Ficlet feita para a I Ship War - fórum Ledo Engano.
Tema: choro.
Arde
por Luna Fortunato
Alguém disse que:
Amor é fogo que arde sem se ver,
Talvez o amor fosse como as lágrimas de Harry. Quando elas caíam, queimavam sua pele. Como brasa, como lasca de madeira ainda queimando, antes de virar carvão, com fragmentos de fogo e mágoa.
Era mágoa.
Tom não entendia. Por que quando Harry chorava, doía-lhe dentro também?
Então alguém continuou a falar:
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
E Tom não entendeu. Não entendeu como algo queimava sem queimar, muito menos como se é contente sendo descontente. Não entendeu a graça desenhada nas poesias, entendeu menos ainda o ardor que as lágrimas de Harry provocava em sua pele. Doía e era horrível doer, mas não queria tirar suas mãos de Harry. Não queria deixar de tocá-lo.
Tocava-o assim mesmo.
Mesmo que ardesse.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
Harry fechou os olhos e se permitiu ser abraçado, envolvido em acalento. Queimava-se com suas lamentações e arrependimentos, suas reflexões atormentadas de alguém que não deveria fazer o que faz. Esquecia-se no segundo que Tom tentava lhe sorrir, sorriso fraco de gente que não sabia amar.
Sabia que suas lágrimas ardiam no outro, mas não as continha. Era punição.
Tom merecia ser queimado por cada uma daquelas lágrimas, porque era o culpado de todas elas. Então não as conteria, ferindo seu amante mais e mais, a tal ponto de sua pele se queimar por toda sua extensão, avermelhada e ardente, tendo que se regenerar lentamente o tempo todo. As cicatrizes se estendiam pelas palmas e costas de suas mãos.
As marcas de ser Tom.
Tom não entendia a razão de continuar se ferindo dessa maneira.
Mas Harry entendia. E quando ele entendia, seus olhos se cerravam e ele chorava mais uma vez. Suas lágrimas ardiam mais e mais, até mesmo em si, queimando suas bochechas como fogo, o sal sendo percebido por sua língua, traçando o caminho úmido pelo rosto. A desgraça de servir a quem ama quando se deveria odiar, o fardo de odiar quando se deveria amar.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
Tom selou seus lábios com beijo e então seus lábios também se feriram com as lágrimas. Mas ele não interrompeu, nem reclamou, nem mesmo manifestou descontentamento. Beijou mais ainda e mais profundamente, procurando por sua língua e dentes, querendo tomar para si o gosto do outro. Queria tê-lo junto de si, o mais junto possível, o mais desesperadamente que fosse.
Queria ter seu beijo, seu gosto, seu sal.
Queria até mesmo se queimar com seu choro.
Harry entendia a poesia. Tom não entendia. Mas Tom deveria entender. A poesia era ele, sendo gravada em seus traços e expressões e gestos e atos e toques e ele não sabia mais o que estava falando porque Tom não queria saber de poesia, só queria saber da carne e gosto de Harry. As palavras fugiam à memória, rimas e sonetos mal explicados.
Como algo arde sem se ver?
Tom deveria saber. Mais do que qualquer um, porque a primeira frase era para ele. Mas Harry esqueceu a última estrofe e só lembrou do décimo primeiro verso como sendo o último.
é ter com quem nos mata, lealdade.
Tom o matara por anos e Harry o amou assim mesmo.
Agora Harry retribuía a gentileza.
