CAPÍTULO IX

Bella ergueu a cabeça. Que ruído fora aquele?

Olhou ao redor no escritório do pai, o coração disparado. Só a luminária de cúpula verde na mesa e a luz indireta nas três laterais do teto iluminavam a sala, mas pôde ver que não havia mais ninguém ali.

Girou a poltrona de couro e deu uma olhada no piso da fábrica através da parede de vidro. Como todo domingo, o local estava deserto e quieto.

Ao contrário de algumas fábricas, que operavam vinte e quatro horas por dia, sua bisavó tomara a decisão, anos antes, de que a Swan funcionaria somente durante seis dias por semana. Os empregados do pomar e do escritório trabalhavam as quarenta horas usuais, mas os funcionários da fábrica, três vezes por semana, cumpriam jornada de doze horas, angariando um pagamento decente e ainda gozando de tempo para descansar e se socializar.

- Podíamos faturar mais operando sem parar, mas seria um preço alto demais para os trabalhadores, em troca do lucro adicional. Simplesmente, não é normal trabalhar à noite - analisara a bisavó. - Além disso, as pessoas precisam de tempo para estar com suas famílias.

Bella concordava com a filosofia da bisavó, e achava interessante que muitas empresas começassem a adotar o mesmo esquema na atualidade. Naquele instante, porém, enervava-se com o silêncio artificial e o vazio.

Luzes de segurança lançavam poças de claridade no espaço cavernoso, dando às máquinas escuras e volumosas um aspecto fantasmagórico.

Bella observou o piso até onde enxergava, mas nada se moveu. Com uma risada desdenhosa, girou de novo a poltrona executiva.

- Está deixando o vazio perturba-la, Bells. Lembre-se, aqui é Ruby Falls, não Nova York. Aproximou o asssento da mesa e retomou o estudo dos livros contábeis.

Em segundos, já estava totalmente absorta na análise das colunas de números. De vez em quando, marcava uma linha com o indicador para procurar o lançamento em outro livro, conferindo as quantias.

- Que raios está fazendo aqui?

Bella emitiu um grito abafado e quase saltou da própria pele. O lápis saiu voando, e ela pulou vinte centímetros na poltrona executiva antes de registrar completamente a voz e o rosto do homem à porta. Levou a mão ao coração, recostou-se e fechou os olhos. - Céus, bonitão, quase me matou de susto. Não faça mais isso. Vou ter um ataque cardíaco assim.

- Estava indo para casa e vi luzes aqui. Como Charlie está doente demais para trabalhar e James não fica até mais tarde, achei melhor verificar. E você não respondeu à minha pergunta. O que faz aqui a esta hora da noite?

-Indo para casa, é? Bella olhou sutilmente para o relógio no canto da escrivaninha. Quase meia-noite. Voltava de um encontro?

Surpreendeu-se com a própria irritação à idéia. Céus, conhecia o homem havia apenas três dias!

O que esperava, afinal? Tratava-se de um belo espécime macho, saudável, de sangue quente, no auge da forma, e solteiro. Era óbvio que tinha namoradas. Talvez até cultivasse um relacionamento sério. Podia ser noivo!

Edward podia até sentir a mesma atração que ela, mas evidentemente não gostava disso. Ele não gostava dela. Portanto, tinha de se controlar.

Mentir não era fácil para Bella. De qualquer forma, os livros contábeis abertos na mesa deixavam pouca dúvida quanto ao que fazia. Quis ganhar tempo e tentou mudar de assunto, sorrindo sedutora.

- Algum problema? Sou membro da família Swan. Por que todos agem como se eu não tivesse o direito de estar aqui?

Edward não respondeu logo, simplesmente ficou ali, com suas grandes mãos de trabalhador nos quadris, o olhar estreito.

- Charlie sabe que está bisbilhotando?

- Não. Mas mamãe sabe. Na verdade, estou aqui a pedido dela.

- Verdade? Engraçado ... Nunca soube de Rennee se envolvendo nos negócios.

- Com papai tão doente, alguém na família tem de fazer isso. Como mamãe não tem experiência nem formação, ela me pediu para dar uma olhada.

Bella avaliou o gerente geral, ponderando sobre o quanto devia revelar. Por fim, seguiu os instintos.

