Capítulo
10: Chamada de Elenco
(Quando as pessoas fazem os testes,
etc)
Sawyer podia não saber que horas eram, mas ele sabia que era uma hora indecente para ser acordado. Gunner nem havia se levantado ainda e era ele quem geralmente acordava todo mundo.
A batida incessante na porta continuou, alta e obnóxia. Sawyer podia contar quatro pares de mãos batendo mas ele não ligava se fossem mil. Ele enterrou sua cabeça debaixo do travesseiro da Oceanic Airlines, determinado a não acordar.
"ALÔ," alguém gritou de fora. "ACORDEM! ABRAM A PORTA!"
A voz filtrou pelo algodão de seu travesseiro, mas mesmo abafado ele ainda pôde reconhecê-lo.
Do seu lado ele pôde ouvir Kate
gemendo aborrecida um segundo antes dele sentir os pés dela
chutando-o e empurrando-o para fora da cama.
Ele já sabia
muito bem interpretar esses gestos.
Ela havia pegado o costume de empurrá-lo da cama toda vez que estava muito cansada/com preguiça para levantar e atender alguma coisa.
Tudo começou na noite que Gunner nasceu e começou a chorar no meio da noite e ela empurrou Sawyer para fora da cama, o que significava "Pega ele," ou "troque ele" ou "alimente ele".
E quando perguntou como, exatamente, ele poderia alimentá-lo, considerando que não tinha as partes especificamente femininas requeridas, ela respondeu jogando um travesseiro nele. Com força.
Dessa vez, a julgar pela força do empurrão e do gemido que acompanhou ele sabia que o que ela queria dizer era: "ABRE LOGO ESSA MALDITA PORTA."
Ele estava caído na areia e
completamente acordado, agora. E pôde ver Kate rolar no colchão
que ele tinha roubado da escotilha. Ela já havia voltado a
dormir.
E as batidas continuavam.
Se levantando, ele foi até a porta e a abriu.
"É melhor que alguém esteja morto ou morrendo," ele admoestou numa voz baixa e rouca, pesada de sono.
O cinzento do amanhecer
lançavam sombras sobre as faces das quatro crianças
paradas na porta de Sawyer.
Os quádruplos de Jack, chatas
como sempre, subitamente se transformaram de um bando de pestinhas em
queridinhos sorridentes. Sawyer ainda via o bando de
pestinhas.
Josefina, a que havia exigido que a porta fõsse
aberta, se inclinou para dentro e espiou atrás de Sawyer para
ver a figura adormecida de Kate. Era exatamente como Jack sempre
fazia, toda vez que ele vinha até a cabana de Sawyer antes
dela acordar.
Sawyer não pôde acreditar.
"O
que vocês querem?!" Ele sibilou, tentando não
alterar a voz por causa de Gunner e Kate.
"E eu não
quero que você me diga," disse ele, apontando um dedo
acusador para Josefina. "Você ainda não aprendeu o
que é 'voz para interiores' ."
Jack Hugo lhe estendeu uma folha de papel enquanto Jack Juan Locke disse, "Nosso pai. Quer que venham. A uma. Chamada de elenco."
Sawyer
apanhou o pedaço de papel, qeu rezava,
"CHAMADA PARA
ELENCO ABERTO PARA A PEÇA DE JOSÉ
Tragam seu
talento, pessoal. Só quero o melhor.
3 da tarde, ao lado da
minha cabana.
Façam um currículo de todas as
experiências teatrais anteriores se tiverem. E nem se incomodem
em fazer teste se não tiverem. A menos que você seja
Kate. Se você é Kate, pode fazer tantos testes quantos
quiser, baby."
Eram escritos à mão e Sawyer pôde ver que o resto das folhas nas mãos de Jack Hugo também eram.
"Nunca mais voltem a me
acordar."
E com essa, ele bateu a porta na cara dos
quádruplos.
Claire estava hiperventilando. Depois começou a chorar. E a guinchar.
"ALGUÉM LEVOU MEU BEBEEEEEEEEEEEEEEEÊ."
E depois de mais alguns guinchos, ela abruptamente parou, secando os olhos e sorrindo.
"Ok, foi ótimo, Claire," disse Jack. "Mas a fala era, na verdade, 'obrigado, José, por me salvar daquele pervertido. E acho que talvez, e apenas talvez, esteja me apaixonando por você, José."
Embora Claire estivesse entusiasmada e ávida para entrar na peça, pelo jeito com que Jack sussurrou nos ouvidos de Alex e pelo jeito com que Alex riscou algo em seu bloco, não parecia que ela havia conseguido o papel.
As audições haviam começado há
uma meia hora atrás quando Jack saiu de sua cabana.
