Hikaru não conseguiu acreditar no que ouviu do irmão. O que ele queria dizer com "adeus"? Não poderia deixá-lo, não naquele estado. Ou poderia? Seria aquele o melhor momento para que acontecesse mesmo? Mas não queria aceitar a partida do mais novo, não suportaria ser abandonado. Não mais do que já fora.

- E… Tem mais algo mais que eu deva saber, Kaoru? – Hikaru ainda estava receoso ao perguntar.

Kaoru enxugou o rosto antes de responder.

- Quero que você seja feliz de verdade, Hikaru. Então não desista por minha causa. – e sorriu, saindo do quarto em seguida.

Hikaru apenas se jogou na cama, abraçando o travesseiro. O que Kaoru dissera se repetia em sua mente de forma insistente, o que fez com que lágrimas começassem a rolar por seu rosto. E a cada uma que caía, Hikaru sentia o peito doer. Nunca havia se sentido tão mal, então não sabia como reagir àquilo.

0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0

Kaoru desceu as escadas e foi direto para os jardins, ignorando os integrantes do Host que chamavam por seu nome. Reconheceu a voz de Tamaki por sobre a dos demais, o que de certa forma o irritou. Desde que sabia da verdade sobre Kyoko, Tamaki tinha se tornado extremamente irritante.

Caminhou algum tempo pelos jardins, sem procurar pela jovem. Então quando ia virar para voltar à casa, ela estava em pé bem diante de seus olhos, sem qualquer expressão no rosto. Ao menos até que seus olhos se encontrassem e ela visse a tristeza que o consumia.

- O que foi, Kaoru? O que aconteceu entre você e seu irmão?

- Né, Kyoko… - ela estranhou o fato dele a chamar só pelo nome – Por que dizer "adeus" é tão difícil…?

- Porque se separar de alguém importante dói mais do que gostaríamos. – ela deu um sorriso triste ao acabar de falar, o que de certa forma acalmou o ruivo.

Era bom saber que não era o único sofrendo por alguém. Mas por quem ela poderia nutrir tal sentimento? Kaoru queria perguntar tanta coisa a ela, mas ao mesmo tempo não tinha certeza de que queria saber as respostas. Pelo menos por algum tempo, ficar sem saber muito sobre a jovem parecia algo agradável.

Kyoko ajeitou o cabelo, olhando para a lua, crescente naquela semana. Kaoru achou ter visto uma lágrima escorrer por seu rosto, mas não teve tempo de confirmar, pois um segundo depois não havia nada. Suspirou e resolveu se sentar lá mesmo, na grama. A garota olhou para ele, agora com o cabelo preso em uma trança, estranhando por ele querer ficar ali, especialmente em uma noite fria como aquela.

- Por que raios você sentou? Não vai ficar doente se ficar aí?

Ele riu.

- É, vou. Mas quem liga? – Kaoru sorria despreocupadamente.

- Seu grande idiota. – e dizendo isso ela o empurrou, fazendo-o cair deitado na grama.

Logo os dois estavam rindo.

- Mas me diz… - começou ela, quando conseguiu se acalmar – Como foram as coisas com Hikaru?

- Ah, meio ruins… Acho que ele ainda está no quarto… Espero que isso não o deprima. – Kaoru olhava para algum ponto distante no céu.

- Seu irmão é mais sensível que você, sabia? Ele só não deixa transparecer. – Kyoko olhava diretamente para o rapaz.

- Então você também acha? Que bom que não sou o único…

- Isso é bastante notável se olhá-lo nos olhos de verdade.

- Eu concordo… Mas ele insiste que é invenção minha.

- Quer saber? Vou tirar seu irmão dessa fossa toda. – e se levantou.

Kaoru desviou o olhar para ela no mesmo instante, sem entender o que ela queria dizer. Como ela poderia tirá-lo da fossa? Ela o jogou com tudo no fundo do poço, como ela conseguiria tirá-lo sendo a pessoa que ele mais odiava desde aquele momento? Quando a viu indo de volta para a casa, Kaoru se levantou e foi atrás.

Kyoko entrou e pegou o telefone. O Host não estava mais na sala, o que era relativamente bom. Discou o número da sociedade e esperou que chamasse algumas vezes antes de alguém atender. Mas quis desligar no mesmo instante assim que ouviu a voz do outro lado da linha.

- Kentaro, pois não?

- Por que você está responsável pelo telefone? Não tem a vida de ninguém para arruinar?

- Não, não. Eu já consegui destruir quem eu queria.

- Seguinte, imbecil. Faça o que vou dizer exatamente como eu desejo. Ou sua cabeça estará na minha parede amanhã de manhã.

- Certo, irritadinha. O que é?

- Eu tenho um problema aqui com um humano. O infeliz resolveu se deprimir e isso atrapalha minha missão. Traga alguma coisa antidepressiva.

- Por acaso é o tal do ruivo que você tem que…

Kyoko não o deixou terminar.

- Não importa. Só me obedeça. – e desligou.

0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0

Hikaru ainda estava jogado na cama, quase dormindo, quando alguém bateu na porta. Virou o rosto para ela, sem vontade de levantar. E não iria se não reconhecesse a voz que vinha do outro lado. Aparentemente era Kaoru. Não sabia se devia ficar aliviado ou não, mas ainda assim foi atender.

- Que cara de sono, ruivo. – quis bater a porta ao ver que o irmão estava junto da jovem de cabelos verdes.

- O que você quer? – seu ânimo piorava a cada segundo que passava vendo-a.

