Título: Crawling
Ficwriter: Felton Blackthorn
Classificação: N-17
Casal: Harry e Draco
Disclaimer: Essa história é baseada nos personagens e situações criadas e pertencidas a J.K. Rowling, várias editoras e Warner Bros. Não há nenhum lucro, nem violação de direitos autorais ou marca registrada.
Resumo: Nem todas as prisões são feitas de grades, todos sabem disso, ou pelo menos deveriam. Porém, o que talvez nem todos saibam, é que o amor é, de longe, a mais cruel de todas elas...

Crawling

Cap. 10
"Sabe qual é a maior dor que pode existir?"

Hello darkness, my old friend,
I've come to talk with you again,
Because a vision softly creeping,
Left its seeds while I was sleeping,
And the vision that was planted in my brain still remains
Within the sound of silence

Olá escuridão, minha velha amiga
Eu vim para conversar contigo novamente
Por causa de uma visão que se aproxima suavemente
Deixou suas sementes enquanto eu estava dormindo
E a visão que foi plantada em meu cérebro ainda permanece
Entre o som do silêncio

Draco estava sentado, os olhos grises ora observando as cinzas da lareira, ora os esguios e pálidos dedos. Não podia ver o Laço Negro, mas sabia que ainda estava ali. Tinha medo... a morte de Thomas rondando mais terrível que uma simples ameaça. O desaparecimento de Finnigan soando como um mau presságio. O aviso de que algo ruim aconteceria.

Impaciente levantou-se e começou a andar de um lado para o outro, sentindo que não seria bom deixar a mente ser tomada pelas recentes tragédias.

– Como se eu precisasse de mais problemas.

Voltou a sentar-se no confortável sofá.

Ficar apenas ali, esperando as coisas acontecerem lhe dava a sensação agonizante de incapacidade. Odiava apenas esperar, como se ambas as mãos estivesse amarradas. Era como se fosse um prisioneiro outra vez, não nas masmorras do Dark Lord, ainda assim impossibilitado de tomar as próprias decisões. Impedido de ser livre. Mas como seria diferente?

Tinha toda a sua vida pra provar: sempre algo ruim acontecia para Draco Malfoy. Porque as coisas mudariam justo agora?

Talvez porque agora o Garoto Que Venceu entrara no jogo? Se Harry dizia que tudo ficaria bem, então devia acreditar? A palavra do moreno não seria suficiente?

Mas se ficassem apenas esperando, algo bom aconteceria? Draco não queria morrer, não ainda! Era jovem, passara por tantas coisas ruins. Justo agora que tinha aquele emprego interessante e pessoas que acreditavam nele.

Podia cuidar de sua mãe e refazer a vida em paz...

Tinha que encontrar Seamus a tempo, descobrir uma contra maldição que o libertasse! Precisavam continuar as investigações!

De jeito nenhum ia passar o resto da vida como submisso de Harry Potter, aceitando ordens ofensivas, com sua vontade sendo rechaçada, deixada de lado. Ignorada por completo.

Diria tudo aquilo pra Harry Potter!

Exigiria providências e que que voltassem a investigar tudo, nem que isso significasse correr riscos ao voltar ao Libertinus, exibindo a coleira em público, pra quem no Pub quisesse ver.

Os pensamentos de Malfoy não eram nada agradáveis. Mas ele tinha um motivo muito justificável para agir assim.

Não estava satisfeito com a situação, e a tensão dos últimos dias nem de longe aliviava seu estado de espírito. Fazia dias que não via a mãe, precisava saber se estava tudo bem com ela.

– Merda, Potter.

Como se atendesse o chamado irritado Harry aparatou na sala. Malfoy inflamou-se, pronto pra despejar umas boas na cara do Inominável (afinal, a morte de um ex-Gryffindor não parecia motivo para tanta mobilização... Potter devia se preocupar mais com os vivos que ainda tinham uma coleira no pescoço) quando notou que algo estava errado.

Harry Potter parecia transtornado.

– Aconteceu alguma coisa? – Draco se viu perguntando.

O moreno não respondeu. Levou uma mão ao rosto, tentando se controlar.

Intrigado, o Auror reconheceu o cheiro de álcool no ar. Que maravilha, pra melhorar tudo o Cicatriz estivera bebendo! Grande. Como ele ia desvendar um caso assim, embebedando-se? Ele não podia ser fraco e buscar refúgio assim!

– Potter, o que pensa que está fazendo? – a voz denunciava toda a irritação que Draco sentia no momento, e que vinha se acumulando em grandes e perigosas doses.

A mão de Harry tremeu:

– Fique quieto, Malfoy.

