que tinha de ser rápida, afinal devia fazer algo para Shaoran comer, tinha o pressentimento de que ele acordaria muito em breve, mas precisava de um banho para aliviar a tensão e revigorar o seu esqueleto exausto, mesmo que fosse um "banho de gato".

Apressando o passo entrou no banheiro.


Abriu os olhos, apenas para encontrar a escuridão. A cabeça latejava e sentia como se algo lhe apertasse os ombros e os joelhos.

Mas o que diabos lhe acontecera?

Lembrava-se vagamente de que havia lutado contra Beni. Franziu as sobrancelhas forçando o cérebro a trabalhar, mas não teve muito sucesso. Só se lembrou de que, durante a luta, perdera a sensibilidade dos braços e das pernas.

Com grande esforço mexeu cada dedo da mão direita, percebendo que conseguira, fez o mesmo com a mão esquerda e os pés. Quase suspirou de alívio ao perceber que voltara a sentir seus membros. Não estava cem por cento no controle, mas recuperara pelo menos uns setenta por cento...

Com o máximo de concentração que reuniu, ergueu a mão direita, que se moveu lentamente. Não sabia quanto tempo levara, mas as pontas dos dedos tocaram a toalha que lhe cobria os olhos. Pegou-a e, mantendo os olhos fechados, a retirou deixando-a de lado.

Engolindo em seco entreabriu os olhos, mas a leve claridade do quarto não prejudicou a sua dor de cabeça. Aliviado abriu os olhos por completo.

Nesse momento a porta se abriu para dar passagem a Sakura.

- Oh, acordou! – trazia uma tigela cheia com algo que cheirava tão bem que fez com que a boca de Shaoran se enchesse de água – Bom dia, Shaoran.

- Bom dia – Fez força para se colocar sentado na cama.

- Ei, vai com calma aí – Sakura colocou a tigela em cima da cadeira que estava ao lado da cama e o ajudou a se sentar. Colocou o travesseiro encostado na cabeceira da cama, para que ele pusesse encostar as costas num lugar mais confortável.

Pegou a tigela e sentou-se na cadeira.

- Humm, você tirou a toalha... – pegou a colher que estava dentro da tigela e começou a mexer no conteúdo que a enchia – Como está a cabeça?

Shaoran cruzou as mãos no colo.

- Está muito bem.

Sakura quase riu da cara de vontade que ele tinha agora olhando para o líquido morno que estava mexendo.

- Quer? - apontou para a tigela que repousava em seu colo.

Tentando não parecer um esfomeado, Shaoran balançou a cabeça afirmativamente.

Sakura sorriu e encheu a colher com a sopa que fizera e levou-a até os lábios de Shaoran.

- Eu posso comer sozinho, não sou um bebê – Ele reclamou.

Sakura fez cara feia.

- Você já pode mexer as mãos livremente? Do jeito que sempre mexeu?

Shaoran desviou o olhar.

- Bem...

- Foi o que pensei – Sakura balançou negativamente a cabeça – Deixa de besteiras e abre a boca.

Shaoran sentiu o rosto esquentar, mas, como duvidava de que conseguiria comer sem bancar o idiota, abriu a boca.

- Muito bem – Sakura sorriu e enfiou uma colherada na boca do chinês – Você não precisa se preocupar, o mestre Yun disse que logo, logo você estará novinho em folha.

Shaoran duvidava um pouco disso, mas não disse nada. Continuou a comer em silêncio, e, como suspeitava, a refeição estava uma delícia!

Sakura estava muito satisfeita com o apetite do rapaz. Em pouquíssimo tempo, a tigela estava quase vazia!

Shaoran estava com uma fome canina e a sopa que Sakura trouxera estava tão boa que... Foi então que percebeu que ela estava lhe dando as colheradas com a mão esquerda. A tigela estava pousada no colo dela.

"Desde quando a Kinomoto era canhota?"

Entre uma colherada e outra viu que a japonesa estava com o braço direito parcialmente escondido pela cadeira, mas mesmo assim pôde ver de relance uma bandagem.