- Não sei se está ciente, mas nosso lucro vem diminuindo há meses.

Edward apoiou um ombro no batente, cruzou as botas e também os braços.

- Sim, eu sei. Charlie me disse.

- Ele também lhe disse que, se não virarmos o jogo logo, vamos fechar?

- Sim. Isso, ou uma transação com a Bountiful Foods, como James quer.

- Não se eu puder evitar.

Surgiu um brilho de divertimento nos olhos cinzentos de Edward.

- Então, simplesmente vai entrar desfilando e tirar a sardinha de Charlie?

- Não. Geralmente, deixo o desfile para as passarelas. Mas vou tentar encontrar o buraco no dique e tampá-lo. - Bella ergueu o sobrolho. - Alguma objeção?

Edward fitou a pilha de livros contábeis. - Sabe o que está fazendo?

- Bem... não é a minha especialidade, mas fiz alguns cursos de contabilidade durante meu mestrado em administração. Estou conseguindo conferir, ao menos.

Edward aparentemente não ficou constrangido com a revelação. Pelo contrário, não se alterou, e continuou estudando-a daquele jeito inescrutáve1. Bella não tinha certeza, mas pensou ver um brilho de admiração naqueles olhos cinza de aço.

Claro, com tão pouca luz, podia ter imaginado.

- Por que está trabalhando agora? Por que não no horário do expediente?

- Achei melhor não perturbar a rotina normal por aqui. Não quero assustar os funcionários. E, francamente, a srta. Victória parece... como direi? Um tipo extremamente territorial? Prefiro não impor minha autoridade. Bella deu um sorriso afetado. - Não mais do que já impus, quero dizer.

Nem queria alertar James para o que fazia e tê-lo correndo para denunciá-la ao pai. Claro, agora que Edward sabia, suas atividades podiam vir à tona.

Desta vez, Edward sorriu inequivocamente.

- Já se atracou com ela, é? Cuidado, ruiva! A mulher é durona.

- Talvez. Mas acho que posso enfrentá-la numa luta justa.

O comentário atrevido gerou outro sorriso fraco nele. - Provavelmente, sim.

Edward endireitou o corpo.

- Acho que não faz mal você se inteirar da situação. As coisas não podem piorar mais, acho.

- Bem, progredi bastante, considerando uma tarde de análise. Repassei tantos números que já estou vendo imagens duplas. Acho que é hora de encerrar.

- Não vi seu carro lá embaixo - comentou Edward, enquanto ela se levantava e contornava a mesa. - Vim a pé.

- É tarde. Eu lhe dou uma carona até a casa. Bella sentiu o coração pular. Estava tentada, mas o bom senso lhe dizia que não devia aceitar a oferta.

- Não me incomodo em caminhar pelo pomar no escuro. Verdade. Tirou um cilindro de metal do bolso da saia e o mostrou.

- Veja, trouxe uma lanterna.

- Isso não vai iluminar além de poucos centímetros à sua frente. Não vou levar nem dois minutos para levá-la. Vamos - decidiu Edward, tomando-a pelo cotovelo rumo à porta.

Normalmente, Bella teria se desvencilhado ante tanto autoritarismo, mas o toque dos dedos rudes contra a pele pareceu causar curto-circuito em seu cérebro.

Estava ciente demais da mão forte, de cada dedo em torno de seu braço acima do cotovelo. Do ponto de contato, uma corrente elétrica subia espalhando calor no pescoço, costas e peito, fazendo seu coração bater incrivelmente rápido. Assim tão próxima, sentia o cheiro dele, bem como o calor que emanava daquele corpo atlético, via cada cílio sobre os olhos prata, e a sombra da barba por fazer no maxilar. Apesar da noite tépida, Bella sentiu um arrepio. Céus, Edward Cullen era mesmo bonitão.

- Não é como o seu carrão esportivo, mas vai levá-Ia para casa - comentou ele, quando saíram do prédio e seguiram ao estacionamento.

- Sou daqui, lembra-se? Não se cresce em Ruby Falls sem andar em caminhonetes declarou ela, subindo à cabine do utilitário já bem rodado.

- Mas ultimamente o seu meio de transporte limita-se a carros de luxo.

