Capítulo X
O quarto estava escuro, Anne abriu a passagem com o feitiço que Snape lhe ensinara, entrando na peça contígua que servia de aposento para o Mestre de Poções. Estava quieto demais, e isso a assustou profundamente, ele já devia ter voltado. Anne sabia que aquilo não poderia significar boa coisa, afinal Snape só deveria ter ido alertar a Ordem sobre a visão de Harry, como o menino pedira veladamente. Andou durante algum tempo pelo quarto e parou em frente as janelas que mostravam o jardim da escola. Algo estava errado, ela podia sentir... Como ela conseguia ficar ali trancada sabendo que algo estava acontecendo? Que Sirius havia fugido de Azkaban e agora corria um perigo enorme?
- Sirius... - murmurou, os olhos castanhos marejados. Ela nunca pode impedi-lo de sofrer, imputando-lhe até mesmo sua morte. Não tinha o direito de chorar por ele, não era mais sua amiga, e talvez não tivesse sido em nenhum dia. Entretanto, adoraria poder dizer que sentia muito. As lágrimas rolaram impetuosamente pelo rosto alvo, os cabelos ruivos escondendo-o do mundo.
Algum tempo depois, recomposta, voltou até a lareira, ouvindo o leve crepitar do fogo. O coração ia aos pulos dentro do peito, e num gesto intempestivo saiu para o corredor da escola. Tinha que tomar mais cuidado com Dolores Umbridge solta por aí, e deslizou suavemente até o portão lateral do castelo como uma sombra. Envolta numa capa azul escura, ela atravessou silenciosamente os gramados, sentando-se a beira do Lago. A Lua emprestava um brilho especial às águas naquela noite, o espelho d'água estava calmo e refletia as árvores a sua volta. Anne se inclinou sobre a superfície do lago, o vento jogando seus cabelos ruivos para trás e mostrando seu rosto coberto de feridas para os olhos castanhos que o fitavam atentamente.
As mãos trêmulas tocaram um a um os cortes, enquanto grossas lágrimas deslizavam sobre seu rosto e tudo o que sua mente conseguia pensar era que ela tinha perdido tudo, realmente, tudo! Ela se ergueu de um pulo, os pés descalços pisando rapidamente a grama verde e voltou para as masmorras. Entretanto, quando abriu a porta imersa em sua conturbação interna, sua mente rodopiou e um frio súbito lhe atravessou o coração como uma lâmina de aço. Snape estava caído no chão do quarto, envolto nas pesadas vestes de Comensal.
Ela se adiantou a ele, e sacando sua varinha, proferiu alguns encantamentos. Aos poucos a cor dos lábios dele foi voltando, e ele entreabriu os olhos, esboçando o que deveria ser um sorriso de agradecimento. Naquele mesmo instante, Anne se lembrou da visão do lago, e num gesto rápido levantou-se indo à direção da passagem e fechou-a. Ainda Confuso, Snape se ergueu e, minutos depois, tomou a mesma direção de Anne. Pretos cintilavam.
Anne sabia que seria questão de minutos para Snape entrar pela passagem, mas também sabia que não tinha como impedi-lo e sentou-se na cama, esperando que a lufada de ar frio indicasse sua presença. O que não tardou a acontecer.
Os olhos pretos estavam sobre ela, analisando-a, mas Anne não esboçou movimento nenhum em se virar na direção dele. Os passos ressoaram pelas paredes frias, indicando a aproximação de Snape. Anne podia sentir a respiração acelerada, sorvendo o ar rapidamente, ele estava no limite de sua irritação, e quando falou, as palavras pareciam cortar o ar como facas.
- Por que fez aquilo?
- Tencionava morrer? - rebateu cínica sem encará-lo, e levantando-se passou por ele e foi até o toillet – Se assim fosse, deveria ter me avisado antes, eu poria veneno no seu café.
Ele revirou os olhos, enquanto a via se dirigir para a porta perto do armário, e assim que Anne desapareceu por ela, sibilou:
- Insuportável! - bufou ao segui-la em passos rápidos, enquanto a voz retumbava no aposento: - Eu não deveria ter acatado o pedido de Dumbledore, deveria tê-la deixado sozinha em Spinner's End, já que é sempre tão senhora de si.
