Capítulo 10 - Engagements

Fenrir aparatou em frente à mansão Malfoy. O impacto do corpo contra o solo fez uma pontada de dor subir pela sua perna. Snape havia feito um bom trabalho, mas o ferimento foi fundo e ele havia se esforçado muito. Agora não importava, ele já havia sofrido coisas piores e sobrevivido, e não era como se ele pudesse simplesmente parar naquele momento.

Estava cansado. A lua o fortalecia, mas as transformações eram cansativas. Já havia se passado quatro noites de lua cheia: a da batalha contra Voldemort, a da fuga para Hogwarts, a do retorno para a França e a última, em que havia reorganizado o covil. Isso significava que a fase mais forte da lua já havia passado e se ele não voltasse rápido para o covil, não poderia transformar Harry naquele mês. Ele estava fraco, ferido e praticamente não dormira nos últimos dias. Harry merecia mais do que isso em sua transformação, mas esperar pela próxima lua seria arriscar seu moitié.

Fenrir olhou o portão caído com o brasão dos Malfoy e os jardins destruídos à sua frente, se estendendo em destroços até uma pilha maior de destruição, que era o que restara da mansão. Ele ainda tinha muito o que fazer.

Caminhou com cautela até a casa, atento a qualquer movimento. A mudança da atmosfera do lugar era sensível. Quando Voldemort se apoderou da propriedade como seu quartel general, o ar era pesado, havia cheiro de tensão, medo, sangue e morte. Havia gritos todo o tempo, e os sentidos sensíveis do lobisomem ficavam perturbados frente a tantos estímulos.

Agora havia silêncio e uma falsa paz por todo aquele lugar, como um cemitério.

- Malfoy! – chamou, ouvindo sua voz ecoar entre os destroços do hall destruído. Ele estava lá, já havia sentido seu cheiro, mas o cheiro e o som do fogo que queimaria para sempre na sala ao lado não estavam permitindo que conseguisse localizá-lo com exatidão.

- Greyback. – uma voz cansada o cumprimentou do alto da escadaria à direita. Rabastan Lestrange o encarava e fez um breve aceno para que subisse.

A trilha de destruição continuava por todo o interior da casa, entre marcas de luta e a deterioração de sua estrutura. Os tesouros que um dia estiveram ali já haviam sido usurpados pelo próprio Voldemort há muito tempo para financiar sua guerra. Mas ao seguir Rabastan para dentro de uma das suítes do segundo andar, Fenrir percebeu que nem tudo estava perdido para aquelas pessoas.

- Greyback. – Lucius o cumprimentou da mesma maneira que Rabastan, mais insegurança e precaução do que respeito.

Perto da lareira havia algumas poltronas dispostas em círculo, evidenciando que estavam discutindo algo muito antes de Fenrir chegar. Narcissa, Draco e Rodolphus estavam sentados e fizeram acenos em reconhecimento, Lucius se levantou e conjurou uma poltrona para Fenrir, e ele e Rabastan voltaram a se acomodar.

- O governo caiu, não há nada oficial, mas se não surgir um líder logo, eu temo pelo que se tornará a Inglaterra. – Lucius começou a expor algo que, pelo visto, julgava do interesse de Fenrir – Com o desaparecimento do Lord e dos seus comandados mais influentes, aqueles que estavam ao nosso lado dentro do governo pararam de reportar suas atividades. Não havia mais ordens a serem dadas. Os aliados da Ordem da Fênix perceberam esse princípio de caos e os reprimiram. O que se seguiu foi uma série de assassinatos dentro da esfera pública. Eles estão com medo porque pensam que isso faz parte do plano para Voldemort tomar o poder. Temos informações de que muitos estão saindo do país ou se escondendo. Por outro lado, sabemos que os assassinatos continuam.

Fenrir fez um sinal de desdém, demonstrando impaciência, e Lucius se interrompeu.

- Precisamos de um líder. – ele repetiu, encarando o lobisomem.

- Bem, se todos decidissem ser transformados em lobisomens, eu poderia assumir a liderança com prazer, Lucius. Eu comando a minha matilha, e isso é a minha responsabilidade. Os bruxos rejeitaram minha raça e meu povo há muito tempo, eu só tomo providências quando isso atinge os meus interesses. Me aliei a Voldemort porque ele me ofereceu liberdade e não era interessante para mim desafiá-lo. Matei Voldemort porque ele me desafiou e ameaçou a minha segurança e a segurança daqueles que estão sob minha proteção. Não me importo com o que está acontecendo no governo dos bruxos, se você quer dar um golpe e tomar a liderança, faça isso. Se quiser meu apoio, terá que me oferecer algo. Se for contra mim, irá sofrer as consequências.

- Por que você veio, então? – Rabastan perguntou, encarando o lobisomem.

