Capítulo IX - Inescrupulosidade
Hermione mexeu seus dedos e sentiu algo sobre eles. Era áspero e parecia estar enrolado em ambas as mãos. Talvez fossem bandagens. Ela respirava tão vagarosamente que o movimento natural de subida e descida do peito era quase imperceptível. Sentia frio. Muito frio. Ela abriu os olhos pesados e quase não foi possível reconhecer algo com a vista tão embaçada.
'Ah, vejo que finalmente acordaste, senhorita Granger...' Disse uma voz melodiosa.
Hermione demorou a reconhecer o teto de Hogwarts. Quando o fez, percebeu que estava de volta à escola e na Ala Hospitalar. A voz melodiosa e conhecida que escutara era proveniente de Tom Riddle que estava sentado em um banco ao lado de sua cama. Ela não precisou falar nada para que ele começasse a se explicar. 'Você ficou por mais de três dias desacordada.'
Hermione desviou o olhar para o teto. Três dias? Estava há mais de três dias desacordada? Sem assistir aulas? Hermione quis falar algo, mas não conseguiu. Deixou-se ficar mirando o teto de Hogwarts. 'Você está bem?' Ele perguntou e ela não respondeu.
'Não se preocupe, senhorita Granger, sua labirintite está curada. Suas mãos estão enfaixadas pelo ferimento que tivera com o feitiço de Malfoy, mas você e o Sr. Stradivarius poderão sair dentro de dois dias, segundo o curandeiro da escola. Teve danos maiores internamente, obviamente pelos feitiços recebidos no peito, mas já está bem.'
Hermione pôde perceber que a voz dele estava diferente. Tinha um leve sotaque escocês misturando-se com a rouquidão de um típico garoto daquela idade. Ao mesmo tempo, era calma e segura. Agradava Hermione.
Hermione quis fugir, correr dali. Ela desviou os olhos e fitou os cinzas do sonserino. 'Você devia saber que Malfoy é oportunista e passional, fazendo, ocasionalmente, besteiras.'
Hermione o xingou mentalmente. "Deveria tê-lo matado! Droga, Hermione! Sua burra!".
Ele continuara falando sobre algo que Hermione não se dera a atenção de escutar. Hermione continha os punhos cerrados e os olhos cor de mel sobre o garoto. Alguns segundos depois, seus olhos percorreram todo o rosto de Riddle. O rosto pálido e jovem; o nariz fino; as sobrancelhas negras e grossas; os olhos. Ela pareceu perder a capacidade de piscar os olhos, pois suas pálpebras nem se mexiam. Seus ouvidos não escutavam o que o garoto dizia. Seus olhos apenas encaravam o garoto ali á sua frente, vendo-o abrir e fechar os lábios, sem que um som audível saísse da sua boca.
"E se eu o desse veneno?" Perguntou-se. Era uma boa idéia. Ela o envenenaria, e ninguém saberia que fora ela. Por que desconfiariam dela? Era isso que ia fazer, ela ia esperar os dias até melhorar e faria o veneno, daria a ele de algum jeito, arrumaria um jeito. Pronto. Tudo resolvido. Se ela não tinha coragem de matá-lo com Avada Kedavra então o mataria da forma mais simplória que existia.
Hermione congelou quando ela subiu os olhos e viu os cinzas de Riddle. Ele não estava mais de perfil e sim com o rosto de frente a Hermione. A postura ereta e as mãos dentro dos bolsos da calça escura. Ela sentiu o coração bater forte. Medo. Ela piscou os olhos. Não. Não era medo. Hermione já não tinha mais medo de Tom Riddle. Então, porque seu coração estava batendo daquele jeito?
'Não está mais com ódio?' Perguntou Riddle curioso. 'Pena. Você fica interessante quando está com ódio.'