Ele havia chegado no limiar da porta e seus olhos travaram na imagem da pele clara que cobria o corpo bem feito e se dirigia calmamente ao chuveiro, como se bailasse. Os cabelos ruivos caíam em cascatas sobre os ombros, e Snape sentiu sua língua ressequida.
- Inferno! - protestou baixinho, desviando o seu olhar ao vê-la entrar no chuveiro e ligar água.
Snape fechou os olhos, o barulho surdo da água demonstrava claramente que as gotas tocavam-lhe a pele, escorrendo por cada curva até que todo o corpo estivesse molhado. Ele podia sentir cada gota se mover, trêmula sobre o rosto, os seios, as coxas. Sua mente foi interrompida de devanear pela sua razão, enquanto as mãos dele crispavam, deixando os nós embranquecidos. Controle-se – exigia de si mesmo, até que a voz aveludada o chamou:
- Severus...
Sem resistir ao impulso de ir até Anne, ele tomou a direção do chuveiro, deixando que as pesadas vestes fossem ao chão e a água tocasse sua própria pele. Pretos estavam dentro de castanhos, presos, vendo os lábios rosados se aproximarem dos seus, tomando-os vorazes. Ele correspondeu, a mão fechando-se, possessivas, sobre a cintura dela, enquanto os braços femininos se fechavam ao redor de seu pescoço, mantendo-o preso ao beijo, seduzindo-o com a intensidade com que sua língua se envolvia na dele.
Ele posicionou os quadris dela de encontro aos seus, escorando-a na parede esfumaçada. Anne havia abandonado seus lábios, sorvendo o ar sofregamente, segurando os cabelos pretos entre os dedos finos e sentindo Snape intensificar os movimentos. Os lábios sedentos desceram até seus seios, roçando-os suavemente, ela se contraiu ao redor dele no mesmo instante em que as unhas enterravam-se em sua costas. Snape sorriu vendo-a retesar entre seus dedos e numa estocada profunda, se derramou dentro dela.
Ele deixou que a pernas dela escorregassem até o chão, enquanto apoiava suas mãos na parede ao lado de Anne. A cabeça estava baixa e a água batia-lhe na nuca. Anne passou a mão pelos cabelos pretos, acarinhando-os e viu Snape encará-la profundamente.
- O que significava aquela cena no seu quarto? - ela correu os olhos de um para outro, mantendo o rosto dele entre suas mãos – Não minta...
- Má conduta – rebateu cínico – Não se lembra mais como o Lorde trata os que não obedecem suas ordens?
- O que houve de errado? - a voz era quase um sussurro e Snape desviou pretos ao responder frio:
- O ataque ao Ministério...
- O que tem? - perguntou temerosa – Ele pegou a profecia? Potter está bem?
- Sim – fitou-a friamente – Tudo está muito bem – A água escorria por seu rosto, enquanto pretos luziam ao completar: - O maravilhoso Potter está salvo como eu prometi. A profecia foi quebrada, infelizmente. Eu fui castigado por chegar atrasado – E seus lábios crisparam quando completou: - , e Sirius morreu...
Houve um silêncio sepulcral, enquanto a mente de Anne registrava as palavras ditas por Snape.
- Tudo como Dumbledore planejou... - seu tom era mordaz – Não ficou feliz?
Ela encarou-o em castanhos fuzilantes e o ouviu completar:
- Tudo tão bem arquitetado, não acha?
- Ora seu...
As mãos dela bateram fechadas sobre o tórax dele, Snape riu, Sentiu mais uma vez ela atacá-lo, e deixou-a prosseguir, mas quando Anne ameaçou tornar a fazê-lo mais uma vez, prendeu-lhe os pulsos entre suas mãos e a impediu. Torceu-os levemente, fazendo-a ceder, o rosto dela aninhou-se em seu peito e ele a envolveu ternamente nos braços, acarinhando-a. Fechou os olhos, enquanto deslizava a mão pelos cabelos ruivos e pensava: - Por que não podia simplesmente amá-la?
xxxxxxxxxxxx
Os dias seguiram-se cada vez mais sombrios depois do ataque ao Ministério. Dumbledore havia voltado para a escola, mas o Ministério perdia a luta contra os Comensais a cada dia. Uma noite, no entanto, Severus entrou pálido em seu quarto, e evidentemente, Anne não deixou isso passar em branco:
- O que aconteceu?
- Aquele velho louco quer que eu o mate! - esbravejou, andando de um lado para o outro.