Bella não podia negar. Antes que pensasse numa resposta alegre, ele fechou a porta, contornou o veículo e assumiu o volante.

Com movimentos fáceis que indicavam longa experiênncia, Edward deu a partida no motor, apoiou o braço direito ao banco e olhou por sobre o ombro enquanto dava marcha a ré. Em segundos, estavam fora da vaga e percorrendo a via de cascalho que circundava o pomar, a fábrica e os armazéns, dirigindo-se ao lado oposto da propriedade.

Edward não parecia disposto a conversar, e Bella, algo raro em sua vida adulta, não conseguia pensar em nada para dizer. Estava ciente demais do braço musculoso estendido sopre o banco. Seus cabelos roçavam nos dedos dele sempre que se mexia um pouco, quando sentia o calor emanando da mão máscula tão próxima a sua nuca.

Os únicos sons eram do motor, do cascalho sob os pneus, mais uma caçofonia de rangidos que a velha caminhonete deixava escapar.

Edward dirigia da mesma forma coma caminhava, sem esforço, com graça relaxada. Mantinha o punho esquerdo sobre o volante e o corpo esguio relaxado no banco gasto. O interior da caminhonete, embora limpo, denunciava o mesmo uso excessivo da lataria. Havia uma caixa de ferramentas no piso, com serras, alicates, furadeiras, maanuais e outros objetos que Bella não reconhecia. Nos bancos de vinil rasgados, molas protuberavam. O pára- brisa do lado do passageiro apresentava rachaduras em forma de teia de aranha.

Bella imaginou se as mulheres com quem Edward saía reclamavam da caminhonete velha. Então, olhou para o homem ao volante e quase riu da idéia idiota. Pouco provável.

Sob a luz fraca do painel, estudou o perfil forte de Edward, partindo da manga arregaçada sobre o braço musculoso coberto de pêlos, passando pelo punho largo sobre o volante, até a mão que pendia relaxada no outro lado. Viam-se calos na palma das mãos e nos dedos longos, cicatrizes e cortes na pele, mas as unhas estavam limpas e aparadas. Embora máscula, a mão tinha algo gracioso e sedutor, que deixava Bella com a boca seca.

Ela desviou o olhar quando ele girou o volante no senntido anti-horário e entrou no pátio da casa principal.

Edward estacionou o veículo na área circular diante da calçada, mas manteve o motor ligado. Fitando Bella na escuridão, aguardou sem dizer nada.

Bella sentiu o olhar como um contato físico. Sem tocá-Ia, sem se mexer, Edward a afetava como nenhum outro homem jamais conseguira. Era como se derretesse por dentro. O ar na cabine parecia pulsar com a percepção.

É loucura, Bells, convenceu-se. Vá. Saia daí, antes que faça algo tolo.

Engolindo em seco, procurou a maçaneta. - Bem... Obrigada pela carona.

- Não há de quê. - Ao tirar o braço de cima do banco, Edward roçou os dedos na lateral do pescoço de Bella, e recolheu a mão como se tivesse se queimado.

Ela estacou junto à porta meio aberta e lançou um olhar surpreso por sobre o ombro. Pela expressão de Edward, soube que o toque fora acidental, mas ele também sentira aqueela descarga de eletricidade... e não gostara.

Bella sentia-se tão desajeitada e nervosa quanto uma adolescente em seu primeiro encontro. E igualmente sem fala. Recolher-se parecia sua única opção.

Murmurou uma despedida e saltou da cabine. Quando se voltou para fechar a porta, teve uma idéia e sorriu sedutora.

- Doçura, eu realmente apreciaria se não comentasse com papai o que estou fazendo. Isso só o deixaria preocupado. Eu mesma contarei, em breve, mas espero antes encontrar motivos concretos para as perdas; para sugerir ações que corrijam a situação.

Edward a fitava, o semblante fracamente iluminado. Bella sentiu o coração disparado, e ficou ofegante. Ele permaneceu quieto por tanto tempo que ela chegou a pensar que não responderia.

- Quer saber? - declarou ele, finalmente. - Não vou mencionar que a vi no escritório. Mas não mentirei a Charlie, se ele perguntar. É o melhor que posso fazer.

Considerando a lealdade do homem ao pai, era mais do que Bella podia esperar, e ela sentiu alívio.