'Como...consegue?' Perguntou Hermione confusa. Ela respirou fundo e descobriu que estava mais com sono do fraca. 'Como consegue...se manter tão... calmo, tão frio?' 'Quero dizer... você sabia que naquela hora eu estava com raiva... e sabia que provavelmente estava no meu limite... e se eu o ultrapassasse... eu poderia matá-lo... Mas você não se intimidou... na verdade, você estava alimentando...propositalmente aquele ódio... por quê?'
'Porque eu quis.' Respondeu normal.
'Eu fiquei...com medo do que poderia fazer.' Disse Hermione olhando para ele. 'Eu sabia o que estava fazendo...mas tinha medo de perder o controle e...'
'Não poder mais se controlar e fazer coisas das quais se arrependeria...'
'Exatamente!' Falou piscando os olhos. 'Mas eu não posso... me arrepender das coisas que faço... E não poderia me arrepender... se eu... matasse você!'
'É pelas suas próprias virtudes que se é mais bem castigado.'
'O quê?' Indagou Hermione surpresa.
'Você acredita na bondade e na perversidade. Assim sendo, você é boa. E essa é sua virtude...sua virtude não a deixa fazer as coisas que realmente precisa fazer, e isso se torna sua própria tortura e castigo. Você queria me matar, não queria?' Ele perguntou com os olhos juntos. Hermione não soube o que dizer, mas, por fim, respondeu.
'Queria...'
'Mas não o fez, nem ao menos tentou...'
"Quer que eu mate você?"
"Quero ver você tentar..."
"Quero ver até onde você é capaz de chegar."
'Falaste aquilo porque sabia que eu... não conseguiria. Você só queria ver aonde eu poderia ir...' Falou Hermione para si mesmo.
'Mas de fato, Mudblood, você é previsível.'
Ela fechou os olhos e dobrou os dedos dos pés pelo frio que sentia. 'O que está fazendo aqui?' Ela perguntou tomando coragem para perguntar o que estava querendo desde o momento em que vira ele ali.
'Um bom monitor-chefe deve sempre zelar pelos alunos de Hogwarts.'
'Sínico.' Ela chutou.
'Não, eu não sou sínico, senhorita Granger. Eu salvei você, deveria me agradecer.' Hermione franziu a testa. Ela se forçou e sentou-se sobre a cama. Só então percebeu que também tinha faixas em volta dos seios por baixo da camisa oxford. Ela cerrou os dentes e o encarou.
'O quê?'
'Eu a salvei. Você estava morrendo...'
"VOCÊ ESTÁ MORRENDO, MENINA!"
'E por que me salvou?' Perguntou Hermione olhando para ele.
'Não sei, mas não queria que morresse.'
Hermione prendeu a respiração incisivamente. Seus pêlos do corpo se arrepiaram e sentiu uma pequena sensação de calor. Alguns segundos depois, engoliu duro. Seu corpo estava tenso e não sabia bem o que fazer para ocultar a insegurança que tomava conta da própria alma.
'Por quê?'
'Porque não gostaria.'
'Impulso?'
'Não. Eu não queria que morresse, então, a salvei, propositalmente. Pessoas normais agradeceriam.' Ele disse entre os dentes.
'Pessoas normais não têm a idéia do que você é capaz.'
Hermione viu um sorriso no rosto dele. 'E você tem?'
'Depois do que fez comigo?' Ela indagou com raiva.
'Você pediu por aquilo, Mudblood.' Ele respondeu duro.
'Não faz sentido.' Ela disse negando com a cabeça. 'Você me detesta pelo que sou e pelo que disse. E me salva da morte?'
'Eu a salvei. De propósito.' Repetiu abrindo um sorriso. Hermione juntou os olhos. 'Sei exatamente o que fiz, Mudblood. Você agora tem uma dívida comigo e terá que pagá-la quando eu precisar. E isso não se pode recusar pois é uma dívida bruxa. E você sabe como são as leis bruxas, não sabe?'
Hermione estancou, arregalando os olhos castanhos. Ele tinha razão. Ela agora tinha uma dívida com ele. "MERDA!" "DESGRAÇADO!" Hermione fechou os olhos com força e escutou uma risada de Riddle.