Ela estendeu alguma coisa diante do nariz do mais velho, algo que ele reconheceu como sendo um forte remédio antidepressivo.

- Não! De jeito nenhum! Tire isso daqui! Eu não…! – mas não conseguiu terminar, pois a jovem enfiou um dos comprimidos em sua boca sem a menor delicadeza.

Logo Hikaru estava tossindo, mas já tinha engolido o remédio. Satisfeita, Kyoko lhe estendeu um copo d'água e assim que ele terminou de beber, ela se virou e saiu. Hikaru olhava incrédulo para ela, sem saber se gritava alguma coisa ou se estrangulava alguém. Que idéia absurda fora aquela?

- Desculpe por isso, Hikaru… - Kaoru parecia verdadeiramente sem graça com toda aquela situação.

- Por que você não a impediu?!

- Meio difícil com ela segurando meus pulsos com mais força do que qualquer um de nós julgaria possível…

Hikaru desviou o olhar para os braços do irmão e foi descendo, encontrando manchas vermelhas logo antes de chegar às mãos. Hematomas mais sérios do que um humano seria capaz de causar. E isso o fez engolir em seco. Aquela era uma prova irrefutável de que ela era diferente. Assustadoramente diferente.

0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0

Kyoko desceu as escadas com o remédio no bolso, como se nada tivesse acontecido. Encontrou com Kyouya quando estava quase na cozinha, mas não o cumprimentou. Apenas jogou a caixa do remédio para ele, na qual era possível ler em letras vermelhas e garrafais: Para Hikaru. Então foi pegar um copo d'água, largando o moreno assustado e confuso.

0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0

Tamaki, Haruhi, Mori, Hani, Kaoru, Hikaru e Kyouya. Kentaro listara todos os nomes em um papel antigo, já amarelado pelo tempo. Como não tinha uma caneta fácil, usara a técnica que aprendera com Kyoko: escrever com o próprio sangue. Apesar de parecer, não era algo tão simples. Assim como dar um jeito de não ser percebido nos jardins da mansão da família Hitachiin.

Naquele momento estava sob a janela de algum quarto, como pode constatar ao escalar a parede e olhar para dentro. Avaliando o cômodo, era possível concluir que era o utilizado pela jovem em sua estadia lá. "Quanta folga dela… Será que não muda nunca?" Então soltou-se e caiu em pé no chão, sem ruído algum.

Quando ouviu alguém se aproximando, tratou de se esconder em algum lugar. Viu a jovem passar diante de seus olhos, a poucos centímetros de distância. Notou o olhar esmeralda pousando sobre si e prendeu a respiração automaticamente. Ela o notara, mas não fizera nada. Aquilo não era normal. Assim como utilizar a comunicação telepática.

O que está fazendo aqui ainda, Kentarou?

Ele engoliu em seco.

Eu… Eu já estava indo embora, não se incomode…

Então vá agora! Se alguém encontrá-lo aqui, os resultados serão ruins. E para você.

E a conversa terminou por aí. Kentaro não pensou duas vezes antes de ir embora o mais rápido e discretamente possível. Se alguém o visse, Kyoko não ligaria para o que acontecesse a quem quer que fosse, apenas o eliminaria ali mesmo por descumprir as ordens.

0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0

Kyoko ficara com o humor ruim por causa de Kentaro, mas logo o esqueceu ao encontrar Hikaru sufocando com alguma coisa e Kaoru desesperado tentando ajudá-lo. A cena a fez rir da mesma forma que a encenação no Host tempos antes fizera. E não havia o menor indício de que a jovem pararia com o escândalo.

Logo apareceram os demais integrantes, indo ajudar Hikaru direto. Só Kyouya parou ao lado dela, esperando que ela se acalmasse para que pudesse fazer qualquer pergunta que fosse. Mas enquanto Hikaru não estivesse bem, o moreno notou que aquilo não seria possível.

Quando o ruivo finalmente se recuperou, Kyoko respirou fundo algumas vezes e se recompôs, notando o rapaz de óculos ao seu lado. Olhou de cima a baixo, pouco amigável e então perguntou o que ele queria. O outro apenas tirou a caixa de remédio do bolso e estendeu a ela.

- O que isso significa.

- Ah, isso. É um antidepressivo. Para Hikaru como pode ver aí na caixa – e apontou para as letras em vermelho – Ele pode andar meio ruim alguns dias, então…

- Por que Hikaru precisaria de um antidepressivo?

- Ah, não sei se ele vai gostar se eu contar. Pergunte a ele depois, se quiser. – e deu os ombros.

Kyouya tornou a guardar o remédio e se virou para o restante do grupo. Tamaki ainda parecia alterado pelo que acontecera a Hikaru, Haruhi parecia feliz pelo amigo estar bem, Mori estava indiferente como sempre, Hani já estava comendo um pedaço de bolo e Kaoru parecia aliviado.

- O que aconteceu, Hikaru? – perguntou o moreno, se aproximando.

- Nada, não. Só engasguei. Estava… Distraído. – respondeu o ruivo, sem olhar o amigo nos olhos.

- Ora, conte a verdade, seu mentiroso. – resmungou Kyoko, se juntando à turma.

"Conte de uma vez que você começou a chorar enquanto comia e quase se matou, ruivo depressivo."

- Mas eu estou. – foi tudo que ele respondeu, fitando a garota.

- Ah, tanto faz. Sua morte não representa nada para mim, de qualquer forma. – e saiu ao terminar de falar, largando o Host sem acreditar em sua resposta.