Título: Amsterdam
Autora: Clara dos Anjos
Classificação: PG-13
Gênero: Acction/Adventure/Romance
Spoilers: Harry Potter e o Enigma do Príncipe
CAPÍTULO DEZ
Uma boa dose etílica
Era compreensível que o Lorde das Trevas estivesse esperando mais do que sua fiel equipe mostrou até agora. Não que os derradeiros acontecimentos tenham sido todos desvantajosos, a ponto que se pudesse considerar "casos perdidos", não isso. Ainda assim, a verdade é que seria infinitamente mais conveniente se tivéssemos apresentado resultados diferentes, ou – sendo mais clara – melhores. Mais clara ainda: capturado pessoas "melhores".
A última batalha que enfrentamos, a que ocorrera na casa do finado Rosier há seis semanas atrás, não me deixa mentir. Embora tenhamos conquistado eventuais prisões, e fosse certa a ocorrência de, naquela ocasião, mortes de bruxos do outro lado, o Lorde continuava tão insatisfeito que suas exigências para conosco só tinham aumentado. Se antes o treinamento semanal de Comensais durava em torno de cinco ou seis horas, agora beiravam sete. E isso porque eu não comentei a respeito dos recém-alistados.
O treinamento deles era três vezes mais intenso que o nosso, (sim, eu sei que isso é normal e compreensível, mas percebam: agora é três vezes mais. Antes era o quê... duas?) quatro ou cinco vezes por semana.
Auguste Rookwood era o mais recente veterano autorizado pelo Lorde das Trevas a orientar os novatos, e ele estava tão mal disfarçadamente excitado que sequer podia disfarçar o sorrisinho patético. Ontem fora o seu primeiro dia, e ele fizera uma ligeira continência – debochada – para mim assim que chegou ao campo. Eu havia perdido uma aposta com ele: duvidei que Milorde admitisse um bruxo menor que vinte e cinco anos de idade para tal posto.
Eram nove e meia da noite quando nós, o conselho de veteranos, finalmente decidimos encerrar o treino. Conjurei um enorme copo de água enquanto me aproximava de meus colegas, soltando meus cabelos do coque com um aceno de varinha.
– E então, rapazes – eu disse após um grande gole, um fio de água escorrendo pelo meu queixo. – O que acham que Milorde diria se nos visse hoje?
– Ha – Rabastan balançou a cabeça. – É realmente muita sorte que ele não tenha vindo.
– Não seja ridículo – disse uma voz atrás de mim. – Você obviamente se esqueceu da utilidade dos informantes, não?
– Claro que não – Rabastan retrucou secamente, lançando um olhar frio a Lucius Malfoy. – Mas ainda assim é menos pior do que a presença efetiva do Lorde aqui, francamente.
Lucius sorriu de lado, e desviou o olhar. – Fale por você.
– Sim, Malfoy – Rabastan se agitou no assento. – Vai me dizer que você tirou a sorte grande com a estupenda leva de lesmas que tivemos o prazer de conhecer hoje?
Eles se encararam em silêncio, rodeados por nossos olhares analistas. Eu observei mais atentamente a expressão de Lucius.
– Rigidez – sibilou ele, enfim. – Precisão. E insistência, Lestrange. Experimente pelo menos um dos três e assim quem sabe você reclamará menos.
A risada rouca de Walden Mcnair ressonou no campo aberto, que rapidamente se tornava cada vez mais vazio.
Rabastan ergueu-se do assento bruscamente, o olhar fixo no de Lucius Malfoy. Senti um leve conter de respirações ao redor, como se todos pressentissem um duelo. No entanto, o que realmente ocorreu foi que Rabastan apenas desviou-se da figura de Lucius a sua frente, passando por ele sem nada dizer. E desaparatou.
Observei Lucius. Ele recolheu sua varinha com toda a calma e cinismo que lhe era cabível, e emitiu um risinho fraco. Eu ri também. Aquele tipo de coisa me divertia, eventualmente.
– Lucius.
Snape se revelou das sombras de Mcnair e cia. limitada, e veio até o meu cunhado. Eles trocaram um longo olhar enquanto o primeiro colocava uma mão no ombro do segundo, e o guiava para longe. Poucos passos depois foi que percebi Snape começando a falar com ele.
Snape. Como eu gostaria de tê-los seguido...
– Alguém aí se interessa por um bom xerez?
– Não é um convite para sua casa, é, Rookwood? – gracejou Dolohv, seu sarcasmo afiado se revelando em seu sorriso torto.
– Hospitalidade não é o meu forte, relaxe.
Houve uma breve onda de risadas.
– Tô dentro – disse Avery.