'Você pensou nisso?' Ela perguntou com dores no peito. 'Você calculou isso? Calculou para que...'
'Aprendesse a não ser patética.' Ele completou fechando a cara. Hermione olhou para ele. 'Morrer daquele jeito... Ninguém pode morrer daquele jeito!'
Hermione se deixou fitar os lençóis brancos cobrindo as pernas. Seu coração batendo forte pela aproximação de Riddle. Lembrou-se então de quando havia abraçado Tom em Glast Heim num ato de desespero. Pôde sentir seus pelos se arrepiarem e seu corpo entrar em torpor mental.
Ela levantou o rosto e percebeu que em uma das camas da enfermaria estava o corpo de Hugo Stradivarius.
'Ele está bem.' Acalmou Tom Riddle. 'Bom, de certa forma melhor que você. Ele só está dormindo.'
'Por que o machucou?' Ela quis saber. 'Ele não tinha nada a ver com isso. E levou um Crucius duas vezes. Além daquele Rictusempra...'
'Ás vezes, terceiros se machucam.'
'Não me venha com essa. Você o machucou deliberadamente.' Ela respondeu de forma seca. 'Poderia muito bem tê-los deixado em paz.'
'Você os levou até lá.' Retrucou ele. Hermione abaixou os olhos. 'Poderia ter ido só'.
'Você teria me matado?' Ela perguntou ainda olhando para baixo. A voz ainda rouca e fraca. 'Se eles não tivessem lá. Se fôssemos só eu e você. Teria me matado?'
Ele pareceu pensar na resposta pois ficou alguns segundos calado. 'Não.' Disse por fim. 'Não gostaria que morresse. Por alguma razão, essa imagem me dá desconforto.' Disse sincero.
'Desconforto? Hm, quem diria hein?' Ela ironizou. Tom Riddle soltou um sorriso torto.
'Como pode ver, não sou tão vil quanto pensa.' Ele retrucou.
'Você engana os seus amiguinhos e até o Diretor Dippet, mas não a mim, Tom. Sua natureza é cruel. Vejo isso nos seus olhos.' Hermione não sabia o motivo pelo qual ser tão honesta com Tom Riddle. Mas havia tempos em até que ela gostava de conversar com ele. Saber do que ele pensa, suas visões de mundo. Era algo estranho pra alguém como ela. Hermione era do tipo menina perfeitinha, a que as pessoas costumavam chamar de politicamente correta. Aproximar-se daquela maneira de Tom Riddle além de estranho, era muito perigoso.
'Então estamos quites, senhorita Granger. Porque olho em seus olhos e vejo alguém que não costuma ser você.'
'É? O que vê em mim?' Perguntou curiosa.
'Uma mentirosa.' Disse divertido.
Hermione quis desviar os olhos, mas não o fez. Quis mostrar determinação. Quis mostrar que ela não estava vulnerável para Voldemort. 'Você me salvou...' Ela começou a dizer olhando no fundo dos olhos grafites de Tom. Ela percebeu que os rostos dos dois estavam tão próximos que a respiração de cada um atingiam-lhes um a outro. 'Mas não pense que por isso você se livrou de mim... Marvolo...'
Ele sorriu torto. 'Eu não quero me livrar de você, Mudblood.'
Seu corpo enrijeceu ao escutar aquilo. O coração batia estrondosamente fora de ritmo e sua respiração pareceu cansar-se de sentir presa. Hermione apenas deixou-se a sentir e escutar os batimentos cardíacos um pouco exagerados dentro do peito.
De uma vez, repentinamente, Hermione sentiu Tom pressionar os lábios por cima dos dela. Ela sentiu seu corpo enrijecer e esquentar-se completamente. Então percebeu o que estava fazendo e empurrou-o de uma vez. Ela respirava de forma frenética.
