O Espelho de Mandos
Capítulo 10: Imlach e Amlach
A primavera pode ser a estação mais hostil do ano, talvez mais até que o inverno. Pois é nessa época que os predadores saem de suas tocas, famintos, atrás de suas presas. Lobos, orcs, homens. Pois até mesmo os homens atacam outros homens quando estão em estado de necessidade. Ou por pura maldade. Viajar é sempre uma tarefa perigosa, mas ainda mais quando salteadores voltam às estradas precisando renovar seus estoques esgotados pelo inverno.
Eu não pensava nisso naquela manhã luminosa de primavera, no dia seguinte ao qual deixáramos a cabana que nos protegera da neve nos campos do Thargelion. Eu ainda estava deprimido por Lanval, que eu expulsara de nossa presença num incrível acesso de imbecilidade. Durante dias eu perguntava a Eru onde ele estava, se havia resistido às tempestades brancas mortais de Manwë, se havia voltado a Himring. E agora eu discutia com minha mãe sobre Ugür.
- Não podemos voltar a Ugür, mamãe, Hardur é meu inimigo e agora ele manda lá – eu estava montado em Aracar e minha mãe guiava Éowen e a carroça com todos os nossos mantimentos, ou o que havia sobrado deles, pois gastáramos grande parte da comida em nossa estadia na casa de Mordrel e Aesthel.
- Você quer voltar para Dolmed então, onde o príncipe também é seu inimigo? Temos que ir para algum lugar, Adaman, e você precisa aprender a controlar esse seu gênio. Se continuar assim, o mundo inteiro acabará sendo seu inimigo, e você terminará sozinho, pois eu não estarei pra sempre ao seu lado pra te acompanhar.
- Você não precisa me acompanhar – disse eu, detestando aquele sermão. – Eu te deixo em Ugür e procuro outro lugar longe de Hardur ou de Haldar – eu não fazia idéia de que lugar poderia ser, pois Himring não estava mais em meus planos. Mesmo que eu quisesse ir até lá para me desculpar com Lanval, eu jamais descobriria sozinho o caminho. Sequer tinha certeza se estávamos no caminho certo para Ugür...
Foi quando a flecha veio. Ela veio das árvores à nossa frente, ao lado da estrada, e fincou-se no chão, fazendo-nos frear, o que foi um engano. Deveríamos ter corrido o máximo que podíamos, mesmo que deixássemos a carroça para trás, mas não percebemos que poderiam ser salteadores, barrando o caminho para nos assaltar. Três homens saltaram então do mato, e só pela suas armas notamos o que estava prestes a acontecer. Eles estavam uns vinte metros à nossa frente, e eu pensei logo em voltar pela estrada e deixá-los ali, torcendo para que não nos acertassem com um projétil. Mas seria impossível manobrar a charrete naquele espaço estreito, portanto a idéia foi rapidamente descartada.
- Deixem todos os seus pertences – disse um deles -, e ninguém sairá ferido.
- Deixem-nos em paz – disse eu, e saquei minha espada, erguendo-a no ar, tentando fazê-los temerem-na. Era uma bela espada, com um gume afiadíssimo, mas ela não era tão grande e ameaçadora quanto deveria ser. Ouvi passos de cavalo atrás de nós, e do mato saíram mais dois homens, também armados, puxando três montarias pelo cabresto, e agora a emboscada parecia estar armada por completo.
- Mas que bela espada você tem – respondeu o homem que liderava os três da frente, que andavam em nossa direção, cautelosamente. – Jogue-a para cá. Antes que meus homens atirem.
Os dois que acompanhavam o líder tinham arcos, estavam armados e apontados um para mim e outro para minha mãe. Hesitei e xinguei Eru por me dar uma sorte tão funesta. Primeiro coloca-me nas mãos dos meus piores inimigos, depois faz-me perder meu melhor amigo, e por último assalta-me na estrada com arqueiros. Contrariado, embainhei a espada e joguei-a para eles, que a pegaram no ar, tiraram da bainha e admiraram sua lâmina nova e lustrosa.