- É justo - concordou, com uma piscadela. - Obrigada, doçura.

O motor continuou em marcha lenta enquanto Bella fechava a porta e tomava a calçada. Ela sentia o escrutínio de Edward. Por isso, satisfeita, caprichou no rebolado.

Sam, o enfermeiro, apresentou-se ao trabalho no dia seguinte,para alívio de Rennee e irritação de Siobhan . Houve conflito e competição por território entre o recém-chegado e a governanta, mas Sam era um
tipo afável e diplomata nato. Ao final do primeiro dia na função, já caíra nas graças da empregada elogiando sua comida. No segundo dia, conquistou-lhe completamente a confiança pedindo seu conselho em vários assuntos, principalmente acerca do paciente.

Com trinta e tantos anos, Sam era um homem forte com músculos evidentes e um apetite que superava o de Bella, o que acabou suavizando o ressentimento da governanta. Careca como uma bola de bilhar, com tatuagens assustadoras nos bíceps, ele mais parecia um lutador profissional, ou um motoqueiro daqueles loucos pela estrada, do que enfermeiro. Ao lidar com Charlie, porém, revelava-se um gigante gentil e de fala mansa.

A presença de Sam em tempo integral facilitou a vida de todos, principalmente a de Rennee, e em pouco tempo a casa se adaptou à nova presença. Na maior parte do tempo, Sam ocultava-se das vistas dos moradores, mas, quando necessário, surgia milagrosamente. Em poucos dias, ninguém mais tinha idéia de como haviam sobrevivido tanto tempo sem ele.

Durante aquela primeira semana, Bella desenvolveu uma rotina. Durante o dia, fazia companhia à mãe, Carmem e Siobhan , realizava algumas tarefas para elas e procurava ficar fora do caminho do pai.

Quando Charlie se recolhia, imediatamente após o jantar, Bella caminhava pelo pomar até a fábrica e lá ficava até tarde, debruçada sobre os livros contábeis e vasculhando os arquivos em busca de respostas. Não ia de carro por recear que o pai ouvisse o motor e indagasse sobre suas atividades. Toda noite, antes de deixar o escritório, recolocava no lugar todo o material vasculhado, para não provocar suspeitas na srta Victória.

Todas as manhãs, antes do alvorecer, Bella levantava-se e corria cinco quilômetros pelo pomar, voltava para tomar banho e vestia-se para tomar o café da manhã com o resto da família.

Charlie continuava tendo dias bons e maus; mas parecia mais forte e alerta pela manhã, mais parecido com o homem que fora. Conversava carinhoso com Rennee e Alice, discutia com a irmã. Edward juntava-se a eles para o desjejum, ou para um café, mais tarde. Quando o tema da conversa recaía nos negócios, Charlie mostrava sua astúcia costumeira.

Em meio àquelas discussões matutinas, Bella quase fazia de conta que o pai não estava doente. Ele falava o mínimo possível com ela, mas a atitude denunciava uma certa normalidade, também.

Na manhã de quinta-feira, uma semana após o regresso de Bella, Charlie e Carmem recordaram que, na infância, costumavam nadar no córrego Catalpa. Ouvindo as provocações que trocavam, Bella saboreou uma pilha de waffles e entregou-se à fantasia agradável de que o pai voltara a ser o homem vigoroso que ela sempre adorara.

- Nunca vou me esquecer daquela vez que jogou um pedaço de corda na água e gritou "cobra"! - comentou Carmem, dando um tapa amistoso no irmão. - Quase tive um ataque cardíaco.

Charlie riu.

- É, você quase andou na água. Já estava na margem antes da corda afundar. Aí, quando viu o que era, correu atrás de mim até em casa!

Todos riram. Então, Alice afastou a cadeira e levantou-se.

- Tenho de ir.

- Ora, qual é a pressa, baixinha? - indagou Edward, subindo os degraus do terraço. - Acabei de chegar.

Rennee verificou o relógio de pulso e franziu ocenho.

- Por que está indo tão cedo? Tem muito tempo, mais de uma hora até a aula começar.

- O clube de teatro fará testes logo cedo para a nossa primeira peça do ano. Não quero chegar atrasada.

Ela já ia sair, mas Charlie a deteve.

- Alto lá. Só um minuto. Preencheu os formulários das universidades?