- Puxa, você estava mesmo com fome, hein? – Sakura encarava a tigela vazia em seu colo – Quer mais?

- O que houve com a sua mão? - assim que fez a pergunta flashes passaram por sua cabeça. Chamas gigantescas vindo em sua direção, uma pessoa aparecendo a sua frente e então ambos foram envoltos por uma cortina de água que logo se transformou em vapor. A última lembrança que tinha antes de apagar foi a de um grito de dor...

Sakura engoliu em seco. Colocou a colher dentro da tigela e colocou as duas no chão. Mordendo o lábio inferior, pousou a mão machucada sobre o colo.

- Acho que eu deveria ter usado a carta Escudo ao invés da Água, não é mesmo? – sorriu – Mas quem ia adivinhar que aquelas chamas eram tão poderosas?

"Como é que é?" - Shaoran trincou os dentes.

Reunindo o pouco de força que ainda tinha, alcançou a mão machucada da japonesa, tomando-a gentilmente entre a sua, e a trouxe para mais perto, para que pudesse observá-la mais atentamente.

"Como isso foi acontecer?" – pensou irritado.

- Dói? – perguntou baixinho.

- Não – Sakura respondeu depressa.

Shaoran encarou-a de olhos semicerrados.

- Não? – sabia que ela não estava lhe dizendo a verdade.

Sakura fez um bico de indiferença.

- Bem, não tanto quanto antes – resolveu ser mais sincera – O Mestre Yun aplicou um unguento de alívio imediato – revelou em tom de brincadeira, mas Shaoran não achou graça.

"Não tanto quanto antes"

Aquela frase ficou martelando em sua cabeça.

Voltou a observar a mão machucada, viu que as bandagens iam até um pouco depois do pulso da japonesa.

Engoliu em seco.

- Vai ficar marcado? – perguntou contendo a respiração.

Ouvindo a pergunta do chinês, Sakura sentiu seu coração se enternecer. Sorriu.

- Segundo o mestre Yun as chamas do Beni não deixam marcas e quando retornarmos para... – fez uma pausa incerta – para a nossa... dimensão... – se sentia estranha falando daquele jeito - Não haverá cicatriz nenhuma.

Shaoran voltou a respirar.

Já era horrível ela ter se ferido por sua causa, imagine se ela tivesse a pele marcada para sempre por causa da sua imprudência?

- Bom – voltou a encarar a japonesa com atenção – Por que fez aquilo?

Sakura sabia que ele ia fazer aquela pergunta e ainda não sabia o que responder.

Afinal, por que se metera naquela luta?

Decidiu que o melhor era tentar dizer a verdade, por mais vergonhoso que fosse.

- Não pude me controlar... – fez uma pausa tentando reordenar os pensamentos – Você não podia se mexer, então...

- Você não devia ter se envolvido! – Shaoran interrompeu, os olhos fixos na mão enfaixada. Não conseguia parar de pensar que ela estava machucada por sua culpa.

- Eu não podia deixar você receber aquele golpe! – falou baixinho por entre dentes, deixando de lado o constrangimento – Você não tinha como se defender e eu não podia permitir... – fechou os olhos e suspirou – Não podia – voltou a encará-lo direto nos olhos.

Shaoran pousou a mão dela em seu peito, manteve-a no lugar segurando-a pela parte boa do seu antebraço, para não causar dor. Fechou os olhos e deixou-se escorregar até que estava de novo deitado na cama, mais tarde poderia desculpar a si mesmo por essas ações pouco racionais culpando seu atual estado deplorável, no final das contas estava sendo vencido pelo cansaço mesmo, sem falar na dor que consumia seu corpo...

- Idiota – murmurou e, com mais um esforço, entreabriu os olhos, encarando as piscinas verdes que estavam meio ocultas pela leve penumbra – Obrigado – sussurrou pouco antes de cair no sono.

Sakura sentiu ser tomada por uma alegria esmagadora. Com a mão livre afastou o cabelo que caía na testa do chinês adormecido.