Riddle olhou pra ela com uma expressão dura. 'Eu odeio você, Mudblood.' Soltou com uma careta de asco.
Hermione não respondeu. Ela sentiu os olhos castanhos arderem e com força. Estava prestes a chorar, sabia disso. Agradeceu mentalmente quando Tom Riddle abandonou a Enfermaria sem lhe dirigir a palavra. Quando a porta se fechou, ela se deixou chorar.
Os olhos castanhos não pareciam enxergar qualquer coisa à sua frente, apenas exalavam lágrimas tão naturalmente quanto ela podia respirar, embora respirava de forma rápida, ininterrupta e quase desesperada.
Ela queria desaparecer. Desaparecer como conseguia aparatar e desaparatar de um lugar para o outro tão facilmente na sua época. Ela não queria vê-lo novamente. Não queria lembrar-se daquilo novamente. Por que fizera aquilo? Como fora capaz de beijar Voldemort?
Hermione sentiu uma dor forte no peito e passou a mão sobre o local dolorido. Bolinhas transparentes brincavam à sua frente de aparecer e desaparecer.
Mas desaparecer dali ela não podia. Estava em Hogwarts. Estava presa aquele castelo. Estava presa aquele maldito garoto chamado Riddle. Estava presa aquela maldita promessa.
Sua garganta trancou e mais algumas lágrimas desceram dos olhos. 'Sabe que é a única que confio para fazer isso, Hermione. Por favor! Promete?' Hermione passou a mão direita sobre os olhos, limpando-os das lágrimas salgadas.
Ela deitou-se no leito da Enfermaria, encarando o teto de Hogwarts. Ah, que saudades tinha de Harry, Ron, Neville, Ginny e Luna. Seu peito enchia de amargura e culpa ao lembrar-se dos amigos.
Hermione virou-se para o lado direito da cama e fechou os olhos pedindo aos céus para que adormecesse. Pelo menos por aquela dia. Só por aquele dia.
Quando sentiu o sono pesar nos olhos, uma voz em sua mente lhe sussurrou 'Boa Noite, srta Granger.' E ela mentalmente respondera, 'Boa Noite, Riddle.'
'Agora, me diga Tom, já faz muito tempo desde que anda se encontrando com a srta Javert?' Perguntou Professor Slughorn curioso.
Tom Riddle levantou os olhos da sobremesa de profiterólise e piscou os olhos negros para o professor de Poções que parecia ansioso para saber a resposta. 'O quê?'
'Fiquei sabendo que está tendo um relacionamento com a sra Javert do quinto ano, é verdade?'
Ele levantou as sobrancelhas negras um pouco inseguro do que responder. A verdade era que ele nem sabia quem era Javert e tampouco ela lhe interessaria para ter um relacionamento. 'Você não contou que seu plano poderia estar errado, Riddle. Brewster não foi à reunião dos monitores!' Ah, então era aquilo que o idiota estava fazendo. 'Não é algo muito sério.' Ele respondeu por fim.
'Ah, sim, compreendo. Eu realmente não pude achar um pouco curioso. Além disso, sei que não posso me meter na sua vida, mas não acredito que Javert seja a melhor escolha para você, embora ela seja de puro-sangue.' Complementou o professor levantando o cálice até a boca e bebendo um pouco de vinho. 'Pelo fato dela não fazer parte do nosso grupo, posso bem dizer que ela não é lá tão importante.'
'Mas isso não quer dizer nada, professor Slughorn.' Integrou Hugo Stradivarius que estava sentado ao lado de Fabian Prewett. 'Hermione Granger, por exemplo, não faz parte do clube, mas é uma excelente aluna.' Riddle instigou os olhos grafites para o garoto.
'O que me lembra algo, sr Stradivarius. Faz algum tempo que venho pensando em chamá-la para o clube. O desempenho dela nas aulas é realmente formidável, como o senhor é amigo da srta Granger, pode chamá-la para nos prestigiar algum dia?' Pediu o professor sorridente.