– É para o Cabeça de Javali? – perguntei, meus olhos ainda fixos no horizonte em que Malfoy e Snape acabaram de desaparatar. Fiz o copo agora vazio sumir de minha mão.
– Se tiver idéia melhor... – começou Rookwood. – Para mim o que importa de fato é uma boa dose etílica corrompendo meu organismo.
– Sou obrigada a concordar – sorri de lado, enquanto os outros riam de novo. – Vamos, então.
– E Rodolphus? – perguntou Avery, e minha impressão foi que sua voz estava cuidadosamente neutra. Não sei por que, já que toda aquela corja sempre teve o maravilhoso costume de ser descarada.
– Já foi – Dolohv e eu respondemos ao mesmo tempo. – Bom, vai ter que ficar para uma próxima – acrescentou ele. – Divirtam-se por mim. – E desaparatou.
– Vamos de uma vez, então! – impacientei-me, desaparatando logo em seguida. Sem esperar respostas.
Poucos minutos para as dez horas da noite, e aquele lugar a qual todos tinham a pretensão de chamar de pub estava mais do que cheio. De fato, "ficar cheio" não era bem uma expressão que se pudesse associar facilmente ao Cabeça de Javali. Meio freqüentado, quase freqüentado, quase vazio, vá lá. Mas hoje... por um momento pensei em ter chegado ao lugar errado.
As recentes aparatações de meus colegas, contudo, não me deixaram enganar. Eles olharam ao redor de si mesmos, exatamente como eu havia feito.
– Vamos procurar um lugar – eu disse.
Avery e Rookwood me seguiram. Escolhemos o balcão às mesinhas, no canto mais afastado. Avery acabou ficando ao meu lado, no meio do trio.
– Vê uma garrafa de xerez aí.
– Uma só? – contrapôs Rookwood.
– Depois a gente vai pedindo mais, homem!
O segundo estalou a língua, revirando os olhos e pondo-se a observar o movimento do bar. Enquanto isso, conjurei uma taça e um pequeno espelho portátil, e analisei o estado do meu rosto. Lastimável. Um lenço limpo e um batom bem escuro de repente se fizeram bastante necessários.
– A imundície de vocês ainda tem o poder de me espantar, sabiam? – eu disse, enquanto aqueles dois aceitavam os copos oferecidos pelo barman.
– Desculpe, colega, mas, no caso, a pequena diferença de gêneros entre nós realmente faz a diferença. Sacou?
Eu ri.
– Claro. O grau de higiene e bom senso agora é diferenciado por sexo.
Rookwood me lançou um meio sorriso em resposta. – Você é mulher, Bellatrix. Reconheço que quase cem por cento do que somos capazes de fazer você também é. Mas, por favor, tem certas coisas que você nunca vai entender. E nem concordar.
– Ótimo para mim! Proponho um brinde a sabia natureza, ãh, que tal? – ergui minha taça, meus colegas gargalharam e imitaram o meu gesto.
– Às Trevas... – sibilou Avery no instante seguinte, sua face risonha tornado-se subitamente sombria. – que um dia triunfará sobre tudo isso aqui, meus amigos. E sobre todos.
Olhei para Rookwood. Nós trocamos um discreto sorriso.
– Às Trevas – entoei, junto com eles.
Aquela foi a última vez que tocamos no assunto política ou a Causa, entretanto. O xerez não demorou a começar a nos causar efeito, e, de fato, um quarto de hora depois, nossas gargalhadas sobrepunham a quase todas as outras vozes do recinto.
Por Mordred. Pelos antepassados dos Black que aquele tipo de coisa realmente estava me fazendo falta.
Vez ou outra, entre as várias anedotas lançadas por nós – e de gosto cada vez mais duvidoso – os rapazes me apontavam alguém que, diziam eles, "estava com o olhar crescido na sua pessoa". Eu apenas ria, obviamente, mas claro que não deixava de conferir.
– Ah, colega, não vai arriscar, não? – provocava Rookwood.
– Aproveite, Bellinha! – Avery segurou minha mão como se fosse me puxar para uma dança. – Ou você é do tipo que acha que casamentos matam as pessoas?
Gargalhei pela enésima vez. Se aquilo continuasse naquele ritmo eu iria acabar rouca.
– Oh, não, querido, fique certo disso! Ou pelo menos não no sentido que você está pensando.
Rookwood gargalhou, engasgou-se e acabou enterrando a cara no braço apoiado no balcão. Ele nunca fora bom para beber, o infeliz.
– Ah, Bella, Bella – continuou Avery. – Olhe, até aquela mulher está olhando para cá! – Virei-me para ver e, de fato, uma criatura toda encapuzada de preto estava com a cabeça voltada em nossa direção, sentada no balcão oposto. Assim que me virei, porém, ela se voltou para frente.