- De nada – sussurrou.


- Já está mais do que na hora de levantar – resmungou.

Pela claridade do quarto, Shaoran sabia que tinha dormido bastante.

Acordara sozinho no quarto que dividia com Sakura e permaneceu deitado por tempo suficiente para ficar de saco cheio.

Com um gemido de esforço se pôs sentado na cama.

"Mas onde será que está aquela garota?" – empurrou o lençol para o lado – "Onde está todo mundo, afinal?" – desde a luta não vira ninguém mais, além da japonesa.

Aquilo era o cúmulo!

Mas não havia nada que pudesse fazer sobre isso no momento.

Reuniu toda a sua força e conseguiu fazer com que as pernas deslizassem pela cama até que seus pés tocassem o chão. Nunca antes tivera que fazer tanto esforço para se levantar de uma cama.

Com um suspiro, apoiou as mãos na cama e fez força para cima, ficando de pé. Quase caiu de volta na cama, quando seus joelhos bambearam fazendo com que perdesse um pouco do equilíbrio. Permaneceu um segundo parado testando a própria estabilidade, ficou satisfeito ao ver que estava firme.

- Preciso de uma camisa... – murmurou ao encarar o próprio peito nu.

- O que você está fazendo! – Sakura gritou entrando no quarto de repente.

Shaoran tomou um susto e seus joelhos voltaram a bambear.

- Whoa – em um segundo, Sakura estava ao seu lado segurando o seu braço, fazendo com que recuperasse o equilíbrio.

- Droga, Kinomoto. Você tinha mesmo que entrar desse jeito?

- Ora, me desculpe... – Sakura tentava conter a ironia, mas nunca tinha sido boa nisso – Acontece que me surpreendi vendo o senhor de pé! Quando eu saí parecia que você estava em coma!

Sakura estava dividida entre a preocupação e a irritação.

"Droga, por que ele não coopera?"

Shaoran percebeu o conflito da japonesa e se sentiu um traste.

- Me desculpe – cedeu – Eu já estava cansado de ficar deitado – ele falou com uma expressão tão meiga que Sakura sentiu vontade de apertá-lo de encontro ao peito.

Mas ao invés disso suspirou.

- Tudo bem – colocou a mão machucada no ombro do chinês e a boa na cintura dele, fazendo com que ele se sentasse na cama – Você tem que vestir uma camisa primeiro, não é bom que ande por aí descoberto, afinal você teve febre sabia? – foi até a mochila dele e vasculhou-a até encontrar uma camisa de botões e um casaco de zíper.

- Você vai deixar que eu te ajude? – Shaoran fez que sim com a cabeça. Não queria passar por mal agradecido se negando e também não queria dar uma de ridículo tentando se vestir.

Só não sabia como suportaria ter Sakura lhe vestindo, mas descobriria em breve.

- Humm, muito bem – com cuidado, ela colocou a mão esquerda dele dentro da manga, fez o mesmo com a mão direita e num só movimento puxou a camisa pelas suas costas até os ombros.

"Até aqui tudo bem" – pensou aliviado, para logo em seguida engolir em seco. Sakura se pôs de joelhos e começou a abotoar a sua camisa.

"E co-começando pelos botões de baixo!" – o suor começava a brotar em sua têmpora. Sentia a mão de Sakura tocar a sua pele sobre a camisa. O toque era suave, mas o suficiente para...

"Argh!"

- Prontinho! – exclamou Sakura, deixando dois botões desabotoados e um Shaoran a ponto de enlouquecer.

Quando ela se virou para pegar o casaco, Shaoran aproveitou para umedecer os lábios.

- A-cho – a voz desafinou no final – Hum-hum – pigarreou – Acho que não preciso do casaco não. Está um pouco quente, não acha?

Sakura o encarou por um instante.

- De fato está um pouco quente - inclinou um pouco a cabeça para o lado – Mas você está meio vermelho... – Colocou a mão na testa dele – Está sentindo alguma coisa?