Draco não teve escolha a não ser cerrar os lábios e engolir a enxurrada de palavras que tinha pronta para jogar em Harry.

– Sabe qual é a maior dor que pode existir? – a voz do moreno soou como um sussurro. Mas foi alto o bastante para o Auror escutar.

Confuso, Draco não soube o que fazer. Não podia responder, claro, no entanto não parecia uma pergunta que realmente buscasse uma resposta. Soava mais como Potter tentando se convencer de algo.

– Causar a morte da pessoa que você ama...? – o próprio moreno deu a resposta.

A frase soou estranha na sala quieta.

Harry levantou a cabeça e meneou a cabeça, vigiado com assumbro por Draco.

Seamus estava errado. Completamente errado. Ser responsável pela morte de uma pessoa que amava devia doer bastante, a ponto de fazer você desejar a própria morte.

Mas havia algo que machucava ainda mais. Algo que Seamus não podia saber, já que tinha Dean ao seu lado junto com o imensurável amor incondicional.

Finnigan nunca saberia a dor de amar e não ser amado. Desejar e não poder ter. Essa sim era a maior dor do mundo: seguir cada passo daquela pessoa especial, vigiá-la através dos anos, abdicar de tudo por amor. Decidir cada passo a ser dado visando o bem dessa mesma pessoa.

E nunca receber um único olhar de volta.

Era essa dor que fazia o coração de Harry desmanchar-se, esmagado e destruído. Estava bem gravado em sua alma, tudo o que Draco Malfoy respresentara em sua vida.

Desde o terceiro ano não dera mais um passo em que ele não fosse o único objetivo em sua mente. Não vencera a guerra por outro motivo, a não ser protegê-lo. Se tornara um Inominável para libertá-lo da maldição de Voldemort. Usara o Bem de Direito para tê-lo ao seu lado, escravo e submisso, mas próximo. Ao alcance das suas mãos.

– Seamus estava errado. – Harry afirmou e descobriu o rosto mirando Draco com intensidade tal que assustou o loiro.

O assombro apenas aumentou quando Malfoy deu o primeiro passo, sem que fosse sua vontade, e avançou até estar perto de Harry. Perto o bastante para que o moreno o abraçasse e puxasse para mais perto.

Draco compreendeu que estava sendo manipulado. Afinal, o Inominável não precisava pronunciar as ordens. Bastava que seu mestre pensasse e ele obedeceria.

Grande Salazar!

Sem que pudesse evitar, Draco retribuiu o abraço. Queria gritar e mandar o moreno se afastar. Era impossível. O Único Dever o fazia submisso a qualquer desejo de seu Dominador. Mesmo que fosse contra sua vontade.

– Eu sempre amei você, Draco. – a voz de Harry soou rouca, urgente – Me dê essa chance...

O Auror queria gritar em alto e bom som que não, que ele não queria dar chance nenhuma, só queria ser deixado em paz e poder voltar pra casa, pra segurança de seu lar.

A voz continuou presa na garganta, enquanto mãos que não pareciam as suas começaram a desabotoar a capa e a camisa, deixando-as cair no chão. Draco agia contra sua vontade controlado por Potter.

Os olhos cinzentos se arregalaram. Não queria acreditar que Harry estava mesmo manipulando a situação daquela maneira. Pare, por favor! Desejava gritar, implorar para que não fossem em frente.

Engoliu em seco quando ele próprio começou a desabotoar a capa e a blusa de Potter. Sentiu-se como um fantoche, onde sua vontade não existia. Não existia nada, aliás, senão a vontade de seu mestre.

Nem se deu conta, mas quando percebeu estavam deitados no tapete macio, com Harry de joelhos por cima de si, abrindo os botões de sua calça com certa experiência, rapidamente a peça de roupa deixou o corpo magro. A boxer preta foi tirada com ainda mais facilidade.

E pela primeira vez os lábios de ambos se tocaram. O beijo foi violento, invasivo e correspondido com intensidade. A intensidade que Harry exigia que Draco tivesse.

As mãos de Malfoy continuaram se movendo como se tivessem vida própria, primeiro acariciando a pele febril do ex-Gryffindor, então seguindo o caminho até o cós de sua calça, tendo com ele a mesma atitude de retirar aquela peça e a seguinte. Então ambos estavam nus.

A troca de carícias tornou-se mais urgente, porque urgente era o desejo de Harry. O coração de Draco disparou quando suas pernas abriram-se de modo a permitir que o Inominável acomodasse melhor sobre si, com facilidade e acerto tal, que ele parecia ter nascido para assumir aquela posição.

"Potter, pare!"