- Quer um pouco de chá? - ela perguntou com um sorriso.
- Acha que com tudo o que está acontecendo eu tenho cabeça para um chá? - pretos luziam.
- Deveria... - ponderou Anne, inclinando o bule de prata sobre a xícara e deixando que o líquido fumegante a preenchesse. Em seguida, estendeu-a para Snape, que revirou os olhos. Anne o fitou mais uma vez sorridente. Contrariado, ele aceitou-a. - Não vai adiantar você ficar irritado, sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. Fazia parte do trato que aceitou.
Ele levou a xícara aos lábios sorvendo um grande gole, e murmurou:
- Maçã...
- Não, Severus... - riu-se dele – Pêssego.
Snape crispou os lábios num esboço de um sorriso, e pousando a xícara na bandeja, sentou-se ao lado de Anne na outra poltrona.
- Ás vezes eu me pergunto como você agüenta passar dias e noites aqui dentro, tendo apenas como companhia os livros... deu-lhe um olhar carinhoso. Podia não amar Anne, mas algo nela o atraía imensamente e o fazia querer protegê-la do mundo. Ele fitou os lábios que lhe sorriam, desviando depois para os cortes em seu rosto, mesmo assim, era linda. Uma coisa ele tinha certeza: Não tinha pena de Anne, muito pelo contrário, a admirava cada dia mais.
Foi tirado de seus pensamentos pela voz dela ao responder-lhe:
- Tenho você... - sentiu-se encabulada com o olhar intenso dele, e desviou os seus para a lareira, completando: - Apesar de não acreditar, é um bom amigo.
- Fico extremamente lisonjeado com suas palavras – sorriu desdenhoso.
- Não tem de que – rebateu mordaz – Mas, diga-me, Narcissa não lhe procurou mais?
- Não – recostou-se na poltrona – Graças a Merlin.
- Será mesmo? - disse cínica – Sempre achei que ela tinha uma quedinha por você. Está mais do que na hora de arrumar um par de chinelos para lhe aquecer os...
Ela não conseguiu acabar sua frase, dois braços fortes a içavam da poltrona, trazendo-a próxima a um rosto emoldurado por cabelos pretos lisos e um olhar frio. Anne não se deixou intimidar pelo o olhar de Snape, nem por sua clara demonstração de insatisfação arroxeando os pulsos dela, e num gesto insolente, encarou-o completando: - Pés!
- Anne... - O nome saiu como um alerta dos lábios crispados em fúria perto dos seus, e um sopro quente em seu rosto trouxe-lhe o restante da sentença: - Não abuse da sorte.
- Do que tem medo? - rebateu irritada – De sentir o que sentiu um dia pela Lily?
- Você não sabe do que está falando! - rosnou de volta, apertando mais ainda o pulso entre seus dedos longos.
- Tolo, estúpido e arrogante! - gritou, a dor invadindo sua alma e as lágrimas descendo pelo rosto.
- Cale-se! - ordenou. A mão vazia foi ao ar espalmada, acima de sua cabeça, numa ameaça.
Pretos cintilavam ao encontrar castanhos atônitos, e percebendo o que estava preste a fazer, baixou a mão, deixando que o pulso escorregasse para longe da outra. Ele se afastou de Anne, sem tornar a fitá-la, e murmurou:
- Desculpe-me...
Anne não disse nada, apenas deixou-o sozinho, voltando para seu quarto. Snape foi até sua mesa, uma expressão de cólera no rosto, e com um braço, varreu todos os objetos que estavam encima dela. No quarto ao lado, Anne enterrava o rosto no travesseiro, a cena com Snape vagando em sua mente, que esbravejava contra ela: - Como consegui me apaixonar por alguém assim?
Ao acordar no dia seguinte, debruçado sobre a mesa, Snape percebeu a passagem aberta. Seu coração acelerou fazendo-o levantar de um salto e cruzar a distância que o separava do quarto de Anne em passadas rápidas. Quando entrou, no entanto, teve a certeza de que seu coração não o traíra... Anne partira.
Ele apoiou o corpo cansado sobre a parede atrás de si, deixando-se escorregar até o chão. Trouxe as pernas encolhidas juntas ao corpo, abraçando-as, e enterrou seu rosto entre elas. Exatamente como fizera na floresta com Anne, só que dessa vez, ela não estava lá para ampará-lo. Estava só.