Aquilo foi a gota. Com uma rapidez que não esperava recuperar tão cedo, Shaoran se levantou.

Mas infelizmente para ele, suas pernas ainda estavam muito fracas para uma coisa daquelas e não suportaram seu peso. Shaoran balançou perigosamente, quase sem equilíbrio, para não terminar estatelado no chão, teve que se segurar com as duas mãos na cintura de Sakura.

Conteve a respiração.

- Puxa, não imaginava que você já pudesse fazer isso! – Sakura estava espantadíssima.

- Bem... Eu sempre me recupero rápido – Shaoran conseguiu dizer mirando-a direto nos olhos.

- Estou vendo... – Sakura apoiou as mãos no peito dele e deu um passo para trás, fazendo-o sentir um desapontamento enorme e ao mesmo tempo absurdo. Mas para a sua surpresa ela se posicionou ao seu lado e deslizou a mão esquerda ao longo do seu corpo até meio que abraçá-lo pela cintura.

- O que você está...?

Sakura tinha um sorrisinho nos lábios.

- Ora, vou ajudá-lo a caminhar! E você poderia facilitar um pouco as coisas para mim se passasse seu braço pelos meus ombros...

Shaoran deixou que o canto da boca se erguesse num pequeno sorriso e simulou um suspiro cansado.

- Tudo bem – fez do jeito que ela pediu, mas não apoiou todo o peso do braço sobre os ombros dela – Afinal já não agüento mais discutir com você...

O sorriso de Sakura se alargou.

- Ótimo – começaram a caminhar bem devagar.

- Vamos para a cozinha. Eu fiz o nosso almoço – Sakura revelou

Shaoran mais uma vez ergueu o canto dos lábios. Podia dizer que estava feliz... Sentia que a cada minuto que passava ganhava mais força e, por mais que relutasse em admitir, estava muito mais do que satisfeito com todo o cuidado que estava recebendo de certa japonesa...


Peixe frito, purê de batatas, arroz, uma tigela repleta de frutas e uma jarra de suco.

Shaoran encarava com surpresa a imensidão de comida que Sakura pusera sobre a mesa.

– Eu achei que quando você acordasse talvez quisesse comer alguma coisa mais sólida, por isso preparei algo mais substancial... – ela falou com um sorriso.

- Obrigado – foi tudo o que Shaoran conseguiu dizer.

- Precisa de ajuda para comer?

Shaoran não cansava de se perguntar como que uma pessoa a quem conhecera há tão pouco tempo podia ser tão atenciosa.

- Não. Eu acho que já posso comer sozinho.

- Certo, então toma – Sakura colocou uma tigela cheia em frente a Shaoran – E trate de comer tudo.

A japonesa abriu um sorriso não bonito e espontâneo, que Shaoran sentiu o rosto esquentar. Sem perda de tempo, grudou os olhos na tigela e começou a comer.

Assim que viu o chinês comer com apetite, Sakura se serviu.

- Bem... Eu sei que você não gosta que eu pergunte, mas... – Sakura encheu um copo com suco e o colocou em frente a Shaoran – Como está se sentindo?

Shaoran parou a meio caminho de levar o garfo à boca. Encarou a japonesa com atenção. Ela o encarava de volta com aqueles olhos verdes cheios de expectativa mesclada com preocupação. Sentiu que era desarmado.

Pousou o garfo dentro da tigela e apoiou os cotovelos na mesa.

- Só tenho um pouco de dificuldade de controlar os meus braços e as minhas pernas. Quase não sinto nenhuma dor – revelou, fazendo Sakura sorrir – Agora é a minha vez.

- Hum? – a garota ergueu uma sobrancelha.

- Como está a sua mão? – Shaoran se inclinou para frente, em direção a japonesa.

Sakura posicionou a mão enfaixada em frente ao chinês e o encarou séria.

- Quase não incomoda mais – Shaoran fez que sim com a cabeça e, incerto, tomou a mão dela entre as suas, lentamente a trouxe até os seus lábios, beijando-a suavemente.