Ele
havia levantado os olhos para o brilhante céu azul, suas mãos
fazendo uma pala contra o sol sobre os olhos. Ele suspirou
profundamente, sorvendo o fresco ar da praia. Não havia brisa
e estava quente como o inferno. Condições perfeita para
formar um elenco. As interpretações sempre ficavam mais
intensas quando os atores suavam fortemente, especialmente na área
do rosto. Bagos de suor pingando da testa de alguém seria
ouro. Talvez o calor pudesse fazê-los gritar suas falas. Isso
seria fantástico, contemplou ele a hipótese.
Ele havia achado um bom lugar alguns metros adiante de sua porta e levou uma grande placa de madeira para o chão. Estava escrito AUDIÇÕES PARA SUSHI CAIPIRA - INÍCIO DA FILA em grossas e borradas letras em marrom.
"Está bom,"
exclamou Alex.
Jack deu uma cheirada no cartaz. "Teria ficado
melhor se tívessemos arranjado tinta, mas enfim."
"Devia
ter usado marcadores, jackass!" disse Sawyer. Ele estava lá
às 3 em ponto porque Kate o havia arrastado junto.
Alex e
Jack tinham procurado por horas, tentando encontrar algo apropriado
para escrever na madeira, mas acabaram desistindo logo.
Originalmente, havia várias caixas de marcadores na escotilha,
mas eles tinham desaparecido misteriosamente tempos atrás.
Curiosamente, os bolsos de Sawyer estavam cheios.
Jack e Alex tinham usado toda a tinta de suas canetas escrevendo cada página dos numerosos scripts. Eles tinham gastado tempo compartilhando estórias um com o outro. (Jack compartilhava estórias e fantasias sobre Kate enquanto Alex compartilhava estórias e fantasias sobre os peitos de Kate.)
De qualquer maneira, um
grande número de pessoas havia se amontoado na frente da
cabana de Jack, esperando pelas audições
começarem.
Embora Jack entendesse isso como um sinal de sua
popularidade como Artista, líder da comunidade, além de
bonitão popular ca região, aquilo era muito mais um
indicador do nível de tédio da ilha. Este era
basicamente o único passatempo da cidade. Ele se virou e viu
todos engasgarem e olharem para ele em assombro.
Eles obviamente
o respeitavam e admiravam muitíssimo.
Na verdade, eles
estavam reparando na sua aparência.
A camiseta suada, sem
mangas, a mochila nas costas, o choro e a figura de ação
do superherói doutor Jack Shepard já eram. No alto de
sua cabeça se encontrava uma boina vermelha que ele achara na
bagagem de Sayid, cuja insígnia ele rasgara (ele achou melhor
não se afiliar com a Guarda Republicana).
Seus olhos agora
fitavam através de óculos de armação
quadrada, sem as lentes (ele não queria arruinar sua visão
perfeita).
Um leve bigode decorava seu anteriormente fino
lábio superior. Ou talvez fôsse apenas sujeira. (Ninguém
quis chegar perto para verificar).
E debaixo de seus lábios
com buço, um cavanhaque postiço se fazia notar para o
grupo de pessoas. Uma blusa preta apertada, de mangas compridas,
cobria seu corpo, um dos mamilos espiava para fora através de
um buraco, como que dando um alô. Espantosamente ele tinha
encontrado até um par de calças brancas de marinheiro
para completar sua nova persona.
O que se apresentava diante deles era um homem transformado, forjado na chama da criatividade e nas roupas do avião que ninguém mais da ilha queria.
No momento ele estava sentado com Alex em cadeiras trazidas da escotilha. Diante deles estava uma mesa de ping pong - também emprestada da escotilha - abanguçada com dúzias de folhas em branco espalhadas e alguns poucos currículos. O de Charlie, em cima da pilha, era simplesmente um dos muitos discos do Driveshaft que ele tinha levando na bagagem.
"Próximo!"
John Locke caminhou até o espaço designado como 'palco' e esfregou a palma da mão em sua cabeça calva contemplativamente. "Ela não vai ser. Sua maldita musa muito tempo. E meu nome é James Fordham, Jackass," disse ele.
"Não foi um teste ruim até que ele acrescentou, "E todos sabemos disso!"
"Certo, ok, não adicione nada às minhas falas," disse Jack. "As palavras contidas nestas páginas que estão em suas mãos - este roteiro - são geniais. Quaisquer adições serão pobres reflexos de uma chama mortiça em comparação. Eu sei o que estou fazendo, John."
Locke caminhou para fora do palco, passando por Sayid que estava entrando nele. Sayid, o mais apático dos sobreviventes (sem contar Ana Lucia), pode ter surpreendido todo mundo por fazer teste para a peça de Jack. Mas ele estava para surpreender muito mais com sua leitura impecável.