- Para me assegurar que nenhum idiota está tentando trazer o Lord de volta dessa vez. – Fenrir respondeu com desgosto, os dentes a mostra em claro repúdio para o homem que o questionava.

- Podemos tomar o governo. – Rodolphus assumiu a conversa – Podemos usar a destruição do Lord como um argumento a nosso favor, a população desamparada vai nos apoiar, assim como os apoiadores da Ordem da Fênix, e o mesmo se aplica aos nossos antigos seguidores. Há caos o suficiente para encobrir qualquer repressão necessária.

- Mas quem destruiu Voldemort fui eu, e a população não vai gostar de saber que seu ditador louco foi dizimado por um bando de lobisomens. Isso certamente desestabilizaria sua base de apoio. – Fenrir encarou os presentes – O que eu ganho para simplesmente deixar o caminho livre para vocês?

- Você não será incomodado. – Lucius afirmou – Não afetaremos os lobisomens ou qualquer um que você decida proteger, além do necessário para a segurança dos bruxos.

- E garantir que qualquer tentativa de trazer Voldemort de volta será reprimida. – o lobisomem acrescentou em clara exigência.

- Isso é possível? – Draco perguntou, sua voz baixa frente à autoridade de Fenrir.

- Já foi feito uma vez, e aqueles que viraram as costas para ele antes sofreram as consequências. Eu não preciso desse risco, assim como vocês também não. – e todos naquela sala concordaram com suas palavras.

Eles tinham um acordo.

o0o

Severus sentou-se à beira da cama e olhou por alguns segundos o adolescente deitado sobre ela. Ele parecia estar dormindo, não fossem as lágrimas eventuais que se desprendiam dos olhos fechados.

Harry havia comido um pouco e aceitado a medicação que Severus lhe trouxera depois que Fenrir saiu. E mais nada.

O homem passava um pano úmido com cuidado pelo seu rosto, peito e braços. Havia mandado o rapaz tomar um banho, mas fora solenemente ignorado. Harry não se importava com banho, não se importava mais se estava nu ou não, com o fato de que Severus e Louis tentavam manter um diálogo com ele há horas, com a preocupação dos dois com sua passividade depois de todo o covil ter ouvido seus gritos algumas horas antes.

Severus limpou o ferimento em seu pulso e percebeu que finalmente ele realmente dormira: a respiração compassada e o rosto calmo não negavam isso. Por um momento, olhando os traços quase infantis do rapaz, ele se questionou como Fenrir conseguia fazer sua moitié sofrer tanto daquela forma. E pensar no sofrimento de Harry lhe trouxe a lembrança do pedido de Dumbledore e o fato de que, mesmo com o fim da guerra, talvez nada estivesse terminado para Harry.

Ele ainda era uma horcrux, e sofrimento nem começava a definir as consequências disso.

- Louis, eu preciso cuidar de uma coisa que Fenrir me pediu para fazer. Harry está dormindo, você pode ficar com ele, por favor?

- Claro. – o rapaz respondeu sorridente, assumindo seu lugar à cabeceira de Harry, mas sem tocá-lo, e reafirmou para um Snape incerto – Se ele acordar ou precisar de algo, eu aviso.

Severus deixou o quarto e se dirigiu aos seus próprios aposentos. Protegido com magia sobre a sua cama, estava o saco que Fenrir trouxera depois da batalha com Voldemort. Devagar, ele analisou seu conteúdo, depositando peça por peça sobre o colchão: a espada de Gryffindor, a taça de Hufflepuff, a tiara de Ravenclaw, o medalhão de Slytherin.

Ele alinhou as três horcruxes sobre a espada e repassou mentalmente a lista que havia visto entre as memórias de Harry: faltavam o diário e o anel, já destruídos; a cobra e o próprio Voldemort, assassinados, segundo Fenrir; e Harry Potter.

Tudo terminaria ali, naquele quarto, naquela noite.

Colocou a taça no chão e, empunhando a espada, a cravou sobre ela, ouvindo o lamento do pedaço de alma destruído ecoar nas paredes de madeira. O mesmo ocorreu à tiara, o grito de morte de algo que já não estava mais vivo. E por fim, o medalhão.

A peça metálica simples se partiu com o golpe, mas não houve grito, não houve nenhum lamento, nenhum protesto pela sua destruição. Severus se abaixou, observando com mais atenção o medalhão: um medalhão muito mais simples do que era esperado de um medalhão vindo de Slytherin; um medalhão muito mais simples do que o visto nas memórias de Harry.

- Oh, Merlin. – ele engoliu em seco, recolhendo o bilhete agora rasgado do meio dos cacos, e ao ler suas palavras, sua própria alma gelou – Fenrir precisa saber disso.

A última horcrux era falsa.

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Engagements – Compromissos, em francês.

NA: Olá, pessoas. Desculpem o atraso, o dia hoje foi pesado.

Espero que gostem. o/

Beijos.