- Agora, que belo cavalo você tem – disse o líder, embainhando novamente a espada e guardando-a para si. – Desça e vá para o lado de sua mãe.
- Vocês vão pagar por isso – praguejou ela -, Manwë vai castigá-los com um vento de peste sobre vocês e suas famílias!
- Cale a boca, mulher – disse um dos arqueiros -, e agradeça por você ser velha demais para nós, senão nós te levávamos junto da espada e do cavalo.
Desmontei, e um dos homens de trás se adiantou para puxar Aracar, que o acompanhou hesitante.
- Eu mandaria meus homens revistarem a carroça – continuou o líder -, mas acho que esse seu anel já é um bom preço pelo seu resgate, se for ouro legítimo.
- O anel, não – disse eu, sacando minha faca, que era a única arma que me sobrara. Eles podiam levar Aracar, que fora de meu pai, minha espada, que fora de Haldad, mas o anel de Haleth, nunca!
- Muito bem, a escolha foi sua – respondeu o sujeito. – Charlie, atire.
A flecha acertou-me o ombro do braço que segurava a adaga, e o impacto foi tão forte que me derrubou no chão. Minha mãe gritou e saltou da carroça, indo em minha direção, mas um dos arqueiros pulou em sua frente e socou-a no meio da cara, fazendo-a recuar e cair novamente perto da carroça. A dor chegava-me aos poucos, querendo fazer-me gritar, mas de minha garganta não saía som algum. Sentindo a cabeça girar, levantei-me antes que o líder me alcançasse com sua espada, troquei a faca de mão e a utilizei para aparar o golpe, que veio em cheio, jogando-me no chão de novo. Outro homem se adiantou até mim e me segurou pelo ombro no qual estava cravada a flecha, e a dor foi tão grande que me fez gritar e ver tudo turvo por um momento, mas para meu azar, não desmaiei. O líder chutou a mão que ainda segurava a faca, fazendo-me soltá-la, e se aproximou da mão que formigava pela flecha, cujo dedo médio segurava o anel. O homem que apertara meu ombro tentava agora abrir-me a mão, que eu mantinha cerrada com todas as forças, embora o ferimento no ombro sugasse quase todo o esforço que eu tentava dar ao braço. Mesmo assim os dois homens juntos não conseguiam tomar-me o anel, e embora eu não conseguisse distinguir bem quase tudo que eles diziam, ouvi um distante "você gosta de fazer as coisas sempre do jeito difícil, não é?", e em seguida uma dor terrível arremeteu-me por completo, vinda da mão que eles seguravam. Gritei como um louco, e meu próprio grito ecoou e misturou-se em minha mente com os risos dos ladrões e a dor absurda que eu sentia. Fui perdendo as forças, e eles finalmente me soltaram. O líder levantou-se e me mostrou meu próprio dedo com o anel preso ainda nele, e guardou-os no bolso. Mas eu sequer me importava com aquele anel, sequer lembrava-me que anel era aquele, só sabia que a dor era tudo, o mundo era a dor, tudo que eu conhecia, via e ouvia era dor, e comecei a chorar. Acho que perdi a consciência por alguns instantes, pois quando finalmente voltei a mim, a dor havia cedido um pequeno espaço à voz da minha mãe, que estava abraçada a mim e também chorava. Os ladrões não estavam mais ali, e eu agarrava-me à minha mão direita, contorcendo-me de dor como uma cobra ou um rabo de lagarto. A flecha não estava mais cravada em mim, mas a dor no ombro ainda existia, e eu ainda sentia-a se alastrar por todo o corpo até novamente tudo se apagar.