"Antes de começar eu gostaria de dizer que embora James Fordham, o personagem para qual estou fazendo teste, seja claramente um clichê de vilão unidimensional, feito para parecer mais idiota por seu sotaque caipira, ainda consigo vislumbrar alguma esperança de trazê-lo à vida."
Ele pigarreou e começou.
"Posso ser um caipira, Bronzeada, mas tenho um mundo de conhecimento pra te ensinar lá nos fundos do restaurante. E por um mundo de conhecimento, quero dizer um mundo de agarração."
('Bronzeada' era o pobre substituto para 'Sardenta' mas por incrível que pareça, Sayid fez funcionar.)
Ele colocou as mãos na cintura e ficou olhando pra Alex e Jack esperando pela crítica.
Jack se recostou na cadeira e bufou por seus lábios abigodados enquanto procurava por alguns papéis a frente dele. Ele pegou o currículo e passou os olhos por ele. "Você é," ele parou, examinando o currículo de Sayid, "do Iraque, está certo?"
"Sim, está
correto."
"Aham, então isto te faz o que,
indiano?"
Sayid olhou seriamente para Jack. "Sou
iraquiano."
"Ok, ok, bom pra você,"
disse Jack condescendente, "Vou ser bem direto. Quando escrevi a
parte de James Fordham, não tinha um indiano em mente."
"Sou
iraquiano!" gritou Sayid. "Eu estudei no exterior, fiz
mestrado em teatro em Juiliard! Eu fiz Shakespeare no teatro mais
prestigiado do Oriente Médio! Meu sotaque sulista é
inigualável!"
Jack sorriu e entortou a cabeça em direção de Alex. "Vou ter que tirá-lo do palco," disse ele. "Já estive em Phuket. Eu conheço um indiano quando vejo um."
Embora a visão do
soldado sendo enxotado para fora como um pária pudesse ter
extraído pelo menos um risada de desprezo de Sawyer, ele
estava ocupado demais ficando dolorosamente entediado para sequer
notar. Ele preferia estar cortando lenha.
Ou dormindo.
Ou
arrancando os olhos fora.
Ou qualquer outra coisa.
Para passar o tempo ele tinha apanhado o roteiro de Kate e dado uma olhada pelas páginas para ver exatamente para o que ela estava fazendo teste.
A sinopse da peça, seguia mais ou menos assim:
Um perfeito e reverenciado médico latino de uma grande cidade, Jose Manuel Luis Fernando Guadalupe Eduardo Christina Arturo Stuart Diego Montoya Shepardo, abre mão de sua vida material para se tornar um artista no coração da América. Como acontece com todos os complexos e atormentados artistas famintos, ele arruma um bico como lavador de pratos no Sushi Caipira, um restaurante japonês no Kansas. Ele odeia seu chefe caipira abusivo, James Fordham e está prestes a ir embora quando um dia uma linda mulher, Kay Austen, aparece no restaurante para tentar o emprego de garçonete. Ela é contratada no ato pelo chefe, que começa a molestá-la sexualmente toda vez que surge uma oportunidade.
José decide ficar para protegê-la de James e para usar Kay como sua musa. Kay na verdade é uma fugitiva da polícia e o medo e a solidão que vem junto com sua existência deplorável e vergonhosa cobra um preço em sua psiquê, levando-a a um caso com o chefe pervertido deles. Kay, na verdade, acha José muito mais atraente, mas sendo ele um ex-médico e um atual-artista/lavador de pratos, ele está dolorosamente muito acima dela, e ela tem que se contentar com James.
Kay ajuda José com sua arte e eles formam uma forte e platônica ligação. Graças a Kate a arte de José deslancha e se torna o assunto da cidade do Kansas. Ele proclama seu amor por Kay e lhe pede que deixe o Sushi Caipira com ele, para sempre. Kay, não pode e confessa que ela é realmente uma fugitiva da polícia e que James sabe - e a está chantagendo para que fique com ele. Horrorizado com esta vilania, José luta para salvar Kate do maléfico James e eles vivem felizes para sempre, numa grande casa com cerca branca, um pastor alemão, 5 filhos e uma mini-van.
Também, numa parte da peça, José salva um monte de gente de comida envenenada ou coisa assim.
Sawyer observou Gunner
correndo em volta com Soon-Yi e Jack Eko e desejou estar se
divertindo tanto como o filho parecia estar.
Kate o trouxe de
volta de seu sonho.
"Você acha que eu devo dizer minhas falas com sotaque britânico?"
Sawyer se
virou para olhar para Kate. "A peça se chama Sushi
Caipira, Sardenta."
"Eu sei, mas acho que Kay devia ter
um sotaque britânico. Ela fica mais digna."