'Sim, claro que sim.' Hugo respondeu feliz.
'O senhor sabe se ela é de sangue puro, professor?' Perguntou Tom abaixando os olhos novamente para a sobremesa à sua frente. 'Sabe, todos nós aqui do Clube somos puro-sangue e seria desagradável contar com alguém completamente Trouxa.'
Professor Slughorn piscou os olhos um pouco sem jeito. 'Bom, ela veio de Durmstrang. Durmstrang não aceita Trouxas.' Tom piscou os olhos. 'E entendo a sua preocupação, Tom, mas o Clube serve justamente para nos aproximar com os outros. Claro que cada um aqui tem a sua peculiaridade, mas em geral estão aqui pelo seu desempenho escolar e devo dizer que o da srta Granger é bem admirável. E isso não interessa se ela é puro-sangue ou nascida Trouxa.'
Tom cerrou os dentes imperceptivelmente e acenou de leve com a cabeça como se concordasse com o pensamento do professor.
'Além disso, você não é puro, Riddle.' Quem disse isso foi o monitor da Corvinal, Lezard Valeth. Tom estreitou os olhos para o garoto. 'Aliás, você é o único mestiço aqui. Acho que seria legal a participação da srta Granger, podemos conhecer mais sobre Durmstrang!'
'Sim, será realmente formidável.' Disse o professor sorridente. Tom Riddle olhou depressa para os alunos do clube.
O Clube do Slugue era um clube fundado pelo professor Slughorn. De acordo com ele, os melhores estudantes de Hogwarts participavam do clube e promoviam a interação entre as casa. Todos os participantes do Clube do Slugue eram de famílias importantes no mundo, sendo a única exceção o próprio Riddle.
O Clube de 1944 era formado por 11 alunos. três grifinórios, seis sonserinos, um corvinal e um lufense. Os grifinórios eram: Hugo Stradivarius, Minerva McGonagal e Fabian Prewett. Os Sonserinos eram: Tom Riddle, Lethar Malfoy, Eileen Prince, Anthony Rosier, Lysander Black e Mark Avery. O único Corvinal era o monitor Lezard Valeth e a única integrante da Lufa-Lufa era Hepzibah Smith. Todos eram puros. Menos Riddle.
'Professor, gostaria de saber como será a festa de Halloween...' Falou Lysander Black, do sétimo ano da Sonserina. 'Será a nossa última em Hogwarts...'
'Sim, srta Black, bem lembrado. Falei com professor Dumbledore e ele me pareceu satisfeito com o baile que eu propus. Estamos há dez dias do Dia das Bruxas e tenho certeza que ocorrerá tudo bem.' Sorriu o professor contente. Lyzander Black também aparentou felicidade.
'Você está bem, Riddle?' Perguntou baixinho Malfoy ao seu lado. Tom preferiu não responder. Ele logo percebeu que a sobremesa de profiterólise estava derretendo. A cobertura de mel o lembrava dos olhos da Mudblood e ele trancou os dentes ao imaginar que a partir da próxima semana teria que encarar os olhos da garota ali também.
Quando o clube acabou, lá para as seis horas da noite, Riddle saiu da sala do Professor Slughorn acompanhado de Malfoy que falava algo em seu encalce que Tom não fazia questão de escutar.
'Oiy, Riddle, estou falando com você!' Irritou-se Malfoy com o silêncio do amigo. 'Qual o seu problema?'
'Nenhum.' Respondeu seco de uma vez.
'Como nenhum? Você não parece estar muito bem.' Comentou o loiro observando o semblante de Riddle. 'Está mais misterioso do que o costume'.
'É a Mudblood.' Ele respondeu por fim. Seu tom de voz estava baixo, firme e incisivo. Ele controlava a voz para que somente Malfoy fosse capaz de ouvi-la.
'O que tem a Sangue-Ruim?'
'Por algum motivo desconhecido não consigo parar de pensar nela.' Ele disse piscando os olhos grafites.
