Capítulo 9: Recomeços
Cuts a straight line down through the heart…
- Recomeços...
A menina tinha os olhos brilhando quando falou aquela palavra. Dava um tom mais belo ao verde-água do olhar.
Era pequena e magra demais para seus sete anos, mas aquele brilho chamava a atenção onde quer que ela fosse.
Ele gostava de pensar que era exatamente por isso que ela o fascinava.
Mesmo que ele ainda fosse jovem demais para entender o significado da palavra "fascínio".
E agora, quando aquele brilho estava direcionado a ele, ele se permitia sorrir.
- Você acredita?
Ele levantou a sobrancelha.
- Depende.O que você quer com isso?
- Só estou perguntando, seu mal educado.
- Só estou tentando te entender, Virgínia. Mas você podia me ajudar nisso, sabe?
Ela pareceu aborrecida.
- Por que você tem que sempre assim?
- Assim como?
- Sarcástico.
Ele deu de ombros. Não sabia o que a palavra queria dizer, afinal.
- Não sei. Por que você tem sempre que se irritar com isso?
Ela deu de ombros também.
- Não sei.
Os olhos dela se voltaram para o céu. Ele lamentou isso.
Gostava quando as íris nem verdes, nem azuis, voltavam-se para ele. Gostava daquela cor. Gostava do brilho que emanava dela.
Lembrava-lhe vagamente o mar.
Os cabelos loiros e muito finos, bagunçados pelo vento e iluminados pelo sol poente, davam uma espécie de aréola dourada ao rosto pálido dela. E aumentava a luz.
E de repente, sentiu seus próprios cabelos serem puxados.
- Ai! O que você está fazendo?
- Olhando o seu cabelo.
- Não precisa tirar ele da cabeça pra isso!
Ela enfim soltou, com um suspiro.
- Eu queria ser ruiva. Nesse sol, seu cabelo parece fogo.
Ele bufou.
- Detesto ter os cabelos vermelhos assim.
- Por que? Você fica tão bonitinho...
E ele sentiu o rosto ferver.
- Pará com isso.
Ela riu.
- Falando em bonitinho...eu tinha esquecido de te entregar. Toma.
Ele lamentou ter esquecido por tanto tempo. Não estava nem tão bela, nem tão inteira.
Ela olhou surpresa para a rosa vermelha que ele tirara do bolso da calça.
Foi a vez dela corar.
- O...obrigada.
- Rosas me lembram você. Não me pergunte o motivo.
Ela beijou a bochecha dele.
- Você é fofo. Não gosta de ser, mas é.
Ele rolou os olhos, contrariado.
- Pára com isso!
Ela apenas riu outra vez, se levantando.
- Essa rosa...me lembrou uma coisa.
- Hein?
- Sabe que dia é hoje?
- 21 de março. Por quê?
Ele sabia que ela era estranha. Meninas são estranhas, isso era um fato para ele.
Mas não esperava que ela começasse a dançar em círculos pelo jardim.
Ela parecia uma boneca viva, para o menino. Um anjo que caíra do céu, e estava ali, dançando pra ele.
Por que ela não podia ser uma menina como as outras?
- Porque mamãe me contou que muito tempo atrás, essa era a data que comemoravam um festival da primavera em honra ao deuses.
- ...Ostara... –ele murmurou baixinho, pensativo.
Ela parou de dançar.
- Hein? Como você sabe?
- Não é à toa que você diz que eu ando sempre com um livro na cara, né?
Ela balançou a cabeça, parecendo desapontada.
Queria ter sido ela a pessoa a contar aquilo pra ele.
- Ah...ok. –e recomeçou a dançar. Meninas mudam de humor rápido –Mas...devia ser lindo, né?
Ele sorriu.
- É...devia ser.
E ficou observando a loira dançar, até que ela cansou e deitou-se na grama outra vez, deixando os fios dourados caírem sobre as pernas dele.
Os olhos cor de mar fitavam o céu, pensativos.
- Mas... –ele começou, incerto –Por que essa conversa sobre recomeços?
- Sei lá. Eu estava me lembrando desses festivais... antigamente, era comemorado todo ano, como a volta da primavera, né?
- Aham.
-E eu fiquei pensando... e se tudo fosse uma coisa que vem e volta?
- Um eterno recomeço, você quer dizer?
- É. Você acredita nisso?
Ele demorou um pouco a responder.
- É...Acho que sim.
Silêncio. O Sol estava sumindo no horizonte, e já podiam ser vistas algumas estrelas no céu.
Ela se virou para ele, sentando-se. O ruivo parecia pensativo, distante.
- O que foi?
- Hein?
- Por que tá com essa cara?
Ele olhou para a loira, pensativo. E sem dizer nada, aproximou os lábios dele dos dela, rápida e timidamente.
- Quando você for um pouquinho maior...eu te conto, 'tá?
Ele se levantou. Mas ela, com o rosto em chamas, não se moveu.
- Vem.
- Hã?
O brilho dos olhos dela estava completamente focado nele. Ele gostou daquilo.
- Nossos pais devem estar loucos da vida querendo saber onde a gente 'tá. Daqui a pouco eu tenho que ir pra casa, lembra? Eu não moro tão perto assim da sua casa.
Ele estendeu a mão. Ela, ainda um pouco trêmula, a segurou.
... We call it love.
N/A: Beeem...era isso.
Eu queria agradecer pelo apoio enorme que tive de vocês ao decorrer da fic, o carinho das reviews e o fato que vocês sempre pareceram me perdoar pelas demoras imensas nas atualizações. Espero ao menos que tenha valido a pena pra vocês, né?
Então...muito obrigada. Mesmo.
Posso pedir pra vocês lerem uma ficlet minha chamada Ropes, recém publicada, e comentarem? É so 3 pags, haha.
Beijos, e até a próxima, pessoas.