Draco queria gritar, afastá-lo de si. Era impossível. O vínculo injusto não permitiria que fugisse à vontade de seu Mestre. A verdade do Único Dever era absoluta: a única serventia de um Submisso era satisfazer seu mestre. Não passavam de um mero objeto de desejo.

Mal tomou consciência de suas pernas abrindo-se mais até que fosse suficientemente confortável para Harry. Quando sentiu a penetração começando sem preparação alguma, sem cuidado algum, Draco apertou os olhos cinzentos expulsando as lágrimas e fazendo-as rolar pelo rosto lívido.

Então os gemidos vieram fortes e rítmicos, acompanhando as estocadas cada vez mais rápidas; junto com a sensação de ser um lixo. Draco nunca se sentira tão mal assim.

Mamãe...

O loiro sentiu-se abandonado e traído. Traído?

Uma sensação estranha fez sua mão direita formigar. Incrivelmente conseguiu movê-la e erguê-la um pouco, afastando-a do corpo suado de Harry. Novamente os olhos cinzentos se arregalaram: ele conseguiu ver, enxergou perfeitamente a fina linha preta que envolvia seu dedo mínimo e o prendia com um laço.

A maldição de Voldemort.

Sua pele se aqueceu enquanto a ponta do laço flutuava, como se mãos invisíveis a segurassem, e puxassem de modo que o laço negro lentamente se desfez por completo. Então brilhou fracamente em púrpura. Foi como se uma represa se rompesse inundando a mente de Draco com as lembranças aprisionadas.

E o ex-Slytherin recordou-se de tudo. Absolutamente tudo.

"Vai perder o que é mais importante pra você, jovem Malfoy."

Essas foram as palavras de Lord Voldemort, antes de jogá-lo na prisão. A ameaça não se referia a algo físico ou a sua família, como Draco julgara a princípio. Mas a algo muito mais profundo e urgente.

Aos sentimentos que Draco nutria por Harry Potter. Por quem era apaixonado desde, provavelmente, o quarto ano em Hogwarts.

A lembrança trouxe novas lágrimas aos olhos do Auror.

Sim, estava tudo lá em sua mente. A paixão que tinha por Potter fora o apoio que o fizera sobreviver aquele sofrimento nas masmorras do Dark Lord. Pra cada momento de medo e angústia havia sempre uma imagem diferente de Harry, ainda que achasse não receber outra coisa além de ódio e indiferença do Garoto Dourado.

Mas nada parecia forte o bastante para apagar aquele sentimento.

Sentimento que o motivara a fugir levando a Weasley. Lembrava-se perfeitamente agora: se salvasse a ruiva, Harry o olharia com menos rancor? Harry o aceitaria e deixaria de lhe olhar com tanta desconfiança?

Apenas para ter a aceitação do Gryffindor arriscara-se tanto levando Ginny Weasley viva de volta para o lado da Ordem.

Mas um dia, simplesmente, aquele sentimento desaparecera e ele não se lembrava mais. Compreendeu agora: a maldição de Lord Voldemort fizera com que se esquecesse de tudo.

"... o que é mais importante para você..."

Seu pai perdera-se da família e nunca mais voltara. Narcissa estava viva, mas não vivia realmente. Blase perdera a sanidade e Fenrir a coragem. Todos, de uma forma ou de outra, tinham perdido algo que prezavam muito.

No caso de Draco Malfoy era o que sentia por Harry Potter. O que ele sentia estava acima de sua própria vida ou de sua família. O Garoto Que Venceu estava muito a frente de tudo isso.

E tal motivo fizera a maldição do Laço Negro, evocada por Voldemort, roubar as lembranças que certamente prezava tanto.

Em outros tempos, tempos que pareciam de uma vida totalmente diferente, Draco teria dado tudo para estar assim com Harry, de forma tão íntima. Não do jeito errado como tudo acontecera.

Nos sonhos adolescentes tudo era diferente.

Um gemido mais alto despertou a atenção de Malfoy. Ele voltou do mergulho que dera em suas memórias no exato momento em que sentia seu corpo ser preenchido com o gozo do moreno.

O prazer de Harry chegava ao ápice, e tudo o que o Auror desejava era morrer. Com o resto do movimento que a contra-maldição permitia, Draco ergueu a mão e tocou o rosto de Potter. Com sua vontade própria, sem ser uma manipulação do Único Dever.

O gesto simples e puro que desejava desde muito tempo atrás.

"A maldição me roubou isso, Harry."

Draco piscou.

"Roubou a coisa mais importante pra mim."

Piscou mais uma vez, lutando com uma força estranha, poderosa.

"O amor que eu sinto por você."