Alice revirou os olhos.

- Ainda não - rosnou, naquele tom entediado dos adolescentes.

Bella segurou o garfo a meio caminho da boca. Desde que chegara, só levara patadas da irmã caçula, mas ficou atônita ao ver Alice dirigir-se ao pai naquele tom, principalmente considerando o estado dele.

- Jovem, eu lhe disse que deveria enviar os formulários hoje - admoestou Charlie. - Quantas vezes terei de repetir que, para entrar numa boa escola, tem de se inscrever cedo? Se mandar agora, já estará atrasada. Devia ter cuidado disso durante o verão.

A adolescente fez careta.

- Pouco me importa ser aceita ou não. Não vou para a universidade. Seria só desperdício de tempo. Assim que me formar, na primavera, vou para Nova York ser atriz profissional.

- Alice! - repreendeu Rennee.

Carmem ergueu o sobrolho, atenta à cena entre o irmão e a sobrinha. Bem, bem, bem, o que tinham ali?

Edward levantou-se da cadeira com o bule de café na mão. _ Vou pedir a Siobhan que renove - avisou, retirando-se diplomaticamente da discussão familiar.

Bella mantinha a cabeça baixa e o olhar no prato.

Já recebia bastante, antagonismo do pai. Não se intrometeria nas batalhas da irmã.

- Não fará nada disso! - advertiu Charlie. - É uma: bobagem infantil. Você vai se formar em administração de empresas e, na volta, aprenderá o negócio de baixo para cima, para poder assumir o comando um dia.

Bella levantou o rosto. O pai concederia a Alice o cargo que ela sempre almejara? O posto que pleiteara por tantos anos? Não era justo.

- Não! - berrou a caçula. - Não vou! Não sei nada sobre negócios. Não quero saber nada disso. Não me importo com esse estúpido negócio!

- Alice, não devia falar assim - pediu Rennee. - Está deixando seu pai preocupado.

- Lamento, mamãe. Não quero deixar ninguém preoocupado, muito menos você e papai, mas não vou sacrificar o meu sonho para agradá-los. Se precisam de alguém para assumir a empresa, peguem Bella. Ela é o cérebro da família e adora aquilo tudo. Eu odeio.

- Alice...

- Não. Não importa o que digam, vou ser atriz. Quero atuar no teatro e talvez até no cinema. Para que preciso de um estúpido diploma universitário?

Charlie bateu o punho na mesa, fazendo as porcelanas e pratarias tilintar.

- Basta. Pode esquecer essa bobagem. Eu não permitirei.

- Não terá peso na minha decisão. Completarei dezoito anos em poucas semanas. Então, poderei fazer o que quiser e você não poderá me deter!

Com isso, Alice desceu os degraus do terraço, deixando a família em silêncio. Bella e os outros observaaram-na cruzar o pátio e desaparecer na garagem de seis vagas. Segundos depois, ela saía com seu carro esportivo vermelho sem sequer olhar para o terraço.

- Bem. Isso foi interessante - comentou Carmem, ao recobrar a fala.

Bella arriscou um olhar ao pai. Viu-o pálido e trêmulo. A mãe não parecia melhor.

- Vou chamar Sam - prontificou-se.

- Você é a culpada disso, sabe - acusou Charlie, antes que ela desse três passos.

Bella estacou e voltou-se. - Como?

- Charlie, francamente! Isso é demais - censurou Carmem, mas ele não lhe deu atenção.

- Alice sempre foi uma garota doce e obediente. Então, você volta e ela começa a ter essas idéias malucas. Só porque você fugiu para Nova York e se tornou modelo, ela acha que bastará entrar num teatro para se tornar uma estrela.

Bella lançou a cabeça para trás e riu. - Estava imaginando como faria para me culpar disso também!

Como regra, por hábito e em respeito à doença dele, Bella relevou o ataque paterno. Às vezes, usava de humor atrevido, mas naquele momento nem ela mesma suportaria.

- Em primeiro lugar, papai, eu fui para a faculdade, lembra-se? - Colocou as mãos espalmadas no rosto, incrédula. - Oh, espere. Claro que não se lembra. Como poderia? Não foi à minha formatura, não é? Só mamãe e tia Carmem compareceram, se não me engano.