'Seja cuidados com seus pensamentos, Riddle, ele pode vir a traí-los.'
'Algo me incomoda sobre ela.' Ele continuou ignorando o comentário de Malfoy.
'De verdade, acho que é você quem a incomoda. Certo que ela é misteriosa, mas você está sempre atrás dela.'
'É exatamente isso, Malfoy. Ela está na minha frente.'
'Na sua frente?' Indagou o loiro franzindo as sobrancelhas um pouco confuso.
'Estamos numa corrida. Já deveria ter percebido isso. Eu a espiono. Ela me espiona. Ela guarda um segredo com ela. Algo que está ligado a mim. Preciso descobrir esse segredo, só assim, saberei o que ela quer. Ela precisa fazer algo contra mim e por isso me observa.'
'Tome cuidado, Tom, ou não vai ser o melhor bruxo do mundo.' Ele instigou com um sorriso amarelo.
'Não poderei ser o maior bruxo do mundo se não tiver alguns obstáculos.'
'Você vai matá-la?'
'Depende da forma como transcorra a situação. Não posso deixar que ela estrague minha ambição.'
'Você já pensou na possibilidade de levá-la para o Lado Negro?' Indagou Malfoy. Tom olhou para o companheiro intrigado. 'Seria uma boa, não é? Ela é poderosa, poderia ser uma grande serva. Além de que com ela ao seu lado, fica mais fácil observá-la...
'Você realmente não tem noção das coisas, não é, Malfoy?' Rebateu Tom. Lethar levantou as sobrancelhas. 'Levá-la ao Lado Negro estaria causando minha própria morte. Ela verá como uma chance de descobrir o que procura. Estaria em desvantagem.'
'Não, não estaria. Ela que estaria em desvantagem. Você tem a nós. Se ela tramasse algo contra você, nós a deteríamos. E assim, você teria a possibilidade de espioná-la e descobrir o segredo dela!'
'Não. Não posso levá-la ao Lado Negro. É perigoso demais. Mesmo que ela fosse poderosa, estaria correndo riscos muito altos.'
'Acha que ela o matará?' Perguntou Malfoy intrigado.
'Ela não pode me matar, Malfoy. Salvei a vida dela naquele cemitério.'
'Se ela não pode matá-lo, por que se preocupa tanto?'
'Porque não a impede de me matar indiretamente.' Respondeu calmo. 'E mesmo que visse uma hipótese dela vir para o Lado Negro, ela nunca aceitaria.'
'Force-a.'
'Não se pode forçar uma garota a fazer parte de algo da qual ela não aceita nem com suas vísceras.'Respondeu honestamente. 'Mudblood tem princípios, Malfoy. Ela não passaria por cima deles. Não porque quer, mas porque não pode. É questão do ser real, não pode ir contra.'
'Pare de falar asneiras, Riddle, se lhe lançar um Imperius, fará o que quiser.' Comentou Malfoy com desleixo.
'Não.' Respondeu negando a cabeça. 'Pessoas com alta capacidade mental é capaz de se libertar da maldição Imperius. Não sei ao certo a capacidade mental de Hermione Granger, mas tudo indica que é elevado, o que seria fácil se livrar do feitiço.'
'Rosier é especialista em Imperius, acha que nem ele consegue?'
'Mesmo que consiga, não se pode ter a pessoa sobre a maldição para sempre.' Respondeu normal. 'Não... ela vindo para o Lado Negro seria arriscado. A única alternativa seria a própria aceitação da Mudblood, o que está completamente descartada.'
'E o que vai fazer?'
'Terei que ter cautela. Agora cada um sabe que está sendo alvo do outro. Além disso, qualquer pessoa do nosso ciclo social poderá ser afetado, por isso, é bom ser cuidadoso.'
'Sinto que não demorará muito para que ela venha até você tentando lhe surrar a cara pelo que fez aos seus amigos.' Malfoy disse sorrindo parecendo divertido.