Sakura sentiu o coração ir bater descompassado dentro do estômago.

- Ainda bem – Shaoran falou encarando-a, sem soltar-lhe a mão.

Não sabia como fora capaz de um ato daqueles, mas agora já era muito tarde para pensar nisso, já se via preso nos lindos olhos de Kinomoto Sakura.

- Olha pessoal, chegamos bem na hora! – Shingo entrou gritando na cozinha.

Sakura colocou as mãos no colo e Shaoran se ajeitou na cadeira, encheu a boca de comida o mais rápido que pôde.

- Ora veja Beni, se o jovem Shaoran já não está praticamente novo em folha! – Yun comentou entrando.

- Boa garoto – Beni entrou cambaleando e se sentou ao lado de Shaoran.

- A Sakura fez um ótimo trabalho, hein, Yun? – Takuma procurava por mais tigelas nos armários.

- Mas quanto a isso eu não tenho dúvidas – Yun respondeu sentando-se ao lado da japonesa.

- A Sakura é muito talentosa – Shingo colocava mais copos em cima da mesa.

- Algum gato comeu a língua de vocês? – Takuma perguntou, sentando-se à mesa avaliando os dois adolescentes que estavam mais vermelhos que pimentões.

- Hã... humm...

- B-Bem...

Sakura e Shaoran só conseguiram gaguejar.

- Eles são assim mesmo, Takuma – Yun interveio com um sorriso de entendimento – Vamos comer!


O sol estava se pondo quando todos se reuniram no quintal da casa em que viviam Takuma e Shingo.

- Muito obrigado por cuidar desses dois, Takuma – Yun apertou a mão do amigo – Acho que estamos mais do que prontos para voltarmos para casa, não é, discípulos? – passou os olhos de Shaoran para Sakura, cada um com uma mochila nas costas.

- Ah Sakura-chan... – Shingo se aproximou – Logo agora que a gente estava se tornando mais íntimo... – a envolveu num abraço forte e correu as mãos pelas costas dela.

- Ei Shingo – Shaoran bateu com a mão no ombro do japonês.

- Hum? – Shingo se virou e recebeu um excelente soco na cara que o fez cair no chão – Mas que droga, cara! – se levantou – Pra quê isso?

Shaoran ia cruzar os braços sobre o peito, mas sentiu uma pontada nos ombros, com isso decidiu colocar as mãos nos bolsos.

- De onde eu venho isso é um cumprimento – mentiu descaradamente.

- Puxaaa – Shingo parecia impressionado.

Takuma balançou a cabeça negativamente. O seu filho era mesmo um idiota...

Shaoran, sentiu o doce sabor da vingança inundar o seu paladar, só lamentava não estar em condições de batê-lo com mais força. Caminhando ainda vacilantemente, mas sem precisar do suporte de Sakura, se pôs em frente a Beni.

Os dois se encararam por uns instantes até que Shaoran estendeu a mão, num cumprimento silencioso.

Sorrindo, Beni apertou a mão do chinês.

- Me desculpe – Shaoran disse quase num sussurro.

Sakura sorriu e Yun adotou uma expressão de aprovação.

- Puxa, o Beni ganha um aperto de mão e eu um soco? – alisava o queixo – Eu acho isso muito injusto – Shingo choramingava.

- Shingo, você é mesmo muito burro! – Takuma conteve a vontade de dar um croque no filho.

- Hãããã? Por quê?

Com uma gota na cabeça, Sakura deu um abraço em Takuma e outro em Beni.

- Vou sentir saudades, pessoal – sentia a garganta apertada.

- Vamos logo, jovens, ou vamos chegar tarde – Yun estendeu as mãos para Sakura e Li. Com um aceno de despedida em direção a Takuma, Shaoran tomou uma das mãos de Yun. Suspirando, Sakura também fez o mesmo. E num piscar de olhos os três desapareceram, deixando Takuma, Beni e Shingo para trás.