Charlie franziu o cenho.

- Passávamos por uma crise...

- Sim, eu sei. Uma crise na fábrica. Que se solucionou milagrosamente no dia seguinte, quando voltamos para casa. Mas a questão, papai, é que eu me formei. Além disso, não fugi para Nova York. Foi você que me expulsou de casa. Assumo a culpa pelos meus próprios pecados, mas não ouse tentar me culpar pelos de Alice. Agora, se me dá licença, vou chamar Sam. Parece que precisa dele.

Ao se voltar, Bella viu Edward parado pouco adiante. A julgar pela expressão dele, ouvira tudo.

Trêmula de mágoa e humilhação, ela se desviou dele e apressou-se para dentro de casa. Para variar, não conseguiu esboçar um sorriso.

Bella passou o resto da manhã no quarto, andando em círculos, praguejando e se amaldiçoando por ter voltado, mas no fundo sabia que se entregava à raiva para combater as lágrimas. Quando se acalmou, resolveu cuidar-se um pouco. Após lavar a mão peças de roupa delicadas, fez limpeza de pele e pintou as unhas das mãos e dos pés com esmalte vermelho vibrante. Entao, passou uma hora ao telefone com Angel, agendando uma sessão de fotos em Nova York.

A dona da agência queria marcar para a semana seguinte, mas Bella conseguiu adiar por mais uma quinzena. Era um trabalho em estúdio, felizmente, onde as fotos saíam mais rápido do que numa locação, mas mesmo assim teria de se afastar por três dias, no mínimo,provavelmente quatro.

Quando desceu para almoçar, para sua satisfação, encontrou Bree à mesa. A irmã passava todos os dias para visitar Charlie, mas, se Bella estava lá, nunca ficava muito tempo.

- Oi, mana, é bom vê-Ia. - Bella inclinou-se para beijar a irmã antes que ela fugisse. Ignorando a réplica tensa, sentou-se a seu lado. - Onde está papai? - indagou Bree, fitando a cadeira vazia à cabeceira. - Ele não está se sentindo bem. Vai almoçar no quarto com Sam. Hoje seremos só nós, as garotas.

- Bem, nesse caso, acho que vou indo - decidiu a irmã. - Tenho uma porção de coisas para fazer. Só passei para saber como papai está.

- Espere um pouco, mana - pediu Bella. - Tenho uma idéia. Irei conversar com o dr. Biers em Tyler sobre o tratamento de papai. Por que não vem comigo? Podemos almoçar no Mário's, só nós duas, como costumávamos fazer. Talvez fazer compras depois.

- Oh. Não... Eu não posso.

- Bobagem – interveio Carmem. – James só volta no sábado à noite. Tenho certeza de que seus afazeres podem esperar um dia. De qualquer forma, terá de almoçar em algum lugar. Será bom para vocês duas passar algum tempo juntas.

- Carmem tem razão – concordou Rennee. – Você está sempre tão ocupada, Bree, mal passou cinco minutos com sua irmã desde que ela voltou.

- Oh, mas...

- Vamos, mana! – insistiu Bella. – Será divertido, prometo. E veja dessa forma... você poderá conversar com o dr Biers sobre aquele programa especial a que quer que o papai se submeta.

Três horas depois, Bella imaginou por que se incomodara em colocar Bree contra a parede. Durante o trajeto até Tyler, a irmã olhara o tempo todo pela janela, respondendo com monossílabos às perguntas de Bella, quando não movimentava os ombros, apenas.

Bree não costumava ficar de mau humor. Era uma das pessoas mais dóceis do mundo. Devia haver algo mais por trás daquele comportamento, além do fato desagradável que estremecera sua relação, evidentemente. Bree parecia distante, quase assustada.

Bella tentou de tudo para fazer a irmã desabafar, sem sucesso. Finalmente, desistiu e usou o método direto. - Mana, sei que ainda está aborrecida com o que acha que aconteceu, mas há mais que isso, não é? Algo mais a incomoda.

- Não! - negou Bree, rápido demais, e Bella a encarou pasma. - Não, claro que não. Está imaginando coisas.