'Ah... Será bem interessante o que ela poderá fazer quando ver que seus amigos não se lembram do ocorrido em Glast Heim.' Tom abriu um sorriso realmente divertido.
'Não entendi porque não distorceu a memória da Sangue-Ruim...'
'Porque não teria graça, Malfoy.'
'Inescrupulosidade é o seu mal, Tom.'
'Eu sei. Esse foi sempre o meu problema.'
Quando Hermione foi liberada da enfermaria dois dias depois, passou o tempo inteiro no dormitório feminino da Grifinória. Não queria correr o risco de ter que encontrar Tom Riddle por aí, embora ela soubesse que não poderia evitá-lo para sempre. Precisava cumprir a promessa. Maldita Promessa.
Saiu do banho vestida de pijama, mas ainda de cabelos molhados. Usava as roupas que gentilmente Dumbledore havia lhe entregado no dia em que ali chegara. Respirando fundo, deitou-se em sua cama fechando os olhos.
Ela precisava fazer alguma coisa. Sabia disso. Havia prometido a Harry e Ron que iria destruir Tom Riddle. Não importava o que estava por acontecer. Ele a salvou, mas ela não podia deixar que aquilo virasse um jogo de favores. Ela teria que fazer algo para destruí-lo, para impedi-lo de ser Voldemort.
Ela cometeu um erro gritante em ter deixado ele a beijá-la. Tinha que consertar o que havia feito de errado! O maldito beijo não era nada demais. Não poderia ser nada demais. Não fazia diferença se ela beijara Riddle ou Krum, fora apenas um mero beijo. Se ela beijasse Malfoy também não seria nada demais.
Como então faria para destruí-lo? Se ela o matasse deliberadamente, ela morreria também. E ela não podia morrer! Provocar a morte de Riddle de maneira indireta era uma alternativa. Outra alternativa era ficar quites com ele. Em determinado momento, ela o salvaria da morte e então estando quites, ela o mataria. Mas como iria salvar a vida dele? Por que salvaria a vida dele para depois matá-lo?
'É como se dissesse que Presto iria ser o melhor apanhador da Inglaterra.' 'Hermione reconheceu a voz de Rose, e ainda de olhos fechados, trancou os dentes.
'Isso não é muito justo.' Disse outra voz. Era Leslie. As duas entraram no dormitório e piscaram os olhos ao ver Hermione ali.
'Hermione? O que está fazendo aqui? Achei que você só ia sair da Enfermaria depois de muitos dias...'
'Acabou que não.' Respondeu um pouco sem paciência.
'Você tem certeza que está bem ficando aqui?' Perguntou Leslie mais uma vez. 'Sabe, não é muito aconselhável ficar sozinha depois que se foi atacada por um Kappa.'
Hermione abriu os olhos e encarou as meninas à sua frente. 'O quê?'
'Você não sabia que eles são venenosos?' Indagou a loira esbugalhando os olhos verdes. Hermione franziu as sobrancelhas confusa.
'Do que estão falando? Eu não fui atacada por um Kappa!'
'Amnésia é um dos sintomas.' Comentou a menina para Rose que ainda estava calada. 'Volte a enfermaria. O Curandeiro vai ajudá-la...'
'Não! São vocês que não estão entendendo! Eu não fui atacada por um Kappa!' Rebateu mais uma vez, agora levantando-se da cama. 'E amnésia não é um dos sintomas do veneno do Kappa...'
'Você foi!' Rose finalmente disse alguma coisa. 'Sabe-se lá o que você foi fazer no lago à noite, mas foi atacada por um Kappa. Ele a atacou pelas pernas e arranhou o seu peito.'
'Riddle foi quem a ajudou. Se não fosse por ele, estaria em situação pior.'
Hermione negou com a cabeça. Não! Aquilo não era verdade. O que acontecera em Glast Heim era fruto da sua cabeça? Uma produto de sua histeria? 'NÃO! NÃO FUI! Rose! Leslie! Vocês não se lembram? Estávamos em Glast Heim!'