Assim que apareceram em frente à casa de Yun. Sentiram a coisa mais estranha que já tiveram conhecimento.

Shaoran sentia-se novinho em folha. Como se nunca tivesse se machucado e Sakura sentia-se apenas incomodada por estar usando ataduras.

- Mas o quê? - Exclamaram em uníssono.

- Acho que me esqueci de contar a vocês certas coisas muito interessantes sobre aquela dimensão – Yun sorria com ar de quem pregara uma peça - Lá o cinturão de tempo é diferente, vocês têm a noção de que passaram vários dias lá, mas no espaço temporal daqui, passaram apenas pouco mais de um dia fora. Mas o detalhe mais importante que devem saber é que... – pegou a mão enfaixada de Sakura – Para os que têm magia, uma coisa imensamente útil acontece... – Começou a retirar a bandagem para revelar que a mão e o pulso de Sakura estavam completamente sãos – Praticamente todo ferimento feito na outra dimensão desaparece quando voltamos para essa – concluiu.

- Uau – Sakura exclamou.

- Isso é incrível! – Shaoran estava mais do que surpreso. Mas também estava aliviado até dizer chega. Imaginara que levaria semanas até que se recuperasse totalmente dos danos ocasionados pela luta contra Beni.

- Muito bem, tudo explicado! – Yun começou a andar em direção a casa – Agora vamos entrar que Shin está nos esperando.

Certas coisas não mudavam nunca mesmo...

Yun observava com prazer os seus dois discípulos comerem com a rapidez de lobos.

- Francamente vocês dois! Desse jeito, o Shin vai imaginar que vocês não comem há meses... – Se, com o comentário, ele esperava que Sakura e Li parassem de comer ou que pelo menos comessem mais devagar, ficaria decepcionado. Eles comeram em ritmo frenético até não restar nada em seus pratos.

- Ah, Shin, eu senti tanta falta da sua comida! – Sakura exclamou satisfeita para o monge, que sorriu.

- Isso mesmo, Shin. Muito obrigado pela refeição! – Shaoran concordou.

Shin lançou um olhar surpreso para Yun que balançou afirmativamente a cabeça. O monge estava surpreso pelo comportamento comunicativo de Shaoran, que sempre fora tão reservado e agora estava reiterando uma afirmação de Sakura! Aquela era uma mudança muito significativa para passar despercebida...

- Bem, jovens, como se comportaram muito bem ultimamente... – chamou a atenção par si – Amanhã vocês terão o dia de folga. Enviarei os dois para o vilarejo, para que encaminhem cartas para as suas respectivas famílias – revelou.

- Uaaay, que legal! – Sakura quase pulou da cadeira.

Shaoran também estava cheio de satisfação e vontade de transmitir para a mãe os progressos que conseguira.

- Isso mesmo, e como vocês vão para lá, aproveitarei para pedir que comprem algumas coisinhas para mim – Yun revelou.

"Sabia que tinha alguma coisa por trás disso..." – Sakura pensou.

- O que estão esperando? Vão logo escrever essas cartas! – gritou – E depois vão direto para a cama! Quero que vocês saiam amanhã bem cedo, senão vão chegar muito tarde ao vilarejo – ante estas palavras, Sakura e Shaoran saíram quase correndo da cozinha.


- Kinomoto, você acha que é mesmo necessário enviar tantas cartas? – Shaoran perguntou quando, mais tarde, entraram no quarto que dividiam.

- Claro que sim, eu prometi para muita gente que enviaria notícias, sabe? – Sakura respondeu passeando os olhos pelo aposento – Puxa, eu tinha me esquecido de como esse quarto era inconveniente e pequeno – comentou mirando a única e solitária cama do lugar.

- Pois levando em conta a quantidade de mentiras que você colocou naquelas cartas, não acha que seria mais simples se escrevesse apenas uma e deixasse para sua família a tarefa de mentir para os seus amigos? – Shaoran rebateu – E é mesmo lastimável que o nosso quarto seja tão miserável – nem o quarto do mais simples ajudante de estrebaria da sua família era tão pobre.