- Oh, Bree, costumávamos ser tão chegadas, você e eu. Contávamos tudo uma à outra. Tudo. Lembra-se? Sinto falta daquilo. Sinto falta de você. Não podemos superar esse distanciamento e retomar o que tínhamos antes?

Bree pareceu mais aflita ainda.

- Já disse, não temos nada para conversar. Agora, por favor, quer parar com isso?

O almoço não rendeu mais informações, e Bree mostrou-se igualmente esquiva durante as compras. Desanimada, Bella seguiu para o consultório dos doutores Newton e Biers, aonde chegaram quarenta e cinco minutos adiantadas.

Pelo que parecia a centésima vez, Bella olhou para o relógio e voltou a folhear a revista velha. Esforçava-se para ignorar os olhares das recepcionistas e dos outros pacientes que aguardavam atendimento. Não estava com disposição para interagir com estranhos.

Olhou para Bree e cerrou os dentes. A irmã sentara-se no outro lado da sala, o mais longe possível dela, e fingia ler um romance barato que tirara da bolsa. Tanto esforço para renovar o elo fraternal...

A porta interna se abriu e uma enfermeira mostrou apenas o rosto.

- Srta. Swan? O dr. Biers vai atendê-la agora. Rilley Biers levantou-se e estendeu a mão sobre a mesa quando Bella entrou em sua sala. - Srta. Swan, prazer em revê-Ia. Não... O olhar dele de repente se iluminou.

- Bree! Não sabia que estaria aqui também. Que bela surpresa. - Acabou de cumprimentar Bella e contornou a escrivaninha para tomar as duas mãos de Bree. - É tão bom vê-la novamente. Como está?

- Estou bem, doutor.

Bella ergueu o sobrolho, estranhando a timidez da irmã. Para sua surpresa e divertimento, Bree enrubesceu. - Ótimo, ótimo. E, por favor, já lhe disse para me chamar de Rilley. Por que não sentamos ali, onde é mais confortável?

Curiosa, Bella observou-os se instalarem no sofá num canto da sala. Dando de ombros, ocupou a poltrona diante deles, mas tinha a impressão de que o dr. Biers se esquecera de sua presença. Ele parecia ter olhos só para Bree.

Rilley Biers mantinha as mãos de Bree entre as suas, carinhoso.

- E então, como está seu pai?

Bella recostou-se e deixou Bree falar, interrompendo ocasionalmente só para acrescentar um comentário ou fazer uma pergunta. A irmã explicou que Charlie acordara indisposto naquela manhã, mas parecia estar se agüentando. Então, falou do programa especial para testar um novo medicamento, conduzido em Houston, e da conversa que tivera com os pesquisadores lá.

Rilley ouviu com atenção, sem interromper. Quando Bree acabou, franziu o cenho e suspirou.

- Lamento, Bree, mas, na minha opinião, e tenho certeza de que o dr. Newton estará de acordo, seu pai não é candidato a nenhum tipo de estudo. O câncer já está muito avançado.

As lágrimas brotaram nos olhos de Bree.

- Não... Deve haver algo que ele possa tentar. Tem de haver!

- Oh, Bree, lamento tanto. Eu daria tudo para salvar Charlie para você, mas não posso. - Sem pensar, o médico tomou o rosto pálido nas mãos e recolheu uma lágrima com o polegar, fitando-a com tanta ternura que Bella ficou boquiaberta.

Ora... ele estava apaixonado por ela!

Ambos pareciam alheios à sua presença, perdidos em amor e desespero.

Rilley Biers era perfeito para Bree, exatamente o tipo de homem que Bella teria escolhido para a irmã... gentil, carinhoso, inteligente. Para completar, tudo nele do olhar amoroso à linguagem corporal gentil... revelava o quanto adorava Bree. E, a julgar pelas faces enrubescidas da irmã, a atração era mútua.

O problema era que Bree estava casada com aquele verme do James. E, dentre as muitas virtudes da irmã, a lealdade absoluta encabeçava a lista.


Heita, o povo esta rovoltadissimo com Charlie, mas que querem saber eu também fiquei, afinal se por acaso ela nao for filha dele ela mereceria seu amor do mesmo jeito afinal ela nao teve culpa. Concordam?

Então, Reviews?

Ps: Penultimo capitulo de HL postado e o trem está tenso por lá. srsrrs

Bjuss

Sophie Moore