A mão deslizou suavemente para o chão e os olhos se fecharam com igual suavidade. Draco sentiu que não podia lutar contra aquilo, era melhor se deixar levar mais uma vez.

Então se entregou ao sono e permitiu que as trevas o levassem para um lugar onde, ele implorou, estivesse finalmente protegido do mundo tão cruel.

HPDM

– Buba bem faz o seu dever. Bem faz sim senhor. Buba é um bom elfo doméstico.

A pequena criatura cantarolava pelo quarto, feliz em ser servil e dedicado.

– Buba cuida direitinho e...

Calou-se com os olhos arregalados, do tamanho de pires:

– Senhora Malfoy? – a voz saiu esganiçada – Senhora Malfoy?

Buba virou-se e saiu gritando por socorro. Nunca tinha visto aquilo acontecer, então não sabia que reação ter.

Deitada na cama, Narcissa Malfoy continuava de olhos fechados, imóvel; com grossas lágrimas escapando dos olhos cerrados. Parecia inconsciente, mas ao contrário do que todos pensavam, ela estava bem lúcida, ouvia todos e conseguia pensar muitas coisas. Não conseguia manipular sua magia, ou seu corpo, presa pela maldição do Laço Negro que Voldemort lhe lançara.

Ela tinha uma intuição poderosa. Sempre tivera.

Graças a esse sexto sentido sabia que estava presa a cama, que nunca mais levantaria, pois a maldição das trevas era praticamente inquebrável. Apenas um poder igual poderia desfazer o laço.

E era graças a isso que ela podia sentir. Algo acontecera a seu filho. Algo terrível acontecera a seu amado garoto. Apenas isso podia explicar a dor em seu peito e o coração que parecia despedaçar-se.

Alguma coisa acontecera a Draco Malfoy.

Uma mãe sempre sabe.

HPDM

Harry Potter abriu os olhos. Soube no mesmo instante que havia adormecido no tapete da sala. Fez uma nota mental para nunca mais repetir aquilo, pois seu corpo doía horrivelmente.

Foi apenas ao sentar-se que as lembranças da noite anterior voltaram por completo. Todas elas.

Extremamente pálido, e sem poder acreditar em si mesmo, no que fizera; olhou para o lado, para onde Malfoy deveria estar. A culpa foi varrida de sua mente e uma profunda preocupação dominou qualquer pensamento lógico.

Os olhos esmeralda se arregalaram e a boca ficou seca, tomada por um gosto amargo, diante da visão mais assustadora que tivera nos últimos tempos: Draco Malfoy estava deitado sobre o tapete, os olhos fechados de leve davam a impressão de que ele dormia. Ambas as mãos descansavam sobre o tórax magro, mas, uma delas, estava tomada por uma mancha rósea. A marca da Morte Misteriosa.

Harry entrou em choque. Nunca antes soubera de um caso em que ela surgira tão rápido! Como, em nome de tudo que era sagrado, aquilo podia ter acontecido?

"Sabe qual é a maior dor que pode existir?"

"Causar a morte da pessoa que você ama."

Continua...

Harry & Draco

A música do começo é um trecho de "Sounds of Silence". Eu acho uma música muito forte.

Ah, a cena do lemon ficou bem subjetiva. Não gosto de judiar do Draco, e eu não queria algo pesado demais. Ao mesmo tempo que foi um estupro, não foi um estupro no "sentido total exato da palavra", já que Draco não lutou, pois estava sendo controlado pela vontade de Harry. Faz sentido? Espero que sim.

Esse era pra ser o capítulo auge da fanfic. Mas também era um risco e tanto jogar o segredo da maldição do Laço Negro e revelar o motivo de Draco não amar o Harry. Quando na verdade ele sempre amou...

Espero que ter dado um tiro no meu próprio pé... rsrsrsrs.

Crawling não foi escrita com a intenção de ser um conto de fadas no melhor estilo "e viveram felizes para sempre". Pelo contrário: tentei várias formas de ter atrapalhado a vida desses dois, porque; no fundo, ambos são vítimas de escolhas erradas e grandes desencontros. Poderia algo dar certo nessas condições? Acho que não. Ou talvez sim, já que dizem que o amor é uma força poderosa. Vai saber...

Aproveitando o ensejo... hoje é o aniversário de uma pessoa muito especial... e eu gostaria de dedicar essa atualização pra ela: Samantha T. Blackthorn, rsrsrs, minha esposa. Sem essa pessoa especial e querida, essa história nunca teria sido concebida. E, provavelmente, teria demorado muito mais para ser finalziada!

Sam, parabens. Desejo tudo de bom pra você. E que continue sempre iluminada!