Foi um sonho cheio de desespero e agonia, e rostos conhecidos, Haleth, Haldar, Lanval, mamãe em muitos deles, e agora rostos desconhecidos, todos eles causando-me mais pânico e dor. O sonho parecia uma gangorra louca entre o absurdo e o inferno, pois de repente havia dor e vozes, e luzes e rostos e o som do galope de cavalos, e de repente tudo era esquecimento e escuridão. Até que eu voltava novamente às chamas da loucura para novamente ser reduzido ao vazio. O vazio foi-se tornando mais vazio e escuro, e de repente eu senti como se estivesse no estômago de Ungoliant, e olhando para cima eu via o rosto de meu pai entrando pela boca do monstro, e olhando para baixo eu via o Espelho de Mandos cair no abismo. Eu estendia minha mão para tentar pegá-lo, mas tudo o que peguei foi novamente a dor súbita do inferno e das mansões de Morgoth, e então eu voltei ao vazio e encontrei Eöl, mas não era Eöl, era o próprio Morgoth, que era Hardur disfarçado com uma armadura preta. Ao seu lado estava Haleth, e ela tinha um vestido de noiva, e ambos casavam-se na floresta e riam de mim. Lanval era meu único amigo, e eu corri até ele, embora não o visse, mas sabia que ele estava ali.
-
- Galdweth?
- Mamãe? – abri os olhos, e lá estava ela, e eu sabia que não era mais sonho. – O-onde estou?
Era um quarto bastante clareado pela luz do sol; o chão, as paredes e os móveis eram limpos e eu estava deitado sobre uma cama macia e quente. Um lençol branco cobria-me o corpo, e novamente a dor na mão me ocorreu, mas embora ainda existisse, ela nada mais era que uma lembrança comparada à dor surreal que parecera durar por toda a eternidade, até então.
- Esta é a casa de Imlach – respondeu ela.
Eu já ouvira esse nome algumas vezes antes, mas no momento não teve qualquer significado para mim. Imlach era um dos líderes dos homens que habitavam a outra porção de Beleriand, ao sul do Estolad.
- Quanto tempo? – perguntei com dificuldade, sentindo um gosto ruim na boca.
- Uma semana – ela me abraçou, e ouvi seus soluços sob meu pescoço. – Que bom que você está bem. Fiquei tão preocupada...
- Ei, pare com isso – surpreendentemente consegui segurá-la e afastá-la de mim. – Eu não gosto que me abrace.
- Meu filho...
- E o anel? - foi a primeira coisa que consegui lembrar.
- Eles recuperaram. E sua espada, e Aracar. Não sabia que o anel era tão importante pra você. Foi Lanval quem te deu?
- Foi – menti, pois imaginava que minha mãe não sabia nem deveria saber sobre Haleth e eu. – Uma semana?! – indaguei, surpreso, pois nunca me achara capaz de dormir tanto.
- Sim. Foi muito difícil, Adam, a ponta da flecha estava envenenada – respondeu ela, limpando as lágrimas com as costas das mãos. Notei um leve estremecimento quando ela tocou sem intenção a ponta do nariz.
- Tudo bem contigo?
- Um nariz quebrado, mas já colocaram no lugar. Vai doer por mais algumas semanas, mas não é nada. Foi muita sorte mesmo Imlach ter aparecido do nada para nos salvar. Se não fosse ele... – ela achou melhor não continuar. – Assim que conseguir se levantar, você deve ir agradecê-lo, antes que ele saia novamente.
Imlach. Só então me lembrei do nome e fiquei mais confuso. Por que Imlach? O que ele tinha a ver conosco? Teria sido apenas coincidência?
- Estou faminto – disse eu, querendo tirar logo o gosto ruim da boca.