- Olha só quem está falando... – Sakura levou as mãos à cintura – Se eu não estou enganada, você pareceu bastante animado me ajudando a rechear aquelas cartas com mentiras...

Shaoran sentou-se na cama e retirou os sapatos.

- Pois aí é que está. Você deveria se sentir culpada por me arrastar para o seu emaranhado de mentiras... – apontava para ela um dedo acusador.

-"Emaranhado de mentiras"? – Sakura sentou-se ao lado dele na cama – O que você é? Alguma velha fanática por livros de romance de quinta categoria? – riu.

Shaoran deixou escapar um suspiro.

- Antes fosse esse o caso – curvou-se e apoiou os cotovelos nas coxas – Se eu fosse uma velha que apreciasse ler livros de autoria duvidosa, talvez o mestre Yun tivesse me oferecido um quarto decente...

Sakura o encarava de testa franzida.

- É meu caro Shaoran, tudo isso nos leva a pergunta de um milhão de dólares – fez uma pausa dramática - Quem fica com a cama hoje?

Shaoran encarava o chão.

- P-pode ficar com ela - sussurrou

Sakura arregalou os olhos.

- Como é?

- Eu disse que você pode ficar com a cama! – repetiu sentindo o rosto esquentar.

Sakura abriu um sorriso.

- Muito legal da sua parte – o cutucou com o cotovelo – Mas não posso aceitar.

Shaoran virou-se para ela sem entender.

- O quê... Por quê?

- Vamos decidir esse problema do jeito certo.

- Jeito certo?

- Isso mesmo.

Shaoran semicerrou os olhos.

- Que jeito certo?

- Na sorte – falou com o sorriso aumentando no rosto.

- Na sorte?

- Isso mesmo!

"Em 90% das vezes que tiramos a sorte eu perco, então..." – Shaoran pensou

- Tudo bem. O que vai ser?

- Que tal jokenpô?

- Por mim...

- Então está certo, quem ganhar fica com a cama – Sakura esclareceu – Um, dois e... Três! – mostrou o punho fechado e viu que Shaoran tinha estendido a mão, formando uma folha de papel.

"Droga!" – Shaoran pensou - "Justo quando quero perder..."

- Pois é, o que é certo é certo – Sakura se levantou.

Sem pensar direito, Shaoran a deteve segurando-a pelo braço.

- Kinomoto, fique com a cama – a encarava com seriedade.

- Não posso. Tiramos na sorte. Você ganhou, você fica com a cama.

"Mas que cabeça dura!"

- Mas está muito frio!

Sakura abriu um sorriso.

- Tenho certeza que posso agüentar...

- Mas...

-Você ganhou o direito de dormir nesta cama, Shaoran.

O chinês engoliu em seco, quando se viu sem alternativa, a não ser...

- Q-que tal – pigarreou – Se nós dois ficássemos juntos nela... Dormíssemos juntos nela? Eu quero dizer... Passássemos a noite sobre ela... Eu quero dizer... Argh – balançou a cabeça de um lado para o outro - Ela é pequena, mas acho que cabe nós dois... Eu não me mexo muito durante o sono... Não precisa se preocupar.

Sakura sentia que o seu sorriso ia de orelha a orelha.

- Tudo bem.

Shaoran conteve a respiração.

- Você aceita?

- Claro. Não vou ofendê-lo com uma recusa.

- Oh... Obrigado! – suspirou. Mas que constrangimento!

- Eu vou ao banheiro me trocar, já volto – dizendo isso, Sakura pegou a sua mochila e saiu do quarto.

- Mas no que eu fui me meter...? - Shaoran falou para o quarto vazio.

Quando voltou, Sakura encontrou Shaoran já deitado e todo enrolado nas cobertas. Notou que ele deixara um espaço razoável a seu lado e um cobertor dobrado para que usasse.

- Shaoran?

- Humm?

- Já dormiu?