Kate estava fazendo teste para o papel da garçonete e não, ela não ficava mais digna.
"Você sabe fazer sotaque britânico?"
"O rei roeu a roupa do rei de Roma."
Não, a resposta era que ela não sabia.
Enquanto Sawyer estava parado olhando para Kate - e somente olhando por que ele sabia que insultar o horrível sotaque britãnico dela resultaria numa explosão hormonal- Charlie se virou para eles na fila.
"Você acha qeu Kay deve ter um sotaque britânico?" ele perguntou deliciado. "Fantástico! Estou fazendo teste para a parte de Kay Austen, também."
Kate sorriu para ele, mas seus olhos traíram seus pensamentos maliciosos. "Boa sorte, Charlie."
Foi só quando ele se virou para frente que ela murmurou para Sawyer, "Não tem como ele ficar com o papel. Meu sotaque é muito melhor."
Jack chamou Charlie para o teste.
E foi a vez de Sawyer dizer algo. "Claro que você vai pegar o papel! Você está fazendo teste para um personagem chamado Kay Austen! Seu nome é Kate Austen!"
Ela o olhou sem entender.
"A peça é sobre você! É sobre nós! Jack está apaixonado por você!"
O teste de Charlie podia ser ouvido enquanto Kate pensava nisso.
"Você é tão sexy, José," disse Charlie. "Eu não sabia que tinha algum antigo-doutor-transformado-em-artista tão sexy nesta parte do Kansas. Eu acho que posso estar, talvez, apenas talvez, me apaixonando por você. Mais."
"Só porque nossos nomes são parecidos não significa que Jack ainda esteja apaixonado por mim e que ele queira ter 5 filhos comigo, uma casa, um veículo utilitário e um pastor alemão."
Antes
que ela percebesse, Kate foi chamada para o teste enquanto um choroso
Charlie saía do palco.
Parada a alguns metros de Jack e
Alex, ela olhou brevemente para o roteiro e pigarreou, preparando a
garganta para a leitura.
Jack a interrompeu antes que ela
começasse. "Pode ler, por favor, o Ato 2, cena 1,
digamos...linha 13?"
Kate encontrou a linha. "Uau, José.
Peito cabeludo é muito sexy. E nem um pouco repulsivo."
Foi como se o sonho dele virasse realidade.
"Opapeléseu!" As palavras explodiram para fora de sua boca e ele não pode esconder o júbilo em seu rosto quando se levantou para aplaudir.
"O papel é seu!" exclamou Jack
enquanto ele corria para perto de Kate, rindo descontroladamente.
Alex correu logo depois dele, sem perder tempo ao cortar um pedaço
de papel em tirinhas e jogá-las sobre a cabeça de Kate.
"Grande teste!" disse ela. "Você é uma
atriz incrível."
"Mas eu nem tive a chance
de-"
"Você esteve perfeita. Exatamente como
imaginei você no papel," disse Jack. "Então,
Sawyer é o próximo?"
"Não estou fazendo teste, Jackass," disse Sawyer, andando até eles. E a despeito de ser totalmente contra esta peça, ele ainda se virou para Kate e disse "parabéns" depois de beijá-la no rosto.
"Mas eu escrevi a parte
tendo você em mente," disse Jack.
"Oh, yeah?
Então, você me vê como um tabaréu
molestador sexual e pervertido, né?"
"É."
Sawyer
franziu a testa. "Yeah, eu achei que via."
"Escute, eu sei que provavelmente você vai se sair muito mal nisso," começou Jack, colocando sua mão no ombro de Sawyer e olhando-o no olho. "Mas você se sai mal em monte de coisas. Ainda quero que faça o teste."
Sawyer
tirou a mão de Jack de seu ombro. "Não vai
acontecer, Tennessee Williams."
"Quem?" perguntou
Jack.
Sawyer pegou a mão de Kate e chamou, "Venha, Gunner, estamos indo!"
Um rolo de suor subitamente se formou na testa de Jack enquanto ele observava Sawyer e Kate indo embora- e não era por causa do calor. Ele ficou subitamente muito nervoso. E decidiu que esta era a melhor hora para anunciar uma coisa para a multidão que ele estava escondendo dela. Ainda por cima, o interesse deles como um todo, estava murchando e ele gostava de manter as coisas funcionando com declarações.
"Tenho uma declaração a fazer!" Ele
anunciou.
Todos pararam para olhar para ele, incluindo Sawyer e
Kate.
"Se Sawyer não participar desta peça," disse ele, dando uma pausa para fazer efeito, "os Outros matarão a todos nós!"
Isso pareceu chamar a atenção deles. E percebendo o quão importante isso fazia Sawyer parecer, Jack adicionou rapidamente, "Eles ameaçaram me matar também!"