– Pode ser um homem – respondi. – É comum esse tipo de coisa por aqui.
– Pode ser, sim. Mas eu não duvidaria que até as mulheres aqui olhassem para você.
Aquilo quase me fez cuspir a bebida.
– Isso foi uma espécie de flertada, Avery? – Na verdade, minha intenção não era ter feito uma pergunta.
Ele riu, e constrangimento era uma palavra que passou longe dali. Claro.
– Suponho que sim – ele abriu um sorriso cheio de dentes, e voltou a procurar minha mão. – Eu estou aqui. E se você quiser...
Olhei-o fixamente, dentro dos olhos, imaginando se aquilo se tratava de algum tipo de brincadeira. Poderia ser, mas realmente não importava.
– Avery, por Mordred, não me faça rir – eu disse, mas não retirei minha mão. Não é que eu estivesse incrédula, admirada ou enojada, era mais porque... Bem, por mais que eu suspeitasse do interesse pseudo-antigo de Avery em minha pessoa, não dava para dizer que eu já nos imaginara como...
– Vamos, Bella – ele se inclinou levemente para frente. – O que é que tem? Você...
Eu o calei. Com os lábios. Não por vontade, não por carência, não por curiosidade. Por impulso. E para fazê-lo calar a boca, porque ele se tornaria indubitavelmente patético se continuasse falando.
A mão que segurava a minha foi direto para minha nuca, e o beijo rapidamente se aprofundou – lábios, línguas e dentes, não necessariamente nessa ordem. Do outro lado de Avery, ouvi uma ligeira e discreta exclamação – que só podia ter vindo de Rookwood, "recém acordado". E a voz dele veio calma e indiferente em seguida, quando pediu "mais um uísque aí, faça o favor". Nesse momento Avery e eu nos afastamos.
– Mais um pouco você me arrancava sangue, homem! – voltei meu olhar para o barman e repeti o pedido de Rookwood. E sim, era verdade. Eu me pergunto se Avery mordia um bife ou beijava alguém com a mesma intensidade. Ou do mesmo jeito.
A risada que ele soltou foi tão maliciosa quanto descontraída.
– Esta foi uma reclamação que eu definitivamente não esperaria de uma mulher como você.
– Que ótimo – eu sorri, surpresa, sentindo o uísque descer queimando. Bom. Todas as coisas giraram ao redor, por uns segundos. – Mas não foi uma reclamação, Avery – Ele olhou para mim de esgoela, com interesse. – Foi apenas uma observação.
Esvaziei o conteúdo âmbar de uma vez. Tudo girou de novo – mais demoradamente – e eu fechei os olhos por um instante.
– Um minuto, rapazes.
Levantei-me, passando pelas mesinhas agora mais vazias, e fui direto ao banheiro feminino. Dirigi-me diretamente às pias imundas e borrifei água em abundância no meu rosto e nuca, o simples frescor que aquilo me causava já suavizando a sensação de torpeza.
Amanhã o dia será cheio, lembrei-me. E a madrugada ia alta demais... Era hora de acabar com aquilo.
O ranger da porta se abrindo despertou-me dos devaneios, e eu vislumbrei, através do espelho, um semblante alto e completamente sombrio adentrar o recinto. Era a mulher coberta de vestes negras que estava sentada no balcão oposto ao meu. Ela foi direto a um dos cubículos. Voltei a me refrescar com a água.
O rosto já seco, me virei para ir embora. Assim que girei nos calcanhares, porém, eu parei.
A mulher estava plantada na minha frente.
De punho erguido. Sua varinha apontada para mim.
E eu estaquei. Simplesmente.
Estaquei porque o pesado véu negro não ocultava mais seu rosto. Porque pude vislumbrá-lo, mesmo em meio às sombras projetadas por seu capuz, e perceber que ele era magro, que um pedaço de franja cobria sua testa, e que seus olhos estavam ocultos pelo brilho de um óculos.
De lentes quadradas.
Logo depois, o mundo enegreceu.
N/A: Este capítulo é dedicado a Ayami-chan.
Sim, porque graças a ela – nas eventuais e deliciosas conversas no MSN – o ânimo voltou para mim, desde minha última produção. Obrigada mesmo, querida. E claro, aos comentários maravilhosos de Laura e Nikkih! Sério, vocês me deixaram muito felizes com tudo/o/
Então, pessoas? Digam-me, assustei muito vocês com a pseudo-acction Avery/Bella? HAHAHA, o que acharam?
E bom, pra quem odiou, teve a pequena compensação no final. (Óculos quadrados... ui ui!)
Ah, muito obrigada também a todos os que leram, independente de terem deixado rewiew ou não. Pensaram que a tia Clara ia esquecer vocês? xD