- Sim, estou te respondendo porque falo no sono.

- Puxa, que mal humor... – se deitou no espaço que ele deixara e se cobriu com o cobertor – Ui, que frio.

- Isso é o que dá tomar banho numa hora avançada dessas – Sakura viu que ele estava de olhos fechados.

- Ora, nada como um bom banho para aliviar a tensão.

- E o que te deixou tensa? – Abriu os olhos e a encarou.

Sakura engoliu em seco.

- B-bem, todos os últimos acontecimentos foram bastante estressantes, não acha?

Shaoran piscou.

- De fato – voltou a fechar os olhos.

- Viu? - Sakura enrolou-se toda nas cobertas.

- Ei, o que está fazendo? – percebeu que ela estava se aproximando perigosamente.

- Está muito frio... – ela se justificou – E você está tããão quentinho.

- Sim, e você está gelada.

- Hããã? –choramingou.

- Ah droga! – jogou uma parte do próprio cobertor sobre ela e a puxou para mais perto de si.

- Ah, Shaoran, você é tão bonzinho...

- Ei, cala a boca e vai dormir, antes que eu te enxote daqui.

- Uia, certo, certo! – fechou os olhos.

Shaoran sentiu um pequeno sorriso se formar em seus lábios.

- Ei, Kinomoto, posso te fazer uma pergunta?

- À vontade...

- Por que, mesmo o restante do seu corpo estando gelado, os seus pés estão quentes?

Sakura abriu os olhos e o encarou.

Ele estava tão perto naquela escuridão...

- E eu sei lá, vai dormir! – fechou os olhos e rezou para que ele fosse mesmo.

Ouviu-o dar uma risadinha, mas o chinês não disse mais nada.


Através do espelho da escuridão, os frios olhos azuis de Elizabeth observavam aquela cena com um brilho mordaz.

- Kyle – chamou.

A imagem do espelho mudou e o rosto do seu irmão apareceu.

- Espero que seja urgente, Lizzie, a Azumi está me esperando – Elizabeth apenas piscou, ignorando as preocupações do irmão.

- De quanto tempo você ainda precisa?

- Veja bem, já consegui um número razoável dos "bons" e outra quantidade considerável das "distrações", por quê?

"Sempre a mesma desculpa..." – Lizzie pensou.

- As coisas por aqui estão tomado caminhos complicados, por isso volte o mais rápido que puder – Elizabeth falava cada sílaba lentamente, para que o irmão não perdesse nenhuma informação.

Kyle estalou a língua.

- Talvez demore um pouco mais, eu não posso sair por aí com esse monte de gente, as pessoas iam notar um grupo de mais de vinte pessoas andando por aí juntas. Ainda mais que nenhum integrante da minha turma está me acompanhando de forma convencional, você sabe... – ele tinha um sorriso.

Elizabeth o encarou por um instante.

- Quanto a isso não podemos fazer nada – concedeu por fim – Por enquanto... Terei que agir sozinha.

O sorriso de Kyle se alargou e Elizabeth encerrou a comunicação. Caminhando lentamente, ela foi até uma mesa onde um pequeno frasco contendo um líquido preto, repousava. Elizabeth o apanhou e, após um pequeno momento de hesitação, tomou seu conteúdo em dois pequenos goles.

Por mais que adorasse fazer poções...

Seus olhos de um azul quase branco escureceram levemente, assumindo um tom turquesa.

O canto de seus lábios se ergueu numa sombra de sorriso.

- Como eu detesto essa poção! – murmurou com uma voz estranhamente alegre, seu sorriso se alargando.


TBC


E aí gostaram? Se sim, me deixem saber. Se naum, me deixem saber também! _

Estão ansiosos para o próximo cap?

Prometo que naum vow demorar um ano para postar o próximo... XD

Estou empolgada!

Antes de ir me, gostaria de agradecer a todos que me mandaram reviews, foram elas que me motivaram a voltar a escrever (tava tão desanimada... T_T) valeu minna!

Ja ne

Yuki O-Ren