A partir de então eu era um nove-dedos, pois perdera o médio da mão direita naquela mal-fadada manhã de primavera nos bosques do Thargelion. Mas era realmente muita sorte eu continuar vivo. Segundo minha mãe, Imlach encontrara-nos na estrada enquanto voltava de uma caçada no norte, até onde ele e seus nove homens haviam perseguido uma pequena tropa de orcs que andara atacando algumas fazendas edain no Estolad. Vendo-nos naquele estado, Imlach apressou-se a nos ajudar e a levar-nos a suas terras no sul. Mas no caminho encontraram o grupo de salteadores que minha mãe identificou como os bandidos que haviam nos assaltado, e após uma breve luta, derrotaram-nos e tomaram de volta seus espólios, dentre eles meu anel, que agora estava no meu magrelo anelar direito. Chegaram há três dias em Mallad, a Planície de Malach, onde a maior parte daquele povo habitava, onde eu fora tratado por médicos muito bem conceituados e o veneno fora retirado de meu corpo. Como eu sobrevivera quatro dias na estrada, ninguém sabia explicar. Mamãe foi recebida como hóspede de Imlach em sua própria casa, o que era uma grande e inesperada honra. Por isso e por tudo eu deveria agradecer a Imlach, e depois partir de volta para Ugür, onde eu deixaria minha mãe e decidiria se lá eu ficaria ou não.
Mas encontrar-me com Imlach seria difícil. Após mais quatro dias em sua casa, eu estava com minha saúde novamente perfeita, embora eu tivesse que tomar muitos remédios para suportar a dor do dedo perdido. A cicatriz no ombro já se fechara, mas o local ainda estava escuro e deveria continuar assim por mais alguns dias. Eu me achava pronto para retomar viagem, mas Imlach nunca estava na cidade, e assim eu não era capaz de falar com ele. Imlach era muito dedicado ao seu povo, lutando contra os orcs e outras criaturas que invadiam suas fazendas, resolvendo conflitos entre camponeses de forma justa e providenciando construção de moinhos, pontes e outras obras públicas.
- Se não pode falar com Imlach, fale com sua esposa ou com seu filho, que são mais fáceis de se encontrar – disse minha mãe.
Ora, resolvi agradecer e me despedir de Amlach, com quem eu já encontrara e me simpatizara naqueles quatro dias de hospedagem. Ele tinha quinze anos, e era alto e louro como o sol. Amlach vivia treinando com outros garotos de sua idade na academia da cidade, e eu costumava ir até lá para vê-los.
- Então você vai fugir do meu desafio? – disse ele, enquanto digladiava-se com Galdor, um de seus colegas de espada. – Você disse que me enfrentaria assim que conseguisse levantar uma espada.
- Eu tenho que voltar a Ugür – respondi. Eu ainda levava o braço numa tipóia, pois tinha muito pouca força nele, e evitava movê-lo, para não fazer o toco do dedo sangrar.
- Você não disse que Bereg é seu inimigo? Ir a Ugür é suicídio.
- Mas ainda temos uma casa lá. É lá que minha mãe quer morar.
- Bom, vocês podem morar aqui, se quiserem. Claro, não na minha casa, mas vocês podem adquirir alguma.
Lembrei-me da herança do meu pai, que ainda sobrava em boa quantia e não fora levada pelos bandidos. Era uma boa proposta.
- Ainda assim, eu tenho amigos em Ugür que gostaria de rever. Vou considerar o que você disse, caso eu não queira morar lá.
- Você é um guerreiro, Galdweth – disse ele, afastando-se de Galdor e pondo a mão em meu ombro. – Ugür é uma aldeia de pescadores, não é o seu lar.
- Agradeça a seu pai por mim – dei-lhe uma parte de meu ouro.
- De modo algum – ele me devolveu.
De volta a Ugür. Lembrei-me de todas as minhas amizades na infância. Esdras, Camus, Elanor... eu sentia saudades, e uma certa ansiedade, pois finalmente iria revê-los. Depois de tanto tempo. Será que eles teriam mudado tanto quanto Hardur? Tomara que Hardur não descobrisse sobre mim. Tomara que nenhum grupo nos atacasse novamente na estrada, mas para não ficar só na expectativa, Amlach providenciou uma escolta para nos acompanhar até Ugür. Para Ugür.