'Glast Heim? O que estariamos fazendo em Glast Heim, Hermione? Aquela cidade é amaldiçoada, nunca que voltaríamos para lá!' Rebateu Leslie Burke levantando os ombros.
'NÓS FOMOS! Riddle a pegou e...' Hermione trancou os dentes e os punhos. O coração bateu em sobressalto e ela não demorou a entender a situação. Riddle. Aquele nome era a explicação do que estava acontecendo.
'Hm... como eu estava envenenada, pode me dizer o que aconteceu com Brewster van der Alden?' Ela perguntou olhando para o chão.
'Nada, ué.' Respondeu Rose sentando-se em sua cama. 'Por quê?'
'Como nada? Ele não fora expulso?' Ela indagou ás duas. Rose levantou as sobrancelhas negras sem entender. Hermione piscou os olhos mais uma vez.
'Por que ele seria expulso, Hermione?' Perguntou Leslie levantando uma das sobrancelhas.
Hermione calou-se. Riddle só quis usar Van der Alden como álibi para os monitores. Todo o acontecido em Glast Heim se passara de madrugada. Se Tom Riddle usara Chave de Portal para trazer de volta a todos que estavam no Cemitério, então quer dizer que ele fez isso antes do amanhecer. Assim ninguém no castelo se deu falta de ninguém. E aproveitando enquanto Hermione estava desacordada, alterou a memória de todos que estava em Glast Heim para cobrir o que tinha feito com Leslie e salvar Brewster da suposta expulsão. Então ninguém se lembraria do ocorrido. Nem Rose, nem Leslie, nem Hugo, nem Fox, nem Presto, talvez nem mesmo Malfoy! Só ela e Riddle.
Mas por quê? Por que ele não aproveitou a oportunidade para alterar a memória dela também? Por que ele a deixou para que soubesse da verdade?
'Hermione?' Chamou Rose um pouco insegura. 'Está tudo bem?'
Hermione a olhou e engoliu em seco. Rose não se lembraria da discussão que tivera com ela, não se lembraria dos xingamentos soltos pelas duas e não se lembraria raiva sentida tanto por Hermione quanto por ela naquele cemitério. Hermione, nesse ponto, não sabia se era algo bom ou ruim. Hermione estava sozinha. Sozinha subjugada nos sentimentos mais latentes que já sentira.
Era isso então que Riddle fazia. Manipulava os sentimentos e a memória dos outros para conseguir o que queria. Se era assim que ele fazia as coisas... Ela teria que fazer algo a respeito. De uma coisa ela sabia, ela não iria deixar que ele ganhasse aquela corrida.
Continua no próximo capítulo.
N/A: Atualizada depois de um período em que o tempo foi distorcido a quase nada na minha vida. Isso não é uma desculpa, eu sei. E nem quero dar uma realmente. Então espero que esteja tudo bem. Respondendo alguns comentários (recebi muitos falando sobre isso)...
A) Leslie Burke não tem parentesco nenhum com Sibila Trelawney. Ela é importante na fic e tem algo que sim a liga ao tempo de Harry, mas não é isso.
B) Rose Lestrange não é Bellatrix. Rodolphus Lestrange, irmão de Rose que está no 4º Ano, é na verdade o pai de Rodolphus e Rabastan Lestrange. Rodolphus Lestrange Filho é o marido de Bellatrix que ainda não nascera nessa época.
C) Minerva McGongal estava em Hogwarts no tempo de Tom Riddle e era da Grifinória. Só não se sabe se cursava o último ano. Na fic, ela está no sexto ano. (Até porque se tivesse no último, Hermione teria problemas).
D) Sim, Eileen Prince, a monitora-chefe e da Sonserina, é a mãe do Snape.
Bom, por enquanto é isso. Espero que tenha ficado melhor para o entendimento da fic. Até o próximo capítulo.
